À Prova de Morte

Em 2007, Quentin Tarantino e Robert Rodriguez tiveram uma ideia inusitada para um novo projeto. Ele foi intitulado “Grindhouse” e consistia em fazer com que o público assistisse dois filmes pelo preço de um. Entretanto, “Grindhouse”, como o próprio título entrega, era uma homenagem ao cinema de terror produzido na década de 1970 com todas as precariedades famosas: péssimas interpretações e direção sendo apreciadas com uma projeção horrorosa que apresentava falhas de som e imagem. O lançamento de “Grindhouse” foi um desastre, mas o saldo acabou sendo positivo para Quentin Tarantino, que teve que lançar o seu filme separado do trabalho de Robert Rodriguez em cinemas fora dos Estados Unidos. Enquanto “Planeta Terror” continuou uma bobagem, “À Prova de Morte” ganha muita mais potência em uma versão reeditada por Tarantino, com quase meia hora a mais.

A história não foi modificada. Kurt Russell (inspiradíssimo) vive o vilão Stuntman Mike. É um decadente dublê de cenas de ação que no tempo livre se dedica a seguir belas garotas. Mike as fotografa e atinge um ponto indescritível de excitação ao matá-las com o seu carro indestrutível, em um momento um Dodge Charger 1969 e em outro um Chevy Nova 1970.

Os aspectos negativos deixados na versão de 2007 de “À Prova de Morte” ganharam reparo nesta montagem da falecida Sally Menke exibida em nossos cinemas no meio do ano passado. As costumeiras longas sequências filmadas por Quentin Tarantino movidas por longas conversas ganham agora o sarcasmo correto e contribuem para ampliar a atmosfera de suspense que culminará em perseguições de carros fantásticas. A obra mais divertida lançada em 2010 no Brasil, que em muitos momentos supera a eficácia obtida pelo mais celebrado “Bastardos Inglórios”.

Título Original: Death Proof
Ano de Produção: 2007
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Kurt Russell, Zoe Bell, Rosario Dawson, Tracie Thoms, Vanessa Ferlito, Sydney Tamiia Poitier, Jordan Ladd, Mary Elizabeth Winstead, Quentin Tarantino, Marcy Harriell, Eli Roth, Omar Doom, Michael Bacall, Monica Staggs, Jonathan Loughran, Marta Mendoza, Tim Murphy, Melissa Arcaro, Michael Parks, James Parks, Marley Shelton, Nicky Katt, Helen Kim, Tina Rodriguez e Rose McGowan
Cotação: 4 Stars

Resenha Crítica | Resident Evil 4: Recomeço (2010)

A crítica especializada e até mesmo parcela do público torcem o nariz, mas o sucesso da franquia cinematográfica “Resident Evil” continua assegurado. Nos Estados Unidos a arrecadação estacionou no valor que iguala o orçamento de “Resident Evil 4: Recomeço”. Já mundialmente o quadro inverte, com aproximadamente 300 milhões de dólares somados. É um dado importante para esta adaptação do game homônimo desenvolvida pela Capcom, que desde “Resident Evil – O Hóspede Maldito” foi evoluindo tecnicamente até chegar neste quarto episódio filmado em 3D.

Aqui, Alice (Milla Jovovich) busca por sobreviventes no Alasca após enfrentar, junta aos seus clones de “Resident Evil 3: A Extinção”, o ameaçador Wesker (Shawn Roberts). Reencontra Claire Redfield (Ali Larter), que perde temporariamente a memória após mais um truque da poderosa Umbrella Corporation, a verdadeira responsável pela criação do T-Virus que transformou toda a população em zumbis. Guiando um grupo de sobreviventes, entre eles o ator Luther West (Boris Kodjoe) e o irmão de Claire, Chris Redfield (Wentworth Miller), Alice permanece obstinada em eliminar todos os rastros da Umbrella Corporation, nem que para isto tenha que enfrentar mais uma vez Wesker.

Como se pode notar, a premissa é praticamente a mesma dos episódios anteriores, nesta batalha que será prolongada para a existência de um quinto filme (a atriz Milla Jovovich fez a confirmação ao testemunhar o sucesso de estreia deste capítulo mais recente). O diferencial é a turbinada que a produção ganhou com o retorno de Paul W.S. Anderson a direção (o marido de Milla Jovovich a dirigiu apenas em “Resident Evil – O Hóspede Maldito”). Com enxutos 60 milhões de dólares, “Resident Evil 4: Recomeço” nos faz esquecer de todo o 3D fajuto visto na maioria das produções de 2010, que foram apenas submetidas a uma conversão do formato para arrecadar mais na bilheteria. A experiência é memorável, podendo se registrar com os óculos especiais as melhores sequências de ação do ano passado. É o melhor 3D já feito (inclusive superando o trabalho de James Cameron em “Avatar”) e, por isto mesmo, o filme de terror/ficção mas lindo dos últimos tempos.

Título Original: Resident Evil: Afterlife
Ano de Produção: 2010
Direção: Paul W.S. Anderson
Elenco: Milla Jovovich, Ali Larter, Wentworth Miller, Shawn Roberts, Boris Kodjoe, Kim Coates, Sergio Peris-Mencheta, Spencer Locke, Kacey Barnfield, Norman Yeung, Fulvio Cecere, Ray Olubowale e Sienna Guillory

Tudo Pode Dar Certo

Woody Allen parou de atuar após sua comédia de mistério “Scoop – O Grande Furo”, produção de 2006. Mesmo assim, se encarregou de deixar frente às câmeras um alter ego em um de seus trabalhos mais recentes, “Tudo Pode Dar Certo”. Famoso pelo seriado “Segura a Onda”, o americano Larry David é quem se encarrega de representar as neuras do cineasta.

Larry David interpreta Boris, judeu aposentado que investe o seu tempo em conversas com seus velhos amigos ou dando aulas de xadrez para crianças nas praças de Manhattan. O personagem é um dos mais rabugentos de toda a filmografia de Woody Allen e percebe-se que, mancando ao andar, ele já tentou suicídio. Atualmente, parece satisfeito, especialmente pelo fato de ser solteiro. Bom, até aparecer a jovem Melody (Evan Rachel Wood), que fugiu do interior para apostar em uma  grande oportunidade na cidade grande. Melody precisa de uma residência temporária e, sem dinheiro, convence Boris de lhe oferecer abrigo. O velho de coração duro cede aos encantos da moça, resultando em um relacionamento sério. A mãe de Melody (Patricia Clarkson, em um papel muito melhor do que em “Vicky Cristina Barcelona”) surge para dar novos rumos à união incomum.

A razão de Woody Allen desenvolver uma narrativa sem tantos núcleos faz com que “Tudo Pode Dar Certo” seja um trabalho mais equilibrado. Isto porque são eficientes os conflitos de geração que acometem o casal composto por Boris e Melody. Ele já passou dos sessenta anos enquanto a garota ainda não chegou aos trinta. Infelizmente, a comédia só não é mais brilhante pelo cineasta apresentar sérias dificuldades no encaminhamento para o final de suas histórias. Até certo ponto convencionais, os filmes de Woody Allen ao menos sempre se destacaram pela originalidade e aqui ainda há o excelente acerto de fazer Boris interagir com o público. “Tudo Pode Dar Certo”, portanto, recorre a uma resolução rasteira para finalizar o destino do casal.

Título Original: Whatever Works
Ano de Produção: 2009
Direção: Woody Allen
Elenco: Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, Henry Cavill, Adam Brooks, Lyle Kanouse, Michael McKean, Carolyn McCormick, John Gallagher Jr., Olek Krupa, Ed Begley Jr., Christopher Evan Welch e Jessica Hecht
Cotação: ***

Enterrado Vivo

É fácil se enganar, mas são maiores as dificuldades em conduzir um projeto pequeno do que aquele com milhões de dólares investidos para sua realização. Um exemplo que contribui para esta afirmação é o recente suspense “Enterrado Vivo”. Em um único cenário, a história se desenvolve em seus noventa minutos de metragem com apenas um único personagem (os outros se mostram presentes apenas com suas vozes em ligações telefônicas).

Paul Conroy (Ryan Reynolds, cada vez mais reconhecido como astro em Hollywood) desperta dentro de um caixão desorientado após uma forte pancada na cabeça. Percebe que tem consigo alguns objetos como celular, lápis e isqueiro. Ao receber uma ligação ameaçadora, Paul deve correr contra o tempo para salvar a própria vida, pois um homem, provavelmente iraquiano, exige que uma fortuna seja entregue para que  assim ele possa sair da situação perturbadora.

Filmado em estúdio em dezessete dias com três milhões de dólares financiados por companhias espanholas e americanas, “Enterrado Vivo” obtêm êxito com a sua proposta complicada de se pôr em ação. Além da brincadeira de deixar qualquer espectador aflito, o primeiro roteiro de longa-metragem de Chris Sparling (que atualmente caiu na armadilha de chamar a atenção dos votantes do Oscar com uma correspondência para pedir por uma indicação a categoria de melhor roteiro original) é esperto ao fazer ligações conspiratórias – Paul é um motorista realizando serviços no Iraque. Pena que o cineasta espanhol Rodrigo Cortés cometa o erro mais estúpido neste tipo de projeto: quebrar a atmosfera de claustrofobia com não apenas um, mas dois contra-zoom que botam quase tudo a perder.

Título Original: Buried
Ano de Produção: 2010
Direção: Rodrigo Cortés
Roteiro: Chris Sparling
Elenco: Ryan Reynolds e vozes de José Luis García Pérez, Robert Paterson, Stephen Tobolowsky, Ivana Miño, Warner Loughlin, Erik Palladino, Cade Dundish e Samantha Mathis
Cotação: ***