Scott Pilgrim Contra o Mundo

Quando uma adaptação de game é anunciada há a grande preocupação se a mesma experiência de jogabilidade será preservada num formato que não oferece a mesma interatividade. É fato que o diretor inglês Edgar Wright adapta junto com o roteirista Michael Bacall a graphic novel de brochura composta por seis volumes, mas é a primeira vez que o que realmente se espera desse universo virtual no cinema chega ao alcance do público. Mais do que atingir este feito quase impossível, “Scott Pilgrim Contra o Mundo” é o evento pop mais divertido de 2010.

Michael Cera acerta novamente ao compor Scott Pilgrim com variações de sua persona deslocada. Scott é um adolescente louco para se apaixonar por uma garota. É integrante de uma banda chamada “Sex Bob-omb” e divide uma casa (e a cama) com seu amigo gay Wallace (Kieran Culkin, impagável). A graciosa Knives Chau (Ellen Wong) tem interesse em manter um relacionamento que vai além da amizade com Scott, mas o protagonista digire seus sentimentos para Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead). A coisa engata, mas o quadro fica complicado para Scott Pilgrim. Ramona teve nada menos que sete relacionamentos e seus ex desafiam Scott para batalhas que pode lhe valer a vida.

A liga do mal? 1: Matthew Patel (Satya Bhabha), sujeito que pode dominar o fogo; 2: Lucas Lee (Chris Evans), astro de cinema de ação que se multiplica em dublês e que tem uma agilidade impressionante; 3: Todd Ingram (Brandon Routh), que tem o poder de telecinese; 4: Roxy Richter (Mae Whitman), a ex-namorada lésbica com habilidades de teletransporte e luta; 5 e 6: os irmãos gêmeos Katayanagi (papéis de Keita Saitou e Shôta Saitô); 7: Gideon Graves (Jason Schwartzman), o famoso “chefão” dono de uma gravadora.

Famosos elementos dos videogames ganham tradução em “Scott Pilgrim Contra o Mundo”. Além de arenas e narração, os oponentes, quando derrotados, se transformam em moedas (qualquer um que algum dia já jogou “Mario” sabe para que elas servem). O resultado é o inverso de uma tentativa recente, “Speed Racer”, pois o que se contempla em “Scott Pilgrim Contra o Mundo” é uma união perfeita de escolhas de muito bom gosto. Há um aproveitamento bem oportuno do que caracteriza a juventude de hoje em cada um dos heróis e o trabalho técnico colabora para a elaboração de situações empolgantes que jamais caem na extravagância.

Título Original: Scott Pilgrim vs. the World
Ano de Produção: 2010
Direção: Edgar Wright
Roteiro: Edgar Wright e Michael Bacall, baseado na graphic novel de Bryan Lee O’Malley
Elenco: Michael Cera, Mary Elizabeth Winstead, Ellen Wong, Alison Pill, Mark Webber, Johnny Simmons, Kieran Culkin, Anna Kendrick, Aubrey Plaza, Chantelle Chung, Chris Evans, Don McKellar, Mae Whitman, Brandon Routh, Jason Schwartzman, Julie Powers, Satya Bhabha, Keita Saitou, Shôta Saitô, Clifton Collins Jr., Thomas Jane e voz de Bill Hader
Cotação: ****

 

Chico Xavier

O cinema brasileiro contemporâneo não é afeito a obras biográficas de figuras públicas que marcaram seus nomes na história do país. Quando “Chico Xavier” foi confirmado com o nome de Daniel Filho na direção a resposta do público não foi tão positiva. Mesmo que tenha se saído muito bem como diretor de “Tempos de Paz” (apesar do constrangimento que resultou sua intervenção como ator secundário), Daniel Filho realiza projetos direcionados ao grande público, que primam mais pelo uso de chavões populares do que por qualquer relevância artística. O fenômeno de “Se Eu Fosse Você 2” é a maior evidência disto.

Mas verdade seja dita. Daniel Filho se mostra um ótimo diretor com “Chico Xavier”. Não é simples lidar com a história de uma pessoa tão marcante como o médium Francisco Cândido Xavier e a dificuldade é driblada com uma realização que respeita este personagem real pela sua grande contribuição para o Espiritismo e a simpatia e humildade como homem. A curiosidade de que Daniel Filho é ateu também colaborou para a eficácia de “Chico Xavier”, pois não há artifícios baratos para evidenciar a doutrina espírita.

Fica a dever o fraco (senão pobre) recurso usado para alternar as três fases essenciais do médium. Para encenar a infância (fase protagonizada por Matheus Costa), juventude (fase de Ângelo Antônio) e centralizar as atenções com Chico Xavier já velho e feito por Nelson Xavier oferecendo uma extensa entrevista para o programa “Pinga-Fogo”, a montadora Diana Vasconcellos usa uma tevê dessintonizada para alertar o público que novos flashbacks tomarão a narrativa. Mesmo assim, não diminui o efeito de momentos marcantes do médium – alguns bem cinematográficos – e do empenho de alguns intérpretes que fazem o filme crescer em emoção, como a extraordinária Christiane Torloni e, inegavelmente, Nelson Xavier.

Título Original: Chico Xavier
Ano de Produção: 2010
Direção: Daniel Filho
Roteiro: Marcos Bernstein
Elenco: Nelson Xavier, Ângelo Antônio, Matheus Costa, Tony Ramos, Christiane Torloni, Giulia Gam, Letícia Sabatella, Luís Melo, Pedro Paulo Rangel, Giovanna Antonelli, André Dias, Paulo Goulart Filho, Cássia Kiss, Cássio Gabus Mendes, Rosi Campos, Ailton Graça, Gregório Duvivier e Cynthia Falabella
Cotação: 3 Stars

Resenha Crítica | Mary e Max – Uma Amizade Diferente (2009)

Com exceção de títulos com conteúdo impróprio para menores, pouquíssimas são as animações voltadas ao público adulto. Por ser um gênero cinematográfico que desde a sua concepção se preocupou em entusiasmar as plateias infantis, mirar em outro público-alvo é uma proposta arriscada e que nem sempre encontra o financiamento apropriado. O mérito de “Mary e Max – Uma Amizade Diferente”, longa-metragem do australiano Adam Elliot, é em vincular temas que o espectador mais maduro processará com maior facilidade. Mesmo assim, se uma criança garantir a oportunidade de assistir esta melancólica realização será presenteada por uma aventura cheia de valores que a acompanhará durante seu processo de desenvolvimento.

O filme se dedica em exibir a relação mantida por Mary Daisy Dinkle (voz de Bethany Whitmore na fase infantil e de Toni Collette na fase adulta) e Max Jerry Horovitz (Philip Seymour Hoffman) através de cartas ao longo de suas vidas. O perfil desses personagens é incomum para uma animação. Mary é uma garotinha australiana inocente que não tem amigos e muito menos uma relação familiar harmoniosa. O seu pai realiza um trabalho mecânico e sua mãe é viciada em álcool e tabaco. Uma curiosidade a fará enviar aleatoriamente uma carta recebida por Max, por sua vez, um nova-iorquino obeso e recluso em seu apartamento por ter a síndrome de Asperger. Acompanhada pela linda música do compositor Dale Cornelius, as trocas de correspondências revelarão as alegrias e tristezas vivenciadas por estes personagens.

O próprio diretor e roteirista Adam Elliot passou por uma experiência similar ao dos seus personagens. Daí o filme se apresentar como baseado em uma história real. Realizado com notável técnica de stop motion sob tons acinzentados, “Mary e Max – Uma Amizade Diferente” ainda oferece uma leitura de vários temas que enriquece ainda mais o programa. Mary e Max compartilham um com o outro sobre solidão, família, sonhos e sobre os pequenos prazeres da vida. Há até um oportuno destaque para um personagem próximo de Mary que se assume homossexual. Se a animação se mostra muito depressiva ao menos não deixa de mostrar com isto o quanto a força de uma amizade verdadeira nos completa até mesmo à distância e nas maiores adversidades.

Título Original: Mary and Max
Ano de Produção: 2009
Direção: Adam Elliot
Roteiro: Adam Elliot
Vozes de: Philip Seymour Hoffman, Toni Collette, Eric Bana, Bethany Whitmore, Renée Geyer, Michael Ienna e narração de Barry Humphries
Cotação: 4 Stars

Resenha Crítica | Vício Frenético (2009)

Nicolas Cage já deu muitas evidências de talento numa filmografia que hoje ultrapassa sessenta títulos. Entretanto, raramente se testemunhou um intérprete tão bom investindo em projetos tão medíocres, aquém de sua capacidade. Para se ter uma clara noção, Nicolas Cage não se envolveu em nenhum projeto relevante desde 2005, ano em que protagonizou “O Senhor das Armas” e “O Sol de Cada Manhã”. O motivo de se envolver nos últimos anos em uma dívida milionária ao governo americano não justifica tantos tropeços, ainda que seu cachê seja gordo nos blockbusters que estampa seu nome artístico. Neste sentido, o ator deve muito a Werner Herzog, o principal responsável pelo seu desempenho perfeito em “Vício Frenético”, talvez o melhor entre todos os trabalhos masculinos ao longo do ano passado.

O cineasta alemão não é afeito a refilmagens, mas confiou e rodou o texto de William M. Finkelstein assumindo não ter conferido o filme original realizado por Abel Ferrara em 1992 e protagonizado por Harvey Keitel, evitando assim comparações entre as duas versões. A ação se passa em New Orleans, onde o tenente Terence McDonagh (Nicolas Cage) tem uma contusão na coluna ao resgatar um presidiário pós-Furacão Katrina. Algum tempo se passa e a história se dedica em mostrar as suas investigações sobre uma mulher assassinada.

O diferencial na narrativa se mostra quando vemos que o que nos atrai é o caráter duvidoso do tenente Terence: corrupto, viciado em drogas, amante de uma prostituta (Eva Mendes) e mentiroso. Com tantas características negativas, não é difícil imaginar que o abismo que cairá será mais profundo conforme mergulha de cabeça no submundo do crime. Tal impressão também é extraída com o título original de “Vício Frenético”, o tenente mau.

Preservando na releitura algumas características de seu cinema, como os delírios de Terence materializado através das aparições de iguanas, Werner Herzog apresenta um personagem central notável. Sempre acreditando que está acima da lei em um cenário preenchido por sordidez, o tenente Terence é uma figura que provoca empatia justamente por conhecemos suas ações errôneas. No fundo, é a exposição da natureza selvagem de um homem que não se modifica. A ressalva é que “Vício Frenético” se beneficiaria ainda mais se concebesse o mesmo tratamento para os personagens que cercam Terence, defendidos por um elenco de apoio tão bom quanto Nicolas Cage.

Título Original: The Bad Lieutenant: Port of Call – New Orleans
Ano de Produção: 2009
Direção: Werner Herzog
Roteiro: William M. Finkelstein, baseado no filme “Vício Frenético”, de Abel Ferrara
Elenco: Nicolas Cage, Eva Mendes, Val Kilmer, Xzibit, Shawn Hatosy, Jennifer Coolidge, Tom Bower, Vondie Curtis-Hall, Brad Dourif, Denzel Whitaker, Irma P. Hall, Shea Whigham e Michael Shannon

Resenha Crítica | Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos (2009)

O cinema brasileiro raramente prima pelo bom gosto quando produz ficção com uma boa pitada de erotismo. Isto tem mudado de um tempo para cá, especialmente com base no sucesso de “Bruna Surfistinha”. Mas também se deve destacar “Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos”, uma comédia romântica nada convencional. Trata-se do primeiro longa-metragem de Paulo Halm, um dos roteiristas mais prestigiados do país, contando com créditos pelos textos de “Antes Que o Mundo Acabe”, “Olhos Azuis” e “Amores Possíveis”.

Sob forte domínio de “Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos”, Paulo Halm foi feliz ao dar uma aparência contemporânea ao drama vivido pelo personagem de Caio Blat, que está excelente. O ator vive Zeca, caroca aspirante a escritor cuja vida apenas não é uma decadência total por viver ao lado de sua namorada Júlia (Maria Ribeiro, casada na vida real com Caio Blat e com quem tem um filho). Zeca está em uma fase de bloqueio criativo, pois a sua história promissora parou de engrenar. Como precisa se sustentar, vive da mesada do seu pai interpretado por Daniel Dantas. A crise aumenta quando Zeca flagra Júlia se relacionando com Carol (a sensual Luz Cipriota).

A originalidade do roteiro de Paulo Halm se mostra a partir do momento que desenha a maneira como Zeca processará esta traição inusitada Como vingança, o protagonista passará a se envolver sexualmente com Carol. Bem a vontade, o trio principal se destaca nas cenas eróticas e no humor que algumas delas provocam, como uma que envolve um vibrador. A diferença está no tratamento da narrativa. Sem apelações, “Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos” acerta nas escolhas das consequências desse triângulo amoroso e no encontro da identidade de um personagem que ainda a desconhece.

Título Original: Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos
Ano de Produção: 2009
Direção: Paulo Halm
Roteiro: Paulo Halm
Elenco: Caio Blat, Maria Ribeiro, Luz Cipriota, Daniel Dantas, Lúcia Bronstein e Hugo Carvana

Confusões em Família

Nunca faltou exemplares que destacassem famílias disfuncionais. O gênero comédia é o que apresenta o acervo mais volumoso. Também é verdade que muitos desses filmes conseguem ser inventivos com os dramas que criam para cada um dos membros de uma família. “Pequena Miss Sunshine” foi um deles e com seu grande sucesso permitiu abertura para outros indies. “Confusões em Família”, filme lançado no Brasil apenas nos cinemas cariocas e distribuído em DVD há alguns meses, é uma ótima sugestão para quem está procurando por títulos desse segmento.

O título original se refere a comunidade de pescadores onde vive a família Rizzo. O patriarca vivido por Andy Garcia é Vince, um policial que desencadeará a onda de segredos da família. Ele tem dois: diz para a esposa Joyce (Julianna Margulies) que joga pôquer quando na verdade ingressa uma turma de teatro e oferece abrigo para o presidiário Tony (Steven Strait), coincidentemente o filho que abandonou numa relação do passado. Já Vince Jr. (Ezra Miller), o Rizzo caçula, é viciado em sites pornográficos onde as modelos são mulheres obesas. Sua irmã Vivian (Dominik García-Lorido, também filha de Andy Garcia na vida real) é expulsa da universidade e não revela o acontecimento a ninguém. Para minimizar as consequências, trabalha como stripper e acumula o pagamento para retornar aos estudos. Finalmente, Joyce é aquela que oculta o vício pelo tabaco. Mal sabe ela que todos de sua família também fumam escondidos. Nem a personagem da graciosa Emily Mortimer, amiga que Vince faz com uma dinâmica de interpretação, está livre de omitir algumas informações.

Se não passasse disto, “Confusões em Família” seria até dispensável. O diferencial está no que Raymond De Felitta faz. Indicado ao Oscar pelo curta-metragem “Bronx Cheers”, realizador nova-iorquino é daqueles que reservam um bom tempo para a preparação de suas obras, todas com seus créditos em direção e roteiro. A inteligência em seu texto de “Confusões em Família” é tratar com bom-humor de temas que qualquer expectador pode se identificar.

Parte desses créditos devem ser destinados também a Andy Garcia. Também produtor de “Confusões em Família”, Andy Garcia talvez ofereça aqui o seu melhor momento como protagonista. Ele se destaca por permitir que seu Vince seja a figura mais vívida da família Rizzo, sendo perfeito no equilíbrio de suas responsabilidades como pai e marido e também ao acreditar que não é tarde demais para concretizar os seus sonhos do passado. A cena de seu teste para participar de um filme de Martin Scorsese encabeçado por Robert De Niro por si só merecia um prêmio para o ator – e com direito ainda a uma imitação impagável de Marlon Brando.

Título Original: City Island
Ano de Produção: 2009
Direção: Raymond De Felitta
Roteiro: Raymond De Felitta
Elenco: Andy Garcia, Julianna Margulies, Steven Strait, Emily Mortimer, Ezra Miller, Dominik García-Lorido, Carrie Baker Reynolds, Hope Glendon-Ross e Alan Arkin
Cotação: ****

 

Como Treinar o Seu Dragão

A dupla Chris Sanders e Dean DeBlois apareceu em 2002 com uma das animações mais adoráveis dos estúdios Disney: “Lilo & Stitch”. De lá para cá, mergulharam de cabeça em “Como Treinar o Seu Dragão”, adaptação do romance infantil escrito por Cressida Cowell. Na comparação, “Como Treinar o Seu Dragão” se mostra superior no trabalho técnico, pois o orçamento de 165 milhões de dólares (o dobro do custo de “Lilo & Stitch”) se vê em cada cena grandiosa. Apesar das ambições e da troca de estúdio (agora é a Dreamworks), Chris Sanders e Dean DeBlois repetem os singelos valores processados em “Lilo & Stitch”.

Na nova aventura animada de Chris Sanders e Dean DeBlois, o jovem Soluço/Hiccup (voz de Jay Baruchel) frusta as expectativas de seu pai viking (Gerard Butler), por sua vez um respeitável caçador de dragões. Por não conseguir seguir a tradição, já que todos também caçam as criaturas ameaçadoras, Soluço jamais cansa de capturar um dragão. De maneira acidental, atinge o lendário dragão Fúria da Noite, que qualquer um desejaria encontrar. A questão é que Soluço não é totalmente a favor do ato de caça e isto faz com que crie elos inesperados com o dragão, tornando-se uma dupla e tanto – quando a confiança é consolidada o resultado é uma das cenas mais sensíveis do ano.

É incrível perceber que ao contrário da maioria de live-action lançados atualmente, “Como Treinar o Seu Dragão” registra sequências épicas impressionantes, todas de tirar o fôlego. A impressão é de que Chris Sanders e Dean DeBlois reservaram estes momentos de adrenalina para o público adulto. Mas é ao focar no público infantil que a animação se mostra a melhor exibida em 2010. Isto porque assim como em “Lilo & Stitch”, uma forte amizade cresce com a diferença das aparências e o quanto elas são encaradas de maneira equivocada, além do desajuste que pode sim ser uma grande ferramenta para encarar as maiores batalhas, internas ou externas, e os sacrifícios que são feitos por elas. Tudo tratado não com manipulação e sim com maestria.

Título Original: How to Train Your Dragon
Ano de Produção: 2010
Direção: Chris Sanders e Dean DeBlois
Roteiro: Chris Sanders, Dean DeBlois e William Davies, baseado no romance de Cressida Cowell
Vozes de: Jay Baruchel, Gerard Butler, Craig Ferguson, America Ferrera, Jonah Hill, Christopher Mintz-Plasse, T.J. Miller, Kristen Wiig, Robin Atkin Downes, Philip McGrade, Kieron Elliott, Ashley Jensen e David Tennant
Cotação: ****

Resenha Crítica | Triângulo do Medo (2009)

Existem filmes que apresentam uma trama tão complexa que lançá-lo comercialmente pode ser um risco. Com isto, os distribuidores optam por exibições no circuito limitado e lançamento direto no mercado de vídeo nos países que adquirem o direito da obra. Os destinos são dois: ou o filme se torna um cult instantâneo na base do boca-a-boca ou caí no eterno esquecimento. O primeiro destino se aplica ao filme “Triângulo do Medo”, lançado ano passado direto em DVD e o thriller mais fascinante dos últimos tempos.

Jess (a linda e talentosa Melissa George) aparece inquieta na cena de abertura de “Triângulo do Medo”. Lida com o seu filho Tommy (Joshua McIvor) com uma mistura de afeto e fúria. Posteriormente, aparece sozinha com um grupo de amigos para fazer um passeio em alto mar. O mistério cresce assim que embarcam em um navio que surge após uma inesperada tormenta. A luxuosa embarcação tem uma arquitetura clássica e absolutamente ninguém a bordo. Isto até aparecer um sujeito que oculta sua face com uma máscara de pano, eliminando um a um com uma escopeta. Alguns personagens, antes de serem baleados, afirmam que a responsável pela chacina é a própria Jess, a única a escapar da ameaça. Não é verdade. Afinal, a todo o momento o espectador segue os passos da garota.

O massacre é cheio de tensão, mas é no segundo ato que “Triângulo do Medo” começa a mostrar a que veio. Jess passa a perceber que toda a cena se repete, como se estivesse em um universo paralelo. A questão é que ela consegue interferir nos acontecimentos e até interagir com sua sósia. E isto se repete mais uma vez.

O britânico Christopher Smith não é dono de uma filmografia muito empolgante. Seus dois filmes anteriores, “Plataforma do Medo” e “Mutilados”, também receberam distribuição direta em DVD no Brasil. Apenas “Plataforma do Medo” vale um pouco a pena. Com isto, até surpreende que a mente por trás da direção e roteiro de “Triângulo do Medo” seja a sua. Christopher Smith conecta perfeitamente todas as pontas soltas, intrigando o espectador sem jamais soar pretensioso. Se mesmo assim as dúvidas permearem seus pensamentos após o final de “Triângulo do Medo”, é bom ter um conhecimento básico de Mitologia Grega, a chave do grande mistério.

Título Original: Triangle
Ano de Produção: 2009
Direção: Christopher Smith
Roteiro: Christopher Smith
Elenco: Melissa George, Joshua McIvor, Jack Taylor, Michael Dorman, Henry Nixon, Rachael Carpani, Emma Lung, Liam Hemsworth e Bryan Probets
Cotação: 4 Stars

Sede de Sangue

De uma hora para outra, o vampirismo voltou a se tornar popular. Atualmente, em todos os lugares se encontra uma história protagonizada por vampiros em qualquer mídia. Livros, seriados, games e especialmente filmes. Em matéria de cinema, nenhum título recente da linha supera “Sede de Sangue”, horror comandado por Park Chan-wook. O realizador se mostrou notável com sua inusitada Trilogia da Vingança e com “Sede de Sangue” ele se supera, colaborando para fortalecer ainda mais o cinema sul-coreano como dono de narrativas que sempre discutem a ausência de moral do ser humano e com técnica cinematográfica arrebatadora.

O padre bem-intencionado Sang-hyeon (Song Kang-ho) se submete a um experimento que busca combater um vírus mortal. Assim como várias vezes em outros voluntários, as reações não são positivas no corpo de Sang-hyeon, levando-o a morte. Entretanto, a transfusão de sangue feita enquanto estava internado o faz ressuscitar. O problema é que o sangue aparentemente estava contaminado, fazendo agir repentinamente diferente. A sede por sangue alheio é insuportável e quando não caça humanos seu vigor físico é comprometido.

Como Park Chan-wook adora complicar a situação, há outro personagem importante nesta história inspirada em um livro de Émile Zola. Tae-ju (Kim Ok-bin) é uma jovem atraente que não passa de uma escrava para sua família adotiva. É humilhação atrás da outra e a relação com Sang-hyeon, que neste ponto já passa a acreditar que os seus impulsos são característicos de um vampiro, renderá uma reviravolta impressionante.

Qualquer produção que se aventure no universo vampírico automaticamente adquire alguma relevância. Agora quando este universo está representado por uma narrativa que se esquiva dos chavões típicos e mantém ainda mais evidente a exposição dos conflitos internos de seus personagens o resultado pode ser uma obra-prima. Há algo de fascinante nestas criaturas noturnas e convertê-las em um padre que procura amenizar os seus pecados ao vitimar pessoas já condenadas à morte e uma garota ansiosa para se vingar é uma sacada genial. Com um humor negro imprevisível que atinge seu ápice nos minutos finais e cenas com uma tensão insuportável (a exemplo daquela onde a mãe de Sang-hyeon tenta, inválida, registrar uma mensagem para alguns convidados de última hora e vítimas em potencial), “Sede de Sangue” é uma das produções mais marcantes de 2010.

Título Original: Bakjwi
Ano de Produção: 2009
Direção: Park Chan-wook
Roteiro: Park Chan-wook e Jeong Seo-Gyeong, inspirado no livro “Thérèse Raquin”, de Émile Zola
Elenco: Song Kang-ho, Kim Ok-bin, Kim Hae-sook, Shin Ha-kyun, Park In-hwan, Oh Dal-su, Song Young-chang, Mercedes Cabral e Eriq Ebouaney
Cotação: ****

 

Minhas Mães e Meu Pai

Em tempos onde discutir sobre orientação sexual tem deixado de ser o mesmo tabu de antes, não faltam filmes que muitas vezes aparecem com a intenção de permitir que as pessoas reflitam sobre a intolerância que atinge muitas pessoas ao redor do mundo. Entretanto, poucos são bem-sucedidos. A intenção de falar abertamente sobre a homossexualidade é diluída sempre que os realizadores se preocupam com um filme quadrado, de poesia barata. Felizmente, o que interessa para a diretora Lisa Cholodenko não são essas características, mas o de mostrar, sem meias palavras, que há muitas outras barreiras para serem enfrentadas quando uma união é selada por um casal do mesmo sexo.

Apesar do formato acessível, pois lá no fundo “Minhas Mães e Meu Pai” é uma comédia família, a realizadora e roteirista norte-americana encontrou dificuldades para rodar este seu mais novo projeto, ganhando sinal verde apenas com a presença de grandes intérpretes que reduziram seus cachês para o orçamento apertado de quatro milhões de dólares ser suficiente.

Nic e Jules (Annette Bening e Julianne Moore) vivem um casal que está junto há duas décadas. O desejo de formar família foi realizado assim que nasceram Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson). Joni atinge a maioridade e por insistência do irmão mais novo procura pelo pai biológico de ambos. Ele é Paul (Mark Ruffalo), que rapidamente vai se tornando uma figura presente na vida desses dois jovens. O trio parece se completar, apesar do estranhamento inicial. Porém, Nic não aprova nem um pouco a decisão de torná-lo parte da família que batalhou para construir.

Assim como Nic e Jules, Lisa Cholodenko também é lésbica e parece compartilhar suas experiências no seu roteiro escrito também com a colaboração de Stuart Blumberg. O resultado atinge a perfeição em muitos instantes. Impressiona o realismo como é criada a dinâmica desta família e a maneira que retrata o amor de Nic e Jules. Há sequências belíssimas entre as duas, mas há outras que estão longe de se aproximar da higiene e trabalho de coreografia robótico visto em tantos títulos da mesma linha.

Para uma temporada que valoriza realizações que não se aproximam o suficiente do público como “O Discurso do Rei” e “A Rede Social” chega a ser lamentável que um filme independente como “Minhas Mães e Meu Pai” tenha feito apenas figuração em algumas das mais importantes premiações de cinema. Pois aqui não falta talento e muito menos contundência nas condutas que levam a abalar uma estrutura familiar.

Título Original: The Kids Are All Right
Ano de Produção: 2010
Direção: Lisa Cholodenko
Roteiro: Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg
Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska, Josh Hutcherson, Yaya DaCosta, Kunal Sharma, Eddie Hassell, Zosia Mamet, Joaquín Garrido, Rebecca Lawrence, Lisa Eisner, Eric Eisner, Sasha Spielberg e James MacDonald
Cotação: ****