Resenha Crítica | Minhas Sessões de Luta (2013)

Minhas Sessões de Luta | Mes séances de lutte

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Um dos cineastas franceses mais autorais em atividade, o veterano Jacques Doillon permanece como um artista com muitas obras ainda inéditas no Brasil, mas é um nome de prestígio na Mostra. Além dos títulos exibidos em edições anteriores, Doillon aparece com dois filmes neste ano: “Um Filho Seu” e “Minhas Sessões de Luta”.

Em “Minhas Sessões de Luta”, Doillon recorre a uma narrativa comum no cinema francês. Há pouquíssimos personagens, ambientes e explicações sobre o que está se passando. Bem distante do carisma de seu papel em “Os Nomes do Amor”, Sara Forestier surge em “Minhas Sessões de Luta” como uma protagonista destrutiva e sem nome que perdeu o pai recentemente.

O relacionamento entre ambos não era harmonioso e a garota parece desolada com a ausência de uma figura paterna. Ela busca consolo em Lui (James Thiérrée), um homem mais velho do que ela e com quem protagonizou uma situação mal resolvida. Lui é um homem solitário que propõe uma terapia inusitada para ela se libertar de suas amarguras. Trata-se de um método em que a “paciente” exterioriza suas dores não pela revelação de confidências, mas pelo contato físico.

Sara Forestier e James Thiérrée se entregam fisicamente de modo muito intenso neste jogo proposto pelo cineasta. A cada sessão, o contato entre ambos fica mais selvagem. Primeiro vem os empurrões, depois as agressões e por fim o sexo. Mesmo com ensaios, não é um trabalho fácil para os protagonistas, que apresentam inúmeros hematomas quando estão totalmente nus para a câmera.

No registro dessas “sessões de luta”, Jacques Doillon cria imagens muito belas e sensuais. É especialmente impecável aquela em que a troca de palavras sujas culmina em uma transa na lama. Já no texto, “Minhas Sessões de Luta” é uma lástima. Na intenção de preservar descrições mais reveladoras sobre os dois personagens centrais, Jacques Doillon entrega figuras que só conseguem despejar nulidades desconexas ao abrirem a boca.

Mes séances de lutte, 2013 | Dirigido por Jacques Doillon | Roteiro de Jacques Doillon | Elenco:  Sara Forestier, James Thiérrée, Louise Szpindel, Mahault Mollaret e Bill Leyshon | Pespectiva Internacional

Cerimônia de Abertura da 37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Christiane Kubrick, Renata de Almeida, Marina Person e Serginho Groisman [Foto: Claudio Pedroso | Agência Foto]

Christiane Kubrick, Renata de Almeida, Marina Person e Serginho Groisman [Foto: Claudio Pedroso | Agência Foto]

Embora já esteja em sua 37ª edição, admito que fui dar bola para a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo no ano passado. 2011 (ano em que vi somente “Cópia Fiel”) e 2012 (só consegui assistir ao japonês “Cut”) foram dois anos que me fizeram encarar este evento anual como uma coisa de cinéfilo doido. Afinal, era quase impossível chegar descompromissadamente ao cinema para conferir um filme da extensa seleção sem que os ingressos estivessem esgotados.

Mesmo trabalhando em horário comercial, encarei com mais empolgação a 36ª edição da Mostra. A curiosidade em escolher no escuro obras que jamais devo assistir novamente (a exemplo do britânico “O Cordeiro”, o meu favorito entre as duas dúzias que pude assistir no ano passado) me fez ter vontade de repetir a dose este ano.

A Cerimônia de Abertura da 37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo serviu como amostra para o que está por vir. Filme de abertura do evento, “Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum”, o mais novo trabalho dos irmãos Coen, estava programado para iniciar às 21h no Auditório do Parque Ibirapuera. No entanto, convidados e jornalistas adentraram o cinema meia hora depois. A seguir, a surpresa: uma sessão de aproximadamente duas horas não de um filme, mas de inúmeros discursos de agradecimentos com os patrocinadores que viabilizaram a mais nova edição da Mostra.

Assim, depois de ficar horas de estômago vazio e com os pés doloridos aguardando a exibição de “Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum”, tive de me retirar do espaço bem antes de o filme iniciar. Afinal, qualquer morador da região do ABC sabe que é um risco permanecer em algum local após a meia-noite, pois não há correria que garanta o transporte público para o retorno para casa. A preocupação me fez até mesmo ignorar o momento em que  Christiane Kubrick, viúva de Stanley Kubrick e responsável pela maravilhosa aquarela que estampa o pôster da 37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, subiu aos palcos para compartilhar com centenas de pessoas algumas confidências.

De qualquer modo, continuo ansioso para seguir com a programação que já elaborei para este primeiro fim de semana na Mostra. Prevejo sessões canceladas, falta de tempo para a alimentação e para escrever textos e alguns filmes que não mostram a que veio. Por outro lado, também há o prazer de conferir a uma amostra de tudo o que o cinema mundial anda produzindo, ver e rever rostos conhecidos e compartilhar, através deste espaço, as experiências vividas através da tela grande.

A partir de hoje, dedicaremos espaço para postar sobre todas as novidades durante a 37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Portanto, não deixem de acompanhar.

Para saber sobre tudo o que acontece na Mostra, basta visitar a página do evento clicando aqui.

Capote

Capote

Em qualquer trabalho investigativo, um profissional tem conhecimento da importância de se manter emocionalmente desconectado diante daquilo que pesquisa. Trata-se de uma medida importante não somente para obter uma visão imparcial sobre o tema explorado, mas necessária para que nenhuma sequela impregne na vida profissional (e particular) daquele que o faz. Portanto, “Capote” não se comporta como uma cinebiografia do escritor norte-americano Truman Capote e sim como uma análise sobre os efeitos colaterais de seu relacionamento com Perry Smith, sujeito nascido em Nevada sentenciado à pena de morte após ser acusado pelo assassinato da família Clutter.

Truman Capote (Philip Seymour Hoffman, vencedor do Oscar de Melhor Ator pelo papel) ainda estava inebriado com o sucesso do romance “Bonequinha de Luxo” (que imediatamente fora levado aos cinemas pelas mãos do diretor Blake Edwards) quando o New York Times o convocou para fazer um artigo sobre um crime ocorrido no Kansas em novembro de 1959: o assassinato brutal dos quatro membros da família Clutter. No entanto, a apuração de depoimentos e documentos de familiares das vítimas, dos agentes responsáveis pela captura dos criminosos Perry Smith (Clifton Collins Jr.) e Dick Hickock (Mark Pellegrino) e inúmeros habitantes da cidade resultou em um material bruto muito poderoso para ser condensado em algumas páginas de jornal.

Ao contar com o apoio de sua amiga íntima Nelle Harper Lee (Catherine Keener), que mais tarde experimentaria o sucesso com a publicação de “O Sol É Para Todos”, Capote decidiu que o assassinato da família Clutter poderia render a obra que revolucionaria a literatura estrangeira: “A Sangue Frio”, o primeiro romance não-ficcional já publicado. Para se aproximar de Perry Smith e Dick Hickock, Capote recorre a meios questionáveis. Prega manipulações emocionais para sensibilizar aqueles que posteriormente se converteriam em personagens de seu livro e oferece até mesmo dinheiro para ter acesso exclusivo à cela de Perry Smith, justamente o criminoso com o qual iniciará uma relação inesperadamente forte.

Nas sequências em que Capote e Perry estão interagindo, nós testemunhamos uma espécie de sistema de troca de confidências. Para desvendar quem Perry realmente é, Capote resgata episódios do seu passado que de alguma maneira vão ao encontro da vida traumática do criminoso. No entanto, Capote não soa honesto em seus testemunhos, enquanto Perry o faz imaginando que está nutrindo uma amizade que jamais teve e que desejará preservar até o instante em que a pena de morte for devidamente efetivada.

Em sua estreia como diretor de longa-metragem, Bennett Miller faz um filme oposto àquele de Douglas McGrath – coincidentemente, “Confidencial” foi rodado ao mesmo tempo que “Capote” e lida com a mesma temática -, pois aqui a história escrita por Dan Futterman (intérprete de filmes como “O Preço da Coragem”) busca uma visão menos emocional e mais analítica quanto ao processo investigativo sobre o notório assassinato dos Clutter. Por isso mesmo, a atmosfera de “Capote” se mostra mais nebulosa, em que os tons de cinza invadem cada um dos ambientes em que Capote transita, bem como revelam o interior triste de um artista que se comporta como um entertainer diante de seu círculo de amigos bajuladores.

Quando o relacionamento de Truman Capote com Perry Smith se estreita ao ponto de se tornar insuportável, o drama revela suas maiores virtudes. Até este ponto, os atores Philip Seymour Hoffman e Clifton Collins Jr. estão totalmente imersos em seus papéis e os verdadeiros sentimentos vêm à tona. Visualizamos aí a desmitificação de Capote, que se despe de sua persona artística para dar lugar a um homem que a seguir não seria capaz de superar uma experiência que o impossibilitou de atingir um feito à altura de “A Sangue Frio”.

Capote, 2005 | Dirigido por Bennett Miller | Roteiro de Dan Futterman, baseado em livro de Gerald Clarke | Elenco: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Clifton Collins Jr, Mark Pellegrino, Chris Cooper, Bruce Greenwood, Amy Ryan, Bob Balaban, Adam Kimmel, Kelci Stephenson e Allie Mickelson | Distribuidora: Columbia TriStar    

Resenha Crítica | Trabalhar Cansa (2011)

Pouco explorado no cinema nacional, o horror ganha com “Trabalhar Cansa” um forte representante. Porém, o longa-metragem de estreia da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra está longe de abraçar as convenções do gênero. Há elementos sobrenaturais suficientes em “Trabalhar Cansa”. No entanto, é na rotina dos personagens que visualizamos os elementos que nos amedronta diariamente.

Helena (Helena Albergaria) é uma dona de casa que está prestes a gerenciar um mini-mercado situado em um bairro nobre paulistano. O problema é que, alguns dias antes de erguer as portas em rolos, Helena passa por uma adversidade familiar: seu marido Otávio (Marat Descartes, sempre excelente) foi demitido do cargo de gerente de uma grande corporação e está com dificuldades de encontrar um novo emprego.

Mesmo que a crise financeira se anuncie, Helena vê em seu investimento uma possibilidade de prosperar. Enquanto Otávio se ausenta para participar de processos seletivos exaustivos (senão patéticos), Helena decide contratar a jovem Paula (Naloana Lima) para cuidar do apartamento e de sua filha Vanessa (Marina Flores).

Os dias passam e Helena passa a testemunhar estranhos fenômenos se materializando ao seu redor. Primeiro é o vazamento em seu estabelecimento e o odor insuportável que ele origina. Depois vem as expectativas não cumpridas pelos seus funcionários e certa desarmonia em seu lar. Seria tudo fruto das exaustões física e psicológica diante da dureza em driblar as contas ou ela estabeleceu involuntariamente o contato com algo que vai além de sua capacidade de compreensão?

Em tom de crônica social, “Trabalhar Cansa” consegue criar expectativa ao jamais deixar explícitas as estranhezas que permeiam a narrativa. Prefere fazer um estudo sobre como todos nós somos afetados intensamente em uma sociedade capitalista. Antes bem abastados, o casal Helena e Otávio agora enfrenta a concorrência desleal tanto dos pequenos empreendimentos quanto do mercado de trabalho. A realidade também é cruel para Paula, que dificilmente escapará de funções pouco ou nada valorizadas em uma capital em que todos sonham ser profissionalmente bem-sucedidos.

A certa distância, “Trabalhar Cansa” remete a temas trabalhados posteriormente no celebrado “O Som ao Redor“. É interessante também como as duas obras são próximas em suas imperfeições. Assim como na ficção do pernambucano Kleber Mendonça Filho, “Trabalhar Cansa” chega a uma etapa em que precisa descortinar parte de seu mistério e as respostas não são suficientemente satisfatórias. Agora em trabalho solo, Marco Dutra finaliza “Quando Eu Era Vivo”, uma promessa de resgate da atmosfera de “Trabalhar Cansa” e da superação de si mesmo como diretor e roteirista.

Trabalhar Cansa, 2011 | Dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra | Roteiro de Juliana Rojas e Marco Dutra | Elenco: Helena Albergaria, Marat Descartes, Naloana Lima, Gilda Nomacce, Marina Flores, Lilian Blanc, Thiago Carreira, Hugo Villavicenzio, Thais Almeida Prado, Rodrigo Bolzan, Maristela Chelala, Marina Corazza, Doró Cross, Carlos Escher e Heitor Goldflus | Distribuidora: Lume Filmes

Resenha Crítica | Diana (2013)

Diana

Na brilhante cena de abertura de “Diana”, um travelling persegue aqueles que seriam os últimos passos de Lady Di antes do trágico acidente automobilístico que a aguardara. Se não bastasse estar acompanhada de seus seguranças em sua própria fortaleza, a câmera se manifesta como um intruso, um paparazzi obstinado em registrá-la. Quando Diana para repentinamente de andar, a câmera repete a mesma reação como se tivesse sido flagrada. Segundos depois, Diana volta a se mover até o elevador que, não é nenhuma surpresa, contém uma câmera de vigilância para espioná-la.

Após essa amostra da falta de privacidade que perseguiu Diana inclusive em seus últimos minutos de vida, “Diana” retrocede alguns anos para confirmar que as expectativas criadas com base em sua cena de abertura definitivamente não vão ao encontro das demais intenções apresentadas. Afinal, o roteiro de Stephen Jeffreys não está interessado em uma cinebiografia para uma das figuras públicas mais amadas pela população do Reino Unido e sim no livro de Kate Snell, “Diana – O Último Amor de uma Princesa”, que gerou polêmicas ao apontar uma possível teoria da conspiração relacionado a morte de Lady Di e o romance com um médico paquistanês chamado Hasnat Khan.

Entre tantas histórias possíveis, “Diana” se aproveita justamente daquela costurada por especulações para se promover. Grande atriz, a australiana Naomi Watts faz o que pode para garantir o nosso interesse por essa fantasiosa encenação do relacionamento entre a princesa e um plebeu. A atração entre ambos acontece naquela tradição retomada na horrorosa versão musical de “Os Miseráveis”: assim como os jovens Cosette (Amanda Seyfried) e Marius (Eddie Redmayne), Diana e Hasnat (Naveen Andrews, o Sayid do seriado “Lost”) se descobrem perdidamente apaixonados através de uma troca banal de olhares.

No momento em que Diana conheceu Hasnat, ela já vivia uma crise em seu casamento com Carlos, o Príncipe de Gales, algo exaustivamente exposto na mídia e a razão pela ampliação do número de paparazzis em seu encalço diariamente. Encontrou em Hasnat o homem ideal para permanecer com sua personalidade simples contaminada pelos seus deveres como princesa. Consegue viver muitas aventuras com ele, embora precise recorrer à peruca morena ou fazer artimanhas para trocar de veículos sem ser notada pela imprensa. No entanto, como persistirá um romance considerado impossível?

O médico Hasnat Khan existe e confirmou publicamente ter namorado Diana, mas nem ele é capaz de aprovar o modo como o relacionamento é retratado no longa-metragem de Oliver Hirschbiegel, bem distante dos tempos em que dirigia obras excelentes como “A Experiência” e “A Queda! – As Últimas Horas de Hitler”. Também, não havia como ser o contrário. A Lady Di que vemos aqui está longe de seu esplendor. Pior: comporta-se como uma velha moça tola que idealiza um amor digno de um conto de fadas.

Embora o assédio dos paparazzis seja representado na maioria das cenas de “Diana”, o risco em apontá-los como uma das causas que provocaram a morte de Lady Di é grande demais. Há até ocasiões em que tais inimigos se tornam seus aliados somente para despertar reações de ciúme de seu amado. O drama prefere exibir uma Diana que luta contra as minas terrestres na África e que abandonava o conforto do seu palácio para apoiar causas sociais não porque ela era alguém que menosprezava os protocolos da realeza, mas porque havia por trás dela um homem bom o suficiente para incentivá-la a ser querida. Em tempos em que o cinema oferece tantos retratos de mulheres em luta, é inadmissível que um de seus mais notáveis modelos reais necessite de um homem para se afirmar.

Diana, 2013 | Dirigido por Oliver Hirschbiegel | Roteiro de Stephen Jeffreys, baseado no livro “Diana – O Último Amor de uma Princesa”, de Kate Snell | Elenco: Naomi Watts, Naveen Andrews, Douglas Hodge, Geraldine James, Charles Edwards, Daniel Pirrie, Cas Anvar, Juliet Stevenson, Jonathan Kerrigan, Laurence Belcher, Harry Holland, Leeanda Reddy, Art Malik, Michael Hadley, Rose O’Loughlin | Distribuidora: Imagem Filmes

10 Filmes Sobre Jornalismo

Ainda há muitas pessoas que possuem uma visão equivocada sobre o Jornalismo. Em tempos em que a moda é espalhar a própria imagem para todos os cantos, há essa crença de que é glamouroso aparecer na tevê, em canal no Youtube que recebe muitas visitas diárias ou imprimir a própria assinatura em um artigo compartilhado milhares de vezes. Porém, a realidade da profissão se revela cruel.

Horas de sono acumulado, muito fôlego para a realização de atividades em campo, a exposição da própria integridade física e psicológica ao cobrir um acontecimento arriscado e a longa jornada para o reconhecimento são alguns dos ingredientes que devem ser consumidos para ser um jornalista bem-sucedido. Aqueles que estiverem dispostos a aceitar essa missão árdua, porém, poderão ser recompensados com o privilégio de assumir o dever de formar opiniões e ser o principal emissor de informações para a sociedade sobre tudo aquilo que a cerca.

Na seleção que preparamos abaixo, há dez filmes que, cada um a seu modo, oferece uma amostra sobre como o que é ser um jornalista em inúmeros campos de atuação e sobre as inúmeras implicações éticas envolvidas.

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Os Homens Que Não Amavam As Mulheres

Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, de Niels Arden Oplev (Män som hatar kvinnor, 2009)
Além de ter criado uma trilogia literária de tirar o fôlego, o sueco Stieg Larsson consegue com “Millennium” animar qualquer profissional do ramo investigativo que sacrifica a própria segurança ao denunciar as mazelas da sociedade. Dono de um caráter incorruptível, Mikael Blomkvist (Sven-Bertil Taube) é editor da Millenium, revista mensal dedicada em cobrir casos de violência contra a mulher, corrupção e demais crimes que transformam a Suécia em uma zona de perigo. Acusado de difamação após publicar fatos vindos de uma fonte anônima sobre Wennerström (Stefan Sauk), responsável por um grupo industrial bilionário, Blomkvist deverá enfrentar a prisão em breve. Sem nada o que fazer para reverter a situação, ele aceita uma oferta irrecusável de Henrik Vanger (Sven-Bertil Taube), ricaço que até o momento não tem qualquer informação sobre uma sobrinha que desapareceu há mais de 50 anos. Uma das mais fascinantes personagens da ficção contemporânea, a hacker antissocial Lisbeth Salander (Noomi Rapace) cruzará o caminho de Blomkvist de forma inusitada e o auxiliará na tarefa.

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Faces da VerdadeFaces da Verdade, de Rod Lurie (Nothing But the Truth, 2008)
Talvez não haja nenhum filme mais contundente a tratar sobre sigilo de fonte do que “Faces da Verdade”, excelente thriller dirigido por Rod Lurie lamentavelmente ignorado em seu lançamento. No melhor desempenho de sua carreira, Kate Beckinsale vive Rachel Armstrong, ambiciosa jornalista, esposa e mãe que publica uma matéria que relata o atentado do qual o presidente americano foi vítima e o contra-ataque a bases militares da Venezuela motivado por evidências discutíveis. Rachel é imediatamente reconhecida como uma profissional brilhante, mas não demora a pagar as consequências por divulgar informações sigilosas que não somente revelam a identidade de uma agente secreta da CIA (Vera Farmiga) como também a convertem como uma ameaça à Segurança Nacional. Ao não revelar sua fonte, Rachel é presa e desafiada por um dilema: deverá ferir sua ética profissional ou mantê-la ao ponto de desestruturar sua própria família?

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O Diabo Veste PradaO Diabo Veste Prada, de David Frankel (The Devil Wears Prada, 2006)
Mesmo que esta adaptação para o cinema do livro de Lauren Weisberger seja comprometida com alguns vícios oriundos das comédias românticas sem personalidade, assistir a “O Diabo Veste Prada” oferece uma perspectiva crível para os profissionais em início de carreira. Andrea Sachs (Anne Hathaway) é uma jornalista formada em busca de um emprego em um grande veículo nova-iorquino. No entanto, depara-se com o desafio que poucos enfrentariam de trabalhar como assistente da megera Miranda Priestly (Meryl Streep), que dirige com mão de ferro a revista de moda Runway. A experiência é válida, mas árdua: Andrea terá de abdicar de sua vida particular e se transformar em alguém que nunca foi para atender aos caprichos de Miranda e finalmente ascender profissionalmente.

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CapoteCapote, de Bennett Miller (idem, 2005)
Responsável por “A Harpa de Ervas” e “Bonequinha de Luxo”, Truman Capote é também autor de “A Sangue Frio”, livro que inaugurou um novo gênero literário: o romance de não-ficção. O processo de criação dessa obra publicada em 1966 é dissecado em “Capote”, produção que foca o relacionamento do escritor (vivido por Philip Seymour Hoffman, vencedor do Oscar pela interpretação) com Perry Smith (Clifton Collins Jr.), ex-presidiário acusado junto com o seu amigo Dick (Mark Pellegrino) por ter assassinado uma família de fazendeiros do Kansas. Com a companhia de sua amiga Nelle Harper Lee (Catherine Keener), que mais tarde publicaria o sucesso “O Sol É Para Todos”, Capote inicialmente visita Kansas com a intenção de escrever um artigo sobre o crime. Avaliando o material bruto de sua pesquisa, decide que o melhor a fazer é transformá-lo em um livro. Astucioso com as artimanhas que aplica para receber as informações que deseja, Capote cai na armadilha que buscou evitar: o envolvimento emocional extremo com a história e os personagens reais que o inspiraram. Não à toa, “A Sangue Frio” representa o último romance publicado por Capote.

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A Vida de David GaleA Vida de David Gale, de Alan Parker (The Life of David Gale, 2003)
Embora o cineasta Alan Parker, ancorado pelo roteiro de Charles Randolph, tome medidas extremas ao expor sua perspectiva sobre a pena de morte, não há como negar que “A Vida de David Gale” é um grande filme sobre todas as polêmicas que cercam essa sentença ainda aplicada entre países dominados por sistemas políticos democráticos. Outro aspecto interessante em “A Vida de David Gale” está no fato de que nem sempre um jornalista está sob o controle de sua reportagem, ao contrário do que sempre se supõe. Interpretada por Kate Winslet, a jornalista Bitsey Bloom é a visão imparcial que guiará o espectador dentro do caso David Gale (Kevin Spacey), um exemplo notável de homem íntegro que está no corredor da morte após ser acusado pelo assassinato de sua melhor amiga (Laura Linney) que tinha leucemia. Diante de suas conversas com Gale, Bitsey nota que há muitas lacunas não preenchidas em sua história. Assim, correrá contra o tempo para localizar provas que possam inocentá-lo.

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O Custo da CoragemO Custo da Coragem, de Joel Schumacher (Veronica Guerin, 2003)
“O Custo da Coragem” é um filme essencial para qualquer pessoa que deseja atuar como jornalista. E a razão é uma só: Veronica Guerin. Jornalista investigativa, Guerin é a prova de que nunca é tarde demais para ingressar a profissão (começou a atuar no ramo aos 30 anos de idade) e também de que a determinação de um único indivíduo é capaz de mover montanhas. Em extraordinária interpretação indicada ao Globo de Ouro, Cate Blanchett vive Veronica Guerin no período em que ela investiga avidamente os responsáveis pela distribuição de drogas em Dublin, na Irlanda, durante a década de 1990. As constantes ameaças só fortalecem a força desta mulher hoje considerada uma verdadeira heroína. Joan Allen já havia protagonizado a mesma história em “Alto Risco”. No entanto, temos esta versão dirigida por Joel Schumacher como a mais expressiva sobre Veronica Guerin.

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O Preço de uma VerdadeO Preço de uma Verdade, de Billy Ray (Shattered Glass, 2003)
Durante os anos 1990, o Jornalismo encontrou um jovem profissional brilhante: Stephen Glass. Assinou matérias da Rolling Stone e Harper’s Magazine e se viu no ápice de sua carreira ao assumir uma vaga na redação da The New Republic. Queridinho dos colegas de trabalho, Glass testemunha as coisas mudarem quando o seu chefe Michael Kelly (Hank Azaria) é substituído pelo implacável Charles Lane (Peter Sarsgaard), que não vê com bons olhos toda essa bajulação em cima dele. Quando o convívio entre ambos se estreita, vem a bomba: existe a possibilidade de Glass ter inventado todos os seus artigos mais populares. Com excelentes interpretações de todo o elenco e cuidadosa direção de Billy Ray, “O Preço de uma Verdade” é um ótimo filme sobre ética jornalística e as consequências enfrentadas quando um profissional decide ir longe demais em troca de prestígio.

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ChicagoChicago, de Rob Marshall (idem, 2002)
Vencedor de seis Oscars, “Chicago” é uma verdadeira homenagem ao trabalho de Bob Fosse, mas apresenta um interessante panorama sobre o jornalismo diante de números musicais em que duas mulheres encontram na criminalidade o atalho para alcançarem a fama, algo possível com a propagação de seus nomes na mídia impressa. Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones, Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) é a materialização exata do modelo que Roxie Hart (Renée Zellweger) sempre visualizou de verdadeira estrela de cabaré. Os papéis de ídolo e fã sofrerão modificações quando ambas se encontram em uma prisão feminina em Chicago após matarem os homens que as traíram. Para escapar da situação, Roxie segue à risca a tagline do cartaz de “Chicago”: “Se você não alcançar a fama, seja infame.”. Portanto, recorre ao advogado galanteador Billy Flynn (Richard Gere), que fará de tudo para que Roxie seja o principal interesse de Mary Sunshine (Christine Baranski), jornalista especializada em matérias sensacionalistas.

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Quase FamososQuase Famosos, de Cameron Crowe (Almost Famous, 2000)
Reconhecido como um cineasta que seleciona a dedo as músicas para embalar cada uma de suas histórias, Cameron Crowe se supera em “Quase Famosos”. O motivo? O longa-metragem ambientado nos anos 1970 que revelou Kate Hudson ao mundo é semi-biográfico. Alter ego do cineasta, William Miller (Patrick Fugit) é um aspirante a jornalista que ainda adolescente consegue descolar um trabalho na revista Rolling Stone. Sua missão é escrever um artigo sobre a banda em ascensão “Stillwater”, liderada pelo vocalista Jeff Bebe (Jason Lee). No típico universo “sexo, drogas e rock n’ roll”, Willliam enfrentará as pressões tanto da profissão quanto de sua mãe conservadora Elaine (Frances McDormand). Tendo se tornado editor da Rolling Stone pouco tempo após essa experiência, Cameron Crowe desistiu de tudo para trabalhar no cinema. Com “Quase Famosos”, relembra os bons tempos em que o rock estava em seu ápice (“Stillwater” é uma versão fictícia do “Led Zeppelin”) e não deixa de evidenciar o jornalismo como um meio de desmitificar ídolos.

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Bem-vindo a SarajevoBem-vindo a Sarajevo, de Michael Winterbottom (Welcome to Sarajevo, 1997)
O britânico Michael Winterbottom dirige um filme por ano desde que inicou sua carreira em meados da década retrasada. No entanto, é raro ele acertar em cheio. Uma exceção é o drama de guerra “Bem-vindo a Sarajevo”. Baseado no livro homônimo de Michael Nicholson, a produção apresenta Stephen Dillane interpretando sua versão fictícia, um jornalista que cobrirá o início da Guerra da Bósnia em Sarajevo. Com a companhia do jornalista americano Flynn (Woody Harrelson), Michael arrisca a própria vida para conseguir suas reportagens diárias. As coisas se complicam ainda mais quando se vê sensibilizado por Emira (Emira Nusevic), órfã da qual decide levar ilegalmente para a Inglaterra. Além de ser um dos registros mais válidos de um conflito não tão distante que dizimou milhares de pessoas, “Bem-vindo a Sarajevo” também apresenta a difícil jornada de repórteres de guerra, uma missão que não oferece qualquer garantia de retorno ao lar.

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As Bem-Armadas

As Bem-Armadas | The Heat

Após dirigir “Missão Madrinha de Casamento“, aquela que pode ser considerada a melhor comédia americana dos últimos anos, Paul Feig possivelmente se tornou um alvo de questionamentos. Afinal, seria ele capaz de conduzir um projeto tão bem-sucedido quanto o filme que arrebatou duas indicações ao Oscar? Mesmo que seu novo filme não deixe de ser uma comédia, “As Bem-Armadas” não deixa de representar uma aposta arriscada.

Sucessos da comédia policial, “48 Horas”, “A Hora do Rush” e “Bad Boys” apresentaram com eficiência a velha história de uma dupla de agentes da lei que não têm qualquer sintonia devido as diferenças de personalidades. É para esses filmes que “As Bem-Armadas” presta homenagem, mas um detalhe chama a atenção: estamos diante de uma rara ocasião em que são justamente as mulheres a tomarem frente de uma investigação.

A história tem um ponto de partida que já garante boas risadas, senão gargalhadas. Interpretadas respectivamente por Sandra Bullock e Melissa McCarthy, Sarah Ashburn e Shannon Mullins são as protagonistas que inevitavelmente terão de se unirem para cumprirem um objetivo em comum. No entanto, a roteirista Katie Dippold deixa bem claro o quão diferentes elas são. Sarah Ashburn é a típica agente burocrática do FBI de olho em uma promoção em seu departamento. Porém, para conquistá-la, Sarah deverá atrair a a atenção do seu chefe Hale (Demian Bichir, que recebeu uma indicação ao Oscar por “Uma Vida Melhor“), que a convoca para lidar com a captura de um traficante de drogas em Boston.

Mesmo sendo um lugar estranho para a meticulosa Sarah, Boston é um cenário perfeito para Shannon Mullins dominar. Afinal, essa policial aborda os criminosos sem nenhuma sutileza e o fato de não ter papas na língua é adequado para se comunicar em um cenário tomado pela violência. Embora cheguem a sair na mão ao se conhecerem, Ashburn e Mullings logo identificarão que dependem uma da outra para encerrarem o caso que pode botar suas vidas em risco: Ashburn tem todas as informações necessárias enquanto Mullings sabe exatamente para onde ir e como agir.

Como o esperado, as protagonistas de “As Bem-Armadas” logo notarão que por trás de tanta pose há duas mulheres que encontram em seus caracteres incorruptíveis e a vida solitária que levam em troca de uma profissão de risco as principais características que a tornam tão próximas e, consequentemente, suportáveis uma diante da outra. É o necessário para efetivar o humor originado nas interações entre Ashburn e Mullins, que se metem em poucas e boas para conseguirem encontrar Larkin, o responsável por este submundo das drogas que condena Boston.

Ainda que tudo esteja em seu devido lugar, é inevitável não chegar a conclusão de que “As Bem-Armadas” é aquele tipo de filme que depende de boas intérpretes para que tudo funcione. Portanto, são Sandra Bullock e Melissa McCarthy as verdadeiras donas do show e aquelas que devem receber a maior parte das honrarias pelo sucesso de “As Bem-Armadas”. As duas atrizes são exemplares ao lidar com humor físico e mostram uma sensibilidade sem igual em papéis essencialmente cômicos. São, enfim, duas comediantes plenamente conscientes do que estão fazendo em cena e que transformam “As Bem-Armadas” em um dos filmes mais divertidos do ano.

The Heat, 2013 | Dirigido por Paul Feig | Roteiro de Katie Dippold | Elenco: Sandra Bullock, Melissa McCarthy, Demian Bichir, Marlon Wayans, Michael Rapaport, Jane Curtin, Spoken Reasons, Dan Bakkedahl, Taran Killam, Michael McDonald, Thomas F. Wilson, Tony Hale, Kaitlin Olson, Adam Ray, Joey McIntyre, Michael Tucci, Bill Burr, Nate Corddry, Jessica Chaffin, Jamie Denbo, Ben Falcone e Paul Feig | Distribuidora: Fox

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo | 18 – 31 de Outubro

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo | 18 - 31 de Outubro

Daqui a aproximadamente três semanas terá início a 37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, evento que permanece atraindo a atenção não somente dos cinéfilos paulistanos, como também de todo o Brasil. Durante duas semanas (período que não inclui o encerramento da Mostra e o período de repescagem), um pouco mais de vinte salas de cinema receberão uma programação que contempla centenas de títulos que fazem qualquer um ficar desorientado na hora de montar o roteiro diário.

No ano passado, o Cine Resenhas conferiu alguns filmes durante dois fins de semana de Mostra (para conferir, basta clicar aqui) e nesta nova edição iremos analisar novos títulos que ajudam a desenhar um mapa do cinema mundial e suas principais tendências e abordagens. Sem dizer que a Mostra serve de grande oportunidade para finalmente conhecer alguns blogueiros cinéfilos, alguns dos quais pintam por aqui através dos comentários.

Na arte da 37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a artista plástica e esposa de Stanley Kubrick Christiane Kubrick cedeu uma de suas pinturas inspiradas nos bastidores de “Barry Lyndon”, drama épico do notório diretor de “Laranja Mecânica”.

A programação completa da Mostra deve sair a partir do próximo fim de semana, mas já há alguns títulos confirmados. “Inside Llewyn Davis”, novo projeto dos irmãos Coen, será o filme de abertura do evento. Além do mais, esta edição fará uma retrospectiva da filmografia do cineasta filipino Lav Diaz e de Martin Scorsese. Outros títulos que são exibidos são “A Touch of Sin” (de Jia Zhang-ke), “Stray Dogs” (de Tsai Ming-Liang), “A Igreja do Diabo” (de Manoel de Oliveira), “3x3D” (conjunto de três histórias dirigido por Jean-Luc Godard, Peter Greenaway e Edgar Pêra) e alguns pré-finalistas ao Oscar 2014 de Melhor Filme Estrangeiro como “Boy Eating the Bird’s Food” (de Ektoras Lygizos), “Circles” (de Srdan Glolubovic), “My Dog Killer” (de Mira Fornay) e “The Grandmaster” (de Wong Kar Wai).