Therese D.

Therese D. | Thérèse Desqueyroux

Com a morte do cineasta francês Claude Miller, restou ao trio Audrey Tautou, Gilles Lellouche e Anaïs Demoustier apresentar sozinho no ano passado no Festival de Cannes o drama de época “Therese D.”. Tendo “A Pequena Lili”, “Um Segredo de Família” e “Feliz que Minha Mãe Esteja Viva” como suas obras mais recentes lançadas no Brasil, Miller conseguiu finalizar sua adaptação do romance de François Mauriac antes que um câncer interrompesse sua existência.

Embora “Therese D.” contenha a marca de Claude Miller em cada fotograma, a frieza causa estranheza com o fato de ser seu último longa-metragem. Provando que é uma atriz que vai muito além de Amélie Poulain, a personagem pela qual todos a associarão até o fim de sua carreira, Audrey Tautou encara novamente o desafio de incorporar uma mulher de beleza e alma gélidas. Trata-se de Thérèse Larroque, que se transforma em Thérèse Desqueyroux ao se casar com Bernard (Gilles Lellouche), dono de uma extensa propriedade rural.

É evidente que Thérèse trocou votos sagrados com Bernard mais por conveniência do que por amor, uma vez que sua riqueza proporcionaria a ela uma vida estável. Sua aspereza é mais explícita ao chegar a conclusão de que sua escolha não lhe trouxe os resultados aguardados. Thérèse não sente mais desejo, felicidade, encanto ou qualquer outro sentimento libertador. Ao imaginar que outro destino foi traçado para Anne (Anaïs Demoustier), sua melhor amiga desde a infância e agora cunhada, Thérèse toma uma atitude perversa que aos poucos eliminará toda a vitalidade de Bernard.

Já levada ao cinema em uma versão pouco vista de 1962 (Emmanuelle Riva viveu a personagem-título), a história de Mauriac ganha nas mãos de Miller um envolvente registro sobre uma mulher enclausurada em uma situação que despreza. É como se Thérèse, uma personagem da década de 1920, desejasse viver em um tempo futuro em que seu leque de possibilidades fosse mais amplo. A belíssima fotografia de Gérard de Battista representa este sentimento ao externar o inferno astral de Thérèse com o vermelho de um incêndio que ela provocou acidentalmente adentre a sua mansão de campo. Uma pena que a conclusão da história contradiga a Thérèse desprezível que conseguimos criar alguma empatia após um árduo esforço.

Thérèse Desqueyroux, 2012 | Dirigido por Claude Miller | Roteiro de Claude Miller e Natalie Carter, baseado no romance “Thérèse Desqueyroux”, de François Mauriac | Elenco:  Audrey Tautou, Gilles Lellouche, Anaïs Demoustier, Catherine Arditi, Isabelle Sadoyan, Francis Perrin, Jean-Claude Calon, Max Morel, Françoise Goubert, Stanley Weber, Alba Gaïa Kraghede Bellugi, Matilda Marty-Giraut, Gérard Bayle e Yves Jacques | Distribuidora: Imovision

Resenha Crítica | Jovem & Bela (2013)

Jovem & Bela | Jeune et Jolie

Isabelle (Marine Vacth) está prestes a completar 17 anos e ainda não perdeu a virgindade. Ela está ansiosa para ter o seu primeiro relacionamento sexual e as férias de verão em uma casa na praia se mostra a ocasião perfeita para consumar o ato. Isabelle só compartilha suas expectativas com o irmão Victor (Fantin Ravat), que, por sua vez, passa por todas as descobertas proporcionadas no processo de puberdade.

O candidato que irá realizar o desejo de Isabelle é um jovem alemão de boa feição. No entanto, apesar da atração física, Isabelle não curte o momento. É fato que a primeira vez não é agradável para todos, mas algo muito sério atingiu Isabella ao ponto de modificá-la drasticamente. Isso é representado quando Isabella visualiza a imagem de si mesma afastando-se até desaparecer de seu campo de visão enquanto o seu parceiro a penetra.

Após as férias de verão, “Jovem & Bela” salta para o outono e apresenta Isabelle assumindo uma vida dupla. Em uma, Isabelle prossegue com os estudos e o convívio com a família, a qual agora tem um relacionamento frio. Em outra, ela cobra 300 euros para transar com homens maduros e presos a relacionamentos fracassados.

Embora execute a atividade de uma prostituta de luxo, é difícil denominá-la como tal. Isabella não precisa de dinheiro e exige um pagamento considerável pelo “serviço” mesmo tendo uma mãe, Sylvie (Géraldine Pailhas), e um padrasto, Patrick (Frédéric Pierrot), bem-sucedidos. Também não é claro se Isabella busca suprir alguma carência afetiva através de homens acostumados a recorrer ao sexo pago.

Reconhecido por criar mulheres em processo de despertar tardio ou precoce, o cineasta francês François Ozon faz de “Jovem & Bela” a sua obra mais madura desde “Ricky”. Através de Isabelle, Ozon compreende os anseios íntimos de alguém que transita entre a juventude e o amadurecimento. Para incorporar Isabelle, Ozon foi feliz ao selecionar a maravilhosa novata Marine Vacth, uma presença hipnótica.

Ao decifrar Isabelle, Ozon usa o ciclo das estações do ano como divisão narrativa e as imagens refletidas. As mutações naturais em períodos tão destoantes como o verão, outono, inverno e primavera representam o difícil temperamento que Isabelle adota enquanto as vidraças presentes nos cenários em que ela transita a multiplicam, simulando aquela mesma Isabelle que a abandonou ao perder a virgindade. É quando Isabelle finalmente se reconhece no reflexo produzido pelo espelho do quarto 6095 que “Jovem & Bela” elucida de modo reconfortante uma jovem em processo de autodescoberta.

Jeune & jolie, 2013 | Dirigido por François Ozon | Roteiro de François Ozon | Marine Vacth, Géraldine Pailhas, Frédéric Pierrot, Fantin Ravat, Johan Leysen, Nathalie Richard, Djedje Apali, Lucas Prisor, Laurent Delbecque, Jeanne Ruff, Carole Franck, Olivier Desautel, Serge Hefez, Akéla Sarl e Charlotte Rampling | Distribuidora: Europa Filmes

Resenha Crítica | Azul é a Cor Mais Quente (2013)

Azul é a Cor Mais Quente | La vie d'Adèle

Em “Vênus Negra”, o cineasta Abdellatif Kechiche testou os limites da plateia ao encenar as perversidades que marcaram a breve existência de Saartjie Baartman, uma mulher de anatomia incomum que sobrevivia se apresentando como uma atração exótica. Em seu novo longa-metragem, “Azul é a Cor Mais Quente”, Kechiche está mais brando, mas ainda assim não deixa de nos atrair para uma experiência forte.

A fonte que inspira “Azul é a Cor Mais Quente” é incomum. Trata-se do comic book homônimo de Julie Maroh originalmente publicada em março de 2010 – nada desse universo é preservado no longa-metragem. O modo bruto com que Kechiche filma impõe-se nos primeiros instantes em que acompanha a jovem Adèle (Adèle Exarchopoulos, exemplar). A câmera está a todo o momento a um ou dois palmos de seu rosto. Vê-se cada linha que forma suas expressões e ouve-se cada respiro. Temos uma jovem sufocada em sua própria existência e que logo se deixará levar pelos seus desejos mais íntimos.

No colégio, Adèle é constantemente observada por Antoine (Jérémie Laheurte), músico que não esconde a sua atração por ela. Adèle tenta corresponder, mas não consegue. Quando acaricia a si mesma, os pensamentos de Adèle são invadidos pela imagem de Emma (Léa Seydoux), estudante de Belas Artes com o cabelo tingido de azul e lésbica assumida com quem só trocou alguns olhares enquanto atravessava uma rua. É claro que as duas se encontrarão e o romance acontecerá quando Adèle finalmente se livrar de suas próprias amarras.

O que se segue é uma observação de um romance homossexual sujeito aos mesmos altos e baixos de uma relação heterossexual. O roteiro assinado por Ghalia Lacroix e também por Kechiche não se comporta cegamente diante das intolerâncias que o romance entre Adèle e Emma certamente testemunhará. As amigas de Adèle serão agressivas ao suspeitarem de sua orientação sexual e seus pais não são tão liberais quanto a mãe e o padrasto de Emma.

“Azul é a Cor Mais Quente” vai além desse discurso ao concentrar maior interesse na dinâmica desse casal que se forma. Originalmente idealizado como uma história dividida em dois capítulos, “Azul é a Cor Mais Quente” busca compreender o que faz um romance aparentemente inabalável ser gradativamente enfraquecido quando o convívio e, consequentemente, a rotina se manifestam.

Em sua primeira metade, há Adèle descobrindo a si mesma e se entregando de corpo e alma para Emma. Todos os beijos, companhias em jantares e troca de confidências são mágicos e o sexo ardente vem como algo esperado em uma relação em que há tanta química. Aliás, soa até absurda a polêmica em torno de duas transas quase registradas com riqueza de detalhes por Kechiche, comprovando a caretice do espectador contemporâneo diante de algo que celebra o ápice entre duas pessoas que se amam.

Já a segunda metade de “Azul é a Cor Mais Quente”, cujo ponto de largada é justamente aquele em que Emma já abandonou as madeixas tão azuis quanto os seus olhos, é o princípio do fim: o ciúme desenfreado, os atritos, as saídas de casa sem justificativas e a ascensão profissional consumindo as energias antes preservadas para a intimidade. É neste momento em que “Azul é a Cor Mais Quente” perde pontos em autenticidade, pois usa alguns mecanismos fáceis para representar a autodestruição de Adèle, como os personagens secundários que só exercem a função de abalar algo consolidado.

La vie d’Adèle, 2013 | Dirigido por Abdellatif Kechiche | Roteiro de Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix, baseado no livro em quadrinhos homônimo de Julie Maroh | Elenco: Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux, Mona Walravens, Salim Kechiouche, Aurélien Recoing, Catherine Salée, Benjamin Siksou, Alma Jodorowsky, Jérémie Laheurte, Anne Loiret, Benoît Pilot, Sandor Funtek, Fanny Maurin, Maelys Cabezon, Samir Bella, Tom Hurier, Manon Piette e Quentin Médrinal | Distribuidora: Imovision

Resenha Crítica | Blue Jasmine (2013)

Blue JasminePelo desinteresse em explorar gêneros cinematográficos, Woody Allen se consolidou criando dois tons distintos. O primeiro é pontuado pela comédia em que alter egos neuróticos, justamente aquele que o consagrou. Já o segundo é representado pelos dramas bergmanianos, hoje não tão explorados na fase mais recente de sua filmografia. Ao realizar o sonho de trabalhar com a australiana Cate Blanchett, Woody Allen busca um modo de fazer uma junção entre o cômico e o trágico em “Blue Jasmine”, filme prestigiado pela crítica e raro exemplo de sucesso comercial (é o quinto título de sua carreira a ultrapassar a marca dos 30 milhões de dólares arrecadados somente nas bilheterias americanas). Ao acompanhar o declínio de uma mulher após perder toda a sua fortuna e status, Woody Allen preserva os diálogos venenosos que o tornaram célebre, mas o resultado final é repleto de amargura, algo não esperado de um veterano que celebrou o otimismo em obras recentes como “Meia-noite em Paris” e “Para Roma, com Amor“.

Há uma crítica completa de “Blue Jasmine” no Cenas de Cinema. Para lê-la, basta clicar aqui.