Resenha Crítica | Em Três Atos (2015)

Em Três Atos

Em Três Atos, de Lúcia Murat

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Com uma carreira dividida entre a realização de ficção e documentário, a carioca Lúcia Murat chega aos 67 anos refletindo naturalmente sobre a velhice, o estágio final da vida. E ela vem com um balanço sobre os limites do corpo, os ressentimentos que carregamos e as armadilhas que a memória aparelha. Portanto, “Em Três Atos” carrega em seu próprio título a noção de uma existência em etapas, a flexibilidade da juventude, a amargura da meia idade e a aceitação da ancienidade.

Publicado em 1970, “A Velhice” é um ensaio escrito pela francesa Simone de Beauvoir quando ela já tinha atravessado os 60 anos de idade. É neste texto que se debruça Lúcia Murat, já inspirada por um espetáculo com Angel Vianna e Maria Alice Poppe, “Qualquer Coisa a Gente Muda”, de 2010. Bailarinas, Angel e Maria expressam-se aqui enquanto a narrativa intercala as confissões de Andrea Beltrão e Nathalia Timberg.

A princípio lidando com o envelhecimento com consternação, “Em Três Atos” experimenta uma junção de linguagens, não somente a teatral e a da ficção cinematográfica. Os monólogos trazem as atrizes dirigindo-se ao público como se presentes em um tablado, mas também carregam os elementos de um documentário. E há também a dança e a prosa literária. O efeito dessa escolha se assemelha à frustração provocada pelo ápice sempre interrompido da ópera “Tristão e Isolda”, de Richard Wagner, responsável por embalar a encenação. Resta a beleza das atrizes, fotografadas em pleno esplendor.

Resenha Crítica | Walter (2015)

Walter

Walter, de Anna Mastro

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Dois anos após a estreia em longa-metragem com “Noite De Briga”, Jonathan Dillon fez o curta “Walter”, sobre um sujeito que afirma ser um dos filhos de Deus (“Não Jesus, o barbudo”, logo afirma) com o dom de determinar o destino de cada indivíduo que vê ao longo do dia, sendo ele o paraíso ou o inferno. Agora, o autor dessa premissa, Paul Shoulberg, vem com uma versão em longa sem nenhum envolvimento de Jonathan Dillon.

A responsabilidade de assumir a direção do projeto coube a estreante Anna Mastro, atualmente comprometida com o remake em inglês de “Moscou, Bélgica”. O primeiro ato é basicamente os 15 minutos do original, que também traz o mesmo intérprete, Andrew J. West. Walter acorda antes que a meia dúzia de alarmes o desperte, toma banho, veste-se, como o omelete feito por sua mãe (Virginia Madsen), apanha o ônibus e finalmente inicia o atendimento aos clientes de um cinema, sendo responsável por recolher os tickets – claro que até esse ponto ele já definiu o destino de um sem número de almas.

Outros elementos persistem na adaptação, como a atração por Kendall (Leven Rambin) e a tolerância pela intransigência de Vince (Milo Ventimiglia), sendo ambos os seus colegas de trabalho. A novidade está na inserção de Greg (Justin Kirk), um fantasma que passa a assombrar Walter não somente para que ele decrete para qual plano espirititual ele, um suicida, permanecerá, como também interferir no casamento de sua mulher, Allie (Neve Campbell). Outro elemento inédito é a presença de um terapeuta (William H. Macy) com um modus operandi nada convencional.

De algum modo, “Walter” concentra tudo o que reduz a comédia indie a um segmento de produção onde nem sempre conseguimos encontrar algo realmente válido e divertido. Há estranhezas espalhadas em todos os cantos de “Walter”: as cores saturadas, o dano a uma rotina com regras até então seguidos à risca, a proximidade com as leis divinas, o drama advindo de um passado rememorado, entre outras coisas. Tudo isso não leva a lugar algum e nos fazem questionar a existência de um material que sequer foi satisfatório em sua primeira encarnação.

Resenha Crítica | 1001 Gramas (2014)

1001 Gramas (1001 Gram)

1001 Gram, de Bent Hamer

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

O cinema de Bent Hamer faz valer a reputação da Noruega como aquele que talvez seja o país mais pacífico que existe. Em “1001 Gramas”, o diretor e roteirista volta a se mover com aquela leveza que testemunhamos previamente em títulos como “Caro Sr. Horten”, bem como o sentimento de que a melhor coisa a se fazer diante de adversidades é se abrir para as possibilidades que a vida nos abre com muita simplicidade.

A premissa de “1001 Gramas” é bem inusitada ao acompanhar a “rotina” de cientistas que participam de seminários que reúnem representantes de diversos países para discutir qual é o peso real de um quilo. O ponto de encontro é em Paris e a protagonista é Marie (Ane Dahl Torp), norueguesa que segue um roteiro profissional e pessoal insípido e que só reencontra a vivacidade nas visitas à fazenda de seu pai, Ernst (Stein Winge).

A viagem proporciona à Marie alguns desequilíbrios que a fazem rumar para uma mudança interior. O primeiro é motivado por um acidente que pode descalibrar o protótipo do quilo oficial da Noruega que carrega em uma mala de viagem. O segundo é o modo como ela se comporta diante da disponibilidade do francês Pi (Laurent Stocker) em lhe servir como uma companhia realmente agradável. Por fim, há a decisão de como seguir em frente diante do vazio deixado por uma perda insubstituível.

Mais do que a presença apática de Ane Dahl Torp, “1001 Gramas” é comprometido pela obviedade das metáforas geradas a partir de uma profissão nada usual de se ver registrada na ficção. Meia hora se passa e já somos entupidos com questionamentos como “qual é o peso da alma?” e quais sentimentos devem ser adicionados ou removidos de uma balança. Talvez faça falta a Bent Hamer a amargura de um Charles Bukowski, autor que lhe possibilitou “Factotum – Sem Destino”, aquele que é de longe o seu melhor filme.

Resenha Crítica | Labirinto de Mentiras (2014)

Labyrinth of Lies (Im Labyrinth des Schweigens)

Im Labyrinth des Schweigens, de Giulio Ricciarelli

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Devastada após a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha ainda era envolta a uma expectativa de reparação pelos danos causados pelo seu líder político. Aos civis alemães desvinculados dos conflitos, restaram as ruínas e a vergonha. No desejo de reconstrução, vem timidamente alguns agentes conscientes do papel social em punir os aliados que promoveram um dos episódios mais brutais da história.

Com um currículo preenchido com dezenas de créditos como ator secundário em produções sem grande expressão, o italiano Giulio Ricciarelli faz o seu debut na direção de longa-metragem em uma produção integralmente alemã que mais parece um documento de correção histórica. O galã Alexander Fehling (que esteve em “Bastardos Inglórios”) surge como Johann Radmann, jovem promotor que usa a sua presunção em favor de uma luta contra todos os nazistas que vivem na surdina após os 15 anos do fim da Segunda Guerra.

A investigação é motivada a partir do ponto em que o jornalista Thomas Gnielka (André Szymanski) desmascara um professor que outrora atuava em um campo de concentração. Claro que é só o início de um processo de revelar lobos em peles de cordeiros e Johann não resistirá somente às pressões de gabinetes cheios de documentos que o auxiliarão na busca de velhos criminosos, como também por um círculo de desafetos que querem enterrar o passado sem que isso interfira em suas ideologias monstruosas.

Ainda que “Labirinto de Mentiras” disponha de um material que pode ser narrado confortavelmente em uma duração de duas horas, o trabalho da montadora Andrea Mertens ganha um realce especial quanto ao ritmo quase frenético que confere no curso do drama. Aproxima-se assim de “O Jogo da Imitação”, no sentido de como processa grandes momentos dramáticos.

Depoimentos de vítimas são intercalados com recortes da busca frenética de Johann pelos respectivos algozes. Há até mesmo algumas soluções que explicitam o lado saudavelmente cafajeste do protagonista, como as primeiras investidas românticas na costureira Marlene (Friederike Becht) ou na abordagem cômica de homens que terão de responder pelos seus atos passados. Um esforço extremamente acadêmico, promovendo por meio da arte o desespero de uma nação em se redimir da mancha que ainda carrega.

Resenha Crítica | Armadilha (2015)

Armadilha (Taklub)

Taklub, de Brillante Mendoza

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Embora seja uma tragédia natural ocorrida há apenas dois anos, o tufão Haiyan parece ter sido esquecido pelo mundo. Estima-se que foi o ciclone que deixou o maior rastro de destruição já registrado na história. Nada mais se relata sobre o episódio e as Filipinas ainda estão inseridas no processo de compreender todas as perdas e seguir rumo à reconstrução.

Sendo desse ambiente, Brillante Mendoza segue como uma das vozes mais expressivas para levar ao mundo o instinto de sobrevivência e o desejo de perseverar dos filipinos, tendo em 2009 obtido grande repercussão com “Lola”, sobre duas idosas que desejam uma solução para um crime protagonizado pelos seus respectivos netos. Com “Armadilha”, presta tributo aos mortos e sobreviventes do tufão Haiyan.

Em um prólogo de grande impacto, Mendoza registra uma família sendo consumida pelas chamas em um acampamento sem energia iluminado somente com lamparinas. Exibe assim como não há paz após a tormenta, com uma comunidade ainda assombrada por novos riscos e com recursos cada vez mais escassos.

Neste cenário, conhecemos Bebeth (Nora Aunor), uma mulher com uma força emocional descomunal em busca de um recomeço, mas presa a algo que a impede de prosseguir: o desaparecimento de um filho, cujo corpo sem vida pode estar sepultado em meio a paisagem desoladora que se formou após o tufão – seu ex-marido, Angelo (Soliman Cruz), adia um exame de DNA com medo de identificá-lo entre os mortos.

A história é naturalmente comovente e Mendoza acerta ao escolher o registro quase documental. Duas constatações que não verbalizam com artimanhas da ficção que quase conferem ares de sensacionalismo a “Armadilha”, como a trilha manipuladora de Diwa de Leon e os closes em busca de lágrimas. Tivesse permitido que as emoções viessem somente à tona com as fotografias que ilustram os créditos finais.