Resenha Crítica | A Vida Após a Vida (2016)

Zhi fan ye mao, de Zhang Hanyi

.:: INDIE 2016 Festival Cinema ::.

Província situada no norte da China, Shaanxi é dona de um exotismo capaz de atrair muitos turistas, mas é também um cartão postal para paisagens mortas e até hoje o palco do maior terremoto já testemunhado, ocorrido há mais de quatro séculos. É a aridez e certo misticismo do ambiente que interessa a Zhang Hanyi, ao qual deve o seu nascimento e a sua estreia na direção.

O nome de Jia Zhangke na produção certamente foi definitivo para a inscrição de “A Vida Após a Vida” no Festival de Berlim, sendo nomeado na categoria de Melhor Primeiro Filme. A princípio, a premissa é focada no relacionamento entre pai e filho de Mingchun (Zhang Mingjun) e Leilei (Zhang Li).

Trabalhadores rurais, ambos não têm um convívio dos mais harmoniosos. Ainda assim, os atritos não são o foco de “A Vida Após a Vida”, mas sim a ausência da figura materna, que possui o corpo de Leilei com a motivação de pedir a Mingchun um último desejo: a mudança de local de uma árvore que exerceu um papel muito significativo na vida do casal. Impõe-se assim uma via-crúcis que mapeará a atmosfera lúgubre de cada ponto de parada, enfatizado por uma fotografia de Chang Mang ausente de cores vivas.

Ainda que apresente acontecimentos que ofereçam uma reflexão sobre o fio que separa o plano material do plano espiritual, a exemplo da cena de abate animal de provocar desconforto na plateia, “A Vida Após a Vida” é a captação fria de uma jornada e faz mau uso da presença de Zhang Li, totalmente inexpressivo na composição de alguém que serve de objeto para comportar um espírito feminino. Como muitos filmes de estreantes, talvez “A Vida Após a Vida” se beneficiaria mais caso planejado como um curta-metragem.

Resenha Crítica | Suite Armoricaine (2015)

Suite Armoricaine, de Pascale Breton

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Mais conhecida como roteirista do que como diretora, Pascale Breton obteve um prêmio em 2005 no Festival de Roterdã por “Illumination”, a sua estreia pouco vista na direção de um longa-metragem. O retorno atrás das câmeras vem 10 anos depois com “Suite Armoricaine”, no qual traz alguns traços autobiográficos.

O principal deles talvez seja o aproveitamento de sua atuação como geógrafa, uma carreira anterior a sua atuação no cinema. O mapeamento de uma paisagem passada vem a ser um forte elemento dramático de uma premissa que destaca dois personagens: a professora de história da arte Françoise (Valérie Dréville, de “A Questão Humana”) e o estudante de geografia Ion (o estreante Kaou Langoët).

Em comum, ambos encontram em Rennes um refúgio, uma oportunidade para omitirem a existência de dois indivíduos que aparentemente emperram os seus progressos. Enquanto Françoise está presa a um relacionamento com rumos que não a agradam, Ion quer cortar todos os laços com a sua mãe (a ótima Elina Löwensohn, ex-musa de Hal Hartley), que vive imersa em atitudes autodestrutivas.

Pascale Breton inicia muito bem o seu drama, seduzindo especialmente pela intimidade com a qual registra o namoro de Ion com Lydie (Manon Evenat), a sua colega de classe cega, e o encantamento nos olhares de Françoise diante de um recomeço. No entanto, não há como não se incomodar com uma certa inabilidade em reconhecer o potencial da linguagem que está lidando tanto na direção quanto no texto.

“Suite Armoricaine” passa a ser maçante não apenas pela sua metragem abusiva de duas horas e meia, mas também pelo desprendimento que tem por suas figuras secundárias e o recurso em conectar os destinos de Françoise e Ion, algo que redunda o fluxo narrativo. Mesmo obtendo algum reconhecimento ao ser exibido em competição no Festival de Locarno no ano passado, não será desta vez que Breton terá um filme com vida fora do circuito de festivais.

Resenha Crítica | O Homem nas Trevas (2016)

Don’t Breathe, de Fede Alvarez 

O cineasta uruguaio Fede Alvarez chamou a atenção de Hollywood ao lançar no YouTube o curta-metragem “Ataque de Pânico”. Feito pela bagatela de 300 dólares e com um clima de cinema catástrofe de primeira, a realização de apenas cinco minutos seduziu especialmente Sam Raimi, cuja produtora Ghost House Pictures é popular por assegurar o sucesso de filmes de terror feitos dentro de orçamentos enxutos.

Ainda que o seu remake para “A Morte do Demônio” comprove um talento natural para os aspectos visuais de um filme, Fede Alvarez parecia preso aos limites de uma premissa sem a ressonância da versão original de Raimi. Felizmente, essa posição ingrata não se repete em “O Homem nas Trevas”, no qual Alvarez consegue exercer um domínio mais pleno a partir de um argumento original desenvolvida em parceria com Rodo Sayagues.

Já se nota o frescor com a escolha de não facilitar as coisas para o espectador quando “O Homem nas Trevas” revela em seu prólogo a índole questionável dos personagens, sendo três jovens que vivem de roubar o que ainda há de riqueza em uma Detroit arruinada. Busca-se ao menos aliviar a barra de Rocky (Jane Levy), que estaria acumulando dinheiro para ter um recomeço com a sua pequena irmã Diddy (Emma Bercovici) em outra cidade.

A realização desse sonho se torna ainda mais possível quando ela e os seus parceiros no crime Alex (Dylan Minnette) e Money (Daniel Zovatto) recebem a pista de que há um cego (Stephen Lang, um ator de forte presença aproveitada em seu esplendor) com 300 mil dólares em seu cofre, valor preservado desde o momento em que foi indenizado pela morte de sua filha única em um acidente de carro. Ao invadirem a residência do sujeito, o trio tem uma surpresa: a fortuna escondida seria de aproximadamente um milhão de dólares.

Claro que as coisas não serão fáceis. Ex-soldado ferido com os estilhaços de uma granada, o proprietário da residência nada tem de vítima. Trata-se de um psicopata que imagina com a situação um cenário perfeito para transformar em campo de batalha, iniciando uma caça impiedosa a partir de sua audição apurada e do benefício de conhecer a anatomia do local em seus mínimos detalhes.

A novidade de “O Homem nas Trevas” vai além da inversão do papel de vítima em algoz. Fede Alvarez tem em mãos o modelo do thriller de isolamento, buscando compreender todas as possibilidades de fazer o seu filme se desdobrar concentrando a ação em um único ambiente. A consequência é uma tensão gradativa capaz de nos lançar em um jogo em que experimentamos as mesmas sensações de perigo que ameaçam especialmente Rocky, papel que recebe dimensões graças a capacidade de Jane Levy em concentrar os seus medos em olhares de extrema vulnerabilidade.

O melhor de tudo é “O Homem das Trevas” não tem um ritmo trôpego ou desdobramentos pouco críveis dentro do contexto que estabelece, algo comum em filmes similares. Vem a ser especialmente louvável a parceria com o diretor de fotografia de Pedro Luque, que já havia provado em “A Casa” a execução exemplar da tarefa de sufocar a luz com a escuridão, preservando por vezes em “O Homem nas Trevas” uma atmosfera correspondente a penumbra permanente em que o vilão vive.

Resenha Crítica | O Roubo da Taça (2016)

O Roubo da Taça, de Caíto Ortiz 

Mesmo que o diretor Caito Ortiz e o roteirista Lusa Silvestre façam um resgate cômico sobre o roubo da taça Jules Rimet em 1983, é curioso notar como poucas coisas evoluíram após três décadas. Bem como no passado, o Brasil vive um período de crise, com a infração nas alturas, o aumento a cada dia do desemprego e um sentimento coletivo de desesperança.

Por tudo isso, é compreensível a comoção que se impôs quando a CBF anunciou o roubo da taça Jules Rimet, um símbolo de orgulho para uma nação aos frangalhos que ao menos se provou vitoriosa por três vezes no gramado, número de edições da Copa que um país precisava ganhar para conquistar o objeto. O fato de termos servido de palco para receber a Copa 2014 e as Olimpíadas 2016 só estreitam os paralelos.

Em “O Roubo da Taça”, a recriação do crime é relativamente fiel. São os personagens os elementos mais ficcionais da produção, especialmente Dolores (Taís Araújo), não somente a companheira de Peralta (Paulo Tiefenthaler), o idealizador do roubo, como também a narradora informal da história e a única figura que não existia na realidade.

Agente de seguros, Peralta vive na pindaíba por sustentar o vício em jogos de azar. Quando deve um valor exorbitante, as abordagens de Bispo (Hamilton Vaz Pereira), o seu agiota, ganham um tom de ameaça. Vem assim o esquema com o seu amigo Borracha (Danilo Grangheia) em tomar a réplica da taça Jules Rimet na sede da CBF e revendê-la.

No entanto, a dupla de paspalhos descobre a partir dos noticiários que a taça em exibição era a original. O crime, claro, se transformou em um escândalo e as investigações da Polícia Federal, temida como nunca em um Brasil ainda no período de ditadura, buscava intervir com métodos nada éticos. Por isso a insegurança de Peralta e Borracha, que se veem em apuros para repassar a taça.

Além da história, é importante salientar o quanto “O Roubo da Taça” é fiel na recriação de uma época. Premiado no Festival de Gramado, Fábio Goldfarb assina uma direção de arte que deslumbra principalmente pela atenção aos pequenos detalhes, como os rótulos de produtos e os utensílios comuns no cotidiano da classe média. Também laureado em Gramado, o diretor de fotografia Ralph Strelow encontra as cores certas para preservar uma atmosfera retrô sem que ela soe falsificada.

Raridade em nossas comédias, “O Roubo da Taça” consegue fazer com que a narrativa iguale o mesmo refinamento de sua estética. Com senso de ritmo, Caito Ortiz também é dono de um bom timing cômico, jamais permitindo que o humor se exceda ao ponto de fazer chacota de uma história verídica com alguns traços sombrios. Outra distinção é como os personagens parecem estar diante de uma linha invisível que separa o heroísmo da vilania, um alívio em uma safra que se preocupa tanto em fabricar lições de moral.

+ Estivemos na coletiva de imprensa de “O Roubo da Taça”. Para acompanhar os destaques da conversa com os jornalistas, clique aqui.

Os Destaques da Coletiva de Imprensa de “O Roubo da Taça”

Aconteceu na segunda-feira desta semana (5 de setembro) a coletiva de imprensa de “O Roubo da Taça” em São Paulo, no Hotel Golden Tulip. A equipe mal tinha voltado do Festival de Gramado, onde o filme foi laureado com quatro troféus Kikito nas categorias de Melhor Ator, Melhor Roteiro, Melhor Direção de Arte e Melhor Fotografia.

Baseado no caso real do roubo da taça Jules Rimet em 1983 no Rio de Janeiro, a divertida comédia já está em cartaz nos cinemas do país. É também um dos pré-finalistas para tentar representar o Brasil no Oscar 2017.

No bate-papo descontraído com a imprensa, Mr. Catra (que faz uma participação especial no longa) foi o responsável por extrair as principais risadas dos jornalistas e, consequentemente, dos colegas de trabalho. Protagonista, Paulo Tiefenthaler respondeu a perguntas sobre as associações que ainda persistem com Paulo Oliveira, o seu famoso personagem do programa televisivo “Larica Total”. Stepan Nercessian também marcou presença, refletindo sobre como foi impactante testemunhar o roubo de um objeto que representou o orgulho de uma nação mergulhada em um período de crise.

A seguir, confira alguns dos depoimentos que rolaram do diretor Caíto Ortiz, do roteirista Lusa Silvestre e da atriz Taís Araújo. Já a nossa opinião sobre o filme saíra em breve.

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Sobre fazer uma comédia e o estado do gênero

Caíto Ortiz: penso que essa coisa de gênero é uma discussão menor. “Ah, comédia é isso. Drama é aquilo.” Isso é uma bobagem. O que acho uma pena, e que também é algo que vejo os brasileiros fazendo nos últimos anos, é deixar de pensar um pouco mais a cinematografia ao fazer uma comédia. Dá para ser muito mais inteligente, melhor. Não é por ser uma comédia que deve ser mal feita. É um gênero muito difícil de fazer. É preciso ter timing.

Lusa Silvestre: a comédia é um gênero muito nobre. Aristóteles escreveu livros sobre o teatro grego de sua época. Em um, ele tratou sobre a tragédia e, em outro, sobre a comédia. Se você ver o símbolo do teatro, é a carinha feliz e a carinha triste. A comédia é tão nobre quanto o sci-fi, o drama, o horror. Quando uma pessoa critica um filme por ser uma comédia, penso que ela precisa rever os seus conceitos, pois elas estão criticando Aristóteles.

Sobre o convite para interpretar Dolores

Taís Araújo: entrei no projeto há três anos. Começamos a fazer as leituras. Achei o roteiro sensacional e eu faço tão pouco cinema… Ficávamos no processo de marcar para iniciar as filmagens, mas o roteiro ainda estava mudando, recebendo novos tratamentos para aprimorar. Quando recebi um novo roteiro, disse: “Hum, a personagem piorou!”. Foi também uma época que queria muito ter um filho, mas aguardava para fazer o filme. Mas aí vieram novos tratamentos e eu engravidei. Nisso, o roteiro mudou por mais uma última vez. Liguei para o Caíto Ortiz e disse que estava grávida, mas que queria muito fazer esse filme. Disse para ele esperar pelo amor de Deus. Eles me esperaram e começamos a gravar quando a minha filha estava entre três e quatro meses. Toda a caracterização da minha personagem foi inspirada na Adele Fátima.

Sobre a concepção do roteiro

Lusa Silvestre: um dia, o Caíto foi à minha casa para ver “Estômago” antes mesmo de o filme estar pronto. A partir desse encontro, começamos a falar sobre o roubo da taça Jules Rimet e o Caíto veio com uma matéria online. Existiam duas fontes de pesquisa sobre o caso: o da época, que era muito sobre o caso policial, e o de 20 anos depois, sendo matérias um pouco mais sóbrias, avaliando tudo o que aconteceu. O filme se baseia em ambas, contendo o que foi descoberto no calor daquele momento e o nosso ponto de vista de hoje.

Caíto Ortiz: todas as pessoas envolvidas no crime estão mortas, houve meio que uma maldição pairando sobre o caso. Foi um processo interessante, pois ficamos durante todos esses anos escrevendo. A gente tentava por uma saída. Não dava certo e voltávamos para o início. Durante tudo isso, percebemos que era essencial a presença de uma figura feminina importante, um pilar.

Lusa Silvestre: quando começamos a fazer o roteiro, estávamos muito apegados à realidade. A sequência de fatos é muito maluca. Para você ter uma ideia, todos os envolvidos foram presos, a polícia pegou o dinheiro deles e os soltaram! Somente anos depois eles realmente foram capturados e mantidos na prisão por outros policiais. Consideramos que tudo isso era demais para o roteiro. Foi assim que pensamos na Dolores, que foi a personagem que nos ajudou a levar a história para frente.

Resenha Crítica | Últimos Dias no Deserto (2015)

Last Days in the Desert, de Rodrigo García

Filho do escritor colombiano Gabriel García Márquez, Rodrigo García seguiu uma trajetória bem diferente de seu saudoso pai. Desde que estreou em 2000 como diretor do delicado “Coisas que Você Pode Dizer Só de Olhar para Ela“, García tem alternado uma carreira no cinema e na tevê com narrativas que privilegiam as mulheres e a psicologia de pessoas com vidas nada extraordinárias.

Embora “Últimos Dias no Deserto” tenha um verniz bíblico, pode-se dizer que é a primeira vez que Rodrigo García faz um filme com proximidade da obra literária de seu pai. A “expedição” enfrentada pelo Yeshua (pronúncia hebraica de Jesus) vivido por Ewan McGregor carrega todo aquele peso existencial de obras como “Memórias de Minhas Putas Tristes” e “Relato de Um Náufrago”, por exemplo.

Também assinado por Rodrigo García, o roteiro de “Últimos Dias no Deserto” imagina com muitas liberdades uma peregrinação de 40 dias de Yeshua pelo deserto. Por si só e em jejum, Yeshua aplaca o vazio de sua jornada com orações, encontrando ao final Jerusalém como o seu destino.

Indo contra o caminho de filmes bíblicos de proporções épicas que seguem em produção, “Últimos Dias no Deserto” traz um Jesus Cristo intimista em uma “aventura” sem qualquer adorno para engrandecer as suas ações. A escolha favorece a intenção de humanizar uma figura divina, que se vê enclausurada em dilemas com as aparições inconvenientes do Diabo (também interpretado por Ewan McGregor) e ao cruzar com uma família.

Composta por um Pai (Ciarán Hinds), uma Mãe (Ayelet Zurer, que esteve na nova versão de “Ben-Hur” como a mãe do personagem-título) que adoece e um Filho (Tye Sheridan), tal família constrói aos poucos uma casa enquanto dormem em uma tenda. Habilidoso carpinteiro, Yeshua oferece a sua mão de obra e, no processo, percebe um atrito entre o Pai e o Filho – este segundo, um jovem de 16 anos, é claramente oprimido para viver no deserto.

Para potencializar ao máximo as relações do protagonista com os componentes dessa família e da figura demoníaca com as mesmas feições de Yeshua, “Últimos Dias no Deserto” é quase isento de elementos cenográficos. Com exceção de trapos, gravetos e o esqueleto do que pretende ser uma habitação, não há nada além da aridez do deserto diante dos nossos olhos.

A fotografia de Emmanuel Lubezki sequer se permite a transformar as paisagens em espetáculos visuais, algo esperado do mexicano que venceu consecutivamente três estatuetas do Oscar por “Gravidade“, “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” e “O Regresso“. Os planos abertos são geralmente usados em circunstâncias em que a desolação é o sentimento que toma os pensamentos de Yeshua.

O olhar muito particular de Rodrigo García para uma história sagrada confere, da mesma forma, algumas consequências prejudiciais. Ainda que não se furte de emoção genuína (como a descida de Pai em uma montanha para resgatar uma pedra preciosa), “Últimos Dias do Deserto” é frio ao apresentar certo distanciamento diante da própria história que narra, quase o aproximando de “O Canto dos Pássaros“, filme de 2008 dirigido por Albert Serra sobre a viagem d’Os Três Reis Magos para adorar o menino Jesus. Não há dúvidas de que Rodrigo García é melhor em seus relatos dramáticos de indivíduos facilmente identificáveis em nosso cotidiano.

Resenha Crítica | Nós Duas Descendo a Escada (2015)

Nós Duas Descendo a Escada, de Fabiano de Souza

O diretor Fabiano de Souza estabeleceu uma dinâmica inusitada para as filmagens de “Nós Duas Descendo a Escada”. Durante quase um ano, as atrizes Miriã Possani e Carina Dias tiveram dois encontros mensais para rodarem as suas participações no longa, estratégia para buscar uma autenticidade nos efeitos desgastantes de um relacionamento a princípio sem compromisso.

De um lado, temos Adri (Miriã Possani), jovem de 24 anos recém-formada que trabalha em uma livraria enquanto ambiciona por uma carreira artística. Do outro, há Mona (Carina Dias), arquiteta bem-sucedida prestes a completar 30 anos que, ao contrário de Adri, lida com muita libertinagem quanto a sua sexualidade.

A insegurança de uma e a confiança da outra são os principais elementos opostos que se atraem, mas logo as distinções entre essas duas mulheres dificultarão a relação, fazendo com que a narrativa (também da autoria de Fabiano de Souza) tente encontrar alguns pontos de fuga do padrão de algo que ele oferta como uma comédia romântica. Mas o resultado pretendido é diferente do que se efetiva na tela.

O lado cinéfilo do diretor e roteirista fica em evidência em inúmeras passagens de “Nós Duas Descendo a Escada”. Para ilustrar a passagem do tempo, recortes de jornais ganham a tela, geralmente destacando notícias sobre os lançamentos da época (as filmagens aconteceram entre 2011 e 2012) ou acontecimentos impactantes, como o falecimento de Carlos Reichenbach.

Essa devoção pelo cinema também se manifesta nas interações entre personagens. Divertida, há uma cena em que Adri e Mona se comunicam em uma locadora a partir de títulos de alguns DVDs. No entanto, na maior parte do tempo, as referências geram diálogos deslocados, insípidos. Por exemplo: ao chegar a uma festa de Mona, Adri se apresenta para uma convidada que afirma ela é mágica por estar de vermelho. “A fraternidade é vermelha”, Adri responde.

O mais grave de “Nós Duas Descendo a Escada” é como o direcionamento das coisas nos faz acreditar que um rompimento entre Adri e Mona seria muito mais crível do que a continuidade do namoro. Existe um esforço em tornar o mais íntimo possível a troca de afetos entre elas. Ainda assim, são duas pessoas sem sintonia, que na realidade não passariam do sexo casual.

Tanto que o único instante em que um choque de realidade despenca em “Nós Duas Descendo a Escada” é aquele em que Adri e Mona atacam uma a outra com um sem número de verdades até que concluem que definitivamente pertencem a universos diferentes. Não há nada pior do que um romance que nos dá mais contras do que prós para (des)acreditar na união de um casal.

27° Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo | Parte #5

Encerramos com esta leva de comentários a nossa breve e modesta cobertura do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, cuja 27ª edição foi a primeira que acompanhamos. Como cada sessão de duas horas conta com uma média de cinco curtas, infelizmente se tornou inviável tratar sobre cada obra assistida, ainda que tenhamos feito a escolha de dedicar somente um parágrafo para cada uma.

Aproveitamos também para compartilhar aqueles que foram eleitos os curtas favoritos pelo público, resultado dividido em duas categorias: mostra nacional e mostra internacional e latino-americana.

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MOSTRA BRASIL

* “Estado Itinerante”, de Ana Carolina Soares (MG)
* “Fotográfrica”, de Tila Chitunda (PE)
* “Galeria Presidente”, de Amanda Gutiérrez Gomes (SP)
* “Impeachment”, de Diego de Jesus (ES)
* “Índios No Poder”, de Rodrigo Arajeju (DF)
* “O Delírio é a Redenção dos Aflitos”, de Felipe Fernandes (PE)
* “Pele de Pássaro”, de Clara Peltier (RJ)
* “Quando os Dias Eram Eternos”, de Marcos Vinícius Vasconcelos (SP)
* “Quem Matou Eloá?”, de Lívia Peres (SP)
* “Retalho”, de Hannah Serrat (MG)

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MOSTRAS INTERNACIONAL E LATINO-AMERICANA

* “237 Anos”, de Ioana Mischie (Romênia, França)
* “A Banheira”, de Tim Ellrich (Áutria)
* “O Adeus”, de Clara Roquel (Espanha)
* “No Estacionamento”, de Juliana Orea Martínez (México)
* “Fuga”, de Pierre Le Gall (França)
* “Clandestinos”, de Fabio Palmieri (Itália)
* “As Coisas Simples”, de Alvaro Anguita Araya (Chile)
* “Madame Black”, de Ivan Berge (Nova Zelândia, Reino Unido)
* “Timecode”, de Juanjo Giménez (Espanha)

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Além da votação do público, o Festival também anunciou os vencedores dos prêmios viabilizados a partir de apoiadores e colaboradores para os realizadores participantes.

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PRÊMIO ITAMARATY

* Melhor curta brasileiro: “Quando os Dias Eram Eternos”, de Marcos Vinícius Vasconcelos (SP)

 

PRÊMIO REVELAÇÃO

* Melhor curta brasileiro de cursos de cinema ou audiovisual: “Sesmaria”, de Gabriela Richter Lamas (UFPel – RS)

PRÊMIOS AQUISIÇÃO

PRÊMIO CANAL BRASIL DE INCENTIVO AO CURTA-METRAGEM

* “Retalho”, de Hannah Serrat (MG)

 

PRÊMIOS SESCTV PARA NOVOS TALENTOS

* Melhor filme brasileiro de diretor estreante: “Sesmaria”, de Gabriela Richter Lamas (RS)

* Melhor filme internacional de diretor estreante: “Um Documentário”, de Marcin Podolec (Polônia)

PRÊMIO AQUISIÇÃO CURTAS TNT

* Melhor curta brasileiro de ficção: “Lá do Alto”, de Luciano Vidigal (RJ)

PRÊMIO TV CULTURA

* Melhor curta do Panorama Paulista: “Orquestra Invisível Let´s Dance”, de Alice Riff (SP)

 

PRÊMIO CANAL CURTA! E PORTA CURTAS

* Melhor curta dos Programas Brasileiros: “Abigail”, de Valentina Homem e Isabel Penoni (PE)

 

TROFÉUS E DESTAQUES

 

PRÊMIO VERMELHA – SPCINE

* Melhor curta dos Programas Brasileiros dirigido ou codirigido por uma mulher: “Estado Itinerante”, de Ana Carolina Soares (MG)

* Menção Honrosa: “Fotográfrica”, de Tila Chitunda (PE)

 

TROFÉU ABCA “O KAISER” PARA MELHOR ANIMADOR

* “Vaysha, A Cega”, de Theodoro Ushev (Canadá)

TROFÉUS “BORBOLETA DE OURO” – DESTAQUES LGBT

* Prêmio especial: “Antiman”, de Gavin Ramoutar (Guiana)

* Melhor curta Internacional: “Azul”, de Kaira Paköz (Turquia)

* Melhor curta brasileiro: “O Chá do General”, de Bob Yang (SP)

MENÇÃO TV CULTURA PARA NOVOS TALENTOS

* “Maioridade” (Oficina ‘Nóis na Fita’)
* “Eu Mesma” (Oficina ‘Nóis na Fita’)

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Fiquem a seguir com breves análises sobre os últimos filmes que assistimos do Festival, que se despediu de São Paulo neste domingo, 4 de setembro.

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A Dez Prédios Daqui (Ten Buildings Away / Asara Rehovot Mea Etsim)
Israel, 25′, dir. Miki Polonski

O diretor e roteirista Miki Polonski exibe uma perspectiva bem periférica de Israel, construindo uma relação familiar que promete desmoronar a qualquer instante através da conduta autoritária da figura paterna. Mas são os irmãos adolescentes que assumem o protagonismo da história, escapando das aparentes repressões domésticas apostando corridas em uma avenida. A conclusão obscura pode ser interpretada como um reflexo da perda prematura da inocência em uma sociedade de homens severos.

A Moça que Dançou com o Diabo (idem)
Brasil, 14′, dir. João Paulo Miranda

A expectativa pela recepção de “Aquarius” em Cannes foi grande. Mesmo que não correspondida com prêmios, os brasileiros puderam comemorar duas vezes: com a vitória de “Cinema Novo”, de Eryk Rocha, na categoria de documentários, e também com a menção especial que João Paulo Miranda recebeu pelo curta “A Moça que Dançou com o Diabo”. Louros à parte, o filme de Miranda não confere uma plenitude narrativa. Mesmo detendo uma cena final visualmente impactante, a visão sobre o conservadorismo religioso do nosso país soa limitado e a duração é insuficiente para comprarmos a transformação abrupta da protagonista.

Fronteira em Combustão (idem)
Brasil, 20′, dir. Thiago Chaves Briglia

Bem intencionado, o curta de Thiago Chaves Briglia acaba comprometido por uma visão mais televisa que cinematográfica diante de um texto baseado em ocorrências verídicas: o comércio ilegal de combustível trazido da fronteira entre o Brasil e a Venezuela. Gilberto (Anderson Souza) é um pai de família desempregado que acaba topando a recomendação de Riba (Bebeco Pujucan) de cruzar a fronteira para “puxar” gasolina. A falta de sutileza da dramatização fica bem evidente em duas cenas envolvendo Gilberto: uma na qual ele se esconde da polícia em cima de uma árvore e em outra na qual reencontra a família debaixo de um chuveiro.

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Vabagunda de Meia Tigela

Vagabunda de Meia Tigela (idem)
Brasil, 24′, dir. Otavio Chamorro

A comparação pode ser exagerada, mas essa realização de Otavio Chamorro não fica muito a dever diante de um Gregg Araki. Ambientado em uma escola de Distrito Federal, Chamorro dá vida à locação a partir de um uso bem cuidado de cores, bem como costuma fazer Araki, responsável por ter dado uma identidade aos filmes LGBT produzidos independentemente lá fora. A comédia traz como protagonista Jonas João, que encontra um livro de simpatias e pretende preparar uma para fisgar Rômulo, o rapaz mais popular da turma. Os minutos finais acabam sofrendo com alguns diálogos pouco inspirados, mas os personagens e as situações são bastante divertidas.

Quem Matou Eloá? (idem)
Brasil, 24′, dir. Lívia Perez

O caso Eloá continua ecoando atualmente, sendo usado como uma referência quando se estuda os resultados desastrosos de um sequestro a partir das ações inadequadas da polícia e da imprensa. O país nunca havia televisionado durante tantas horas um crime como o que levou a morte da adolescente de 15 anos pelo seu ex-namorado e o documentário em curta-metragem de Lívia Perez trata de reviver os principais detalhes a partir de depoimentos de especialistas diante das imagens do cárcere. Perez por vezes erra ao selecionar recortes de falas que somente reafirmam o que já testemunhamos no amplo material midiático, mas não se furta de pressionar o dedo em uma ferida à época pouco discutida: como Lindenberg, o algoz, virou uma prioridade diante de Eloá, a vítima, e o quanto isso reflete a falta de peso conferido às mulheres em situações de violência.

27° Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo | Parte #4

Na penúltima parte de nossa cobertura do 27° Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, comentamos sobre cinco filmes presentes em recortes distintos da programação. Vale informar que alguns títulos nacionais já estão disponíveis no site Porta Curtas, como “Impeachment“, de Diego de Jesus.

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Quando o Dia Nasce (Cuando el Dia Nace)
Paraguai, 12′, dir. Santiago Eguia

Santiago Eguia registra com muita sensibilidade a dinâmica de um casal de idosos. Trata-se de uma rotina de repetições, de gestos reprisados em atividades banais como a do café da manhã e da contemplação a dois do jardim da pequena propriedade em que vivem. Eis que o fim vem mais cedo para o marido, restando a Estela suportar a solidão até que a morte decida bater à porta.

A Culpa, Provavelmente (La culpa, probablemente)
Venezuela, 13′, dir. Michael Labarca

Exibido em Cannes, esse drama de Michael Labarca tem uma visão autêntica para a velha história de um homem em dúvida quanto a mulher com quem deve viver permanentemente. Durante um blecaute à noite, Cándido deixa a sua atual companheira sob o pretexto de ir comprar velas. Na realidade, ele vai visitar a sua ex-mulher, com quem teve uma filha que está com dificuldades de dormir. O toque ininterrupto de um celular vem como um bom elemento que impõe o dilema para o protagonista.

Impeachment (idem)
Brasil, 15′, dir. Diego de Jesus

Curioso ver as imagens desse curta no mesmo período em que Dilma Rousseff foi desposta do cargo de presidente após a aprovação de seu impeachment pelo Senado. No entanto, o resgate de Diego de Jesus vem a ser da cobertura de um pedido de 1999 para retirar da presidência Fernando Henrique Cardoso, acusado à época dos mesmos crimes de responsabilidade fiscal que provocou a queda de Dilma. Mas o curta não tem interesse pelo resgate histórico, e sim de evidenciar que nada mudou a partir de um tom satírico. Ganha intervenções bobas, que conferem ao trabalho um resultado inferior em comparação com qualquer vídeo engraçadinho que se vê no YouTube.

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A Valsa do Pódio

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A Valsa do Pódio (idem)
Brasil, 25′, dir. Bruno Carneiro e Daniel Hanai

“A Valsa do Pódio” pode servir de incentivo para qualquer um que ainda tem dúvidas em acompanhar ou não as Paraolimpíadas. Bruno Carneiro e Daniel Hanai encontram soluções visuais muito eficazes para ilustrar a trajetória da atleta Terezinha Guilhermina, que, assim como todos os seus irmãos e irmãos, foi acometida por uma perda de visão paulatina e que encontrou o seu refúgio na corrida. Ao também destacar o seu guia nas pistas Guilherme Santana, o curta é uma tradução do que há de melhor nos jogos olímpicos: os sentimentos de companheirismo e superação.

Amal (idem)
Marrocos, 15′, dir. Aïda Senna

A principal virtude do filme de Aïda Senna é prestar alguma contribuição para o debate que vem se disseminando cada vez mais no cinema sobre a posição da mulher em sociedades opressoras. Na premissa, Sonia (Aouatefe Lahmani) está prestes a se formar em Medicina, mas se surpreende grávida após um estupro que teria ocorrido há cinco meses. Pena que, ao trazer uma mulher que pode sofrer consequências graves por uma situação em que ela é a vítima, Senna acabe encontrando um subterfúgio fácil para o seu texto: Hicham (Mourad Zaoui), um amigo médico com o qual Sonia compartilha o seu segredo.

27° Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo | Parte #3

A seguir, comentamos sobre cinco dos seis curtas que integraram a programação da Mostra Internacional 8. Uma seleção impecável, contemplando curtas da França, Hungria, Israel e Polônia.

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The Reflection of Power
França, 9′, dir. Mihai Grécu

Capital e mais antiga cidade da Coreia do Norte, Pionguiangue serve de cenário para a captura de grandes cartões-postais literalmente submersos na água. O país mais fechado do mundo vem a ser principalmente uma prisão para os seus habitantes, com as celebrações dos primeiros dois minutos captadas de modo amador camuflando a realidade de uma sociedade inundada pela liderança ditatorial do infame Kim Jong-un.

Distúrbio (Zaburzenie)
Polônia, 12′, dir. Julian Talandziewicz

O filme de Julian Talandziewicz é um bom aperitivo para a particularidade dos dramas psicológicos produzidos na Polônia e que lamentavelmente não encontram uma chance no circuito nacional de cinema. O protagonista é um pacato bibliotecário preso a um nível incômodo de solidão. A única companhia é a sua mãe, compartilhando com ela uma intimidade tão grande que há até mesmo uma cena que a mostra usando o banheiro enquanto ele está nu se barbeando. A solução para o interesse que desperta por uma visitante recorrente da biblioteca pode ser aquém das expectativas, mas a apreensão persiste após os créditos finais.

Enquanto Sigo (As I Go)

Enquanto Sigo (As I Go / תוך כדי תנועה)
Israel, 8′, dir. Inbar Korem

Um primor técnico e narrativo este curta de animação vindo de Israel. Além da direção e roteiro, Inbar Korem se encarrega de inúmeras outras funções de “Enquanto Sigo”, como a edição e a direção de arte. Garotinha de 8 anos, Roni vive isolada em seu mundo de fantasia enquanto a mãe se aprisiona em um luto pela perda do filho mais velho, um soldado aparentemente morto em conflito. Ao dar vida a animais a partir de seus desenhos, Roni passa a também desenhar o irmão na tentativa de revivê-lo. Com belíssima trilha sonora composta por Andres Rapaport, “Enquanto Sigo” é aquele caso raro de produção que ressoa de modo devastador tanto em crianças quanto em adultos.

Era Uma Vez Duas Bailarinas (Volt egyszer két balerina)
Hungria, 25′, dir. Linda Dombrovszky

Cobrir uma vida em um longa-metragem não é tarefa fácil. Imagina condensar o depoimento de duas irmãs gêmeas prestes a completar 95 anos em formato de curta-metragem. As gêmeas Kolozs compartilham relatos não apenas de adversidades pessoais, como também das marcas de duas pessoas que passaram juntas por inúmeros conflitos e tragédias que marcaram a Europa do século passado. Linda Dombrovszky dá conta de mapear duas personagens ricas, comovendo especialmente pela atenção aos pequenos detalhes, como a ternura com a qual as Kolozs preservam as suas memórias em bonecas, fotografias e anotações.

Asfalto (Asphalt)
França, 21′, dir. Laura Townsend

Há algo de autêntico na visão da diretora Laura Townsend sobre a interrupção abrupta de uma vida. Esse sentimento parece cercar Sarah (Céline Martin-Sisteron), uma comissária de bordo desorientada que se hospeda em um lugar no meio do nada geralmente habitado por caminhoneiros em pausas de suas viagens. Presa a um relacionamento sério com um sujeito já comprometido, a personagem aos poucos descortina várias camadas de sua personalidade. Atentem a um diálogo delicioso e mordaz: ao questionar sobre a existência de Deus a um estranho, este a responde “Só se ele assumir a responsabilidade”.