Mulher-Maravilha e a sua falsa representatividade feminina

Wonder Woman, de Patty Jenkins

O mundo está em êxtase com “Mulher-Maravilha”. Altamente favoráveis, as críticas fizeram com que o universo da DC finalmente atingisse o mesmo nível de respeito então monopolizado pela Marvel. O público também está respondendo à altura, como apontou a queda de arrecadação do primeiro para o segundo fim de semana nas bilheterias americanas – embora expressivos, os 43% a menos de faturamento são bem inferiores aos 69% apresentados por “Batman vs Superman: A Origem da Justiça”.

Se os números são incontestáveis, o mesmo não pode ser dito sobre o que tem sido pregado como uma revolução: a posição assumida por “Mulher-Maravilha” como o aguardado representante do blockbuster de ação vindo do mundo dos quadrinhos endereçado especialmente para a audiência feminina e a sua ânsia por mais modelos heroicos. Pois quem se deixou levar pela propaganda, está se contentando com muito pouco.

Os trailers evidenciaram essa pegada que soa mais como oportunista do que efetiva em um meio de entretenimento que ainda desconhece os princípios de igualdade, seja de gênero ou de raça. Entre as piadinhas, Diana (Gal Gadot), a princesa das Amazonas, questiona à Etta (Lucy Davis), uma mera mortal, se uma secretária seria um modo gentil de se dirigir a uma escrava, pois ela diz que faz tudo o que é solicitado por um homem, o espião Steve Trevor (Chris Pine).

Já nos 141 minutos do filme, há poucas investidas de mesmo cunho. De inédito, teremos Diana entrando em uma loja de roupas com os trajes de Amazonas e saindo a contragosto com peças que julga como camisas de força, a exemplo dos vestidos com espartilhos. A heroína só é plena com os itens e adornos sumários de Amazona, guerreando com espada, escudo, braceletes e o laço da verdade, este extraindo tudo o que quer de seu inimigo.

Israelense com participação pouco memorável em alguns capítulos da franquia “Velozes & Furiosos”, Gal Gadot é mesmo um acerto como a nova encarnação de Mulher-Maravilha. A sua aparição em “Batman vs Superman: A Origem da Justiça”, embora fruto de um deus ex machina boboca, é uma das poucas coisas que se salvam.

Agora em um filme só seu, a protagonista é persistente com as suas crenças e valores mesmo que todos a vejam como uma Alice no “país das desmaravilhas” em busca de Ares, o deus da destruição. Também nada há de sexualizada em sua caracterização, com a figurinista Lindy Hemming desenhando armaduras de combates cobrindo corpos que não escondem as cicatrizes e a sujeira de mulheres obstinadas em guerrearem para proteger a redoma em que vivem.

Patty Jenkins instruindo a Amazona Gal Gadot: direção feminina de aluguel em projeto idealizado por homens

É o mínimo que se espera de Patty Jenkins e é só o que ela entrega como diretora de “Mulher-Maravilha”. Americana, a cineasta debutou em longa-metragem com 30 e poucos anos com “Monster: Desejo Assassino”, sendo uma contribuição indispensável para o extraordinário desempenho de Charlize Theron, que levou o Oscar pela sua caracterização como a assassina em série Aileen Wuornos. Afora projetos televisivos, Jenkins levou 14 anos para voltar ao cinema.

Irônico constatar que o seu drama de estreia sobre uma figura real que causa tanta repulsa contribui muito mais para compreender a posição da mulher na sociedade do que a sua fantasia com uma protagonista que nada deve em carisma. Em “Monster”, Wuornos jamais tem os seus atos inocentados, mas se compreende a sua natureza e o meio que habitou, primeiro retratando uma garota em progresso vulnerável pelo abuso dos homens para depois transformá-la em um “monstro” que se rebela contra eles.

Em “Mulher-Maravilha”, Patty Jenkins tem a ilusão de que está mudando os paradigmas do protagonismo feminino, mas a sua direção não exerce resultados efetivos. Ao contrário, pois a história, a ação e a costura não têm qualquer assinatura autoral. Quando Diana finalmente explode, não se vê uma mulher no ápice de sua destreza, mas sim um uso de efeitos visuais que a transformam em um borrão veloz ou em uma matéria envolta a um CGI de muito mau gosto, como a do canhão erguido com apenas uma de suas mãos. É fazer correr pela sarjeta toda uma preparação física que poderia ser usada em favor de soluções práticas.

Além do mais, o que caracteriza uma grande heroína é um grande inimigo. Em “Mulher-Maravilha”, a ala de opostos só a enfraquece. Na pele da espanhola Elena Anaya, a  Doutora Maru é uma oportunidade desperdiçada como vilã, provando que uma tentativa de representação feminina não se sustenta se as presenças secundárias não têm função ou relevância dramática.

“Mulher-Maravilha” é o melhor que a DC apresentou até agora? Sem dúvidas, ainda que tal feito seja fácil em um universo com “Batman vs Superman: A Origem da Justiça” e “Esquadrão Suicida”. Agora, vê-lo como um novo ícone para o empoderamento feminino soa tão falso quanto a promessa da Disney e da Lionsgate/Saban em fazer jus à comunidade LGBT quando anunciaram presenças homossexuais respectivamente em “A Bela e a Fera” e “Power Rangers”. Com 31 anos de vida, “Aliens – O Resgate” fez muito mais do que “Mulher-Maravilha” e as suas práticas mercadológicas que mais parecem um conto do vigário.

Resenha Crítica | Frantz (2016)

Frantz, de François Ozon

Enaltecer o diretor e roteirista François Ozon é um processo inevitável na avaliação de cada novo filme com a sua assinatura, mesmo aqueles que obtêm um resultado mediano. Prestes a completar 50 anos (em 15 novembro) e com uma carreira iniciada aos 21, o francês vem desde “Olhando Para o Mar” (1997) fazendo uma média de um longa por ano, sempre flertando com gêneros e temáticas.

Prova de sua versatilidade é “Frantz”, um drama que diagnostica os efeitos da Primeira Guerra Mundial vindo logo após “Uma Nova Amiga”, este sobre um homem maduro e viúvo revelando paulatinamente o pertencimento ao gênero feminino. E o melhor: o passeio por narrativas tão distintas em nenhum momento o faz abdicar de sua autoria, notória pela exploração da intimidade de personagens e a busca por uma estética extremamente particular.

Aqui, a alemã Anna (a extraordinária Paula Beer, revelada em “O Vale Sombrio“) é capturada em um momento de luto, pois ainda não superou a perda de Frantz (Anton von Lucke), morto em combate na França e com quem se casaria. Os pais de seu amado, Madga (Marie Gruber) e Hans (Ernst Stötzner), vivem com ela e até encaram com naturalidade a inevitabilidade de um novo pretendente, mas a extraordinária fotografia de Pascal Marti aponta que em sua existência não há mais cores.

O preto e branco só cede com a vinda não anunciada de Adrien Rivoire (Pierre Niney), que se apresenta como um grande amigo francês de Frantz a fim de prestar pessoalmente condolências à família. A cordialidade e fragilidade de Adrien atraem Anna, por quem está disposta a anunciar a sua paixão até o instante em que a verdadeira motivação de sua breve passagem pela Alemanha é compartilhada.

A princípio, o texto sensível, que deve as suas origens ao espetáculo de Maurice Rostand (já levada aos cinemas em 1932 pelas mãos de Ernst Lubitsch com “Não Matarás”), concentra as suas atenções nos efeitos devastadores em gerações maduras com o fim de suas jovens continuidades, bem como nas mulheres inconsoláveis com a morte daqueles com quem constituíram uma família. No entanto, “Frantz” é, acima de tudo, um filme sobre Anna.

De certo modo, não há como não aproximar Anna com a Angel Deverell de “Angel”. Assim como a personagem encarnada pela inglesa Romola Garai na obra mais subestimada de Ozon, Anna é uma protagonista capaz de forjar uma nova realidade, uma consequência de alguém em busca de um sentido para a sua vida. Sentido que acena para ela pelos caminhos mais dolorosos, como a impressão de perder um amor pela segunda vez e o flerte com a morte, esta tornando ainda mais emblemática o suicídio pintado por Manet em 1887. É pela tragédia que se revigora o desejo de viver, concluirá Anna.

Resenha Crítica | Animal Político (2016)

Animal Político, de Tião

O que impede um progresso mais imediato da cinematografia brasileira é um desequilíbrio de intenções. Enquanto o cinema dito mais popular parece preocupado em apenas reprisar fórmulas testadas e aprovadas incansavelmente, a produção alternativa é pouco vista pelo egocentrismo de suas propostas e o descaso ao endereçar temas que encontrem no público algum respaldo.

Melhor filme apresentado na primeira leva da Sessão Vitrine Petrobrás, “Animal Político” é um modelo do que deveria ambicionar qualquer produção experimental do país. A estranheza é o primeiro sentimento que contagia uma sessão de “Animal Político”, mas ela nos atrai ao invés de repelir. O humor também faz parte da fórmula, bem como um tom filosófico tão importante para narrativas existenciais.

Aqui, uma vaca com a voz de Rodrigo Bolzan é vista em diversos contextos do cotidiano, como no almoço em um restaurante, em compras em um shopping e na companhia de amigos em um churrasco ou na balada. Mas é um animal reconhecido como um componente humano, pertencendo a uma família com pais e uma irmã e marcando uma presença nas cenas sem qualquer deslocamento.

Tião, uma assinatura ostentada como diretor e roteirista por si só incomum, sabe como causar um efeito desnorteador, sendo astuto o suficiente para refletir sobre a banalidade de nossa existência impondo uma figura que embaralha as nossas certezas. A essa escolha, vem uma estrutura que quebra a linearidade do primeiro ato com uma nova história aparentemente individual, “A Pequena Caucasiana”, em que a ruiva Elisa Heidrich caminha totalmente nua aguardando desde a infância que alguém a resgate em uma ilha deserta.

Há outras ideias geniais no curso de “Animal Político”, como associar um livro da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) como uma espécie de bíblia ou monumento para atingir a sabedoria suprema sobre o sentido da vida. Há também uma reencenação de “2001: Uma Odisseia no Espaço”, dando ênfase ao nosso processo evolutivo. Muito mais que cômicas, tais estranhezas agregam muito peso para devaneios essencialmente mundanos, todos a serviço de uma realização que compreende que o experimentalismo vem mais de uma retirada temporária da zona de conforto e menos de uma agressão aos sentidos e intelectualidade. Desde já, um dos melhores filmes nacionais do ano.

Resenha Crítica | O Cidadão Ilustre (2016)

El ciudadano ilustre, de Gastón Duprat e Mariano Cohn

Em determinado momento de “O Cidadão Ilustre”, o protagonista da história Daniel Mantovani (Oscar Martínez) é questionado por um participante da palestra que ministra sobre a razão de ser um escritor. Ele responde que “um escritor, um artista em geral, é aquele que rejeita o mundo como ele é”. É uma afirmação muito esclarecedora e que o acompanhará nos desdobramentos a seguir da narrativa.

Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, o argentino Mantovani vive há anos isolado em sua bela mansão na Europa. O que nunca revelou é que a sua ficção é uma influência direta do que teria vivido em Salas, tecendo um retrato por vezes amargo de anônimos importantes de seu passado. Pois é dessa cidade natal que prioriza o convite para ir e ser homenageado.

Na mais grata surpresa da última edição do Festival de Veneza, Oscar Martínez, que pôde ser visto recentemente também em “Inseparáveis”, venceu merecidamente o Copa Volpi de interpretação masculina. Em uma composição meticulosa, o ator é brilhante principalmente na verdade que Mantovani expõe em observações implacáveis sobre o estado da arte literária e a sua reconexão com um cenário cercado de moradores que partem para um enfrentamento físico após derrotados intelectualmente.

A encenação do que paulatinamente se transforma em campo de guerra para um herói convertido em escória fascina sobretudo pelo texto de Andrés Duprat problematizar algo que poderia se limitar ao enaltecimento de um Mantovani com falhas de caráter. Ainda assim, a direção de Gastón Duprat e Mariano Cohn não corresponde a essa virtude.

Também responsáveis pela fotografia, Duprat e Cohn parecem influenciados pelos preceitos do Dogma 95, protegendo “O Cidadão Ilustre” de intervenções que julgam como artificialismos. O resultado detona mais um amadorismo do que necessariamente a correspondência com uma linguagem áspera com suporte digital. Um desleixo grosseiro que não estava presente em “O Homem ao Lado”, antepenúltimo longa de ficção da dupla.

Resenha Crítica | Um Tio Quase Perfeito (2017)

Um Tio Quase Perfeito, de Pedro Antonio

Um aspecto altamente subestimado e que muitas vezes justifica a popularidade da comédia brasileira vem a ser a identificação do público com histórias em que o nosso abismo social é a pauta central. Mas Pedro Antonio, que havia lidado com essa questão em “Tô Ryca!” no ano passado, quer tratar disso outra vez abandonando o tom fantasioso para seguir as tradições do family film, conforme contou nesta entrevista para o Cine Resenhas.

Acima de tudo, “Um Tio Quase Perfeito” é um veículo para testar o talento de Marcus Majella, que aos 38 anos recebe a sua primeira chance como protagonista em um longa-metragem. Como o Tio Tony, o comediante assume a responsabilidade livre dos cacoetes de seu impagável Ferdinando, personagem de “Vai que Cola”, dando forma a um perfil caro para o gênero: o do anônimo que precisa ralar para sobreviver ao fim do dia, mesmo que para isso recorra a trambiques.

Trata-se de um sujeito nos seus 30 e poucos anos sem renda fixa e casa própria e que ainda vive com a mãe (a fofa Ana Lúcia Torre), um reflexo de boa parte dos cidadãos de um país que a cada geração atrasa a conquista da independência e estabilidade. Sem sucesso para exercer a vocação de ator, Tony se apropria de suas habilidades na rua, seja se imobilizando para angariar algumas moedas como estátua viva, seja se passando por pastor para vender água milagrosa.

É o extremo oposto de sua irmã Angela (Letícia Isnard), estando em uma situação economicamente tranquila com os seus três filhos (interpretados por Jullia Svacinna, João Barreto e Sofia Barros) e um marido, Gustavo (Eduardo Galvão), que compensa a ausência com o bem-estar proporcionado com os rendimentos como político. Pois são desses rebentos que o Tio Tony vai cuidar por 15 dias, mais como uma estratégia para driblar o fato de ter sido despejado de seu apartamento e menos por se importar com eles.

Companheira de Sergio Rezende tanto no cinema quanto na vida privada, Mariza Leão deixa claro a sua influência como produtora na polidez do roteiro. É como se tudo o que de ruim que se espera de um filme família (as velhas rixas entre crianças e adultos, as prendas, as escatologias) desse lugar a algo muito mais afetuoso e possível para o contexto.

Extremamente positivo, por exemplo, como os pequenos são bem perspicazes ao notarem que há algo de desequilibrado com os seus responsáveis, como demonstra Patricia, a irmã mais velha vivida por Svacinna, ao oferecer o que poupou de mesada para o seu tio resolver um impasse com cobradores perigosos. Claro que há outros instantes que flertam com o pieguismo, mas nada que comprometa a diversão em família e (surpresa) um sabor de quero mais.

Resenha Crítica | Stefan Zweig: Adeus, Europa (2016)

Stefan Zweig: Farewell to Europe, de Maria Schrader

Os iniciados em Stefan Zweig podem não saber que o escritor teve uma vida privada tão equivalente à obra que deixou, principalmente no que diz respeito ao sentimento de enclausuramento nos últimos anos de sua existência. Pois o drama biográfico “Stefan Zweig: Adeus, Europa” tem ainda um atrativo extra para os leitores brasileiros, já que a maior parte do registro é concentrada em seu exílio no Brasil.

Judeu nascido na Viena em 1881, Zweig desembarcou em nosso país pela primeira vez no início da década de 1940, já emocionalmente abalado com as previsões que se concretizariam de caos na Europa da Segunda Guerra Mundial. Mais adiante, permaneceria em Petrópolis na companhia de Charlotte Elizabeth Altmann, sua mulher, à distância testemunhando o progresso nazista.

Mais conhecida por seu trabalho como intérprete, a alemã Maria Schrader deixa já claro no esplendoroso plano-sequência do prólogo o que pretende investigar sobre Stefan Zweig. Portanto, embora o escritor seja capturado mais adiante em circunstâncias essenciais para compreender o seu processo criativo, a particularidade de seu perfil que cresce em interesse nessa dramatização é o sentimento de não pertencimento, mesmo em um cenário acolhedor com autoridades que o bajulam.

Econômica, a atuação de Josef Hader é grandiosa principalmente por deflagrar certa melancolia em suas posturas cordiais, também ciente de seu estado privilegiado e, por isso mesmo, nada alheio ao drama de seus semelhantes. Trata-se de uma curiosidade de Schrader mais sobre o homem e menos sobre o artista, corroborando em uma escolha que certamente é mais efetiva para manter aquecido o interesse pelo autor de “Brasil, País do Futuro”.

Resenha Crítica | Perdidos em Paris (2016)

Paris pieds nus, de Dominique Abel e Fiona Gordon

A defesa do politicamente incorreto direcionou a comédia para um campo em que não parece existir limites para o exercício de uma piada. A defesa contra a censura assim isenta da responsabilidade aquele que não mede das consequências de sua bagagem cômica, um fenômeno comum não somente nos stand-ups, como também no próprio cinema.

Casal com longa tradição em espetáculos, Dominique Abel e Fiona Gordon chegam ao quarto longa-metragem juntos ainda correspondendo ao ideal de um Jacques Tati, em que o humor é uma junção de aspectos visuais e a palavra é secundária. O que não significa que “Perdidos em Paris” também não tenha a sua malícia, um dos vários elementos que tornam a obra de Abel e Gordon única.

Aqui, há um toque especial com a presença da lendária Emmanuelle Riva, lamentavelmente falecida em janeiro deste ano. Como Martha, uma idosa que se vê perseguida para abandonar o seu apartamento e viver em uma casa de repouso, ela é a razão para o encontro a princípio desastroso entre Dom e Fiona.

Sobrinha de Martha, Fiona vive na região mais gélida do Canadá e parte para Paris justamente para livrá-la do destino e obter a sua guarda. Desorientada como uma verdadeira turista, cruza o seu caminho com o de Dom, um morador de rua que se apropria da bagagem perdida de Fiona para depois tentar compensá-la na busca por sua tia.

A partir de planos simetricamente perfeitos, Dominique e Fiona, pela primeira vez sem trabalhar em parceria com Bruno Romy, narram essa história de encontros e desencontros em um dos mais belos cartões-postais do mundo com gags visuais e cores vivas que deixam “Perdidos em Paris” em um estado permanente de vibração. Mas o melhor é a inocência que contagia a todos, dessas que extrai do público mais maduro aquele estado de graça tão característico em crianças.

Resenha Crítica | Tudo e Todas As Coisas (2017)

Everything, Everything, de Stella Meghie

A literatura juvenil, bem como a sua subsequente transposição para o cinema, nunca passou por um período tão instável quanto agora ao tratar de um tema muito caro ao seu público-alvo: a finitude da vida. Às vezes o resultado nos pega de surpresa, como recentemente em “Antes que Eu Vá”, em que a protagonista reprisa o dia do acidente que aparentemente a matou. Em outras, o sucesso é obtido sem se desvincular de algumas controvérsias, como atualmente acompanhamos com a primeira temporada de “13 Reasons Why”.

Bem abaixo de tudo isso, há um abismo povoado por realizações como “Tudo e Todas as Coisas”, dessas que romantizam temas sérios, quando não pesados. De tão tortos os caminhos traçados, a adaptação do livro homônimo de Nicola Yoon chega até mesmo a flertar involuntariamente com as reviravoltas de um thriller de psicopata obsessivo, para não entrar em maiores detalhes.

O pior é que muitos vão se sentir tolos por se deixarem levar pela condição de sua protagonista, Maddy Whittier (Amandla Stenberg, a Rue de “Jogos Vorazes”). Mas não teria como ser diferente. Desde a infância, a garota sofre de uma doença raríssima chamada imunodeficiência combinada grave, que, em resumo, corresponde à baixa imunidade do indivíduo à bactérias e infecções.

Devido a essa condição, Maddy, prestes a completar 18 anos, passou toda a sua vida confinada em casa, incapacitada de ter qualquer contato com o mundo exterior e tendo como companhias somente a sua mãe Pauline (Anika Noni Rose), a sua enfermeira Carla (Ana de la Reguera) e a filha desta, Rosa (Danube Hermosillo). Quando está só, resta imaginar o que poderia fazer dentro dos cenários que contempla além das paredes de vidro do seu quarto e sala de estar.

Nesse ritual diário de observação, testemunha a chegada de um novo vizinho, Olly (Nick Robinson, de “Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros”). A troca de olhares à distância faz com que um sinta atração pelo outro, logo se aproveitando dos recursos eletrônicos para que possam se comunicar. Assim surgem os contornos para um romance impossível, com Maddy refletindo sobre explorar ou não o mundo exterior que pode matá-la.

Diretora de “Jean of the Joneses”, comédia indicada ao Independent Spirit Award deste ano na categoria de Melhor Primeiro Roteiro, Stella Meghie até exerce alguma influência em “Tudo e Todas as Cores”, como a escolha de uma dupla de protagonistas comum em um relacionamento interracial encenado com uma naturalidade tão bem-vinda em tempos em que tal escolha é problematizada ao ponto de ser a pauta central de uma narrativa. Por outro lado, não se extrai muitos frutos a partir de materiais ocos, com a história logo ultrajando uma condição em favor de uma resolução repulsiva e criminosa especialmente pelo seu viés açucarado. De fazer temer o que é ofertado para os adolescentes consumirem. 

Resenha Crítica | A Múmia (2017)

The Mummy, de Alex Kurtzman

Criaturas como o Lobisomem, a Múmia, o Homem Invisível e Frankenstein são algumas dos maiores patrimônios da Universal, tendo as suas primeiras encarnações até hoje exaltadas por suas contribuições na formação do terror dentro da produção americana. O que o estúdio não conseguiu refazer é a fórmula para que novas versões alcançassem alguma relevância dentro de nossa contemporaneidade.

Excetuando “A Múmia” de Stephen Sommers, nenhuma releitura desses monstros emplacou. Há virtudes em “O Lobisomem” ou em “O Fantasma da Ópera”, mas nada o suficiente para se reter na memória o pouco de novo que ofertam. Pior é o caso do “A Múmia” assinado por Alex Kurtzman e que chega agora aos cinemas, pois a sua irrelevância é fruto justamente do que de inédito se constitui.

A estratégia agora é a de copiar o modelo de negócios dos estúdios concorrentes, que buscam gerar lucros com o planejamento de franquias que tenham fôlego a longo prazo a partir da expansão de seus universos particulares. Aqui, sugere-se que teremos uma integração entre monstrengos, sendo o primeiro exemplar do batizado Dark Universe. Se o fracasso de “A Múmia” não for astronômico, já podemos aguardar por “A Noiva de Frankenstein” em fevereiro de 2019, além das atualizações de “O Homem Invisível” e “Frankenstein” a serem respectivamente protagonizadas por Johnny Depp e Javier Bardem.

Tom Cruise interpreta Nick Morton, um aventureiro acompanhado pelo seu melhor amigo Chris Vail (Jake Johnson) em uma missão no Iraque. Após uma sequência de explosões, ele, junto com militares e a arqueóloga Jenny Halsey (a inglesa Annabelle Wallis, de “Annabelle”), descobre a tumba de Ahmanet (Sofia Boutella, a Gazelle de “Kingsman: Serviço Secreto”), que logo é libertada com planos de dominação mundial junto com um parceiro destinado a amá-la.

Roteirista de seriados como “Hawaii Five-0” e “Sleepy Hollow”, Alex Kurtzman havia estreado na direção de um longa de ficção em 2012 com o drama “Bem Vindo à Vida”, atípico avaliando a sua carreira. Já em “A Múmia”, consegue corresponder somente ao que se espera de uma ação com computação gráfica ao menos razoável, nada contribuindo para outros fatores essenciais de uma boa aventura, como a construção de personagem.

Tendo enfrentado um inimigo de outro mundo somente em “Guerra dos Mundos”, Tom Cruise está claramente deslocado em “A Múmia”, encarando tudo com o pique de Ethan Hunt (o espião de “Missão: Impossível”) e incapacitado de lidar com as nuances de um protagonista idiota sujeitado a uma série de provações no ato final. Pior ainda é o humor por vezes inconveniente, tolo, de fazer ter saudades do Brendan Fraser. Porém, o agravante está no uso insípido do Dr. Henry Jekyll de Russell Crowe, antecipando as intenções patéticas da “liga extraordinária” de monstros da Universal. Melhor que pensem mais de duas vezes antes de irem adiante.

Resenha Crítica | Paris Pode Esperar (2016)

Paris Can Wait, de Eleanor Coppola

Há 14 anos, Diane Lane protagonizou aquele que segue um dos romances mais encantadores produzidos no cinema contemporâneo. A partir das experiências compartilhadas pela escritora Frances Mayes em um livro, Diane a incorporou em “Sob o Sol da Toscana”, lidando com uma versão pouco correspondente com a encarnação literária. É maravilhoso porque a jornada da protagonista está associada muito mais ao encontro de si mesma do que a de uma cara metade para justificar o final feliz.

Pode-se dizer que um dos principais atrativos de “Paris Pode Esperar” é trazer Diane Lane em uma narrativa sintonizada com a que apreciamos no filme de Audrey Wells, no sentido de fazer crescer diante de nossos olhos uma mulher madura em uma terra estranha revendo alguns conceitos formulados sobre o amor, a família, a sua independência e as vocações ocultas. Todas os temas devidamente desenvolvidos com a autonomia que somente uma mulher é capaz de corresponder.

Aqui, Diane é Anne, uma mulher na faixa dos 50 anos que mais parece um adorno para o seu marido Michael (Alec Baldwin), um prestigiado produtor de cinema. A razão de acompanhá-lo em uma edição do Festival de Cannes é de partir com ele logo em seguida para uma viagem para que possam se curtir. Os planos acabam sendo cancelados pela vinda de novos compromissos profissionais, com ela impossibilitada de segui-lo em um voo em decorrência de um incômodo auditivo.

Eis que surge a oferta de Jacques (Arnaud Viard, um ator pouco conhecido por aqui com um carisma singular), um parceiro de Michael, para conduzi-la de carro até o apartamento que tem em Paris. A questão é que o sujeito acaba se revelando aquele estereótipo de francês que adoramos: além de flertador costumaz, Jacques respeita um ritual cerimonioso nos períodos de alimentação e encarna o papel de guia turístico como nenhum outro.

Assim, “Paris Pode Esperar” vai assumindo a estrutura de um walking and talking movie, mas operando uma distinção que se vê em poucos deles: o convite espiritual para o espectador provar os sabores presentes da degustação de um prato até a visita de um cartão-postal. Daí novamente o dever de relembrar “Sob o Sol da Toscana”, pois o desejo de se lançar nas aventuras das personagens de Diane Lane é imediato.

E não é só isso, pois há em “Paris Pode Esperar” alguns traços autobiográficos. Agora com 81 anos, Eleanor Coppola é, como o sobrenome denuncia, esposa de Francis Ford e mãe de Sofia. Só que, ao contrário da família, demorou para materializar em filme as suas ambições artísticas, arriscando-se somente uma vez ou outra na direção de documentários. O debut na ficção é tardio e, ao mesmo tempo, perfeito, pois nada melhor do que testemunhar no crepúsculo de uma vida o surgimento de novas cores.