Resenha Crítica | Doidas e Santas (2016)

Doidas e Santas, de Paulo Thiago

A mais popular cronista do país, Martha Medeiros ainda assim não foi adaptada como merece para o cinema, tevê e teatro. Mas a razão é compreensível. Como fuga da realidade, as narrativas cinematográficas nem sempre se interessam pelo tom de crônica, por aquela história de gente como a gente em cotidianos sem os encantos que gostamos de fantasiar.

Além do mais, como adaptar para a ficção um texto de prosa tão particular, vindo de uma experiência íntima de seu autor? Definitivamente não é uma missão fácil, mas o veterano diretor e roteirista Paulo Thiago, muito perspicaz na harmonia de cores e que faz bom uso de echarpes como símbolo de recato, dá conta do recado em “Doidas e Santas”.

Como Beatriz, a carismática Maria Paula recebe em “Doidas e Santas” o seu primeiro desafio como protagonista no cinema, exigindo uma faceta além da cômica. Mesmo sendo um modelo de mulher que terceiros categorizariam como bem-sucedido, Beatriz tem vários pontos desalinhados em sua vida privada.

Mesmo psicanalista, ela se vê com tantas crises quanto os seus pacientes. Beatriz sente que que a chama da paixão se dissipou em um casamento sustentado há anos com Orlando (Marcelo Faria), tem uma filha única (Luana Maia) que não a respeita e uma irmã, Berenice (Georgiana Góes), desinteressada em dividir com ela a responsabilidade de ficar de olho em uma mãe (Nicette Bruno) já naquela idade em que não se pode deixar sem uma mediação.

Como comédia, “Doidas e Santas” às vezes fica devendo. Os desentendimentos entre irmãs rendem alguns risos pela naturalidade com os quais são encenados por Maria e Georgina. Já os personagens secundários nem sempre correspondem, a exemplo da melhor amiga fitness interpretada por Flávia Alessandra.

Melhor mesmo quando, assim como na vida, a linha entre o humor e o drama se mostra tênue, correspondendo tão bem ao prazer reconfortante e consolador da crônica. Lá para a metade final, “Doidas e Santas” chega a igualar “Divã”, especialmente por ser tão inesperado nas tragédias que o cotidiano nos faz engolir sem aviso prévio e nas surpresas que pregamos a nós mesmos quando reconsideramos uma felicidade idealizada. São algumas das reflexões que se exige de uma crônica, não é mesmo?

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