Resenha Crítica | Uma Mulher Fantástica (2017)

Una Mujer Fantástica, de Sebastián Lelio

Toda semana, adentram no circuito narrativas LGBT cada vez com maior naturalidade. Por isso, as fronteiras do que se determina como segmento andam borradas, uma vez que as histórias sobre indivíduos que integram uma comunidade de minorias estão perdendo tanto um caráter didático quanto puramente restrito àqueles que em comum assumem a preferência pelo mesmo sexo (quando não os dois), por uma caracterização ou gênero.

Pois “Uma Mulher Fantástica” é quase tão libertador quanto “Tangerine” neste aspecto. Aqui, acompanhamos Marina Vidal (Daniela Vega), uma jovem trans que no período comercial trabalha como garçonete e que vislumbra uma carreira como cantora lírica. Mas até mergulharmos em seu íntimo, temos um percurso inicial guiado por Orlando (Francisco Reyes), companheiro de Marina com mais de 50 anos e que vem a falecer repentinamente.

A partir desse ponto, o roteiro, vencedor no Festival de Berlim do Urso de Prata, nos mergulha no luto, mas através de Marina, forçada a adotar um comportamento (quando não sujeitada a ações desconfortantes) por ser quem é. Aos olhos da família de Orlando, como a ex-mulher Sonia (Aline Küppenheim) ou o filho Bruno (Nicolás Saavedra), Marina não é apenas a amante, mas também a presença que eles se negam a reconhecer como feminina.

O diretor e roteirista naturalizado no Chile Sebastián Lelio faz para a sua Marina algo parecido com o que vimos no esplêndido “Gloria”, no qual Paulina García encara as agruras de qualquer mulher se aproximando da velhice. Já no contexto de Marina, há a ignorância de uma sociedade que não compreende a questão do gênero, mas isso não se torna a pauta central de seu filme, pois os empecilhos e preconceitos não impedem que Marina siga um cotidiano comum com todas as suas dores e desejos.

Por tudo isso, não era necessário para Lelio insistir volta e meia em devaneios visuais, como o da sua protagonista andando contra uma forte ventania ou dançando em uma boate. Marina e sua intérprete são fantásticas demais para artifícios que buscam criar uma maior empatia por uma mulher que já nos conquistou nos primeiros segundos.

5 Comments

    1. Olá, Giselle. Sebastián Lelio nasceu em Santiago. Quanto ao parentesco, eu realmente me confundi quanto ao personagem e o ator que o interpreta: queria me referir realmente ao filho de Orlando, mas ele se chama Bruno e é interpretado por Nicolás Saavedra. Muito obrigado pela correção. 😉

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      1. Olá, Giselle. Sempre utilizo o IMDb para confirmar a nacionalidade de um artista. Lá é dito que ele nasceu em Santiago e há uma trivia que informa que se moveu da Argentina para o Chile aos dois anos. Difícil saber qual dado seria oficial. De qualquer modo, modificarei o texto dizendo que ele foi naturalizado no Chile. Obrigado mais uma vez.

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