Resenha Crítica | Happy End (2017)

Happy End, de Michael Haneke

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Depois de exibir em “A Fita Branca” a criação de uma geração que viria a seguir a instaurar o caos e de em “Amor” acompanhar a angústia de um casal a um passo do fim de sua existência, o austríaco Michael Haneke volta a versar sobre como a tecnologia vem a ser um componente importante na sua visão de mundo pessimista.

Pois o controle remoto que rebobina um vacilo de seus vilões protagonistas em “Violência Gratuita” e a estrutura “zapeada” de “Código Desconhecido” dão aqui lugar para a interatividade virtual. Há tanto o iPhone e a sua verticalização para registrar apenas a atrocidade desejada quanto a caixa do texto das redes sociais para fugir da realidade com sigilo.

Tudo para Haneke desenhar um panorama da hipocrisia que domina a classe alta europeia, visivelmente incomodada com um espaço apropriado por refugiados. Um incômodo sutil que se mescla a outros a partir das máscaras sustentadas por cada componente dos Laurent, família de grande influência em Calais, cidade francesa hoje central na crise de imigrantes.

Mais parece um coletivo de psicopatas. Há desde o idoso patriarca de Jean-Louis Trintignant praticamente reprisando o seu papel em “Amor” quanto a sua sobrinha, Eve (a excelente Fantine Harduin, de “A Viagem de Fanny”), uma Graham Frederick Young de saias que faz experimentos tanto com animais de estimação quanto com adultos.

Mesmo os dois pilares de sustentação da família, os irmãos Thomas (Mathieu Kassovitz) e Anne (Isabelle Huppert), agem por uma reputação que se arruína cada vez que mais nos tornamos íntimos dela, como bem ilustra o desabamento parcial de uma construção da qual a empreiteira que eles gerenciam está à frente, provocando uma vítima. Se Thomas, o pai de Eve, reprisa as imperfeições do primeiro casamento no relacionamento atual, Anne sofre de falta de incomunicabilidade com o seu filho instável, Pierre (Franz Rogowski).

Com uma implacabilidade muitas vezes confundida com sadismo, Haneke ressurge em “Happy End” mais brando, pois está incutido em seu registro um humor negro em uma voltagem que jamais tinha operado. Pois nada melhor do que o riso nervoso para refletir sobre o seu próprio tempo, ofertando já em seu título uma promessa de final feliz mais sarcástico como há muito não se via.

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