Resenha Crítica | Yonlu (2017)

Yonlu, de Hique Montanari

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Quem fizer questão de ver “Yonlu” no escuro, ainda assim já saberá no prólogo da narrativa sobre uma informação que o tornou conhecido pela maioria: o suicídio que cometeu com apenas 16 anos, em seu próprio apartamento em Porto Alegre. Assim, o que o diretor e roteirista Hique Montanari fará a partir disso é investigar todo um processo de depressão e as singularidades desse personagem, um músico promissor descoberto postumamente.

É o cenário de 2006, em que os computadores se transformaram em idem doméstico obrigatório, especialmente em família com adolescentes, e a comunicação à distância se dava mais em fóruns do que em redes sociais ou aplicativos de smartphones. Vinicius Gageiro Marques, como se chamava Yonlu, se apropriava desses recursos, fazendo amizades com usuários de outros países e buscando por plataformas para compartilhar as músicas que compôs.

Porém, se essa abertura para amizades virtuais evidenciava um garoto que poderia muito bem ter manejo para relacionamentos interpessoais no “plano real”, ela também demonstrava alguém fechado em si mesmo, com uma tendência enorme para atingir um nível irreversível de depressão. É o que paulatinamente vai acontecendo com o Yonlu vivido por Thalles Cabral, que encara o plano de interromper a própria existência como uma medida para a tristeza implacável proporcionada por um isolamento que o corrompeu e que encontra online uma contribuição assustadora para colocá-lo em prática.

Há boas intenções de Hique Montanari para a sua versão ficcional de Yonlu e o suicídio aqui não é debatido e encenado com essa poesia sedutora tão associada como dispositivo e largamente questionada com a vinda do seriado “Os Treze Porquês”. Ainda assim, é impossível relevar uma série de outras opções narrativas e visuais sustentadas pelo realizador.

Os primeiros dois atos de “Yonlu” mais parecem uma coletânea de clipes musicais e o que resta de dramaturgia não dá conta de entregar um personagem de contrastes, pouco correspondendo aos perfis de jovens deprimidos. Também pouco comunica o ritual repetido pela câmera nos espaços, como se com isso quisesse apontar sobre os riscos que há em não remover os filhos das privações perigosas de um quarto o dia todo de portas fechadas – os pais de Yonlu, mesmo obviamente isentos de qualquer culpa, são aqui exibidos como aqueles de um comercial de margarina.

Portanto, afora por nos (re)aproximarmos de um talento que tão cedo partiu, deixando como legado uma produção musical realmente consistente e que tanto se comunica pela abordagem das frustrações da tenra idade, “Yonlu” falha não somente como tributo, mas principalmente como uma obra cinematográfica que poderia exercer uma função social para uma geração mais delicada como nunca e que por vezes incorre a uma solução permanente para um problema temporário.

2 Comments

  1. Triste resenha
    Mais triste ainda em sua irresponsabilidade ao falar que a tendência suicida deriva de uma característica “delicada” (falta de força), de quem busca solução permanente para um “problema temporário”. Isso é diminuir toda a subjetividade de uma pessoa em sofrimento. Muitos achismos e julgamentos para uma crítica cinematográfica.

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    1. Patricia, não quis dizer que a depressão é um problema temporário, mas sim o conjunto de situações que um indivíduo mergulha ao se deparar com ela. E sequer associo a “geração delicada” que hoje existe com algo que evidencie uma “falta de força”, essa foi uma interpretação sua diante do texto. Espero que tenha a oportunidade de assistir ao filme em algum momento. Abraço.

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