Resenha Crítica | Pantera Negra (2018)

Black Panther, de Ryan Coogler

Com um bom número de personagens dos quadrinhos restabelecidos no cinema, a DC e a Marvel agora buscam expandir as suas franquias atendendo a um pedido de representatividade que parece sempre ignorado em Hollywood. Portanto, se em 2017 a DC veio com “Mulher-Maravilha” para oferecer ao mundo o primeiro grande blockbuster oriundo das HQs com uma mulher à frente da ação, a concorrente Marvel vem agora com “Pantera Negra”, em que um herói negro toma para si a responsabilidade de proteger não somente a sua comunidade, como também o mundo em que vivemos.

Quem tem memória fraca, pode não lembrar de imediato na elaboração desse discurso de que Wesley Snipes já foi a face de um desses personagens com habilidades sobre-humanas. Neste caso, Blade, vampiro que luta do lado do bem que teve garra de segurar uma trilogia, da qual dois episódios são bem superiores a “Pantera Negra”. Repete-se aqui o caso em que erguer uma bandeira de representatividade não esconde as barbaridades cometidas pelo coletivo criativo que a sustenta.

T’Challa (Chadwick Boseman), como foi batizado o Pantera Negra, já tinha sido visto em “Capitão América: Guerra Civil” e aqui em sua jornada solo é encarregado de assumir o reinado de Wakanda após a morte de seu pai. Isolada do mundo, a nação africana que lidera contempla muito mais do que os rituais culturais e a preservação de certo misticismo, a exemplo da colônia em que Shuri (Letitia Wright) desenvolve tecnologias desconhecidas em nossa modernidade.

A ameaça aqui tem cunho pessoal, pois o vilão da vez, Erik Killmonger (Michael B. Jordan), tem uma relação de sangue com T’Challa, desafiando-o a um duelo para tomar para si a posição de rei de Wakanda e assim instaurar um plano de dominação mundial. Ganha o apoio de Ulysses Klaue (Andy Serkis), aquele que seria o primeiro malvado do universo Marvel no cinema a se transformar em uma lembrança mais duradoura no imaginário coletivo caso não fosse destinado a uma desconfortável posição de coadjuvante.

Além dos personagens e os seus respectivos intérpretes já mencionados, é muito bonito ver nomes como Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Daniel Kaluuya, Angela Bassett e Forest Whitaker para formar um elenco majoritariamente negro. Porém, quase todos soam aqui como peças caricaturais, seja em rituais africanos encenados com um gosto duvidoso, no alívio cômico deslocado num contexto de poder quase shakesperiano e principalmente na adoção de um dialeto tão constrangedor equiparável com o de astros americanos forjando sotaque alemão em filmes sobre o Holocausto.

Mesmo aqueles que ignorarem o verniz político de “Pantera Negra” podem sair desapontados na intenção de apenas prestigiar os seus valores como entretenimento. Para um filme orçado em 200 milhões de dólares, é inadmissível tolerar um Chadwick Boseman que se transforma em uma matéria sem peso com a computação gráfica empregada quando está dentro do uniforme de Pantera Negra, um testamento de que Ryan Coogler, tão bom no registro dos embates físicos de “Creed: Nascido Para Lutar” em parceria com a sua fotógrafa Rachel Morrison, está aqui mais como um diretor de aluguel do que alguém a incorporar a sua autoria no projeto.

É de fato muito importante o plano final em que um garoto negro da periferia e sem instrução olha admirável para um T’Challa como se estivesse diante de um modelo para ambicionar em seu futuro. Resta agora deixar os discursos um pouco de lado e entregar obras cinematográficas em que o seu panfleto não sirva de embrulho para um material oco.

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