Resenha Crítica | Trama Fantasma (2017)

Phantom Thread, de Paul Thomas Anderson

Ao longo de sua carreira, Paul Thomas Anderson se viu flertando com abordagens específicas sem que estas fossem mais centrais que o jogo de manipulações arquitetado por seus protagonistas. Foi assim quando mergulhou nos meandros da indústria pornô em “Boogie Nights: Prazer Sem Limites” ou mesmo quando citou claramente a Cientologia em “O Mestre”.

Quem embarcar em “Trama Fantasma” desavisado, imaginará uma cobertura ficcional do mundo da moda sob um viés assombrado. No entanto, o que se constrói aqui é como um homem intocável, o estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis, na interpretação que anunciou como a última em sua carreira), vai aos poucos tendo a sua casca impenetrável se preenchendo com rachaduras ao se entregar a um amor mais lúgubre do que belo.

Meticuloso com tudo envolvendo o seu ofício e a sua agenda particular gerenciada pela irmã Cyril (Lesley Manville), do café da manhã à caminhada noturna, Woodcock até deixa transparecer um traço cordial em sua personalidade ao conhecer Alma (a notável Vicky Krieps, atriz de 34 anos nascida em Luxemburgo), transformada em sua companheira e também em sua mais nova modelo.

A partir do encontro desse homem sofisticado com essa mulher nada sutil na exposição de seus sentimentos, “Trama Fantasma” vai costurando não somente as peças idealizadas pelo figurinista Mark Bridges (que vencera o Oscar por “O Artista“), como também a dinâmica de uma união possessiva. É justamente por virem de origens tão opostas que Alma logo rejeita o deslumbre por uma vida luxuosa para impor uma situação em que Woodcock se vê necessitado de sua presença como a de um paciente pelo seu médico.

“Trama Fantasma” talvez seja o filme em que mais se tem as digitais de Paul Thomas Anderson impregnando o todo, no qual se responsabiliza, sem lhe conferir o crédito, pela fotografia. Mesmo a projeção digital não camufla todos os ruídos da bitola original de 35mm, trazendo uma nitidez à imagem muito mais palpável, bem como o sentimento de que estamos diante de uma narrativa encenada com toda a atmosfera do período na qual é ambientada.

O que impede Paul Thomas Anderson de elevar “Trama Fantasma” vem a ser a sua falta de prática no controle dos elementos fantasmagóricos de sua premissa, como se também tivesse centralizando os seus personagens em um cenário amaldiçoado pelo passado. Quando essa influência passa do campo da sugestão para se materializar diante dos nossos olhos, o sentimento é o de deslocamento com algo que não rivaliza com o assombro dos extremos que Alma e Woodcock sustentarão para seguirem juntos.

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