Resenha Crítica | Uma Espécie de Família (2017)

Una especie de familia, de Diego Lerman

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Realizador de “Olhar Invisível” e “Refugiado”, Diego Lerman se lança em “Uma Espécie de Família” a um projeto que traça uma estratégia que deverá ser cada vez mais habitual para a produção independente: a de permitir não apenas que produtores de nacionalidades diferentes viabilizem um filme, como também a de uma equipe de trabalho diversificada. Além da participação argentina, o longa conta também com investidores vindos do Brasil (sendo um deles Paula Cosenza, da Bossa Nova Films – assista entrevista aqui), Alemanha, Dinamarca, França e Polônia.

Os abismos sociais assumem o palco de todos esses países, mas é a Buenos Aires que é selecionada aqui para apresentá-los a partir de uma abordagem particular. Trata-se das transações ilegais no processo de adoção de recém-nascidos. em que famílias pobres, quase miseráveis, vendem os bebês de concepções indesejadas.

Incapaz de gerar uma criança, Malena (Bárbara Lennie), recebe uma ligação de que o bebê que adotou nasceu. Parte ao seu encontro acompanhada pelo marido, Mariano (Claudio Tolcachir), que às vezes não sinaliza tanto quanto ela o interesse em ter um filho.

O conflito se impõe quando os pais de Marcela (Yanina Ávila), a mãe da criança, passa a exigir que uma quantia superior a combinada seja paga por Malena e Mariano para a consolidação do acordo. Caso o contrário, entregarão o recém-nascido ao orfanato. Desenha-se assim um cenário em que a necessidade, seja ela emocional ou financeira, borra as linhas éticas, mas há também um delicado retrato sobre como a maternidade contribui para pisotear limites.

A relação entre Malena e Marcela contempla até mesmo uma influência bíblica no enredo, rendendo uma cena espetacular de nuvem de gafanhotos fazendo alusão a uma das dez pragas do Egito. São saídas visuais que somam para a autenticidade de uma narrativa liderada com força por Bárbara Lennie, uma das melhores atrizes em atividade, e Yanina Ávila, estreante com uma desenvoltura de quem entende do riscado.

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