Resenha Crítica | Maria Madalena (2018)

Mary Magdalene, de Garth Davis

Em pleno século XXI, soa absurdo como os textos sagrados contidos na Bíblia sejam pouco contestados após tanto tempo de evolução humana, com valores arcaicos e uma visão de mundo plenamente masculina pautando o comportamento da sociedade contemporânea. Ao menos ainda há a liberdade de expressão e também a artística que autorizam a manifestação de pensamentos que provocam rachaduras em verdades sobre uma divindade que por todos estaria olhando.

Em “Maria Madalena”, o cineasta Garth Davis (de “Top of the Lake” e “Lion: Uma Jornada Para Casa“) parte de um roteiro assinado por duas mulheres, Helen Edmundson e Philippa Goslett, para encenar os últimos momentos de Jesus de Nazaré (Joaquin Phoenix) pela perspectiva, como entrega o título, de Maria Madalena (Rooney Mara), a princípio flagrada como uma mulher acusada por seu irmão Daniel (Denis Ménochet, que viveu o pai e marido aterrador de “Custódia”) de ser possuída por forças malignas e depois como uma discípula do filho de Deus.

Citada um pouco mais que uma dúzia de vezes na Bíblia, Maria não foi tida somente como um dos discípulos mais queridos de Jesus, como a primeira pessoa que teria testemunhado a sua ressurreição três dias após a sua crucificação. Um fato segundo pesquisadores intolerável em um mundo patriarcal desde a sua existência e que também será controverso para alguns espectadores de “Maria Madalena”.

No entanto, mesmo que seja fascinante ver a mulher em uma posição decisiva no testemunho dos ensinamentos e milagres de Jesus de Nazaré – posição esta sabotada por dois milênios com acusações de que seria inclusive uma prostituta e que só em 2016 passou a ser tratada como a apóstola dos apóstolos pelo Vaticano, falta brilho e apelo emocional da parte de Garth Davis na encenação de acontecimentos sabidos de cor e salteado. Afora um primeiro ato exemplar na apresentação de Maria e uma conclusão catártica, falta novidade diante da perspectiva feminina sobre a jornada dos apóstolos e a via crucis de Jesus.

Em tempo: inúmeros países, incluindo o Brasil, terão acesso a “Maria Madalena” muito antes que os Estados Unidos, pois lá o lançamento do filme está congelado devido os direitos de distribuição pertencerem a Weinstein Company, que entrou com pedido de falência após as acusações de assédio ao seu cofundador Harvey Weinstein. Já a belíssima trilha sonora é coassinada pelo islandês Jóhann Jóhannsson, em seu último trabalho antes de falecer em fevereiro deste ano.

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