Entrevista com o diretor Alan Oliveira, do documentário “Cinemagia: A História das Videolocadoras de São Paulo”

Muitos cinéfilos nascidos nos anos 1980 e 1990 certamente foram formados pelo acesso às videolocadoras, que ao longo desses períodos reinavam absolutas. Em cidades mais populosas, era fácil encontrar ao menos um estabelecimento em cada bairro. Essa realidade mudou com a virada do século, com alternativas que aos poucos foram quebrando o ritual de alugar filmes, sendo as primeiras a propagação da pirataria e o download virtual e agora a consagração do streaming.

É, portanto, um bom momento para assistir ao documentário “Cinemagia: A História das Videolocadoras de São Paulo”, que vem resgatar os nomes que firmaram as raízes de um modelo de negócio hoje em processo de extinção. Uma análise da realização foi publicada aqui e hoje há uma entrevista com o seu diretor, Alan Oliveira.

Além da conversa, Alan também ratifica que “Cinemagia” é um projeto que receberá outras encarnações além do cinema. Já há planos para uma série televisiva com foco em clientes de videolocadoras, bem como a publicação de um livro sobre todos os processos nessas mídias. Enquanto elas não surgem, é possível assistir ao documentário no iTunes e Google Play e encomendar a partir do próximo mês o DVD duplo com o selo da Versátil – haverá também lançamento futuro em Blu-ray e… VHS!

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Qual a sua ligação afetiva com as videolocadoras? O encerramento das atividades de um estabelecimento em especial trouxe a ideia para o documentário?
Eu frequento videolocadoras desde pequeno, quando eu tinha uns 8 anos. Nasci em 1980, então peguei o primeiro boom das lojas e consegui aproveitar bastante aquela grande novidade. Eu estudava de manhã e passava as tardes em duas lojas do bairro onde eu morava, na Zona Norte de São Paulo. Eu acompanhei ao longo dos anos as inúmeras transformações desse modelo de negócio até que em 2014 as últimas lojas da cidade começaram a fechar. Tenho comigo de que essa é uma das minhas tarefas como realizador: captar o momento. Neste caso, captar a magia! Eu não queria falar sobre o fim porque as lojas ainda existem ao redor do Brasil, elas não acabaram. Eu queria fazer uma homenagem aos donos das lojas e perpetuar suas lindas histórias em um produto que pudesse falar sobre o que foi esse mercado para as novas gerações, que pudesse propagar essa magia que tocou a minha vida e a de tantas outras pessoas. E deu certo.

O processo para a realização de “Cinemagia” totalizou três anos. Como se deu a seleção e procura dos nomes essenciais para coletar depoimentos? Foi desafiadora a construção de uma linha narrativa e cronológica diante de todo o material bruto?
Foi um mergulho profundo em inúmeras pesquisas em busca de informações sobre as primeiras lojas da cidade. O homevideo brasileiro começou aqui em São Paulo, então tudo o que nasceu aqui como formato foi replicado para os demais estados. Por mais que o tema pareça ser abrangente, não há artigos online sobre as pessoas que criaram o mercado. Sempre achei isso desrespeitoso com a história da cinefilia da cidade.
A busca começou em muitos garimpos de sebos dentro e fora de São Paulo, além das peças que cada um dos depoentes forneciam gradativamente ao logo das 55 gravações que realizamos, nos ajudando a montar esse grande quebra-cabeça. Trabalho como montador há mais de 10 anos e a edição do filme foi um grande desafio que durou cerca de 5 meses, em meio a mais de 200 horas de material bruto.

Durante o processo de filmagens, muitos acontecimentos se deram, desde o fim da fabricação do VHS pela Funai Eletric até o falecimento do jornalista Christian Petermann, um dos seus entrevistados. Como foi encontrar um ponto final em seu registro com a influência desses e outros fatos?
Não há ponto final na história das videolocadoras de São Paulo. Nem mesmo no filme “CineMagia”. Nós apenas promovemos os fatos desde o início do mercado de videolocadoras em 1976 até 2016, totalizando 40 anos de celebração dessa história. A história continua!
Ainda existem lojas abertas em São Paulo. Das 23 lojas que participam do filme, duas ainda operam normalmente: a Charada Video Club, em Sapopemba, e a Video Connection, que fica dentro do Copan, no centro da cidade. Os filmes estão nas prateleiras à espera dos clientes.
No interior do estado e fora de São Paulo, muitas lojas ainda se mantêm como alternativa para o streaming, atendendo públicos que procuram pela mídia física. O que mudou, em termos gerais, foi o hábito das pessoas na maneira como elas consomem filmes perante as transformações tecnológicas. Meu cuidado com esse tema sempre foi explícito, em especial por não abordar essa celebração como o fim de uma era.
A Funai foi a última empresa no mundo a parar de fabricar videocassete, encerrando suas atividades em julho de 2016, quando nós já havíamos encerrado as gravações do filme. O querido amigo Christian Petermann faleceu um pouco antes disso, em maio. Foi muito triste. Esses fatos só nos serviram como motor para que o projeto chegasse ao público em forma de uma homenagem necessária, como uma carta de amor às videolocadoras.

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Documentário estará disponível nas lojas a partir de maio

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Você aborda Tânia Lima, diretora executiva da UBV&G, entidade que representa o setor de entretenimento doméstico muito criticado por donos de videolocadoras que tiveram os seus negócios encerrados a partir do avanço da pirataria com a transição do VHS para o DVD. Acredita que exista uma ineficácia na aplicação das leis antipirataria ou que a vinda do streaming foi o que realmente decretou o fim das videolocadoras?
A UBV&G é uma associação que representa a indústria, os fabricantes, as distribuidoras desse mercado e tem papel fundamental no mercado de homevideo brasileiro. Ela não representa as videolocadoras. Suas operações e sua história em particular não são temas do filme. A diretora executiva Tânia Lima trabalha nesse mercado há mais de 30 anos e seus relatos para o filme revelam a emoção que ela promoveu nos cargos que ela exerceu em sua trajetória profissional. Foram inúmeras batalhas travadas contra a pirataria no Brasil, tanto pelos donos das videolocadoras quanto pela UBV&G.
Nenhuma dessas batalhas venceu o hábito e o costume das pessoas em baixar filmes pela internet ou comprar filmes gravados em discos de DVD nas ruas. Mais do que ter leis antipirataria, essa é uma questão que envolve a educação e a cultura de uma sociedade que é movida à tecnologia, que é estimulada a depender cada vez mais de serviços digitais. É também uma questão de transformação global de comportamento, de tendências, da evolução do sistemas de consumo.
Nada disso decretou o fim das videolocadoras. Como disse anteriormente, elas não acabaram, ainda existem. O que mudou foi o hábito das pessoas e a forma que consumimos filmes. Temos que ter respeito com essas pessoas que continuam perpetuando esse história com suas lojas abertas. São seus negócios, seus sonhos.

Ao fim de “Cinemagia”, testemunhamos muitas videolocadoras vendendo o seu acervo para fechar permanentemente as suas portas. Pôde identificar em suas pesquisas finais quantas locadoras ainda restam em São Paulo?
Como você mesmo disse na pergunta, ainda restam videolocadoras em São Paulo. Os números oficiais de 2017 ainda não foram divulgados. Esses números mudam constantemente, justamente por conta da evolução das mídias e do acesso à tecnologia. Mas há pouco soube da história de uma pessoa que comprou um acervo de filmes de um sebo (que veio de uma videolocadora) para abrir uma loja em Ourinhos, que está em funcionamento há meses com o saldo positivo.

Com as videolocadoras tendo se transformado em um mercado extinto e as distribuidoras investindo cada vez menos na mídia física, consequência da ascensão do streaming e até mesmo do fracasso do Blu-ray no território nacional, como avalia a relação que hoje temos com o cinema em nossos lares?
O mercado não está extinto, mas sim, os distribuidores investem cada vez menos nas mídias físicas. O Blu-ray não pegou no Brasil por causa do preço, infelizmente. As mídias físicas são vistas atualmente por muitos como frutos de um “mercado de nicho”. É uma pena.
Como eu comentei em outra entrevista, a tecnologia muda tudo, sempre mudou. É apenas isso que precisamos saber. Em toda evolução perdemos alguma coisa e ganhamos outra. O que sabemos é que a forma de ver filme (em casa e nos cinemas) vai mudar constantemente, para muitos caminhos. Sempre visando o que for mais cômodo, deixando a experiência desses acessos menos sensorial, menos humana. Mas a cinefilia seguirá, firme e forte, enquanto houver histórias para contar.

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