Resenha Crítica | Górgona (2016)

Górgona, de Fábio Furtado e Pedro Jezler

Muito mais conhecida pela sua trajetória nos palcos do que na televisão ou cinema, a atriz Maria Alice Vergueiro passou a ser um nome mais popular para o grande público com o mais incomum de suas colaborações. Produzido há 12 anos, o curta-metragem “Tapa na Pantera” foi um dos primeiros virais na internet em um período em que o YouTube ainda engatinhava para ser a maior plataforma de vídeos do mundo.

Hoje com 83 anos, a veterana está em um estágio avançado de Parkinson, já identificado quando iniciou as apresentações em 2010 da peça “As Três Velhas”, da autoria de Alejandro Jodorowsky. Também diretora do espetáculo, Maria não apenas se apresentou em cadeira de rodas e com dificuldades em decorar o texto, como buscou recursos por conta própria para viabilizá-lo.

É durante o período de quatro anos da encenação de “As Três Velhas” que os realizadores Fábio Furtado e Pedro Jezler buscam desenhar um perfil de Maria sem necessariamente corresponder aos padrões das biografias documentais. Em “Górgona”, o público identifica quem é Maria a partir de seu ofício artístico, sem em nenhum momento precisar conhecer a sua intimidade para fora dos espaços que abrigam “As Três Velhas”.

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Trata-se de um registro duro não somente pela claustrofobia característica do ambiente teatral alternativo, mas pelo tom respeitoso em que acompanha uma artista que insiste em fazer o que acredita, mesmo que o seu corpo frágil não corresponda mais aos comandos emitidos por uma mente sem o vigor de outrora, ainda que extremamente lúcido. Algo que Maria autoriza captar sem sustentar filtros, como se cada dia guerrilhasse em um campo de batalha.

Com tudo isso, “Górgona” ainda faz pensar como se dá hoje o apoio à produção cultural no país, sabotando a materialização daquilo que não corresponde aos rótulos esperados por uma visão politicamente correta da arte. Algo que se esclarece não somente com a dificuldade de Maria em pagar as contas, mas também na posição que se vê ocupando em um tablado de indiferenças ao seu trabalho.

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