Entrevista com Lucrecia Martel, diretora de “Zama”

Ausente na 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a cineasta argentina Lucrecia Martel compensou vindo recentemente a cidade para promover “Zama”, o seu primeiro longa-metragem de ficção em nove anos. Não atendeu somente a imprensa, como também participou de uma exibição de “O Pântano” no Instituto Moreira Sales São Paulo fazendo comentários simultâneos, bem como das duas sessões que antecederam a estreia comercial na última quinta-feira, 29 de março.

Em uma “mesa redonda” com 40 minutos de duração, Lucrecia concedeu entrevista para um grupo de jornalistas (com o Cine Resenhas incluso) em um fim de manhã no escritório da Vitrine Filmes, distribuidora do filme em território brasileiro. Avessa às câmeras, teve como única exigência não ser filmada para que assim os seus devaneios fluíssem com mais naturalidade.

A seguir, veja as respostas para as questões que formulamos ao longo da conversa.

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Como foi a sua comunicação com o diretor de fotografia Rui Poças para conceber os planos e a estética de “Zama”? O romance de Antonio Di Benedetto forneceu a vocês a idealização de imagens ou precisaram fazer pesquisas sobre retratistas visuais da época?

Na aproximação com o diretor de fotografia, sempre há essa discussão sobre se trabalhar com mais e menos contrastes e essas palavras são muito difíceis de se interpretar na concepção das imagens. Por isso sempre houve referências além do romance, mas sempre para determinar esses contrastes, as cores. Não necessariamente selecionamos um pintor ou um fotógrafo e nos baseamos unicamente em suas obras. O que foi importante estabelecer foi trabalhar com pouca iluminação, somente com as velas e o fogo, para assim situarmos o espectador no passado.

Há onze países envolvidos na produção de “Zama”. Isso permite que a sua obra tenha um alcance nunca antes obtido em sua carreira?

Por um segundo, cheguei a pensar que sim. No entanto, os produtores internacionais não estão obrigados a exibir o filme em seus respectivos territórios. O fenômeno para haver tantos produtores em “Zama” é porque está cada vez mais difícil se envolver em um projeto com esse nível de liberdade, sem compromisso com o mercado, mas sempre com um compromisso com o espectador. Todo esse número de produtores aponta que não foi fácil conseguir dinheiro para o filme, mas não significa que ele o interessou a todos para lançá-lo em seus países.

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Registro da produtora Vania Catani

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Você faz alusões desse passado colonial com a nossa contemporaneidade, como se, guardadas as devidas proporções, fôssemos como Zama nesta busca interminável pela liberdade. Como avalia a existência humana? É parte do nosso instinto vivermos para alimentarmos esperanças?

Uma coisa que penso ser muito terrível na cultura norte-americana é essa ideia cristã sobre o final, a recompensa final, que costuma predominar toda a narrativa ocidental. Não podemos viver assim, pensando que todos os nossos dias não têm valor, que o que sempre importa é o que eles nos reservam ao final. Nós sempre trabalhamos, nunca temos tempo livre. Há um entendimento nessa matriz cultural cristã de que o corpo não vale nada, tampouco o tempo presente. A felicidade, o tempo livre, nada disso parece ser valorizado. Se você trabalha diariamente 12 horas sem parar, tem que acreditar que ao final disso tudo valerá a pena. Como assim? É como Zama diz: “Não viva de suas esperanças.” Isso é justamente dar valor ao presente. Basta de se pensar no futuro. A hora é agora, urgente, imediata. E te digo mais: há todas essas queixas como “ah, essas feministas!”. Isso se dá porque as mulheres estão cansadas agora. Elas já não querem mais pensar sobre o futuro, querem que as coisas aconteçam já. Assim como os movimentos negros estão enojados e dizendo coisas que soam extremas, mas é tudo porque estão cansados agora. Por isso que gosto de Zama, pois ele faz uma defesa contrária a esse pensamento tão persistente em nossa cultura.

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+ Análise crítica de “Zama”
+ Entrevista com a atriz Mariana Nunes e o ator Matheus Nachtergaele

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