Resenha Crítica | Arábia (2017)

Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans

O tempo que investimos em ocupações que asseguram os recursos para vivermos (sobrevivermos?) é o que mais preenche a nossa existência, nem sempre nos autorizando a desfrutar com plenitude o que resta para além do nosso trabalho. Taí o tempo na ficção estar mais preocupado justamente em compreender o drama de seus personagens quando eles estão outros ambientes, onde há mais campo para o isolamento ou as relações interpessoais.

Vale tal observação porque os diretores e roteiristas Affonso Uchôa (que antes dirigiu “A Vizinhança do Tigre”) e João Dumans (autor do texto de “A Cidade Onde Envelheço“) estão interessados no oposto. Aqui, toda a história de Cristiano (Aristides de Sousa) é moldada a partir de seus bicos e ofícios, na maior parte vivendo como um nômade em busca da oportunidade que lhe dará o próximo teto temporário.

O que se sabe sobre Cristiano a princípio é o seu destino final: Ouro Preto, o ponto de parada em que sucumbe a uma exaustão física que o leva a ser hospitalizado. A partir daí, temos acesso ao seu passado recente registrado em um caderno, cuja leitura é realizada por André (Murilo Caliari), adolescente que parece deslocado em “um lugar de gente velha”, nas palavras de Cristiano.

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A partir do flashback que caracteriza todo o desenvolvimento de “Arábia”, os realizadores recorrem à narrativa clássica, estabelecendo conflitos e mesmo um interesse amoroso ainda que certo pessimismo já esteja marcado em sua jornada. É que caracteriza o principal problema do filme, estabelecendo uma substituição de protagonistas a partir do segundo ato que esquece a presença de André ao mesmo tempo em que dificulta um envolvimento imediato com Cristiano.

Ainda assim, não há como não se sensibilizar com a radiografia que fazem de indivíduos aparentemente invisíveis, cada um com uma grande história de vida para compartilhar. E é definitivo para esse efeito a opção por uma visão de mundo detalhista de Cristiano sobre a via-crúcis que atravessa, manifestada a partir de uma narração em off que assegura a esse personagem uma prosa poética.

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