Resenha Crítica | Todo Clichê do Amor (2018)

Todo Clichê do Amor, de Rafael Primot

Seja com um único diretor à frente da empreitada ou com vários dispostos a preservar as suas personalidades para costurar uma colcha de retalhos, talvez não exista um exemplar notável dentro do modelo dos segmentos, em que breves histórias buscam dar forma a um longa-metragem, algo muito parecido com o que também testemunhamos na literatura dos contos, esta evidentemente com maiores êxitos. Porém, “Todo Clichê do Amor” pouco se esforça para figurar ao menos no grupo dos razoáveis.

É curiosa a mudança radical adotada pelo diretor, roteirista e intérprete paulista Rafael Primot comparado ao seu debute com “Gata Velha Ainda Mia“. Por um lado, persiste o interesse em centralizar a(s) história(s) em um único ambiente, medida para driblar limitações orçamentárias e focar ainda mais na construção de personagens. De outro, a densidade do universo criativo de uma escritora amarga cede aqui espaço para um registro mais descompromissado.

Quatro histórias moldam “Todo Clichê do Amor”. O pontapé é dado por uma em que Giovana Zotti é a protagonista, uma maquiadora apaixonada por um astro de produções pornográficas. Depois, há o reencontro e a tentativa de reconciliação de Maria Luísa Mendonça com a sua enteada Amanda Mirásci no funeral de seu marido. Adiante, há as peripécias do próprio Rafael Primot em conquistar o coração da garçonete de Débora Falabella e, por fim, as confusões que Eucir de Souza se mete nas mãos de uma stripper interpretada por Marjorie Estiano.

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A intenção de Primot com o gerenciamento desses núcleos é a de quebrar os chavões justamente com a estranheza que provoca com a criação de contextos absurdos para só depois aceitar as reconciliações e tragédias que costumamos aguardar em histórias românticas. Estabelece como conexão a ficção dentro da realidade ou vice-versa e o despreparo de seus indivíduos para relacionamentos representado com a ausência de sentidos – Amanda Mirásci tem problemas auditivos, Eucir de Souza não tem paladar, Débora Falabella também dá aulas de libras e por aí vai.

A gravidade da coisa é que, das quatro histórias, duas se revelam totalmente perdidas em “Todo Clichê do Amor”, sendo os da maquiadora e a da madrasta. De tão ruins, chegam a ser solenes e quase anulam todo o conjunto. Falta também amadurecimento na elaboração de reviravoltas e senso de ironia em algo que está a todo o momento contestando os clichês narrativos.

Mas nem tudo é descartável. Marjorie Estiano e Eucir de Souza (que fez o vilão de “A Repartição do Tempo“) funcionam perfeitamente juntos, sendo responsáveis pelos únicos momentos engraçados de “Todo Clichê do Amor” e também do núcleo que melhor resolve a ligação da história dentro da história. Há também achados na fotografia de Kaue Zilli, extraindo principalmente da presença de Débora Falabella uma beleza e ternura que nenhum outro foi capaz até aqui.

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+ Entrevista com o diretor, roteirista e ator Rafael Primot
+ Entrevista com as atrizes Gilda Nomacce e Amanda Mirásci

2 Comments

  1. Adoro Débora Falabella e esse filme parece ser bem legal. Uma pena que obras assim ainda não conseguem uma distribuição decente pelos cinemas brasileiros. Adoraria poder assistir.

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