Resenha Crítica | Para Ter Onde Ir (2016)

Para Ter Onde Ir, Jorane Castro

Há quem diga que o fazer cinematográfico não tem gênero. Ainda que alguém dotado de sensibilidade seja mesmo capaz de reproduzir em uma narrativa perfis do sexo oposto, são necessários os protestos por maior representatividade em uma arte em que homens e mulheres não trabalham em pé de igualdade. E o que a diretora e roteirista Jorane Castro faz em “Para Ter Onde Ir” (antes batizado como “Amores Líquidos”) atinge momentos muito sublimes no modo como exibe os anseios de suas três personagens.

Elas são Eva (Lorena Lobato), Keithylennye (Keila Gentil) e Melina (Ane Oliveira). Mulheres de personalidades extremamente opostas, mas que encontraram uma sintonia especial para partir juntas a uma viagem em um ponto distante do Pará, onde iniciarão uma jornada individual para acertarem alguns descompassos do passado.

Eva, profissional de uma corporação responsável pela logística de navios de grande porte, vem como uma protagonista natural no trio ao assumir o volante do veículo que as levam e depois fazendo a busca por uma pessoa que claramente abandonou no passado. Já Keithylennye reencontra o homem com quem teve uma filha, repensando a partir disso quanto a escolher a vida como uma cantora, compositora e dançarina de tecnomelody ao lado de seu ex-companheiro ou de se dedicar exclusivamente à filha. Por fim, há as inconstâncias de Melina no amor, frutos de sua dificuldade de se apegar a alguém.

Ainda que seja o seu debute na direção de longa-metragem, Jorane Castro tem segurança ao traduzir o seu texto para uma linguagem visual e sonora, apropriando-se ao máximo de seu cenário tomado por um clima nebuloso que ilumina o plano com tons melancólicos de cinza. Não poderia escolher melhor braço direito do que o fotógrafo Beto Martins (“A História Da Eternidade”, “Todas as Cores da Noite“), sempre autorizando que os “acidentes” do ambiente sejam captados por suas lentes, como as gotas da água que inundam o prólogo.

Isso também permite que “Para Ter Onde Ir” assuma um caráter mais contemplativo, uma vez que não muito se verbaliza quanto ao que aproximou as personagens, o modo como lidam com os seus anseios ou mesmo o ponto para onde irão. Confia assim em suas notáveis intérpretes, que ao final se transformam sem que o entorno necessariamente tenha acompanhado essa mutação.

One Comment

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s