Resenha Crítica | Réquiem Para Sra. J (2017)

Rekvijem za gospodju J, de Bojan Vuletic

.:: INDIE 2017 Festival Cinema ::.

No prólogo de “Réquiem Para Sra. J”, o diretor Bojan Vuletic lança todas as suas cartas. A senhora J (Mirjana Karanovic) não quer prosseguir com a sua existência. A vida perdeu o sentido desde a morte do marido, ainda que tenha duas filhas para cuidar e uma mãe que mal sai de casa. Apresenta a arma que usará em seu suicídio, que programou para acontecer no fim de semana que completará o aniversário da morte de seu amado.

Após esse ritual, veremos uma personagem que não apresenta dúvidas quanto a sua decisão extrema. A lápide já foi providenciada. As burocracias para o seguro de vida caminham para uma resolução, o que incluirá uma visita ao seu antigo trabalho. Até mesmo as pendências mais banais, como a faxina da casa e a alimentação, estão devidamente programadas para serem executadas antes de sua despedida.

Pois é exatamente o que iremos acompanhar ao longo de um pouco mais de uma hora e meia de “Réquiem Para Sra. J”: os passos derradeiros de uma mulher que perdeu o encanto por tudo ao seu redor, ilustrado por um cenário captado com uma simetria perfeita e com tintas acinzentadas que tingem a sua melancolia. Uma daquelas contagens regressivas de causar calafrios.

Porém, antes que se efetive qualquer coisa, o também roteirista Bojan Vuletic impõe a essa jornada silenciosa rumo ao fim uma dose sutil de humor, não autorizando que o clima lúgubre contamine uma narrativa que vai encontrando em um cotidiano sem encantos aqueles descompassos familiares que nos fazem reconsiderar a vontade de tudo desistir. Esse instinto natural é transferido para J, por quem passamos a clamar para que resista ao seu tormento interno.

Da promessa de dramalhão, “Réquiem Para Sra. J” vai assim fazendo jus a esse notável cinema sérvio que tão pouco temos acesso. Com première no Festival de Berlim em 2017 e candidato de seu país para tentar uma vaga como Melhor Filme Estrangeiro no último Oscar, essa belíssima obra irradia uma esperança que poucos são capazes de reproduzir em crônicas sobre o luto (que final!) e obtém de Mirjana Karanovic uma das interpretações mais extraordinárias já vistas nos últimos tempos.

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