Resenha Crítica | A Noite Devorou o Mundo (2018)

La nuit a dévoré le monde, de Dominique Rocher

.:: Festival Varilux de Cinema Francês 2018 ::.

Curioso como o terror, talvez o mais subvalorizado gênero cinematográfico, tem experimentado agora o momento mais complexo de sua existência, no qual o termo pós-terror surgiu somente para no dia seguinte ser severamente criticado por sua inadequação para classificar todo um movimento.

Como nunca, anda rendendo os exemplares mais lucrativos no circuito comercial e volta a ganhar a atenção das premiações, como se viu nos últimos dois anos acontecendo com “A Bruxa” e “Corra!“. É a velha matemática de apavorar a partir de comentários sociais, estes por vezes roubando dos sustos e da violência o protagonismo.

O francês “A Noite Devorou o Mundo” não teve visibilidade o suficiente para ser título mencionado nesse extenso debate, mas é um expoente de uma tradição ainda mantida: o filme de zumbi. Tão brilhante quanto o britânico “Melanie: A Última Esperança” (lançado ano passado no Brasil em streaming), essa adaptação do romance de Pit Agarmen também dialoga com questões de sobrevivência em um contexto pós-apocalíptico.

No entanto, o filme o estreante Dominique Rocher é mais intimista, quase um testamento contra o indivíduo que insiste em sua característica antissocial em um mundo com mais de sete bilhões de seres humanos. Isso porque Sam (Anders Danielsen Lie, protagonista dos primeiros filmes de Joachim Trier) tem o seu estado de solidão testado a partir do instante em que desperta em uma Paris tomada por zumbis velozes e famintos.

Em enxutíssimos 93 minutos que causam o peso oportuno de horas a fio, “A Noite Devorou o Mundo” é basicamente constituído com as possibilidades limitadas de Sam ao transformar em lar um edifício quase deserto. Foi o local que esteve na noite anterior ao caos, visitando a ex-namorada Fanny (Sigrid Bouaziz) durante uma festa para recolher as suas fitas K7.

A eliminação a tiro dos moradores zumbificados, o recolhimento de suprimentos, a limpeza do sangue e as interações com um inquilino também transformado e preso em um elevador (uma participação impagável do camaleônico Denis Lavant) são as atividades que preenchem a nova vida de Sam. Mas até quando tolerar essa dinâmica?

Fosse americano, “A Noite Devorou o Mundo” seria rapidamente convertido em filme de ação ao estilo “Eu Sou a Lenda”. Como bom exemplar europeu, encontra no banal o seu combustível de entretenimento, indo até o fim com a sua proposta radical de não ofertar caminhos e resoluções fáceis para um protagonista que preserva o seu instinto de sobrevivência em uma realidade na qual vai a cada dia perdendo as razões para existir.

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