Resenha Crítica | O Desmonte do Monte + O Caso do Homem Errado (2018/2017)

O Desmonte do Monte, de Sinai Sganzerla
O Caso do Homem Errado, de Camila de Moraes

Lançados em sessões vizinhas no CineSesc no último fim de semana, “O Desmonte do Monte” e “O Caso do Homem Errado” revelam uma semelhança além de serem documentários. Ambos são dirigidos por mulheres estreantes no ofício, respectivamente Sinai Sganzerla e Camila de Moraes, e trazem temas específicos para reforçar a importância de não esquecermos de histórias trágicas e de injustiça.

No caso de “O Desmonte do Monte”, temos como personagem de interesse um local, o Morro do Castelo. Situado no Rio de Janeiro, foi um endereço de grande estima para os colonizadores, com as gerações seguintes fortalecendo as suas importâncias históricas e arquitetônicas.

Já “O Caso do Homem Errado” versa sobre algo menos coletivo, dando luz à uma figura real anônima. Neste caso, Júlio César de Melo Pinto, homem humilde e inocente que foi executado pela polícia de Porto Alegre sob circunstâncias no mínimo questionáveis. Não fosse os registros do repórter fotográfico Ronaldo Bernardi, o crime estaria sem resolução: Júlio César foi algemado intacto para minutos depois ser retirado da viatura morto e com balas espalhadas por todo o corpo.

A realização de Sinai Sganzerla conta na maior parte do tempo com a narração de sua mãe Helena Ignez para pontuar os episódios essenciais de um local que teve o seu fim decretado por um evento terrível e de responsabilidade política ocorrido há quase um século. De imagens, há somente fotografias, gravuras e pinturas daquele ambiente e todas as suas transformações.

Assim sendo, ainda que exista um trabalho sonoro que busca dar vida às imagens estáticas, “O Desmonte do Monte” quase nada tem de cinematográfico. Ao contrário, é didático, quase como uma aula enfadonha de história toda aplicada a partir de uma apresentação em slide.

Pior é “O Caso do Homem Errado”, organizado quase como um documentário universitário. Camila de Moraes acerta ao enfatizar que o crime cometido contra Júlio César é um sintoma de um estigma racista das autoridades contra a comunidade negra (algo tão bem abordado no também recente “Auto de Resistência“), mas esquece de construir uma narrativa.

Amparado por depoimentos quase em sua totalidade, “O Caso do Homem Errado” só apresenta algo mais concreto sobre Júlio César nos minutos finais, como as fotografias pertencentes ao arquivo pessoal de seu cônjuge ou mesmo os passos refeitos entre o local de sua captura e aquele em que estava o verdadeiro alvo da polícia.

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