Entrevista com Ary Rosa, codiretor e roteirista de “Café com Canela”

+ Resenha crítica sobre “Café com Canela”

Trabalho de estreia de Ary Rosa e Glenda Nicácio, “Café com Canela” fez um belo percurso por festivais. Com première na 21ª Mostra Tiradentes, a realização também fez parte da programação da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, do XIII Panorama Internacional Coisa de Cinema e também da 9ª Semana dos Realizadores.

Agora, chegou a vez de ganhar todo o público com o lançamento comercial. A estreia aconteceu no dia 16 de agosto em uma sala de Salvador. Já a partir do dia 23, outros 11 municípios receberam “Café com Canela”, entre os quais São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

Codiretor e roteirista, Ary Rosa concedeu para o Cine Resenhas uma entrevista, compartilhando com os leitores os temas pelo qual o seu filme trafega, a idealização das cenas mais complexas e sobre o seu próximo projeto futuro, também realizado em parceria com Glenda Nicácio.

 

Como se estabeleceu a parceria entre vocês para a realização de “Café com Canela”? Quais as virtudes particulares cada um carrega e que são fundamentais para a atuação como uma dupla atrás das câmeras?

Nós nos conhecemos em 2010 no curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) na cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Nossa afinidade foi tão grande que, em 2011, fundamos a produtora Rosza Filmes com sede na região baiana. Quando começamos a desenvolver o projeto do “Café com Canela”, já tínhamos em mente que dirigiríamos juntos o longa. Primeiramente, entender que são dois olhares diferentes para o mesmo filme (referências diferentes, histórias diferentes, entendimentos de mundo diferentes); entendido isso, trabalhamos juntos para a construção do filme, e a obra tende a ganhar pela pluralidade de olhares.

No curso da narrativa, algo delicado vai orbitando entre os personagens: o luto. E não há somente a perda de entes queridos, como também aquela morte em vida, como testemunhamos acontecer com Margarida. Como o tema repercute em vocês ao ponto de torná-lo uma das pautas centrais do filme?

O luto é uma pauta central na vida de todos, e é interessante você pontuar que o que orbita o filme é o luto e não a morte. Nós falamos dessa vida que fica após a morte, e as diferentes formas com que se trabalha algo que é tão natural à vida de todos. É importante também quebrar com o estereótipo de uma “Bahia feliz”, quase um fardo a ser carregado, e apresentar uma Bahia humana, onde há felicidade, prazer, alegria, mas há também dor, perda, luto, depressão.

Violeta é uma mulher comovente, no sentido de emanar uma energia positiva e de nunca anular o seu instinto natural de cordialidade com o próximo, mesmo com a resposta a princípio explosiva de Margarida e questões particulares que poderiam fragilizá-la, como o estado de sua avó. Seria ela uma inspiração direta de uma região em que muitos conduzem as suas vidas com simplicidade e da qual vocês tão bem conhecem?

Acreditamos que sim. Violetas são muitas: mulheres fortes, que também se abalam, mas logo precisam seguir (como tantas mulheres do Recôncavo). Não foi por acaso que escolhemos Aline Brune para fazer o papel de Violeta. Aline foi escolhida no teste de elenco principalmente por ser tão integrada à comunidade de Cachoeira e poder representar essa personagem tão específica.

Café com Canela

Há em “Café com Canela” uma cena muito curiosa em que se quebra a quarta parede enquanto Violeta e Margarida compartilham os seus encantos pelo cinema. Trata-se de um momento que inclusive parece tecer um comentário sobre como certos indivíduos e geografias são invisibilizados dentro do que se vê na produção brasileira. O que pensam sobre essa impressão?

É uma cena que toca muito o público comum (aquele que é espectador, e não crítico, ou cineasta), e causa um forte reconhecimento de sentimentos e percepções. Hoje lemos um texto da Amanda Aouad para o Cine Pipoca Cult: “É como se ‘Café com Canela’ requisitasse aqui o direito à cinefilia dessas mulheres [mulheres negras]. Também capazes de se emocionar e se modificar pelas experiências da tela grande”. É também disso que o filme trata, e é nessa hora que selamos de vez o pacto com o espectador, como quem diz nós estamos pensando em você, estamos te vendo.

Além da cena citada na pergunta anterior, “Café com Canela” é repleto de outras que buscam traduzir visualmente os perfis e anseios dos personagens de um modo complexo, do split screen que exibe Violeta se comunicando com três pessoas diferentes dentro de suas casas ao instante em que a cozinha de Margarida se apequena diante dos nossos olhos. Como se deu a idealização desses momentos?

Havia entre nós o desejo de poder conversar com o espectador e apresentar a intimidade do Recôncavo, da vida das personagens. Possibilitar um mergulho junto com Violeta e Margarida que fosse capaz de caminhar por temas complexos, porém com aquela simplicidade de quem chama para perto, ou melhor, para dentro. Essa cena das três portas revela muito disso, um cinema de dentro de casa.

“Café com Canela” é o debute de vocês como diretores em um longa-metragem de ficção. Como têm abraçado a receptividade do público e da crítica da itinerância do filme pelos festivais até o lançamento comercial que agora se concretiza? Um segundo projeto já é discutido entre vocês?

“Café com Canela” é um projeto muito especial na nossa vida, em todas as suas etapas, da escrita do roteiro até as salas de cinema agora. Fomos crescendo com ele, aprendendo muito de cinema e da própria vida também. E esse momento do público, especialmente o das salas de cinema, é um momento lindo, onde o filme pode finalmente concretizar a sua finalidade, que é ser visto. E quando emociona, então, é mais bonito ainda. Estamos com o nosso segundo longa-metragem, “Ilha” (Ary Rosa e Glenda Nicácio, 2018), iniciando a exibição em festivais (selecionado para o 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro), continuando com a parceria entre nós e com o cinema em que acreditamos.

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