Entrevista com Rafael Terpins, diretor do documentário “Meu Tio e o Joelho de Porco”

+ Resenha crítica de “Meu Tio e o Joelho de Porco”

O último fim de semana foi bem farto de lançamentos nacionais: nada menos que seis títulos. Entre eles, há dois documentários, “Meu Tio e o Joelho de Porco” e “Tudo é Irrelevante. Helio Jaguaribe“, com algo em comum: a direção assinada por um nome que guarda parentesco com a figura real em destaque. No caso do primeiro, Rafael Terpins é quem leva para o cinema a história de seu tio Tico, como era conhecido Carlos Alberto Terpins, o líder do grupo Joelho de Porco.

Após a passagem por importantes festivais de cinema do país, como a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o In-Edit Brasil e o Cine-PE, o documentário finalmente é lançado comercialmente pelo Projeta às 7, iniciativa da Rede Cinemark com a distribuidora Elo Company que visa ofertar um recorte do cinema alternativo a preços populares para o público das salas de centros comerciais.

O Cine Resenhas prestigiou a pré-estreia que ocorreu na última terça-feira e agora conversa com Rafael Terpins, que compartilha detalhes adicionais bem curiosos sobre a realização de “Meu Tio e o Joelho de Porco”.

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Em tom de brincadeira, o trailer de “Meu Tio e o Joelho de Porco” diz se tratar d'”o primeiro documentário brasileiro sem depoimentos do Caetano Veloso”. Acredita que chegou o momento dos documentaristas deixarem o tropicalismo um pouco à parte para se debruçar sobre outros movimentos e grupos musicais brasileiros?

Esta foi uma daquelas epifanias que me remeteu diretamente ao tipo de humor que o Tico usaria. Adoro o trabalho do Caetano. “Transa” é um dos melhores discos brasileiros de todos os tempos, mas ele acabou se tornando a única entidade a ser consultada sobre qualquer expressão artística brasileira. Acredito que haja outros depoentes vivos que possam firmar a importância de este ou aquele movimento cultural que não seja o Caetano. Nunca foi minha intenção desmerecer a Tropicália ou sua importância, mas estava tirando um sarro de uma saída fácil utilizada por outros colegas documentaristas. Para se ter uma ideia, contei por cima 37 longas documentários com depoimentos do Caetano no IMDb! Como o Joelho de Porco foi sempre marginalizado, especialmente fora de São Paulo, achei que tratá-lo com a proximidade que tratei seria o melhor retrato para este Elo perdido do Rock Brasileiro. Procurar uma afirmação externa para sua importância seria chover no molhado.

A ideia de produzir um documentário focado na figura de seu tio Tico Terpins é recente ou já povoava os seus pensamentos desde o início de seu envolvimento com cinema em ofícios além da direção?

Um sonho muito antigo, antes até de meu envolvimento com a indústria do cinema nacional. De quando o Tico, frente à minha veneração adolescente à grandes diretores de publicidade no fim dos anos 1980, jogou um “Músicos fazem discos, cineastas fazem filmes” que me perseguiu por alguns anos até conseguir completar este filme. Meus curtas foram propositalmente sobre assuntos diversos, aguardando a oportunidade de fazer este longa. Mas com certeza o montante gasto com analistas durante todos estes anos foi maior do que o utilizado na produção do filme, ele traz uma carga emocional e pessoal muito grande.

Deduzo que produzir um documentário sobre uma figura tão próxima a você foi facilitador em alguns aspectos, como o acesso aos arquivos pessoais e a proximidade com os depoentes.

Contei com o parceiro pesquisador Remier Lion, o mesmo do filme do Raul (que, sim, tem o Caetano). Foi muito importante o guia de pesquisa que ele me passou, mesmo em se tratando de acervos dentro da família. Tinha um tio avô chamado Mendel, ele era um técnico cinematográfico e chegou a produzir peças publicitárias em 16mm nos anos 1950. Graças a ele tínhamos um extenso registro em 16mm e posteriormente em Super 8. Mesmo assim, fomos surpreendidos com material inédito, como o registro do Teatro Ruth Escobar de Mardito Fiapo de Manga em 16mm que abre o filme na TV Cultura.

Meu Tio e o Joelho de Porco

Mesmo nessa posição privilegiada, se deparou com muitos revezes?

Se o Michael Moore morasse no Brasil, ele seria raquítico e não encontraria trabalho nenhum. Não deveria haver entraves para utilização de imagem de ninguém. Se há difamação, que seja julgada, mas nossa lei retrógrada protege corruptos e apaga o passado. O Billy Bond ameaçou me processar, assim como fez quando o Joelho lançou seu primeiro disco com Zé Rodrix na década de 1980. Fui obrigado a borrar suas feições no filme. O outro revés foi que não consegui utilizar a performance inesquecível do Joelho no programa “Os Trapalhões” de 1978.

“Meu Tio e o Joelho de Porco” adota algumas escolhas que o fazem sair de um formato trivial de documentário, do uso do stop motion até as parcerias com André Abujanra e Di Moretti, respectivamente autor da trilha original e supervisor do roteiro. Poderia comentar sobre as intenções por trás delas?

Foi um filme de afetos, do começo ao fim. Queria envolver animação como fiz no curta “A Guerra do Gibis”, com personagens tomando partido na narrativa. Chamei os parceiros do estúdio Térreo que prontamente colaboraram, principalmente o Lucas Emanuel que animou o Ticozinho e acabou por realizar seu último trabalho autoral no meu filme, falecendo aos 37 anos de idade subitamente. O Abu é um amigo e parceiro queridíssimo, criamos e produzimos duas séries de TV juntos e fiz algumas capas de disco e animações para ele. O Tico uma vez me disse que o Mulheres Negras era uma cópia do Joelho e ao invés de negar o Abu sempre concordou. Ele adorou o desafio e fez um contraponto musical denso para a música engraçada do Joelho no filme, adorei! Depois de dois ou três cortes do filme, me senti um pouco travado com a narrativa, um amigo produtor sugeriu o Di Moretti, que eu já conhecia de outros projetos como animador/motion grapher. Sua colaboração foi essencial para fechar as pontas abertas da narrativa e me ajudaram a chegar à conclusões como utilizar meus desenhos de infância para ilustrar minha narração no filme.

Há fatos ou informações inéditas que tenha descoberto sobre o seu tio no processo de realização do documentário?

Como dizia o Eduardo Coutinho: “Faço filmes sobre coisas que não conheço”. Para mim era muito clara a carreira do Joelho pós-Billy Bond: Zé Rodrix, David Zingg, Festival dos Festivais, o Careca e Penteado… era tudo muito familiar para mim. Eu tinha 10 anos ou mais e conseguia mal-e-mal acompanhar. O Joelho do começo, com um jovem Tico muito mais inconsequente do que o publicitário que eu conheci que era meu objetivo descobrir com este projeto. Já durante os cortes finais do MTJP, sonhei que estava com um jovem Tico cabeludo dando uma volta na Praça da Sé. Missão cumprida. Aprendi novas histórias como o xixi no whisky, o caso do delegado que queria colocá-los no hospício e do Tico sendo encontrado mergulhado em uma latrina antes do show começar no Ruth Escobar. Só não consegui ir à fundo na briga com o Billy Bond. Uma situação extrema que vai morrer com os dois. O quanto foi dinheiro? O quanto teve alguma outra coisa envolvida? Ninguém nunca vai saber.

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