Resenha Crítica | Benzinho (2018)

Benzinho, de Gustavo Pizzi

Desde a sua retomada, o que não tem faltado no cinema brasileiro é o registro de histórias sobre gente como a gente, cujos conflitos surgem na sobrevivência do dia a dia. Nenhuma novidade, principalmente em uma cultura em que as telenovelas atingem as massas com maior eficácia.

No entanto, é um movimento recente dessas narrativas encenadas sem filtros, com intérpretes desprendidos de qualquer glamour ocupando espaços periféricos, estes finalmente exibidos além do eixo Rio-São Paulo. E que maravilhosa notícia que seja justamente a face de Karine Teles o centro de todas essas questões em “Benzinho”, o que de melhor o Brasil ofereceu no último ano para tentar concorrer a uma vaga ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – a comissão da Academia Brasileira de Cinema optou pelo malfadado “O Grande Circo Místico”.

Se em “Que Horas Ela Volta?” a atriz carioca era a personagem que servia de reflexo pouco lisonjeiro da fatia mais abastada da sociedade brasileira, ela é em “Benzinho” o lado oposto, o invisível e invisibilizado da mulher que mata um leão por dia para ao fim ter o seu lugar ao Sol. Trata-se de Irene, esposa, mãe, dona de casa, empregada em serviços informais, estudante, sonhadora.

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Entrevista com Karine Teles e Gustavo Pizzi sobre “Benzinho”:

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O recorte que Teles e o seu ex-marido Gustavo Pizzi fazem de Irene é aquele em que o filho mais velho, Fernando (Konstantinos Sarris), recebe a oportunidade de ir para a Alemanha depois de se destacar no time de handebol no colégio. É um convite aceitado e que precisa ser correspondido em poucas semanas, confundindo os instintos maternos de Irene, que compreende a importância do sucesso de sua cria ao mesmo tempo em que não quer se desapegar dela.

Há outros conflitos para nebular a despedida de Fernando: o fracasso do pequeno negócio do marido Klaus (Otávio Müller), a necessidade da venda da hospedagem na praia para driblar as despesas, a arquitetura de uma nova casa enquanto a que é habitada vai ruindo, o amadurecimento precoce dos outros três filhos que precisam reconhecer a ausência de uma mãe que procura por um trabalho fixo em tempo integral, a formatura tardia, a proteção da irmã Sônia (Adriana Esteves, hoje uma de nossas atrizes mais extraordinárias) que é agredida pelo marido Alan (César Troncoso) e tantos outros impasses diários.

Escolhas repetitivas da montagem de Lívia Serpa (como as quebras estabelecidas com as intervenções dos fragmentos de Irene e Fernando abraçados em uma boia) e a falta de maior convencimento no aspecto da construção de um novo lar (de onde vem o dinheiro se ele não sobra?) não minimizam as demais virtudes de “Benzinho”, sendo a maior a de encontrar a catarse no mapa de sentimentos que se constitui o rosto de Karine Teles ao fim.

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