Resenha Crítica | Vazante & O Banquete (2017/2018)

Vazante & O Banquete, de Daniela Thomas

Após oito projetos coassinados com Walter Salles (entre longas, curtas e documentários) e outro com Felipe Hirsch (“Insolação“), Daniela Thomas finalmente assumiu sozinha a liderança de dois longas-metragens. Mas as repercussões e o azar do destino de algum modo arranharam a apresentação ao público de “Vazante” e “O Banquete” ao ponto de deixar a realizadora em uma encruzilhada de polêmicas.

Quando ainda cumpria com a agenda de exibições de “Vazante” em 2017 antes de lançá-lo comercialmente em novembro, Daniela teve a sua obra estigmatizada por um debate controverso no Festival de Cinema de Brasília um pouco mais de um mês antes. Segundo uma convidada presente, é um filme sobre o período da escravidão no Brasil em que a subjetividade dos personagens negros não é atendida.

Já “O Banquete” foi removido da programação do último Festival de Gramado às pressas com a notícia de uma fatalidade: o falecimento do jornalista Otavio Frias Filho. A decisão foi assumida porque Daniela não nega as influências da figura pública na composição de Mauro, personagem interpretado por Rodrigo Bolzan.

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Coletiva de imprensa sobre o filme “Vazante”:

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A questão da representatividade é uma pauta urgente, mas não parece totalmente justa a defesa de que “Vazante” nada mais é do que a correspondência de uma perspectiva branca e privilegiada quando esta na ficção assume a posição do explorador. As suas fragilidades são muito mais por uma condução narrativa do que essencialmente ideológica.

Por adotar uma posição mais observadora e menos intrusiva diante do próprio texto que escreveu em parceria com Beto Amaral, Daniela adentra um contexto histórico sem conseguir estabelecer vínculos com as figuras que nele habita – Luana Nastas sequer parece posicionada como uma protagonista na pele de Beatriz. A bela fotografia de Inti Briones tinge todos como iguais e os cortes abruptos constroem um estilo que se revela impactante ao final, mas é pouco.

Pior ainda é “O Banquete”. Um time de excelentes atores (entre os quais Drica Moraes, Fabiana Gugli, Mariana Lima, Caco Ciocler e Gustavo Machado) é todo refém de um texto menos perspicaz e ácido como julga ser, além de uma mise-en-scène realmente desastrosa: reparem a câmera que recua sempre que ameaça ser refletida na parede espelhada da sala de jantar onde todos se encontram.

A inspiração para o filme parte de um episódio no qual Otavio Frias Filho endereçou uma carta de teor crítico ao presidente Fernando Collor. Na ficção, tudo se concentra na noite em que é ameaçado de ser preso, aguardando o pior enquanto se reúne com amigos embriagados e dissimulados. Faz melhor quem for assistir o britânico “A Festa“, de Sally Potter e ainda em cartaz nos cinemas.

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