Resenha Crítica | A Madeline de Madeline (2018)

Madeline’s Madeline, de Josephine Decker

.:: 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Atores são frequentemente perguntados sobre o processo de incorporar determinados personagens justamente pelas implicações que há na arte de dar vida a outros indivíduos utilizando corpo, voz e sentimentos como matéria-prima. Para alguns, o distanciamento é um recurso prático de ser estabelecido. Para outros, se desvincular de um papel é um processo difícil.

No drama independente americano “A Madeline de Madeline”, o que o público terá é uma visualização do dano em talentos que misturam a ficção com a realidade. A situação aqui na verdade é ainda mais delicada, pois Madeline (a estreante e promissora Helena Howard) é uma adolescente cheia de inadequações que mergulha em um sistema à lá Stanislasvki de atuação em uma companhia alternativa de teatro.

Além das perturbações psicológicas, Madeline ainda tem uma mãe, Regina (Miranda July, em sua primeira participação como atriz em um projeto alheio), superprotetora e sempre à espreita aguardando para que uma inevitável crise a domine. Vem ainda as confusões de sua idade, como a expectativa para as primeiras experiências sexuais que demoram a acontecer.

Por tudo isso, chega a ser cruel as posturas artísticas de Evangeline (Molly Parker), diretora da trupe que não alivia as suas pretensões mesmo prestes a dar à luz. Infiltrando-se aos poucos na vida privada de Madeline, ela logo faz a jovem abandonar os figurinos de coelhos e tartarugas para estabelecer um jogo de cena em que a sua ficção é uma reprodução da realidade de sua atriz.

Diretora, roteirista e intérprete, Josephine Decker já havia codirigido no ano passado um projeto, “Flames”, em que a linguagem do documentário se confundia com a da ficção. Aqui, a experiência que promove é absolutamente sensorial, uma vez que busca representar os acontecimentos a partir da perspectiva instável de Madeline.

A fidelidade a essa visão de mundo talvez seja, ironicamente, o maior problema de “A Madeline de Madeline”. De tão ruidoso e fragmentado, o filme mais afasta do que aproxima, até porque não estabelece uma base consistente o suficiente para sustentar principalmente a relação conturbada entre mãe e filha, que mais parece servir como cobaias para um fim artístico (de Evangeline e consequentemente de Josephine Decker) do que para qualquer outra possibilidade mais honesta.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s