Resenha Crítica | Sequestro Relâmpago (2018)

Sequestro Relâmpago, de Tata Amaral

.:: 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

O Brasil já produziu tanto drama social constrangedor que a pergunta que fazemos no rolar dos créditos finais (ou bem antes disso, quando os risos involuntários já arruinaram uma experiência que se pretende séria) é se os envolvidos vivem em uma bolha ou ao menos tiveram a decência de submeter o roteiro para avaliações de terceiros com conhecimento de causa. É a sensação que se experimenta vendo a “Sequestro Relâmpago”.

Dona de uma filmografia com títulos elogiados como “Um Céu de Estrelas” (1996), “Através da Janela” (2000) e “Antônia”, Tata Amaral testou mais recentemente um flerte com a linguagem teatral com “Hoje” (2011) e “Trago Comigo” (2016) não muito bem recepcionado. Agora com “Sequestro Relâmpago”, parece fazer filme de iniciante no pior dos sentidos.

Depois de um prólogo em que dá uma pista dos perfis de Isabel (Marina Ruy Barbosa, em sua primeira grande chance no cinema), Matheus (Sidney Santiago) e Japonês (Daniel Rocha), três jovens flagrados nos papéis que assumem diante do fluxo paulistano, o roteiro coescrito por Tata arma o tal sequestro relâmpago em que a primeira é a vítima e os rapazes são os criminosos. O episódio se prolonga por toda a madrugada nas ruas da cidade, desertas e labirintíticas.

Desinteressada em fazer apenas um thriller convencional, Tata Amaral se apropria da história real de Ana Beatriz Elorza para desenvolver situações em que os abismos sociais se sobressaem diante da ação do sequestro. Quando tem o cartão de crédito de Isabel em mãos, a primeira coisa que Matheus compra são fraldas para o seu filho. Mais adiante, Japonês quer repassar o carro de Isabel por 10 mil reais, mas ela intervém na negociação apontando que  ele vale muito mais que isso.

A simplificação de “Sequestro Relâmpago” é a de incrementar essas situações com diálogos de gosto duvidoso, quase como se fossem textões de redes sociais. É embaraçoso ouvir saindo da boca de Marina Ruy Barbosa que a sua Isabel faz parte com Matheus e Japonês dos mesmos 99% da população oprimidos pelo 1% de privilegiados. Isso quando não chama um vigia de “machista!” após ignorar o seu pedido de socorro ou de afirmar que, no fim das contas, ela não é como os seus sequestradores porque compreende um comando em inglês de seu automóvel. Canhestro como cinema e sobretudo como comentário sobre o estado das coisas.

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