Resenha Crítica | A Guerra de Anna (2018)

Voyna Anny, de Aleksey Fedorchenko

.:: 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Com todo o volume de dramas centradas em eventos transcorridos na Segunda Guerra Mundial, sejam eles reais ou ficcionais, muitos cineastas têm buscado desenvolver histórias que priorizam muito mais uma perspectiva individual do que coletiva. O vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro “Filho de Saul” arrebatou o público com a encenação claustrofóbica da condição dos judeus em campos de concentração. “A Guerra de Anna” provoca um efeito ainda mais desolador.
 
O diretor russo Aleksey Fedorchenko é conhecido pelos brasileiros por “Almas Silenciosas”, produção de 2010 que chegou ao país com três anos de atraso. O seu “A Guerra de Anna” também merecia vida fora do circuito de festivais, pois é como se fizesse uma versão ainda mais cruel de “O Diário de Anne Frank”.
 
Quase sem diálogos, acompanhamos o isolamento da pequena Anna (a estreante Marta Kozlova, uma atriz simplesmente admirável) em um escritório de um comandante do Terceiro Reich. Foi a única sobrevivente de um extermínio em massa, erguendo-se envolta a um sem número de cadáveres e folhas secas em um prólogo belo e trágico.
 
Sem ninguém para ser cuidada, Anna é enviada justamente para um local estratégico do inimigo, encontrando em uma chaminé desativada da sala central um refúgio. Enquanto o ambiente é habitado por soldados e secretárias, ela se recolhe e espia o que acontece por um buraco do espelho que a protege. Quando todos partem, faz uma ronda em busca de alimentos para sobreviver, contentando-se com os restos esquecidos e a água parada em recipientes para plantas e pinceis.
 
É desesperador e os fades que invadem a tela a todo o instante somente prolongam a situação em que Anna está enclausurada, como se lutasse para sobreviver em uma guerra que parece nunca chegar ao fim. O tratamento direto para a história não autoriza maniqueísmos, o que só contribui para a nossa imersão. O choro de Anna, num único momento em que ela se percebe como uma criança frágil e inconsolável, é o momento mais doloroso que se testemunhará em um registro implacável em sua consciência dos horrores provocados por um dos episódios mais hediondos da história da humanidade.

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