Entrevista com Mathias Mangin, diretor do filme “Horácio”

Filho da escritora e psicanalista Betty Milan, Mathias Mangin estabeleceu nos Estados Unidos a sua estreia como diretor a partir da realização do curta-metragem “The Chance”, produzido e lançado em 2007. 10 anos depois, tem o Brasil como palco de seu debute no formato de longa-metragem. Precisamente, São Paulo, praticamente um personagem de “Horácio”.

Desde 11 de abril em cartaz, este drama criminal com tintas de neo noir e com muitas intervenções de humor negro, tem sido comentado sobretudo por marcar o primeiro protagonista nos cinemas de Zé Celso, por anos o principal expoente do Teatro Oficina. Na entrevista a seguir, Mathias Mangin comenta como convenceu o veterano a viver o personagem-título Horácio, além dos aspectos narrativos de uma obra em que também assina o roteiro, a produção e a montagem.

.

São Paulo é uma metrópole com espaços, sejam eles públicos ou privados, perfeitos para ambientar uma narrativa sórdida como a de “Horácio”, que às vezes até parece um neo noir sob a luz do dia com todos os seus personagens amorais e as circunstâncias que os entrelaçam. Poderia contar sobre como a cidade e outras características por ela abrigada foram determinantes para a concepção de seu filme?

Apesar de ser colorido, o filme é um neo-noir muito inspirado em obras como “Sunset Boulevard”, de Billy Wilder, e outros longas americanos da mesma época. No caso do filme “Horácio”, o universo onde os personagens circulam é o espelho da decadência que eles atravessam. O fabuloso apartamento do contrabandista, entre rococó e cafona, ilustra o contraponto que o filme constantemente busca, entre humor e drama, entre riso e sórdido, entre excesso e minimalismo.

A cidade de São Paulo e, mais precisamente, o bairro do Bixiga não são personagens em si, mas são o quadro simbólico da história, a imagem dessa decadência que ronda todos os personagens. Uma cidade gigantesca, um emaranhamento de ruas que perdem o espectador, pássaros de mau agouro planando por cima do concreto, sons amedrontadores. Essas características da cidade que mostramos no começo do filme dão o tom da obra que vai começar, são essenciais para contextualizar os personagens e entendermos que vamos entrar num universo desconfortável.

“Horácio” é a sua estreia no formato de longa-metragem e, ao contrário do que costuma se dar em muitos debutes, você parece exercer um controle criativo absoluto sobre a obra. Além de estar por trás das câmeras como diretor e produtor, é ainda autor do roteiro e também editor. Como avalia a autonomia diante da realização e o que foi preciso abdicar para assegurar a própria autoria?

Busquei ter um controle sobre as diversas etapas da obra, mas constantemente acompanhado por pessoas nas quais eu confio e sem as quais teria sido impossível tecer esse filme do jeito como imaginava. Como roteirista, dividi muito o roteiro com Marcelo Maximo, o outro produtor do filme, com a escritora Betty Milan, a minha mãe, e com os atores para aperfeiçoar os diálogos.

Na produção, Marcelo Maximo fez um desenho de equipe que permitiu que o filme fosse feito com um orçamento extremamente enxuto. Eu ajudei em diversos aspectos, como convencer os atores, trazer recursos e locações.

Na hora de dirigir e de fotografar, escutei muito Diego Garc, o diretor de foto do filme com quem estávamos numa forte sintonia. Eu sabia onde queria ir, queria um filme que fosse uma pintura filmada de perto com lentes que deformassem os rostos, trouxesse essa estranheza que caracteriza os personagens do universo de Horácio. Eu tinha uma visão estética do filme, mas cinema, como sabemos, é uma obra coletiva e o meu foco era me nutrir das ideias da equipe, buscar constantemente elementos que poderiam tornar a obra que estava sendo feita mais próxima da minha visão estética do filme.

Nessa conversa constante com a equipe do filme – do roteiro à direção -, acho que abdiquei de pouca coisa, pois eu soube escutar e fazer minhas as enormes limitações que tivemos. Uma coisa que muitas pessoas questionaram na época foi o fato de editar o filme. Sugeriram que um editor entrasse no filme, mas nisso fui firme, eu precisava editar a obra, pois acredito que o último que bota a mão na massa – o editor – é aquele que faz o filme. Não queria que a história fosse deturpada, pois uma boa parte do meu processo criativo mora na edição.

Tenho curiosidade quanto a etapa de pós-produção. Mesmo com o roteiro sempre atuando como essa bússola que a todos guia, como foi a sua relação com ele no processo de montagem, da organização de uma estrutura previamente estabelecida no papel? Você se viu testando novos caminhos para assegurar a harmonia do conjunto ou tudo resultou com fidelidade diante do que mapeou em sua mente desde a feitura do texto?

O roteiro foi evoluindo ao longo da filmagem, eu comecei a pré-produção do filme com um roteiro e terminei a filmagem com outro. Além de diálogos, fui mudando as locações, acrescentando algumas cenas, tirando outras e mudando em profundidade a relação de Faraó e Nadia, que foi se tornando mais claramente essa cumplicidade errada e desajeitada. Quando eu comecei a editar, segui à risca a última versão do roteiro do ponto de vista da estrutura narrativa e, ao longo do processo de edição, mudei poucas coisas, a não ser o começo do filme, onde era essencial criar um ritmo cativante para introduzir as diversas histórias. O que eu fui testando durante a edição foi buscar a maneira de cortar o filme e trazer harmonia para o conjunto, buscar como fazer uma edição de “jump cuts”, mas que mesclasse também um edição mais clássica, pausada.

Horácio

Ao mesmo tempo em que Zé Celso é esse monumento da nossa cultura com décadas de vivências artísticas, o cinema é uma novidade em sua carreira, sendo visto em filmes como “Encarnação do Demônio” e “Ralé” mais como participações afetuosas por parte de seus realizadores. Como foi convidar um artista com tanta bagagem e que recentemente completou 82 anos para aquele que é o seu primeiro protagonista na tela grande?

Vou nas peças do Teatro Oficina desde criança e o Zé Celso sempre fez parte do meu imaginário. Como muitas pessoas, não penso em cultura brasileira sem que o seu trabalho passe pela minha cabeça. Com a Anna Luiza Paes de Almeida, diretora de elenco do filme, e Marcelo Maximo, chegamos à conclusão que o melhor ator para fazer esse papel de um bandido que vai se transformando em mulher era o Zé Celso. Então liguei pra ele e, após algumas tentativas, consegui marcar um encontro e levar o roteiro. O que o Zé gosta mesmo é fazer teatro e eu cheguei lá com um projeto que não tinha muito a ver com ele, um roteiro com uma cara de chanchada estranha. Foram muitas conversas noturnas e algumas taças de vinho tinto que o levaram a aceitar. O Marcelo Drummond, que faz lindamente o papel do Milton, o Ricardo Bittencourt e a Sylvia Prado, que arrasam nos papéis da dupla de chantagistas, trabalham com o Zé há muitos anos e me ajudaram a convencê-lo!

O trabalho com ele foi fácil. Passei horas no telefone com ele, ouvindo textos do Stanislwasky e sua visão do que era atuação, direção de ator. No set, Zé foi muito gentil, ajudou a criar o personagem do Horácio improvisando e entendendo o que eu queria. Claro, Zé Celso é um ator de teatro, mas aos poucos foi entrando na atuação mais contida do cinema.

Chama muito a atenção como representa o feminino em “Horácio”. Ainda que as personagens de Maria Luísa Mendonça e Sylvia Prado sejam oprimidas pelo modo de vida que levam, Horácio comprova não somente uma falta de traquejo com elas, como se deixa possuir pelas roupas e maquiagem de sua falecida esposa. Isso sem falar do papel interpretado por Marcelo Drummond, um braço-direito de Horácio que tem a sua fragilidade testada a partir das ligações telefônicas da prostituta trans vivida por Daniela Glamour Garcia. O que reflete dessas inversões de valores que compõem os gêneros?

Eu fiz esse filme para revelar do meu jeito a maneira como vejo as relações humanas no Brasil. Como sou franco-brasileiro, sempre observo o Brasil com um olhar de fora. Quando vim morar no Brasil uns 10 anos atrás, uma das coisas que me chamou atenção foi a brutalidade das relações entre homens e mulheres. A França, como bem sabemos, tem inúmeros problemas sociais e manifestações de xenofobia, mas no quesito das relações entre homens e mulheres é um mundo mais doce. Eu queria fazer um filme onde pudéssemos sentir a opressão que as mulheres vivem, a opressão da heterossexualidade sobre as outras formas de sexualidade. Por isso, todos os personagens são ambíguos, todos são homens e mulheres. Por debaixo do corpo masculino ou feminino, fui buscar o que nos unifica na perversão e também na busca do amor. É um filme sobre a perpetuação do mal e o fato que só o amor pode romper esse ciclo vicioso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s