Resenha Crítica: Mosquito (2020), de João Nuno Pinto

Primeiro longa-metragem de João Nuno Pinto em 10 anos (o seu debute aconteceu com o pouco visto “América”), “Mosquito” é fruto da investigação do cineasta português em suas próprias raízes. Bem como Zacarias, rapaz de 17 anos interpretado por João Nunes Monteiro que se alista no Exército durante a Primeira Guerra Mundial, o avô do realizador também havia se lançado ao conflito armado em sua juventude, atravessando um momento crucial quando foi mandado para Moçambique. A intenção, entretanto, não foi a de fazer uma cinebiografia, como revela a escolha em estabelecer certo distanciamento de uma fonte de inspiração tão próxima com os créditos do roteiro destinados para a sua esposa Fernanda Polacow e também para Gonçalo Waddington.

Antes um soldado ingênuo, Zacarias se vê lançado em uma verdadeira via crucis quando os seus passos vão se tornando cada vez mais solitários, escassa de recursos e com todos aqueles impulsos primitivos para manter a própria sobrevivência. Vê-se em um desafio maior do que o do próprio front de batalha pela defesa da colônia portuguesa diante da invasão alemã.

Ainda que o circuito nacional alternativo de cinema tenha aprendido na última década a prestigiar um pequeno recorte do que é produzido pelo cinema português, as possibilidades de acesso a algo mais efervescente eram limitadas por certa predileção pelas últimas obras do saudoso Manoel de Oliveira e de dramas de época um tanto novelescos. “Mosquito” desapega do formalismo desses exemplos para nos lançar em uma jornada que vai nos envolvendo progressivamente, dos delírios experimentados por Zacarias a partir do ponto em que contrai malária, passando por uma inversão de papéis ao ser resgatado por uma tribo formada unicamente por mulheres e, por fim, sendo capaz de visualizar um ponto de retorno como um homem amadurecido – mas não menos envolto a contradições.

Belamente fotografado por Adolpho Veloso (o mesmo de “Tungstênio”, de Heitor Dhalia, e “Rodantes”, de Leandro Lara), “Mosquito” também se vale pela interpretação valente de João Nunes Monteiro, que se sujeita a todos aqueles sacrifícios nada fáceis aguardados de um intérprete dando vida a um personagem que se transforma fisicamente diante de nossos olhos. Trata-se também de um “filme de guerra” que consegue contemporizar um contexto que se deu há exato um século, fazendo rever a dinâmica de territórios e as leis dos mais fortes. ★★★★

Veja também:
• Entrevista com João Nuno Pinto sobre “Mosquito” aqui.

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