Os Cinco Filmes Prediletos de Nayara Reynaud

O meu atual contexto profissional tem sido radicalmente diferente daquele que mergulhei intensamente nos dois últimos anos de cobertura em cinema. A consequência foi deixar o Cine Resenhas como site um pouco de lado, com o propósito de rever prioridades e saber como encaixar os meus projetos no tempo livre escasso.

Porém, uma categoria desse espaço que continuo sondando convidados é o Cinco Filmes, uma adaptação de uma pauta que já foi mais recorrente no site internacional Rotten Tomatoes. É uma maneira de conseguir prestar uma singela homenagem principalmente às grandes amizades que formei como cinéfilo e jornalista, e a que quero ceder o destaque hoje é Nayara Reynaud.

Eu sabia que estava impondo um desafio tremendo para ela, sempre avessa a elaborar listas. “Sinceramente, listas são algo que faço por obrigação, com a certeza de que, um segundo depois de bater o martelo, colocarei em dúvida a escolha final”, diz Nayara em seu texto de introdução para esta edição da Cinco Filmes.

Crítica de cinema e repórter, formada em Jornalismo e técnica em Produção de Áudio e Vídeo, Nayara Reynaud teve passagem pelo Cineweb e hoje toca de modo independente o site NERVOS, em que faz uma cobertura completa do que tem pavimentado o cinema, além de também tratar sobre tevê e música. Além de críticas de cinema, notícias e artigos sobre eventos, Nayara tem se tornado cada vez mais craque no papel de entrevistadora, recentemente compartilhando conversas com nomes como Rodrigo Santoro, Enrique Diaz, Paula Pimenta, Karine Teles, Marieta Severo e outros em um podcast que pode ser ouvido no Soundcloud – clique aqui.

“Com a sensação constante que tenho de estar atrás dos meus colegas no que diz respeito à bagagem cultural, cheguei a cogitar, de início, selecionar mais um clássico querido ou pegar um longa europeu que goste muito para ter de demonstrar a visão plural que tenho hoje em dia como crítica. No entanto, o tempo que deixei esta lista “de lado”, fez com que ela ficasse gravada na minha mente como a dos ‘5 Filmes da Minha Vida’. Como listar os melhores é sempre algo muito subjetivo, preferi assumir esta subjetividade e falar de cinco obras que, além de serem algumas das minhas favoritas, também marcaram certas fases da minha vida. Então, desculpas de antemão se este post será mais confessional do que crítico.”

Fico feliz por ter aceitado o convite, Nayara. E que tenha encarado a proposta fazendo uma seleção composta de filmes que sei que falam muito sobre a pessoa querida que é.

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Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra, de Gore Verbinski (Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl, 2003)

Poderia falar do primeiro filme que assisti no cinema, “O Noviço Rebelde” (1997), aquele do Didi com Sandy & Junior, ou do primeiro que me fez brincar de ser roteirista, imaginando qual mutante seria depois de ver “X-Men: O Filme” (2000). Mas, pensando nesse contato primário com a Sétima Arte, nenhum teve o efeito de “Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra”, naquela época e ao longo de tanto tempo.

Quando, finalmente, compramos um DVD em casa, depois de anos com um VHS quebrado, locamos o título junto com “Procurando Nemo” (2003). Na primeira vez que assisti, adorei tanto quanto a animação da Pixar. Porém, vendo outras tantas vezes quando chegou à TV e com a produção de novos capítulos do que seria, a princípio, uma trilogia, a franquia não só se tornou objeto de afeição e admiração, como também estimulou e muito a minha imaginação adolescente no meu sonho, hoje, adormecido de ser roteirista.

Em vez de “Star Wars” ou Marvel, por exemplo, “Piratas do Caribe” continua sendo minha favorita, o que não quer dizer que não enxergue os vários problemas das sequências. Mas, ainda hoje, “A Maldição do Pérola Negra” permanece na minha mais alta conta, pela habilidade de Verbinski no equilíbrio narrativo da aventura, comédia, romance, ação e terror dentro do resgate de um subgênero quase esquecido naquele período. E também, por perceber que a Elizabeth Swann de Keira Knightley – junto com a famosa Bennet que interpretou em “Orgulho e Preconceito” (2005) – foi a minha referência de heroína feminina em um período bem diferente do atual. Aliás, a coisa começou a degringolar na saga, quando se acreditou que tudo se resumia a um Pirata do Caribe, desprezando o protagonismo dividido entre os três personagens principais que existe e funciona tão bem no longa de 2003.

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A Montanha dos Sete Abutres, de Billy Wilder (Ace in the Hole, 1951)

Como jornalista de formação, filmes sobre o tema sempre me interessaram antes mesmo da faculdade e se tornaram obrigatórios a partir do vestibular. Dentre os que assisti na sala de aula, incluindo aquele clássico que você está pensando, meu longa-metragem favorito sobre o assunto é “A Montanha dos Sete Abutres” que, junto com o curta nacional “Quem Matou Eloá?” (2015) de Lívia Perez, se mantém extremamente atual em sua crítica ao sensacionalismo midiático, que sempre nos é lembrado a cada cobertura jornalística de certas tragédias. Dono de uma filmografia extensa e muito diversificada, Wilder faz este estudo da psique humana, no questionamento moral de até onde alguém pode ir para conseguir realizar os seus desejos, como em algumas de suas obras, com profissionais de outras áreas. No entanto, o peso aqui da palavra ou da imagem como uma arma letal é um lembrete muito marcante da ética que, às vezes, falta a alguns colegas e também a quem deseja denegrir a profissão por não saber conviver com divergências.

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Temporário 12, de Destin Daniel Cretton (Short Term 12, 2013)

O tema delicado e importante das crianças e adolescentes em situação de risco que precisam viver em abrigos temporários do Estado potencializa o drama deste filme indie norte-americano, mas que só é sustentado pelo bom elenco, capitaneado por Brie Larson. Aliás, a atriz indicada ao Spirit Awards por esse trabalho, deveria já ter concorrido ao Oscar ou, pelo menos, às outras grandes premiações daquela temporada por este papel de uma funcionária do lugar que tenta ajudar os menores, mas também tem seus próprios traumas e problemas a superar.

No entanto, o que torna a obra de Destin Daniel Cretton excepcional é o seu encerramento. A forma como o cineasta entrega o final feliz que o público deseja, mas fazendo seu verdadeiro discurso nas entrelinhas é admirável e invejável, embora não tão compreensível para todos à primeira vista. Ao repetir a mesma situação da cena inicial e carregar toda a simbologia da bandeira dos Estados Unidos, a última sequência traz uma diferença fundamental na ação, revelando que aquele “sonho norte-americano”, que tanto os personagens quanto os espectadores almejam, nunca estará ao alcance deles.

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Mate-me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira (2015)

Era um dos vários filmes estreantes que tinha de ver na Mostra de 2015, por estar no júri Abraccine, mas na agitação daqueles dias, diferente de todos os outros, acabei não lendo nem a sinopse de “Mate-me Por Favor”. Na correria, entrando na sala de cinema logo na primeira cena, o primeiro longa de Anita Rocha da Silveira foi realmente um “tiro no escuro”, que se revelou uma das experiências mais incríveis que já vi, mesmo sem saber para onde a cineasta estava nos levando com aquela história que contém um pouco de slasher, “Meninas Malvadas”, Lynch e até funk gospel. Na realidade, mesmo quando revi, um ano depois, ainda me surpreendi com detalhes que havia deixado passar, como a citação indireta ao caso da Daniella Perez, acontecido naquela mesma Barra da Tijuca que serve de cenário para a trama.

Até a idiossincrasia do bairro é uma das várias camadas da obra. Com elementos simples que recordam o ambiente escolar da nossa memória, o retrato mórbido e fantasmagórico da passagem pela adolescência, no qual estes jovens estão sozinhos, sem nenhum adulto por perto, também faz suas críticas a certo moralismo, à violência contra a mulher e às transformações do espaço urbano naquela região. Neste último item, a obra vai de encontro com a tendência de variados filmes nacionais desta década, mas que também era uma preocupação de grandes cineastas nos anos 1960, de observar de maneira crítica as transformações da urbanização e seus efeitos sociais na população.

Frances Ha, de Noah Baumbach (Frances Ha, 2012)

É fácil e, de certo modo, até “cool” para jovens hipsters e/ou cinéfilos iniciantes falarem que adoram “Frances Ha” – e também aos detratores se apegarem ao uso do preto e branco e à reprodução da cena de “Sangue Ruim” (1986) ao som de “Modern Love” do David Bowie como fetichismo. Posso justificar o primeiro caso com o fato do filme ser um retrato agridoce de uma geração, especialmente de nós, envolvidos no mundo das artes, a quem, desde cedo, foi dito que tudo podia e, hoje, vê a realidade sobrepor seus frágeis planos e enormes anseios. Assim como posso contrapor que as homenagens estéticas de Baumbach estão servindo a esse olhar geracional e ao drama da personagem-título, em que o roteiro dele e da Greta Gerwig muitas vezes se utiliza da estrutura de uma comédia romântica, só que de uma amizade feminina.

No entanto, é pelo aspecto pessoal que a obra “me pega”: a cada vez que revejo, me vejo mais ali, mesmo sendo o oposto de Frances Ha. Se a protagonista é bem irritante na sua falta de noção e cara-de-pau com seus amigos, sou irritantemente tímida para me enturmar até com quem já tenho amizade; se ela resolveu passar dois dias em Paris, mesmo sem dinheiro, e só dormiu em sua passagem por lá, gastei minhas economias para passar o mesmo tempo na França, mas sem lugar para dormir. Mas na última vez que assisti, ao ver que tinha os mesmos 27 anos de Frances, percebi também o quanto compartilhava daquele sentimento de inadequação dela e da falência dos sonhos quando a vida adulta bate à porta, com a necessidade de crescer, no caso dela, e de se sustentar, no meu caso.

Os Cinco Filmes Prediletos de Yuri Deliberalli

Yuri foi mais um cinéfilo que conheci por intermédio da saudosa Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos, ainda que ele também more em São Paulo. E desde o primeiro encontro matinal entre os membros em uma edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, temos nos esbarrado com alguma frequência em sessões de outros festivais, como o INDIE ou aqueles promovidos pelo CineSesc de cineastas e vanguardas.

Entre os intervalos, sempre discutimos não somente sobre os filmes que acabamos de assistir, como todos os demais que compõem ou não as nossas bagagens. A dificuldade é entrarmos em um acordo. Aí está uma singularidade em nossas interações, pois as divergências sempre se dão com respeito, por vezes em tom de brincadeira mesmo.

Parte disso está em pontos de vista bem fundamentados, também expressos em sua escrita, que pode ser prestigiada no Discurso Cinematográfico, o seu blog pessoal de cinema. Como redator, Yuri também atua no projeto coletivo Multiplot! e deve ser acompanhado no Letterboxd.

A seguir, Yuri contou para o Cine Resenhas quais são os seus cinco filmes prediletos hoje.

 

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O Portal do Paraíso, de Michael Cimino (Heaven’s Gate, 1980)

Talvez o filme mais representativo da verdadeira natureza do sonho americano. Desolação e melancolia impregnam cada um dos frames e tornam a experiência cinematográfica profundamente brutal sobre o espírito de prosperidade, liberdade e esperança que o filme tanto nega ao espectador. É um filme todo elaborado em ciclos, desde a ingenuidade da dança de formatura até a violência da dança da cavalaria durante o massacre final, num sentido de que o rumo da história (e do país que a modulou) pode girar, mas sempre voltará ao mesmo lugar. Vi na tela do Cinesesc numa retrospectiva do Cimino há uns anos e não há como ficar ileso.

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Um Dia Quente de Verão, de Edward Yang (Gu ling jie shao nian sha ren shi jian, 1991)

Uma paixão que veio em uma dessas sessões icônicas que a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo proporciona de tempos em tempos. Um restauro primoroso de um filme sobre a selvageria de um contexto e seu impacto violento sobre a formação do indivíduo. A invasão ocidental sobre a cultura oriental e a consequente deturpação de costumes e tradições ao ponto em que a violência – esse ato mais instintivo – torna-se a única via possível. São quatro horas de cuidado e maturidade narrativa.

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A Palavra, de Carl Theodor Dreyer (Ordet, 1955)

O Alex tem influência direta neste aqui, uma vez que decorreu de uma lista jamais publicada na finada Sociedade dos Blogueiros Cinéfilos sobre os vencedores de Veneza. Foi meu primeiro Dreyer e causou espanto pelo quão cirúrgica ou mesmo matemática é sua maneira de filmar, em que cada movimento de câmera, posicionamento de atores e cada corte parecem milimetricamente calculados, mas sem que isso reduza o filme a uma excessiva formalidade. E isso casa muito bem com essa perspectiva da fé como um evento inumano e psicológico; de pura crença em um poder reconciliador que é sobrenatural e se manifesta pelas mãos humanas.

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O Leopardo, de Luchino Visconti (Il gattopardo, 1963)

Visconti é meu favorito e não poderia deixar de mencionar um filme dele por aqui. A incompreensão do Príncipe Salinas com as mudanças sociais ao seu redor jamais se torna um elemento de exposição textual, mas sim um fator de estruturação cênica. São as paredes, os lustres pomposos e os móveis intactos que denunciam a decadência e o fim das tradições seculares de uma sociedade que não vê mais espaço para algo tão obsoleto quanto a aristocracia. E sendo Visconti, a elegância jamais é um véu protocolar.

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Suspiria, de Dario Argento (idem, 1977)

Adição mais recente aos meus favoritos. Lembro de não ter achado grande coisa na primeira vez, mas a revisão no IMS recentemente alavancou a experiência e demonstrou o quão problemático é o início de cinefilia. Acima de tudo, cores como personagens onipresentes e como um elemento intensificador do horror que se esconde por trás da porta. Em um filme sobre aparências, a busca incessante pela compreensão do que acontece ao redor torna a realidade um sonho e o sonho em uma experiência demoníaca.

Os Cinco Filmes Prediletos de Otávio Almeida

Já se passaram 10 anos desde a decisão em usar a blogosfera como uma plataforma não somente para tornar pública as minhas opiniões sobre filmes, mas também para criar conexões com pessoas com quem em comum tenho essa paixão irrefreável por cinema. Da “velha guarda”, há até hoje uma relação cordial. Como a com Otávio Almeida, com o qual tenho uma amizade que se fortaleceu quando nos descobrimos residentes de municípios vizinhos.

Jornalista e PR, Otávio toca há um bom tempo o Hollywoodiano, um nome inspirado no antigo Hollywoodianas da correspondente internacional Ana Maria Bahiana. Mesmo com uma rotina dura de trabalho, está sempre antenado para fazer uma cobertura crítica sobre os principais lançamentos do momento, também contemplando títulos nem sempre exibidos em grande circuito.

É um excelente cinéfilo para trocar figurinhas. Mesmo em discussões quando há pontos divergentes, as opiniões se completam ao invés de se anularem. Há também um sentimento de nostalgia que o ronda, como se pode perceber em sua seleção de filmes prediletos a seguir.

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O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola (The Godfather, 1972)

Para uma geração antes da minha, “Cidadão Kane” costuma ser apontado como o melhor filme de todos os tempos. Para minha geração, “O Poderoso Chefão” é o filme perfeito em todos os quesitos. A direção mais elegante, o roteiro mais bem escrito, o elenco ideal e a música de Nino Rota são elementos que representam uma aula de narrativa e cinema como a arte que amamos e exigimos. Não é só por isso que jamais condenamos os Corleone. Nas entrelinhas nos identificamos porque todo mundo tem família. Nenhuma é perfeita e todas são amadas e perdoadas.

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Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese (Goodfellas, 1990)

Se “O Poderoso Chefão” é a máfia high society, “Os Bons Companheiros” é sua representação das ruas. É o gângster do povo. Não é exatamente uma família, como no clássico de Coppola. Scorsese fala de amigos, como está no título. Mas negócios é um assunto à parte e, mais cedo ou mais tarde, uma vida de excessos e a sede pelo poder levam amizades à ruínas. Foi a primeira vez que vi um filme narrado por vários personagens. E penso que essa diversidade de pontos de vista anula nossa capacidade de julgar seus atos. Sempre vi “Os Bons Companheiros” como o anti-“O Poderoso Chefão”, a realidade alternativa da máfia de Coppola.

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Os Caçadores da Arca Perdida, de Steven Spielberg (Raiders of the Lost Ark, 1981)

É o filme que me despertou para o cinema. Vi um trecho com um homem de chapéu e chicote sendo arrastado por um caminhão e quis voltar e assistir desde o início para entender o que estava acontecendo. Mas aquela cena havia deixado meu coração acelerado. Quis saber quem eram Steven Spielberg, George Lucas, Harrison Ford e John Williams. Sou fã de carteirinha de Indiana Jones, mas foi por causa dele que descobri “Star Wars”, “De Volta para o Futuro”, “Gremlins”, “Os Goonies”, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, “E.T.”, “Blade Runner” e outros filmes que envolvem esses nomes. É a razão pela qual gosto de filmes divertidos e escapistas até hoje.

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O Império Contra-Ataca, de Irvin Kershner (Star Wars: Episode V – The Empire Strikes Back, 1980)

Os fãs de “Star Wars” gostam de dizer que “O Império Contra-Ataca” é o melhor filme da saga, afinal subverteu o clima de aventura do original e expôs os planos de George Lucas de criar uma mitologia, uma space opera. Mas, para mim, esse é o melhor filme da série porque foi o primeiro “Star Wars” que assisti. Fiquei sem fôlego. E só depois corri atrás de “Uma Nova Esperança” (conhecido como “Guerra nas Estrelas” na época) e “O Retorno de Jedi”. Para mim, o conflito entre pai e filho, os caminhos opostos tomados por eles e a certeza de que o passado e o elo de sangue nunca morrem, tudo isso é muito mais emocionante que qualquer luta de sabres de luz e batalhas entre naves no espaço.

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Blade Runner, o Caçador de Androides, de Ridley Scott (Blade Runner, 1982)

Um triunfo da junção entre imagem, som e música. A influência deste filme na ficção científica e no cinema em geral é inegável. Mas entre prédios gigantescos, luzes e sombras, o que mais me atrai em “Blade Runner” é a forma como Ridley Scott tenta mostrar o que torna alguém humano. E a fala final de Rutger Hauer é a minha favorita do cinema.

Os Cinco Filmes Prediletos de Rubens Francisco Lucchetti

Se você é um leitor assíduo, Rubens Francisco Lucchetti, ou R. F. Lucchetti, é um nome que certamente passou por sua bagagem literária. Com mais de mil livros de sua autoria publicados, o escritor nascido em Santa Rita do Passa Quatro é o grande Mestre do Horror brasileiro, tendo iniciado o ofício quando ainda era pré-adolescente e construído uma carreira não somente com romances, mas também com histórias em quadrinhos, a editoria de jornais e revistas, a produção de programas radiofônicos, entre tantas outras ocupações criativas.

Com a criação de uma conta no Facebook, vinda após o rompimento de um hiato, uma nova luz de fascínio foi lançada sobre Lucchetti e a sua obra, estabelecendo um contato direto com os seus inúmeros fãs a partir de pensamentos sobre a vida e a literatura de horror ao mesmo tempo em que exerce a sua invejável vitalidade aos 87 anos prosseguindo ininterruptamente com a escrita.

O meu primeiro contato com o universo assombrado de Lucchetti veio com a Série Vaga-Lume a partir de “O Fantasma de Tio William”, que segue por novas gerações como um de seus livros mais queridos. Mais recente é o meu acesso aos seus feitos como roteirista de cinema. Foi durante uma rápida conversa que tive com o Ivan Cardoso após a exibição de “O Segredo da Múmia” na Mostra Cinema de Invenção, realizada no fim de novembro de 2016 no CineSesc, que pensei em contatar o Lucchetti para a participação desta seção do Cine Resenhas.

Também aficionado por cinema desde novo, chegou a ser co-fundador do Clube de Cinema de Ribeirão Preto e gerente do Cine Centenário no início dos anos 1960, à época uma popular sala de cinema situada no centro de Ribeirão Preto. Ainda hoje, explicita o seu lado cinéfilo em postagens públicas e em entrevistas, sendo o terror, assim como na literatura, o seu gênero favorito. É o que demonstra em uma seleção de filmes que o marcaram, disponível a seguir.

Em tempo: além de um site, é possível contatar e solicitar livros com o próprio Lucchetti em seu perfil no Facebook. Na compra direta com o Mestre, os títulos, como os da Coleção R. F. Lucchetti lançada pelo selo Editorial Corvo, são acompanhados com dedicatórias.

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Sangue de Pantera, de Jacques Tourneur (Cat People, 1942)

Foi o primeiro filme da série de Horror produzida por Val Lewton nos anos 1940 para a RKO.

Eu o assisti por volta de 1948 num cinema de Ribeirão Preto (interior do estado de São Paulo). E logo percebi o quanto eram banais as fitas de Horror que havia visto até então.

É um filme em que o horror é conseguido por meio de ruídos ou sombras. Ou seja, como o horror deve ser: totalmente subjetivo.

A fita conta com a presença da enigmática Simone Simon. Ela e a inglesa Barbara Steele são os dois maiores expoentes femininos do Horror cinematográfico.

Olhos Diabólicos, de Mario Bava (La ragazza che sapeva troppo, a.k.a. A Garota Que Sabia Demais, 1963)

Com esse filme, Maria Bava inaugurou um novo gênero cinematográfico: o Giallo, que é o filme de Suspense à italiana.

É uma fita insuperável.

Tem uma sequência que merece figurar em qualquer antologia cinematográfica: a da jovem norte-americana que presencia, de madrugada, um assassinato numa praça (cheia de escadarias) em Roma. É uma sequência em que sentimos a presença do diretor  e do fotógrafo Maria Bava.

Le Frisson des Vampires, de Jean Rollin (idem, 1971)

É, sem dúvida, o mais surrealista dos filmes do surrealista Jean Rollin.

Quando você assiste a essa fita, tem a impressão de estar sonhando ou delirando. Porque, como em todo sonho ou delírio, tudo é irreal, mas você vê como se fosse real e natural.

Há uma sequência que destaco: a da mulher-vampiro saindo de dentro de um carrilhão.

O Magnífico, de Philippe de Broca (Le magnifique, 1973)

Quando assisti a esta fita, imediatamente vi-me retratado no personagem principal, um autor de livros populares (interpretado por Jean-Paul Belmondo). Até parecia que eu estava vendo nas telas a minha biografia.

O filme conta com a presença de Jacqueline Bisset no auge de sua beleza.

De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick (Eyes Wide Shut, 1999)

O filme-testamento de Stanley Kubrick.

Penso que é uma das fitas mais intrigantes da história do Cinema.

É um filme que você jamais esquece. E, a cada vez que você o assiste, faz uma nova leitura dele. É uma fita que deixa o espectador num permanente estado de expectativa.

Para mim, é a grande obra-prima dos anos 1990.

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Os Cinco Filmes Prediletos de Wanderley Teixeira

Bem como aconteceu com muitos colegas que foram convidados para esta seção do Cine Resenhas, conheci o Wanderley Teixeira em uma reunião virtual entre pessoas de vários estados do país que escreviam sobre cinema, formando a partir dela a Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos. Quase 10 anos se passaram e amizades continuam se mantendo enquanto alguns fatores são rediscutidos, como as plataformas e o quanto a escrita sobre cinema tomou um espaço especial dentro de nossas vidas atribuladas.

No Wanderley, encontrei alguém não apenas com algumas predileções em comum, como também um amigo sempre ponderado e bem-humorado para trocar impressões. Amigo que finalmente pude conhecer pessoalmente recentemente e em grande estilo: numa sessão do CineSesc com cópia de 35mm de “French Cancan”, comédia musical de Jean Renoir que, curiosamente, tem como palco o Moulin Rouge, que vem a ser também o nome do filme com a nossa atriz favorita, Nicole Kidman.

Além do Chovendo Sapos, endereço que sustenta desde 2011, colabora ativamente para o Coisa de Cinéfilo, projeto que divide com duas amigas de Salvador, município em que vive. Com a vida acadêmica bem movimentada (é Graduado em Jornalismo e Direito e Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas), Wanderley reservou um tempo para comprovar a sua paixão por cinema a partir de comentários sobre os seus cinco filmes prediletos a partir de critérios que o próprio introduz a seguir:

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Acredito que a concepção de listas para qualquer um guarda em si um grande prazer na escolha daquilo que fará parte da seleção, mas também o receio de cometer alguma injustiça ou, no caso, esquecimento. Convidado pelo Cine Resenhas para escolher os meus cinco filmes prediletos, resolvi adotar como critério a escolha de títulos que foram representantes importantes dos meus primeiros passos como cinéfilo. Assim, o que verá a seguir é uma lista composta por títulos majoritariamente dos anos de 1990 e início dos anos 2000, épocas em que tive contato com alguns dos filmes mais importantes e marcantes da minha vida, não só pela experiência cinematográfica que proporcionaram, mas também porque se alinharam como fases e momentos determinantes da minha jornada pessoal.

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Magnólia (Magnolia)Magnólia, de Paul Thomas Anderson (Magnolia, 1999)

“Magnólia” é o melhor filme do cineasta norte-americano Paul Thomas Anderson. Curiosamente, é aquele que acessa o espectador pela via mais simples: a do cotidiano e das relações humanas. Diretor que já se dedicou a retratar uma década no universo do cinema pornô (Boogie Nights) e a gana pelo petróleo na virada para o século XX (“Sangue Negro”), Anderson trabalha em “Magnólia” com as esgarçadas relações familiares de personagens comuns. Há uma evidente associação estabelecida pelo diretor entre a flor que dá título ao filme com os seus diversos núcleos de personagens representando pétalas unidas pela própria condição humana. Porém, o que confere poder a esse drama de Paul Thomas é a maneira com que o realizador dá forma épica ao que é da esfera íntima do indivíduo, como define José Francisco Montero, biógrafo do diretor. Assim, em “Magnólia”, Paul Thomas Anderson entende que o caráter épico da jornada humana não está nos grandes feitos, não são eles os responsáveis pelas transformações, mas sim os momentos que nos testam na esfera mais íntima.

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As Horas, de Stephen Daldry (The Hours, 2002)As Horas, de Stephen Daldry (The Hours, 2002)

É difícil definir em poucas linhas sobre o que trata “As Horas”, adaptação do livro de Michael Cunningham tão bem realizada por Stephen Daldry. Há leituras do filme que dão conta de uma obra com preocupações sobre a questão da gradual emancipação feminina, outros levantam a importância do longa na dimensão que dá ao problema da depressão e suas consequências. Todas estas leituras de “As Horas” estão no longa e são válidas, mas, de uma maneira geral, sempre percebi o filme de Stephen Daldry como um estudo sobre a própria vida, sobre as escolhas que fazemos nela, o que queremos dela, o que temos dela em troca e como é difícil lidar com tudo isso, aceitar as ausências do happy end em razão de movimentos que realizamos em prol da própria felicidade. O filme nos dá a dimensão de como cada instante da vida é marcado por cumes de realização, melancolia e decisões que repercutem por toda uma trajetória. Isso é sintetizado na micro jornada de um dia na vida das suas protagonistas: a escritora Virginia Woolf (Nicole Kidman), que escreve o clássico Sra. Dalloway; a editora de livros Clarissa Vaughan (Meryl Streep), que sempre fora comparada com a protagonista da obra; e, principalmente, Laura Brown (Julianne Moore), que lê o título e toma uma decisão que repercute severamente no destino de muita gente.

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O Rei Leão (The Lion King)O Rei Leão, de Rob Minkoff e Roger Allers (The Lion King, 1994)

“A Bela e a Fera” foi o primeiro filme que assisti no cinema, mas, considerando todo o catálogo Disney dos anos 1990, “O Rei Leão” é o filme de uma geração – além do que, foi minha primeira VHS, gasta com o tempo de tanto que foi testada pelo videocassete. A jornada do leãozinho Simba é repleta de questões pontuais sobre o rito de passagem para a vida adulta. Desde a percepção infantil sobre o que é assumir um reino até a recusa de Simba a sucessão do pai quando adulto, “O Rei Leão” expõe aquilo que a vida mais requer de nós:  responsabilidade. E como é difícil encarar esse processo! Repleta de personagens que se transformaram em referência para uma geração com cenas, frases e canções repetidas até hoje em qualquer circunstância, a animação é o grande feito dos estúdios Disney e dá provas do seu caráter atemporal.

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Jurassic Park - O Parque dos Dinossauros (Jurassic Park)Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros, de Steven Spielberg (Jurassic Park, 1993)

Enquanto a geração que me antecedeu sonhava pilotar a Millennium Falcon e a dos anos 2000 queria passar uma temporada em Hogwarts, meus contemporâneos só pensavam em catalogar os fascículos da revista “Dinossauros!” da editora Globo (nunca consegui completar aquele tiranossauro rex!)  e até sonhavam em ser paleontólogos quando crescessem. Até hoje, lembro da sensação de assistir “Jurassic Park” nos cinemas em 1993 e testemunhar em cores e texturas a concepção das criaturas pré-históricas do parque dos dinossauros graças aos feitos tecnológicos bancados por Steven Spielberg e que hoje parecem comuns com a banalização do CGI nos blockbusters. Além de ser um colosso tecnológico que impressiona até hoje e parece muito mais eficiente que seus similares mais recentes, “Jurassic Park” traz Spielberg naquilo que sempre foi sua especialidade, o cinema escapista, e ainda proporciona reflexões pertinentes sobre a importância da ética no trato das descobertas científicas e tecnológicas.

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Central do BrasilCentral do Brasil, de Walter Salles (idem, 1998)

A maturidade traz como risco nossa transformação em pessoas amargas, pragmáticas e pessimistas e é comum que tenhamos mais contato com narrativas que deem conta desse processo do que o inverso, que quando ocorre sempre surge coberto por um manto de artificialidade e pieguice. “Central do Brasil” é um filme que trata do processo de reconstrução da humanidade de Dora, personagem defendida por Fernanda Montenegro em interpretação marcante, a partir da sua relação com o menino Josué, de Vinícius de Oliveira. Walter Salles é um caso raro de realizador que consegue aliar domínio técnico e narrativo da linguagem com a construção de uma história com alma o suficiente para conquistar o coração do público sem “forçação de barra”. “Central do Brasil” é o exemplar máximo dessa qualidade do diretor e até hoje me provoca arrepio e conforto no coração assistir a despedida de Dora e Josué ao som da trilha sonora de Antonio Pinto e Jacques Morelenbaum.

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Os Cinco Filmes Prediletos de Cláudia Nonato

No ano passado, as aulas da disciplina de Jornalismo Social e Comunitário foram ministradas por Cláudia Nonato. Adorei o seu método de ensino, sempre trazendo em sala profissionais e especialistas que nos apresentavam um panorama exclusivo de alguma das várias áreas de atuação no jornalismo. Havia também o interesse por filmes como uma ferramenta de trabalho, exibindo para nós a ficção “Uma Onda no Ar” e o documentário “Junho – O Mês que Abalou o Brasil“.

Nesta reta final da minha graduação, reencontro Cláudia, novamente como a minha professora. Agora, sinto ter conquistado a sua amizade, sendo uma excelente ouvinte e conselheira para todos os meus anseios de uma fase tão complicada de minha formação. Por tudo isso, fiz um convite à Cláudia para esta seção do Cine Resenhas, acreditando que as suas dicas seriam muito importantes para aqueles que desejam conhecer nos filmes as responsabilidades e dilemas por trás de sua profissão, a qual exerce com um afeto exemplar.

Agora, fiquem com as palavras de Cláudia:

Eu sou e sempre serei uma jornalista, mas atualmente a educação se faz muito presente em minha vida. E, ao receber esse carinhoso e difícil desafio, de escolher cinco filmes (entre milhares que eu adoro), a primeira ideia que me veio à mente foi selecionar cinco filmes que falem de educação, escola, ser professor. Além disso, pensei em filmes que me remetem à uma memória afetiva. Em ordem cronológica, escolhi:

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Ao Mestre, Com CarinhoAo Mestre, Com Carinho, de James Clavell (To Sir, with Love, 1967)

Clássico das sessões da tarde, com o astro negro Sidney Poitier no papel principal, como um engenheiro desempregado, que aceita trabalhar como professor de uma escola do subúrbio inglês. Cheio de clichês, como casos de rebeldia, indisciplina, preconceito, alunas que se apaixonam e bailes de formatura, entre outros, o filme encanta também por conta da canção tema, “To Sir, with Love”, na voz da cantora Lulu.

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Grease - Nos Tempos da BrilhantinaGrease – Nos Tempos da Brilhantina, de Randal Kleiser (Grease, 1978)

A escola aparece apenas como pano de fundo para esse musical. Hoje talvez fosse comparado a mais um dos milhares de filmes estilo “High School Musical”, mas na época o filme foi (e ainda é) um sucesso: levou o Globo de Ouro de melhor filme e o Oscar de melhor canção original, ambos em 1979. O filme retrata o comportamento dos jovens dos anos 50, na Califórnia. As músicas realmente são inesquecíveis, assim como a presença dos atores Jonh Travolta e Olivia Newton-John que, além de lindos, cantavam, dançavam e se tornaram ídolos de toda uma geração.

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Pro Dia Nascer FelizPro Dia Nascer Feliz, de João Jardim (idem, 2006)

Não poderia deixar de falar do Brasil, e esse filme retrata muito bem a nossa educação, mostrando a vida de adolescentes, ricos e pobres, de escolas públicas e particulares de três Estados brasileiros: São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco. Questões como desmotivação, violência e desigualdade inquietam e angustiam alunos, professores e também a quem assiste o filme. Uma dura realidade que todos precisamos conhecer.

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Entre os Muros da EscolaEntre os Muros da Escola, de Laurent Cantet (Entre les Murs, 2008)

Esse filme se passa na França, e é interessante porque mostra que a realidade da educação de lá não é tão diferente da nossa, além de trazer questões contemporâneas. Alunos de diversas etnias e raças (asiáticos, africanos, franceses), questões familiares, sociais, políticas. Todos os problemas giram em torno de um grupo de professores de uma escola de ensino médio da periferia de Paris, principalmente em François, professor de língua francesa, que luta contra o desinteresse e a falta de educação dos alunos, em busca de estímulo para as aulas.

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A OndaA Onda, de Dennis Gansel (Die Welle, 2008)

O filme é inspirado no livro homônimo, de 1981. A história se passa em uma escola alemã, que oferece cursos rápidos, de uma semana. O professor Rainer é designado para dar o curso de autocracia contra a sua vontade, porque preferia dar o curso de anarquismo. Logo na primeira aula, os alunos duvidam que possa voltar a nascer uma ditadura na Alemanha, e o professor resolve, como demonstração, formar um governo fascista dentro da sala de aula. O que era, a princípio, uma brincadeira, acaba tomando proporções incontroláveis para todos. O filme é assustador e, ao mesmo tempo, muito atual.

Os Cinco Filmes Prediletos de Brenno Bezerra

Crédito: Eudes Marinho
Crédito: Eudes Marinho

 

Na última quinta-feira, o Cine Resenhas completou nove anos de vida. Esse acontecimento marcante para a história do endereço vem cheio de recordações sobre os primeiros passos. De um projeto descompromissado, atualizado semanalmente, esse “sítio” de algum modo foi fortalecido por uma ação de coletividade, no sentido de que um grupo se fez com outros colegas também novatos com a iniciativa de debates sobre cinema.

Se a memória não falha, a troca de impressões com o Brenno Bezerra aconteceu em meados de 2008, um momento em que o Cine Resenhas estava somente há alguns meses no ar. Residente de Itapecuru-Mirim, cidade do interior do Maranhão, Brenno sempre foi um exemplo de cordialidade na blogosfera, uma qualidade também refletida em sua escrita, que pode ser prestigiada no  Rede Cinéfila. Outro detalhe que só amplia minha a estima por sua amizade é a admiração por Nicole Kidman, tendo inclusive participado aqui de uma homenagem preparada em ocasião do 47º aniversário da atriz australiana.

Recentemente, Brenno pôde eternizar a sua paixão por cinema com a publicação de “Resenhistas na Web: O Novo Crítico de Cinema”, obra em que identifica a transformação da crítica cinematográfica a partir da vinda de inúmeros cinéfilos que encontraram na internet um modo de contribuir com novos pontos de vista no julgamento de um filme, alguns se transformando em novos especialistas. Na segunda metade do livro, há resenhas de sua autoria, bem como a participação de outros dois colegas muito queridos que já participaram desta seção: Kamila Azevedo, do Cinéfila por Natureza, e Matheus Pannebecker, do Cinema e Argumento.

Os interessados por “Resenhistas na Web: O Novo Crítico de Cinema” podem fazer o seu pedido para brenno_cine@hotmail.com. A seguir, confira a seleção de filmes prediletos que Brenno nos preparou.

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...E O Vento Levou (Gone with the Wind)…E o Vento Levou, de Victor Fleming (Gone with the Wind, 1939)

Filme preferido da minha mãe, que acabou me apresentando a ele no ano de 2007. Acreditava ser uma grande e bela história de amor. Enganado estava e que bom que foi assim. Sempre defenderei a tese de que a Scarlett e o Butler são verdadeiros picaretas, mas isso não faz deles maus personagens, muito pelo contrário, eles ficaram cada vez mais interessantes. Em suas quatro horas de duração, o filme não se censura em trabalhar inúmeros atos, que poderiam prejudicar a obra, mas acabam por engrandecê-la sem perder a essência, construída num roteiro com frases simplesmente arrebatadoras, que não tiramos da cabeça e vemos o quão podemos usá-las no nosso cotidiano. Destaque às atuações de Vivien Leigh, Clark Gable e Hattie McDaniel. Pra quem discorda de mim, eu só digo o seguinte: “Francamente, meus queridos, eu não dou a mínima”.

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O Mágico de Oz (The Wizard of Oz)O Mágico de Oz, de Victor Fleming (The Wizard of Oz, 1939)

É sem dúvida o maior clássico infantil da história. Trabalhando aspectos precisos, sem deixar que tons maduros atrapalhassem a obra. Uma perfeita criação de um ambiente do imaginário de uma criança, fazendo ela deleitar-se diante de uma sociedade mágica e repleta de aventuras que ela sempre sonhara que pudesse existir e que finalmente estava inclusa, aliando isso a lições didáticas e éticas, onde podemos denotar a brilhante sacada do Mágico realizando os sonhos do leão, do espantalho e do homem de lata, introduzindo um emocionante final que explora belos valores familiares e de amizade.

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A Noviça Rebelde (The Sound of Music)A Noviça Rebelde, de Robert Wise (The Sound of Music, 1965)

Positivamente açucarado, um filme que investe no infantil sem deixá-lo inapropriado para adultos, e vice-versa. O interessante é que o andar da carruagem podia levar a uma roteiro explorando o antagonismo em diversos atos, mas sabiamente há o acerto da criação de uma oposição racional e até mesmo benevolente, caracterizada pela Baronesa e pelas demais freiras, já que num ambiente onde o vilão é o nazismo, não havia motivos para investir em pessoas maldosas, descaracterizando todo trabalho de autoestima que o filme tem. Canções empolgantes e que não saem de nossa memória, um elenco eficaz e uma locação austríaca que nos dá vontade de mudarmos para lá.

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Cantando na Chuva - Singing in the RainCantando na Chuva, de Gene Kelly e Stanley Donen (Singin’ in the Rain, 1952)

Melhor musical da história do cinema e que é bem mais que o Gene Kelly cantando e dançando na chuva. Confesso que essa nem é minha cena preferida do filme, apesar de louvá-la. Trabalho primoroso com canções divertidíssimas, numa nem tão utópica realidade do showbusiness americano, que acima de tudo acaba sendo uma ode à arte a cada cena. Reverenciando o trabalho do protagonista, de Debbie Reynolds e Jean Hagen, fica o destaque maior para o explosivo e subestimado Donald O’Connor e a melhor dançarina da história Cid Charrise.

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Moulin Rouge! - Amor em Vermelho, de Baz Luhrmann (Moulin Rouge, 2001)Moulin Rouge: Amor em Vermelho, de Baz Luhrmann (Moulin Rouge!, 2001)

Filme que estourou em Hollywood no exato momento que eu era apresentado a minha ídola Nicole Kidman e a mesma saía de um conturbado divórcio com Tom Cruise. No que se apostava que a sua carreira poderia sofrer uma queda brusca, veio uma verdadeira redenção de um período em que a indústria sente muita falta. Numa atuação impecável, explosiva e emocionante, vemos uma química extraordinária com Ewan McGregor num musical que ressuscitou o gênero, onde clichês são incrivelmente bem usados com novas versões de canções marcantes e a apresentação da original “Come What May” – talvez uma das mais belas músicas românticas da história do cinema.  Trabalho magnífico e impressionante em todos os segmentos, que fazem essa obra ter um grandioso valor artístico e pessoal para o cinema, Nicole e seus fãs.

Os Cinco Filmes Prediletos de José Alves Trigo

José Alves Trigo

Dos grandes momentos na minha graduação em Jornalismo, talvez o melhor tenha sido um seminário sobre fotografia, na disciplina de Linguagens e Estruturas do Discurso. Além de um passo importante para superar certa inibição para apresentar algo a um público, veio a satisfação de ter compartilhado a minha admiração pela fotógrafa Diane Arbus com competência e desenvoltura. O professor que propôs este seminário foi José Alves Trigo (ou simplesmente Trigo) e os seus elogios foram essenciais para eu saber que a transição que forcei em minha vida ao desejar atuar como um profissional de Comunicação Social foi a melhor decisão que tomei até aqui.

Tive o privilégio de rever Trigo na disciplina de Pauta, Reportagem e Redação II no primeiro semestre deste ano e nos retornos sobre as reportagens que desenvolvi encontrei uma brecha para chamá-lo para participar desta seção do Cine Resenhas. Graduado em Jornalismo pela FIAM e com mestrado em Comunicação e Mercado pela Cásper Líbero, Trigo aceitou o convite com a sua inconfundível generosidade. E o melhor: com a presença de nada menos que dois filmes de Brian De Palma, o meu cineasta favorito.

 

 

Meia Noite em ParisMeia Moite em Paris, de Woody Allen (Midnight in Paris, 2011)

Woody Allen mostra nesse filme o seu lado mais criativo.  O filme trabalha com o conceito de limiar, a transição entre realidade e virtualidade, como no filme Matrix.  A chance de conversar com os intelectuais é como se voltasse à cena o que o pensador alemão Jurgen Habermas chamou de última da história de um ser humano comum estar próximo, sentado em uma mesa de bar e conversar com Picasso, Matisse, Hemingway, Dalí e várias outras personalidades. O filme mostra que estrelas da pintura e da literatura tinham as mesmas angústias que temos no nosso dia a dia.

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Os IntocáveisOs Intocáveis, de Brian De Palma (The Untouchables, 1987)

Uma perfeita combinação de música, enredo e fotografia. Como se tudo isso não bastasse, conta com um elenco que incluia Kevin Costner e Robert De Niro.  E a direção de Brian de Palma. Lançado em 1987, devo ter assistido logo após ter chegado às telas, no final dos anos 1990. Quase 20 anos depois, em 2014, fui aos Estados Unidos e ao entrar no Grand Station, em New York,  vi a escada e na hora lembrei da antológica cena onde Costner corre para salvar um bebê que desce em um carrinho descontrolado.

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Carrie, a EstranhaCarrie, a Estranha, de Brian De Palma (Carrie, 1976)

Faz parte dos meus filmes inesquecíveis por várias razões. Primeira: por ter um misto de drama, terror e até romance. É a história de uma jovem que sofre bullying, um tema que nem era tratado em 1976, quando o filme é lançado. É  a possibilidade de vingança do adolescente. Talvez um pouco daquilo que todos temos inconscientemente (ou conscientemente), quando somos criança. Segundo pela competência de Brian de Palma (de novo). E terceiro pela beleza de Sissy Spacek, com um sorriso tão inesquecível quanto o filme. Teve uma nova versão em 2013, sem o mesmo brilho.

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Apocalipse NowApocalipse Now, de Francis Ford Coppola (idem, 1979)

Francis Ford Coppola consegue unir nesta produção, de 1979, não apenas drama, ação e aventura. Mas inclui também a música. É quase um musical com uma história de tragédia ao fundo. Entre balas que são disparadas no Vietnã e barulhos intensos de helicópteros, você tem a oportunidade de ouvir The Doors e Rolling Stones. Coppola dá uma aula de história e Marlon Brando e Martin Sheen completam o restante. Por sinal, uma aula demorada. O filme dura mais de três horas. Torna-se inesquecível também por isso.

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O Discurso do ReiO Discurso do Rei, de Tom Hooper (The King’s Speech, 2010)

Um filme de 2010 com Colin Firth interpretando a história do rei George VI, da Inglaterra. Para muitos é um filme cansativo, com pouca ação. Mas o que me impressionou foi a interpretação do ator principal e talvez por eu ser professor de comunicação, o fato  de ser possível transformar as pessoas. E o filme mostra isso. Que mesmo um rei também tem suas aflições, seus problemas, muitas vezes considerados como insuperáveis.

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Os Cinco Filmes Prediletos de Marcelo Ferreira

Marcelo Ferreira, Alta Peliculosidade

Não importa quantos filmes um cinéfilo assiste, sempre haverá uma falta em sua bagagem devido a falta de oportunidades para explorar de modo completo uma cinematografia, uma vanguarda ou um período. Ao menos para cobrir um cinema alternativo contemporâneo, as indicações do Marcelo têm sido de grande valia. É também para exaltar sua paixão por essa linha de obras cinematográficas que ele lançou recentemente o blog Alta Peliculosidade, um espaço que privilegia os filmes que nem sempre recebem o destaque merecido na blogosfera.

Paulista formado em Publicidade e Propaganda, Marcelo acompanha a um bom tempo o Cine Resenhas. As interações através dos comentários neste espaço possibilitou a criação de uma amizade mantida com muito papo sobre cinema, literatura e algumas idas ao cinema. O convite para participar dessa sessão do nosso espaço já tinha sido pensado, mas a inauguração do Alta Peliculosidade foi perfeita para concretizá-lo.

A seguir, temos os cinco filmes prediletos de Marcelo extraídos de uma lista extensa de favoritos. São viagens surreais e emotivas que precisam ser conhecidas.

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Cinema ParadisoCinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore (idem, 1988)

Me lembro como se fosse hoje a primeira vez que eu vi esse filme num festival de cinema vazio. Nunca mais esqueci da paixão com que Giuseppe Tornatore transmitiu sua história. Dificilmente um cinéfilo não se renda com uma das homenagem ao cinema mais puras da história. Dos inesquecíveis Alfredo e o menino Totó e, claro, da trilha sonora de Ennio Morricone. Foi em Cinema Paradiso também que deixei rolar a primeira lágrima numa sala de cinema. Então me digam: Como não amar esse filme?

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A ComilançaA Comilança, de Marco Ferreri (La grande bouffe, 1973)

A Comilança provavelmente foi a primeira grande crítica em forma de filme que eu assisti. Não entendi muito de imediato e mal comprei a ideia da história em que quatro amigos resolvem realizar um banquete e comer até morrer. Foi mesmo com o tempo que aceitei a proposta do italiano  Marco Ferreri e hoje é um daqueles filmes que mora no meu coração e na minha estante. Há quem diga que o filme é um catálogo do mal gosto, mas sou do time que adotou o fato de que se a obra faz você pensar e refletir, ela já alcançou um feito significativo!

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Estrada PerdidaEstrada Perdida, de David Lynch (Lost Highway, 1997)

Tudo aqui me encanta, me envolve, me destrói, me reconstrói e me quebra novamente. David Lynch, como de costume, ofereceu aquela experiência instigante para sonhar de olhos abertos com direito a cenas assustadoras como aquela de Bill Pullman ligando para Robert Blake. De presente, ainda temos Patrícia Arquette em dose dupla – loura e morena – e uma trilha sonora que vale a pena ouvir de cabo a rabo.

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A AntenaA Antena, de Esteban Sapir (La antena, 2007)

Quem me conhece pelo menos um pouquinho sabe que uma das coisas que mais me atrai é um filme sendo contado de maneira inovadora ou fora daquele convencionalismo que conhecemos. Pode nem ser inédito a forma que Esteban Sapír apresentou esse filme, mas me encantou instantaneamente e em cheio. Não sei se me identifiquei com ele por ser da área de comunicação, mas fiz um paralelo desse filme com nossa própria sociedade e época – o  sistema de repressão a qual somos submetidos, o poder da monopolização, o consumismo e por aí vai.

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Crash - Estranhos PrazeresCrash – Estranhos Prazeres, de David Cronenberg (Crash, 1996)

Antigamente, eu tinha vergonha de dizer que amava este filme, não sei se por medo de ser mal interpretado, mas a história do grupo de pessoas que tinha fetiche por cenários de reconstituição de acidentes parece mesmo coisa de desmiolado. E ficou a cargo de David Cronenberg nos conduziu pelas tortuosidades bizarras do livro J. G Ballard. A adaptação não poderia ter sido dirigida por outro cineasta a não ser esse canadense maluco.

Os Cinco Seriados Prediletos de Paolo Enryco

Paolo Enryco

Ao começar a faculdade de Jornalismo no primeiro semestre de 2013, me espantou a preferência exorbitante de calouros interessados na formação com o objetivo de ingressar a área de Jornalismo Esportivo. Havia também uma parcela interessada em trabalhar como repórteres para emissoras de tevê. Somente eu confirmei o meu objetivo de atuar como jornalista cultural.

Formado em Direito, Paolo Enryco encara o Jornalismo tendo uma bagagem cultural extensa. Daí a identificação quase imediata com um sujeito que conversa com empolgação sobre um sem número de assuntos que não se restringem ao que trabalhamos em sala de aula. Veio assim a oferta de se apropriar de um espaço no Cine Resenhas para escrever sobre seriados, atrações televisivas das quais não acompanho com o mesmo fervor que o Paolo.

Reservo agora a chance para o Paolo conversar um pouco com vocês sobre algumas séries que o marcaram antes de formar a sua seleção de prediletos. No entanto, antes de me despedir, indico o seu blog com os seus devaneios do cotidiano, Eu Penso…

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Por Paolo Enryco

Antes, preciso explicar que as escolhas foram baseadas somente em séries encerradas, por isso não vão encontrar menções a “Game of Thrones”, “The Walking Dead”, “Mad Man” ou “The Big Bang Theory” nessa lista – mas sim, pretendo comentá-las futuramente. Também informo que concordo com críticas sobre séries aclamadas, desconsideradas na minha seleção. Tipo, “Friends”, “Lost”, “Seinfeld” ou “Twin Peaks”.

Ok, vou explicar. “Friends” se popularizou porque já existia aquele gênero de comédia com sonoplastia de risadas, tal qual “El Chavo del Ocho” ou “Diff’rent Strokes”. Sim, eu gosto dessas séries, são engraçadas e tal, mas vamos combinar que é chato a direção decidir a hora de dar risada.

“Lost” começou muito bem. Mas foi caindo, caindo… Não merece porque é o tipo da série “barriga”, enrola, enrola pra chegar a nada. A boa série tem que saber a hora de acabar (como fez primorosamente Vince Gilligan em “Breaking Bad”). Então, J.J. Abrams, você não merece estar na minha lista (apesar de ter criado “Felicty”, a série menininha que gostei).

Por fim, “Seinfield” e “Twin Peaks”, dois possíveis pecados da minha vida, já que a primeira tentei ver e não achei muita graça pela falta de continuidade, enquanto a segunda realmente não assisti, apesar da indicação do meu senhorio. Culpa minha, nos dois casos.

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Os Sopranos

Família Soprano (1999–2007)

Ok, creio que essa talvez seja unanime. Uma obra-prima, ótimos diálogos, ótimo ritmo.  Além da profundidade dos personagens centrais, os coadjuvantes não são deixados de lado nessa série (afinal, quem nunca se colocou no lugar do Christopher Moltisanti em seu dilema com a Adriana?). E mais: que final foi aquele!? Arrepia de lembrar! “Don’t Stop Believin'”, nunca mais teve o mesmo significado depois dessa série.

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Breaking BadBreaking Bad: A Química do Mal (2008–2013)

Obra prima! O senhor Gilligan fez tudo certinho. A série flutuou em temas pesados e deu passos profundos em temas leves. Acabou na hora certa e ainda deixa um gosto de quero mais. Talvez não tenha ganho de “Sopranos” pelo episódio final.

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The Office

The Office (2005–2013)

“That’s what she said!”. Cara, essa séria passeou por todas minhas sensações de humor, raiva, carinho e tristeza. E é “apenas” uma série de humor. E ninguém escolhe quando você vai rir! #MichaelScott4ever!

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Sex and the City (1998–2004)

Sim é uma série de mulheres, para mulheres, que eu gostei muito. Pelo menos na minha adolescência quando eu acreditava existir uma lógica em entendê-las. Essa série revolucionou o mundo muito mais que aquele séria da ilha – desculpem os sériemaníacosfanáticosporlost. Talvez não uma revolução audiovisual midiática, mas algo maior: a sociedade – e as mulheres.

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Boardwalk EmpireBoardwalk Empire (2010-2014)

Sim, ela tem um ritmo pesado. Às vezes é difícil assistir, mas se você chegar nos finalmentes, os finais de temporadas são realmente (desculpem o termo) “foderosos”. Tiro, porrada e bomba, que deixa “Sopranos” e “Breaking Bad” a ver navios. E meu amigo, essa ultima temporada foi de (desculpem novamente) “cagar arroz doce”.