Dilema (What/If)

Resenha Crítica | Dilema (2019)

What/If, criada por Mike Kelley e dirigida por Phillip Noyce e outrxs

Revelada ao mundo em “Jerry Maguire: A Grande Virada”, Renée Zellweger traçou uma carreira brilhante em Hollywood, culminando em três indicações ao Oscar (venceu uma vez), seis ao Globo de Ouro (levou três estatuetas), um dos mais altos salários e o reconhecimento como uma das grandes atrizes mundiais no início deste jovem século. Justo: o envolvimento em projetos como “A Enfermeira Betty”, “O Diário de Bridget Jones”, “Deixe-me Viver”, “Chicago”, “Abaixo o Amor” e “Cold Mountain” era mesmo resultado de escolhas muito bem feitas em um curto espaço de tempo, no qual a texana (que muitos ainda hoje pensam ser britânica pelo sotaque impecável testemunhado como Bridget Jones) foi revelando um sem número de facetas, como uma doçura singular que desperta na gente uma empatia imediata até uma malícia que não parecia existir em uma mulher de rosto tão angelical.

De uma hora para a outra, Renée desapareceu. Seria aquele preconceito avassalador de Hollywood com mulheres que atingem os 40 anos? Ou o cansaço de ter os seus passos em muitas ocasiões ditados pelo produtor Harvey Weinstein, que hoje se revela a principal razão de existência do #MeToo? Talvez seja também o fato de ter ficado praticamente irreconhecível com as intervenções faciais, notadas a partir do terror “Caso 39” e agravadas em “Versões de Um Crime“, um retorno mal-sucedido como atriz após um hiato de seis anos.

Pode ser tudo isso junto. Mas a verdade é que a série “Dilema”, disponível na Netflix desde 24 de maio, sinaliza uma nova tentativa de comeback. Talvez seja preciso aguardar por uma volta por cima em “Judy”, em que interpreta o ícone Judy Garland – a estreia vai acontecer em setembro, mês em que é dada a largada para a temporada de premiações. Mesmo que viva deliciosamente a sua primeira personagem com veias vilanescas expostas já em sua primeira aparição na tela, Renée não é capaz de salvar um novelão de péssima categoria, ainda mais canhestro que outra cria de Mike Kelley, “Revenge”. A princípio sugerindo uma conexão com “Proposta Indecente”, a narrativa de “Dilema” vai enveredando por caminhos bem diferentes, em que um núcleo de personagens ligados à protagonista de Jane Levy, uma jovem cientista idealista, se verá lidando com consequências pesadas a partir de escolhas do passado, seja ele passado ou presente.

Em um vídeo feito com exclusividade para o canal do Cine Resenhas no YouTube, abordo mais a sinopse de “Dilema” e as razões desta ser mais uma produção Original Netflix a frustrar as nossas expectativas.

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A Esposa

Resenha Crítica | A Esposa (2017)

The Wife, de Björn Runge

A americana Glenn Close, que completará 72 anos de vida no dia 19 de março, é hoje a atriz que detém o recorde de indicações ao Oscar, somadas nas categorias de protagonista e coadjuvante, sem nenhuma vitória. A sétima é marcada pela sua interpretação em “A Esposa˜. É a favorita nesta edição do Oscar, cuja cerimônia acontece no dia 24 de fevereiro. Antes tarde do que nunca, pois Glenn sem uma estatueta dourada é um crime que há muito já deveria ser reparado.

O melhor de tudo é que essa consagração não é acompanhada por uma interpretação pertencente a um filme no máximo razoável, causando o sentimento de mero prêmio de consolação. Mesmo levando 14 anos para ser viabilizado, “A Esposa” segue atual em sua abordagem sobre mulheres em circunstâncias que as forçaram a desempenhar o papel de sombra de seus maridos e que encontram um limite tolerável para finalmente dar um basta na situação. Glenn reproduz o enclausuramento de sua personagem com gestos sutis que comunicam tudo, em parte por mérito da direção do sueco Björn Runge, então um nome pouco conhecido pelos cinéfilos que logo trabalhará em seu segundo longa-metragem falado em inglês.

Assista o meu comentário na íntegra sobre “A Esposa” no vídeo a seguir:

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O Peso do Passado

Resenha Crítica | O Peso do Passado (2018)

Destroyer, de Karyn Kusama

Com 52 anos que serão completados em junho deste ano, Nicole Kidman segue como uma das mais respeitadas e belas atrizes em atividade no cinema. Essas e outras credenciais não a impedem de sempre sair de uma zona de conforto, submetendo a si mesma para encarar papéis desafiadores em que é transformada radicalmente.

Brincadeiras à parte com o uso variado de perucas, Nicole compreende a necessidade de um intérprete de deixar o glamour de lado para que o seu corpo seja um instrumento temporário para abrigar um papel. Como Erin Bell, a protagonista de “O Peso do Passado”, a atriz passa por uma mudança de aparência talvez ainda mais radical do que aquelas experimentadas em projetos como “As Horas” (pelo qual venceu o Oscar) e “Top of the Lake: China Girl”, no qual tem um papel secundário.

É a melhor coisa ofertada no novo filme de Karyn Kusama. Ainda que seja acima da média, o modo como as resoluções são pregadas em sua trama de mistério enfraquece as razões pelas quais a sua protagonista alcançou um estado degradante, que age quase como uma abutre que não sabe mais o que fazer da vida até que um crime a reconecta com o seu passado nebuloso.

“O Peso do Passado” ganha comentário na íntegra feito com exclusividade para o canal do Cine Resenhas no YouTube. Assista-o a seguir e não se esqueça de se inscrever para ter acesso às futuras atualizações.

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Halloween 2018

Resenha Crítica | Halloween (2018)

Após o prólogo de “Halloween: Ressurreição”, era esperado que jamais voltaríamos a ver Jamie Lee Curtis reprisando o papel de Laurie Strode, personagem pelo qual deve a sua carreira. Pois após o fiasco do oitavo episódio da franquia e a refilmagem de Rob Zombie acompanhada por uma sequência, David Gordon Green e Danny McBride (mais conhecido pelos seus papéis cômicos) tiveram a ideia de fazer um novo filme comemorando os 40 anos do original.

A pretensão foi a de desconsiderar toda a franquia “Halloween”, elaborando um “universo paralelo” em que todos os eventos estão diretamente ligados somente ao filme de 1978 realizado por John Carpenter, que aqui volta como compositor e produtor executivo. David Gordon Green acha que está fazendo algo que os fãs aguardam por quatro décadas, mas não é bem assim.

O “Halloween” 2018 é competente, muitas vezes aterrador e encena em seu terceiro ato um embate memorável. Mas é também um filme desprovido de ousadias, uma vez que não acrescenta quase nada de novo a esse reencontro entre Laurie e o vilão mascarado Michael Myers. Você pode saber mais a respeito assistindo ao vídeo comentário a seguir.

 

A Casa que Jack Construiu

Resenha Crítica | A Casa Que Jack Construiu (2018)

The House That Jack Built, de Lars von Trier

.:: 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Mesmo que o seu retorno ao Festival de Cannes tenha se dado fora de competição, Lars von Trier  ainda assim causou controvérsia. Há sete anos, o diretor dinamarquês promoveu “Melancolia” e recebeu o título de persona non grata por uma piada de mau gosto envolvendo as suas raízes alemãs. Neste ano, o que causou desconforto foram algumas cenas de “A Casa de Jack Construiu”, que levou dezenas (ou centenas, como visto nas manchetes) a abandonarem a sua première.

A recepção pode ser reprisada nas exibições dentro da 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, como também em seu lançamento comercial na capital em 1º de novembro. Foi o título que pareceu ideal inclusive para inaugurar no canal do Cine Resenhas no YouTube a categoria Filmes Controversos, como pode ser assistido abaixo.

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Buscando... (Searching)

Resenha Crítica | Buscando… (2018)

Searching, de Aneesh Chaganty

O russo Timur Bekmambetov pode até estar desacreditado como diretor após os fiascos de “Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros” e “Ben-Hur“. O que não se pode negar é uma contribuição importante que vem exercendo como produtor. Curioso pelo uso de novas tecnologias dentro da linguagem cinematográfica, tem desde “Apollo 18: A Missão Proibida” – e com maior intensidade em “Amizade Desfeita” – explorado como suporte as câmeras digitais compactas e as telas de computadores e dispositivos móveis.

Em “Buscando…”, a tela do laptop de David Kin (John Cho) é a perspectiva que será adotada para a construção de toda a história criada por Aneesh Chaganty, realizador de apenas 27 anos de ascendência indígena em seu primeiro longa-metragem. Não somente as trocas de mensagens instantâneas e as chamadas de vídeo costuram a narrativa, como também o que é visto em redes sociais, sites de busca e arquivos pessoais.

Após um dia todo sem receber mensagens de sua filha Margot (Michelle La), David passa a vasculhar os seus rastros virtuais para tentar identificar para onde ela foi. Vai dormir acreditando que está acampando com um amigo da escola. Quando o próprio confirma no dia seguinte que não está com a companhia dela, David inicia os procedimentos para dá-la como desaparecida e assim contar com a investigação policial. Excelente em um papel em que estamos pouco habituadas a vê-la, Debra Messing interpreta a detetive que se prontifica a ajudá-lo na busca por Margot.

Aneesh Chaganty compreende perfeitamente o universo que está explorando e discute sobre a outra vida que cada um de nós encena no “plano virtual” sendo totalmente fiel ao modo como usamos os mecanismos que hoje fazem parte do nosso cotidiano. Talvez o limite seja o de forçar que o seu protagonista esteja 100% leal a eles, fazendo com que os eventos de “Buscando…” sejam totalmente reféns do formato trabalhado – “Amizade Desfeita” o fez de modo mais orgânico.

Diante de tudo isso, é curioso constatar como o desaparecimento de Margot é usado mais como um motor para “Buscando…” tecer comentários sobre as máscaras e julgamentos que sustentamos com a proteção do distanciamento da realidade do que o de propor um mistério qualquer. Bekmambetov investiu em um filão barato e com grande potencial de lucro que terá uma fase duradoura no cinema contemporâneo.

Legalize Já: Amizade Nunca Morre

Resenha Crítica | Legalize Já: Amizade Nunca Morre (2017)

Legalize Já: Amizade Nunca Morre, de Gustavo Bonafé e Johnny Araújo

Os anos 1990 foram muito favoráveis para a música no geral. Foi o período em que o rádio era o meio central para a propagação de músicas e a MTV vinha como a emissora que consolidava a linguagem dos clipes musicais. Nesse cenário, estourou o grupo carioca de rap rock “Planet Hemp”, apresentando uma musicalidade que conquistou por trazer como pautas questões ainda hoje controversas, como os abismos sociais e o consumo de maconha.

Como toda banda boa que se preze, há todo um histórico de superações antes de um estouro midiático e com o “Planet Hemp” não poderia ser diferente. O acerto de “Legalize Já: Amizade Nunca Morre” é justamente o de focar principalmente os passos de Marcelo D2 e Skunk quando ainda eram anônimos que formaram uma parceria nos intervalos de seus entraves pessoais.

Antes de se apresentar como Marcelo D2, Marcelo Maldonado Peixoto (Renato Góes) precisou encontrar o seu rumo quando foi expulso de casa pelo seu pai (Stepan Nercessian), fruto de uma educação qual uma cria precisa sair de seu ninho cedo para conquistar a sua independência. A questão é que esse episódio veio de encontro com a notícia de que a sua namorada, Sônia (Marina Provenzzano), estava grávida.

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Coletiva de imprensa com a equipe de “Legalize Já! Amizade Nunca Morre”

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Marcelo precisou se virar como vendedor de itens domésticos de dia e de camisas à noite para pagar o aluguel de um apartamento barato paralelo a parceria que estabeleceu com Skunk (Ícaro Silva), talentoso compositor que encontrou nele a voz perfeita para elaborar canções que contrapunhavam o sistema vigente. Também teve o seu inferno astral em decorrência da AIDS que contraiu em um momento em que os tratamentos ainda eram deficientes.

A dupla Gustavo Bonafé e Johnny Araújo é envolvida com música desde cedo e ano passado tocou com relativo sucesso a comédia “Chocante“, uma espécie de ode as boy bands que explodiram nos anos 1980. Em “Legalize Já: Amizade Nunca Morre”, os sucessos do “Planet Hemp” são relembrados na gênese, mas com o cuidado de sintonizar cada uma de suas sentenças a um contexto cinza em que a ambição pelo sucesso não sufoca o fim trágico que permeou a amizade de Marcelo e Skunk.

O Primeiro Homem

Resenha Crítica | O Primeiro Homem (2018)

First Man, de Damien Chazelle

O mais jovem da história a receber um Oscar de Melhor Diretor (32 anos), Damien Chazelle iniciou a carreira escrevendo ou revendo roteiros de suspense e terror, como os de “O Último Exorcismo: Parte 2”, “Toque de Mestre” e “Rua Cloverfield, 10“, mas como diretor parecia enveredar pelo musical. O nada visto “Guy and Madeline on a Park Bench” foi um exercício de aprimoramento para os notáveis “Whiplash: Em Busca da Perfeição” e “La La Land: Cantando Estações“.

“O Primeiro Homem” é o filme ambicioso esperado para quem foi laureado por todos os seus pares, mas a falta de autoria é reconhecida. Se a escrita do texto ficou totalmente a cargo de Josh Singer (roteirista com olhar jornalístico que assinou “Spotlight: Segredos Revelados” e “The Post: A Guerra Secreta“), a estética que o seu diretor de fotografia Linus Sandgren sugere é totalmente distinta do que antes orquestrou.

Produtor executivo aqui, Steven Spielberg seria um diretor perfeito para narrar o recorte proposto sobre Neil Armstrong, astronauta que comandou a missão Apollo 11 e que com ela atingiu o feito de ser o primeiro homem a pisar na lua. Conquista que demandou muitos custos, como vamos testemunhando no curso dos eventos.

A escolha de “O Primeiro Homem” é tornar secundária o deslumbramento que se espera e exige de uma história real como essa para traçar um caminho que humanize o seu personagem. O prólogo mesmo é todo dedicado a contar um episódio dramático da vida de Armstrong: a perda prematura de uma filha, que morreu com apenas dois anos em decorrência de um tumor cerebral.

Além do mais, um espaço muito generoso é dado para Janet Armstrong, esposa de Neil. Com outros dois filhos para cuidar, ela é a perspectiva que encoraja o amado em suas missões, mas que não deixa de tomar uma atitude mais firme para o bem da família quando lhe é evidente os riscos que correrá em sua viagem à Lua.

Todo crédito à Claire Foy como Janet. Os minutos finais de “O Primeiro Homem” são lindos, mas a caminhada até eles são insípidos, bem como Ryan Gosling, que, com feições não compatíveis com a da figura real, parece somente interpretar a versão aborrecida de si mesmo. O oposto faz Foy, mais grandiosa do que a encenação do grande feito de Armstrong e o coração que impede o filme de morrer.

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O Primeiro Homem

James R. Hansen (Tradução: Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra)

Intrínseca

Páginas: 512

A Casa do Medo: Incidente em Ghostland

Resenha Crítica | A Casa do Medo: Incidente em Ghostland (2018)

Ghostland, de Pascal Laugier

Há exatamente 10 anos, o cineasta canadense Pascal Laugier passou a ser um dos cineastas em que os aficionados pelo terror começaram a acompanhar com entusiasmo a partir de “Mártires”, um dos filmes mais violentos e explícitos deste jovem século. A verdade é que os dois longas que produziu posteriormente são definitivamente mais interessantes: “O Homem das Sombras” e agora “A Casa do Medo: Incidente em Ghostland”.

É uma pena que ambos tenham apresentado problemas de bastidores que comprometeram o acesso ao público. Protagonizado por Jessica Biel, “O Homem das Sombras” teve como inspiração a lenda do Slender Man, subvertendo-a para um conto de horror moral muito curioso e que destroça ainda mais o embuste exibido neste ano com roteiro de David Birke. Acabou atravessando entraves de pós-produção que resultaram em um lançamento em homevideo discreto pelo mundo.

Já o streaming foi o destino de “A Casa do Medo: Incidente em Ghostland” depois de uma controvérsia: a negligência no set de Laugier e a sua equipe na elaboração de uma cena envolvendo espelhos, resultando em um acidente que deixou uma cicatriz permanente na face da jovem atriz Taylor Hickson. O desconhecimento do ocorrido e o apelo do filme, entretanto, não comprometeram a chegada de “Ghostland” às salas brasileiras.

Na premissa, Pauline (a cantora Mylène Farmer, que já fora dirigida por Laugier no clipe “City of Love”) se move com as duas filhas Beth (Emilia Jones) e Vera (papel de Hickson) para a propriedade que herdou da irmã. Vai para ela ouvindo notificações em estações de rádios e em jornais sobre uma dupla de maníacos que estaria matando pais e assumindo a guarda de seus rebentos.

Com isso sinalizado, não poderia acontecer outra coisa a não ser um ataque a esse trio de mulheres, que superam o episódio com um monte de sequelas psicológicas. Enquanto Beth (agora interpretada por Crystal Reed) exorciza os demônios atendendo a vocação de escritora, Pauline continua vivendo na casa com uma Vera (na fase adulta feita por Anastasia Phillips) perturbada que rasteja pelos cômodos como alguém internada em um hospício.

Laugier vai costurando “A Casa do Medo: Incidente em Ghostland” a partir de uma série de influências que rende resultados surpreendentes. Além de corresponder a uma cinematografia que encena o perigo sem se preocupar com censura, “Ghostland” ainda emula “O Massacre da Serra Elétrica”, o universo literário de H. P. Lovecraft e até mesmo as convenções do filão de bonecos do mal – há um aqui de olhos esbugalhados e luminosos que talvez seja o mais assustador desde Annabelle.

Por fazer algo autêntico dentro de tantas características reconhecidas, é de se lamentar que “Ghostland” ainda assim precise recorrer aos aborrecidos jump scares a cada 10 minutos. Laugier francamente não precisaria pregá-los toda vez que uma personagem espia o buraco de uma fechadura.

Venom

Resenha Crítica | Venom (2018)

Venom, de Ruben Fleischer

Venom é um nome que Sam Raimi definitivamente não quer ouvir outra vez em sua carreira. Um dos grandes responsáveis por transformar as adaptações de histórias em quadrinhos no que é hoje o subgênero mais lucrativo do cinema, o cineasta desenvolvia uma franquia do Homem-Aranha até chegar a um terceiro capítulo em que foi obrigado pelo estúdio a inserir o vilão como uma das figuras centrais de sua história.

A tragédia artística fez o herói aracnídeo ser remodelado duas vezes, até então sem a presença do simbionte alienígena. Pois chegou a nova chance de emplacar o personagem no cinema em uma aventura solo em que ele é mais tratado como um anti-herói do que um inimigo no conceito mais tradicional da palavra.

Promessa revelada em “Zumbilândia” e que não se cumpriu posteriormente com “30 Minutos ou Menos” e “Caça aos Gângsteres”, o americano Ruben Fleischer é incumbido de fincar as raízes de Venom com a associação da Marvel Studios. As expectativas negativas, geradas principalmente com um material promocional pouco entusiasmador, se efetivam.

Eddie Brock (Tom Hardy) é um repórter outsider, desses que buscam pela polêmica da vez para escancarar em uma câmera. Cai em desgraça após pegar sem a autorização de sua namorada advogada Anne Weying (Michelle Williams) uma pista confidencial de que Carlton Drake (Riz Ahmed), representante da Life Foundation, estaria autorizando a realização de experimentos controversos.

Quando a cientista Dora Skirth (Jenny Slate) afirma a Eddie que há uso de indigentes como cobaias, ele decide por conta coletar provas que desmascarem Carlton. Dá que invade o laboratório em que está Venom, que encontra nele o hospedeiro perfeito para circular livremente entre nós.

Se no ano passado tivemos em “Logan” a adoção de uma brutalidade finalmente condizente com a essência de seu protagonista, em “Venom” os envolvidos decidiram trai-lo impondo um entretenimento com censura PG-13, o equivalente a nossa classificação indicativa de 14 anos. É tudo extremamente bobo e ingênuo, com cabeças sendo devoradas no tom mais cartunesco possível e sem espichar uma gota de sangue.

O cerne da questão, porém, vai além de uma condução mais branda das coisas. Criatura de inegável impacto estético, o Venom contemplado é um borrão digital grosseiro, principalmente em sequências de ação atrozes no descuido visual e falta de imaginação.

Se no movimento “Venom” é esse aborrecimento todo, o texto criado por Jeff Pinkner, Kelly Marcel e Scott Rosenberg é ainda pior. Tudo é extremamente apressado, do prólogo digno de ficção científica classe B ao desenvolvimento de personagens, com os intérpretes nada mais podendo fazer do que abraçar a caricatura – quatro vezes indicada ao Oscar, Michelle Williams está aqui claramente para apenas pagar os boletos.

O que não se pode negar é a devoção de Tom Hardy ao papel. Ator inglês um tanto inexpressivo que sempre se sai exemplar em papéis introspectivos, como o Bob de “A Entrega”, o Hardy de “Venom” parece chapado em quase todas as suas cenas, correspondendo tão bem ao tom bipolar involuntário do roteiro que chega a ser até comovente, como se vê quando devora crustáceos no aquário de um restaurante e em outras situações embaraçosas.