Melhores de 2016: Filme

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Em distopias, o amor surge como o instrumento de salvação de um planeta que ruma para o fim da humanidade. Em “O Lagosta”, essa máxima é revirada. Estaria o amor realmente presente na repetição das convenções, que padroniza a constituição de uma família como o alcance da felicidade plena? Estamos todos condicionados a compartilhar um lar e a intimidade com aqueles que nos interessam por mera compatibilidade ou por sentimentos que superam as distinções vigentes?

É uma surpresa que uma premissa repleta de tantas estranhezas consiga transcender com questionamentos que não apenas nos dizem respeito, como contaminam o nosso âmago, trazendo ainda uma conclusão desconcertante e desesperançosa que revê as contradições complexas de um ser humano por traz de suas decisões, regidas mais pela necessidade de preenchimento do que por amor. É um alívio que Yorgos Lanthimos não tenha recuado nem um pouco na autoria que imprime em seu cinema ao elevá-lo a um novo patamar em um idioma não materno.

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OUTROS DESTAQUES:
A Garota de Fogo • Aquarius • Cinco GraçasCoração de Cachorro • Decisão de Risco • Elle • O Quarto de JackSpotlight: Segredos Revelados • Tangerine

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VEJA O TOP 50 AQUI

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Em 2015: Whiplash: Em Busca da Perfeição
Em 2014:
Nebraska
Em 2013:
A Hora Mais Escura
Em 2012:
O Artista
Em 2011:
Incêndios
Em 2010:
Os Homens Que Não Amavam As Mulheres
Em 2009:
A Partida
Em 2008: 
O Nevoeiro
Em 2007:
Possuídos

Melhores de 2016: Direção

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“A Garota de Fogo” pode ser somente o segundo longa-metragem na carreira de Carlos Vermut, mas a rigidez com a qual concebe planos e o teor provocativo do texto que assina são virtudes de fazer muito veterano coçar a cabeça. Concentrando-se em quatro personagens, Vermut tece uma teia que mais se assemelha a um quebra-cabeça, às vezes nos fazendo encaixar peças em lugares indevidos até que a narrativa cuide de nos exibir algo surpreendente e chocante.

Mas a principal virtude de Vermut é mesmo a de priorizar o poder da sugestão, ofertando ao público caminhos em que a nossa própria imaginação dá conta de especular sobre os destinos, a exemplo das torturas que Bárbara (Bárbara Lennie) aparentemente se submete ou a infância conturbada desta com o professor Damián (José Sacristán). Também misterioso, seu terceiro longa, “Quién te cantará”, tem previsão de estreia para o fim deste ano na Espanha. Mal podemos esperar pra ver!

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OUTROS DESTAQUES:
Gavin Hood (Decisão de Risco) • Kleber Mendonça Filho (Aquarius) • Paul Verhoeven (Elle) • Yorgos Lanthimos (O Lagosta)

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Em 2015: George Miller, por Mad Max: Estrada da Fúria
Em 2014: 
Alexander Payne, por Nebraska
Em 2013: 
Alfonso Cuarón, por Gravidade
Em 2012:
Michel Hazanavicius, por O Artista
Em 2011:
Denis Villeneuve, por Incêndios
Em 2010:
Roman Polanski, por O Escritor Fantasma
Em 2009:
Yôjirô Takita, por A Partida
Em 2008: 
Joe Wright, por Desejo e Reparação
Em 2007: 
William Friedkin, por Possuídos

Melhores de 2016: Ator

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A chegada aos 80 anos de Christopher Plummer fez o Oscar observar mais atentamente a carreira desse incansável canadense, até hoje mantendo um ritmo frenético de trabalho. Em 2010, foi finalista ao prêmio de Melhor Ator Coadjuvante por “A Última Estação”. Dois anos depois, disputou novamente a categoria por “Toda Forma de Amor“, desta vez levando a estatueta. Se o mundo do cinema fosse justo, teria disputado a última edição da premiação, agora como protagonista de “Memórias Secretas”, dirigido pelo também canadense Atom Egoyan, com quem Plummer já havia trabalhado anteriormente em “Ararat”.

Na pele de Zev Guttman, um sobrevivente do Holocausto recém-viúvo e em estado avançado de demência, Plummer está em uma posição em que sua vitalidade precisa ser negligenciada para incorporar um idoso totalmente vulnerável em sua missão de acertar as contas com o passado. Trata-se de um protagonista cujos passos lentos acompanhamos em estado aflitivo e que o ator tem a oportunidade rara em sua carreira de desenvolver plenamente por estar a cada segundo no centro das atenções.

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OUTROS DESTAQUES:
Alfredo Castro (De Longe Te Observo) • Colin Farrell (O Lagosta) • Eddie Redmayne (A Garota Dinamarquesa) • Jacob Tremblay (O Quarto de Jack)

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Em 2015: Brendan Gleeson, por Calvário
Em 2014: 
Eddie Marsan, por Uma Vida Comum
Em 2013: 
John Hawkes, por As Sessões
Em 2012:
Jean Dujardin, por O Artista
Em 2011:
Mikael Persbrandt, por Em Um Mundo Melhor
Em 2010:
Nicolas Cage, por Vício Frenético
Em 2009:
Richard Jenkins, por O Visitante
Em 2008: 
Philip Seymour Hoffman, por Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto
Em 2007: 
Toby Jones, por Confidencial

Melhores de 2016: Atriz

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Exibido em competição no Festival de Cannes de 2016 sem registrar nenhuma vitória, “Elle” parecia destinado a ser alvo de controvérsia, com a sua chegada em mercados que não digeriram bem uma premissa que inicia com uma protagonista aparentemente indiferente ao estupro do qual acabou de ser vítima. Acima de todas as críticas, estava o trabalho de Isabelle Huppert, que compreendeu a recepção da obra ao mesmo tempo em que afirmava acreditar em sua integridade.

Foi uma bela temporada de premiações para a veterana atriz de 64 anos, conhecida como a Meryl Streep da França – pode-se dizer que a comparação fosse mais correta caso estivesse ao contrário. Desde que venceu o independente Gotham Awards de Melhor Atriz, estava claro que Huppert trilharia um caminho cujo ápice se daria com uma nomeação ao Oscar. Todo o reconhecimento em um curto período de tempo serviu mais como uma celebração tardia de uma carreira com mais de 120 créditos como intérprete, tendo ela em “Elle” a oportunidade de concentrar em sua Michèle Leblanc todo o poder de seu talento. Como nomearam os novos fãs que ganhou no Brasil, Isabelle Huppert é a proprietária da Europa.

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OUTROS DESTAQUES:
Bárbara Lennie (A Garota de Fogo) • Emily Blunt (A Garota no Trem) • Jennifer Lawrence (Joy: O Nome do Sucesso) • Sonia Braga (Aquarius)

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Em 2015: Margita Gosheva, por A Lição
Em 2014: 
Emma Thompson, por Walt nos Bastidores de Mary Poppins
Em 2013: 
Jessica Chastain, por A Hora Mais Escura
Em 2012:
Tilda Swinton, por Precisamos Falar Sobre o Kevin
Em 2011:
Lubna Azabal, por Incêndios
Em 2010:
Noomi Rapace, por Os Homens Que Não Amavam As Mulheres
Em 2009:
Melissa Leo, por Rio Congelado
Em 2008: 
Belén Rueda, por O Orfanato
Em 2007:
Ashley Judd, por Possuídos

Melhores de 2016: Ator Coadjuvante

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Prestes a completar 80 anos (em 27 de setembro), o espanhol José Sacristán iniciou a carreira de ator no início dos anos 1960 e hoje soma mais de 150 créditos no cinema e na tevê. Mesmo com números tão impressionantes, somente “A Garota de Fogo” foi uma produção com o seu nome no pôster a desembarcar nos últimos anos no Brasil. Trata-se de um nome importante durante o progresso do cinema de seu país e em “A Garota de Fogo” o desejo é de conhecer outras de suas faces.

Aparentemente pacato, o seu Damián é uma presença a princípio avulsa na narrativa orquestrada por Carlos Vermut, como deixa no ar um prólogo que pouca relação parece ter com uma história que corre atualmente. As aparências enganam, com Damián logo retornando no terceiro ato de uma trama que mais se assemelha a um quebra-cabeça de mil peças. O que vem é assustador, tendo rendido a Sacristán uma indicação ao Goya 2015 de Melhor Ator Coadjuvante.

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OUTROS DESTAQUES:
Emory Cohen (Brooklin) • Harvey Keitel (Juventude) • Luis Silva (De Longe Te Observo) • Sylvester Stallone (Creed: Nascido para Lutar)

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Em 2015: J. K. Simmons, por Whiplash: Em Busca da Perfeição
Em 2014: 
Matthew McConaughey, por O Lobo de Wall Street
Em 2013:
Mikkel Boe Følsgaard, por O Amante da Rainha
Em 2012:
François Damiens, por A Delicadeza do Amor
Em 2011:
John Hawkes, por Inverno da Alma
Em 2010:
Pierce Brosnan, por “O Escritor Fantasma
Em 2009: 
Eddie Marsan, por “Simplesmente Feliz
Em 2008: 
Javier Bardem, por “Onde os Fracos Não Têm Vez
Em 2007: 
Jackie Earle Haley, por “Pecados Íntimos

Melhores de 2016: Atriz Coadjuvante

 

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Quando se discutia em 2016 a ausência de negros nas categorias de interpretação do Oscar, o Independent Spirit Awards se mostrou muito mais adiantado ao promover outra minoria esnobada na indústria: os transgêneros. A agora atriz e cantora Mya Taylor venceu na premiação independente o prêmio de Atriz Coadjuvante e, assim como a sua personagem Alexandra em “Tangerine”, teve uma vida de cão ao anunciar a sua orientação sexual e o desejo por uma transição.

Rejeitada pela família, Mya teve de se virar por cinco anos com prostituição em Hollywood até refazer os laços com a sua mãe. Mas a sua vida só deu “um giro” (como ela mesma definiu) ao ser descoberta por Sean Baker, que logo a sondou para o experimento maluco de rodar um longa-metragem inteiramente em iPhone. Ficção e realidade se misturam diante de nossos olhos, com Mya/Alexandra aguardando com aquele brilho esperançoso um dia seguinte cercado de novas possibilidades.

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OUTROS DESTAQUES:
Adriana Esteves (Mundo Cão) • Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados) • Margot Robbie (Esquadrão Suicida) • Rinko Kikuchi (Ninguém Deseja a Noite)

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Em 2015: Hilary Swank, por Dívida de Honra
Em 2014: 
Uma Thurman, por Ninfomaníaca: Volume 1
Em 2013: 
Helen Hunt, por As Sessões
Em 2012:
Viola Davis, por Histórias Cruzadas
Em 2011: Rosamund Pike, por A Minha Versão do Amor
Em 2010:
Olivia Williams, por O Escritor Fantasma
Em 2009: Diane Kruger, por Bastardos Inglórios
Em 2008:
 Marcia Gay Harden, por O Nevoeiro
Em 2007: Toni Collette, por Segredos na Noite

Melhores de 2016: Elenco

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A estreia aguardada do grego Yorgos Lanthimos em uma produção falada em inglês foi cercada de badalação. O seu excêntrico “O Lagosta” não somente resultou no envolvimento de produtores de cinco países diferentes, como também na escalação de um elenco também diversificado. Colin Farrell, Rachel Weisz, Ben Whishaw, Léa Seydoux, John C. Reilly, Angeliki Papoulia, Ariane Labed, Olivia Colman e Jessica Barden atuam em “O Lagosta” como se estivessem sob o efeito de anestesia, adotando cada um modo de falar e de comportar como nunca pensado antes em uma história de distopia. O fato desse empenho resvalar a todo o momento para o humor gera um resultado ainda mais desconcertante e, por isso mesmo, imperdível.

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OUTROS DESTAQUES:
A Garota de Fogo • Cinco Graças • Os Oito Odiados • Spotlight: Segredos Revelados

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Em 2015: A Espiã que Sabia de Menos
Em 2014: O Grande Hotel Budapeste
Em 2013: Álbum de Família
Em 2012: Histórias Cruzadas
Em 2011: Melancolia
Em 2010: O Escritor Fantasma
Em 2009: Bastardos Inglórios
Em 2008: Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto
Em 2007:  Bobby

Melhores de 2016: Filme Nacional

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Há 20 anos sem protagonizar um longa-metragem brasileiro (o último pôster que estampou foi o de “Tieta do Agreste”, de Carlos Diegues), Sonia Braga é o coração que pulsa “Aquarius”. A veterana atriz se entrega de corpo e alma à Clara, um papel que não se exime de também compreender a vivacidade que há na velhice e que ainda a presenteia com instantes de fortes explosões dramáticas, especialmente quando a sua relação com o personagem de Humberto Carrão passa a ter as máscaras da cordialidade caídas.

Além da contribuição inestimável de Sonia Braga, Clara expõe outras dimensões quando problematizada pelo texto, tendo em seu encalço uma figura de grande influência tentando persuadi-la ao mesmo tempo em que os abismos sociais são deflagrados em uma Recife com territórios literalmente demarcados. Trata-se do investimento em um discurso que dá ao todo um excesso que poderia ser eliminado, mas que não nos faz desviar do principal atrativo de “Aquarius”: os valores de gerações que se atraem ou se repelem a partir da defesa de seus interesses particulares.

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OUTROS DESTAQUES:
Espaço Além: Marina Abramovic e o BrasilNise: O Coração da Loucura • O Roubo da Taça • O Silêncio do Céu

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Em 2015: Que Horas Ela Volta?
Em 2014: 
O Lobo Atrás da Porta
Em 2013: 
O Abismo Prateado
Em 2012:
Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios
Em 2011:
Malu de Bicicleta
Em 2010:
Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro
Em 2009: 
Salve Geral

Melhores de 2016: Animação

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Antes de aceitar o desafio em dirigir “Kubo e as Cordas Mágicas”, Travis Knight já tinha uma vasta experiência como animador, sendo o principal responsável por dar movimento para as criações de “Coraline e o Mundo Secreto“, “ParaNorman” e “Os Boxtrolls”. Essa bagagem só vem a somar para “Kubo e as Cordas Mágicas”, pois Knight e a sua equipe são muito imaginativos na arquitetura de personagens, ambientes e até mesmo dos climas tempestuosos que os rondam. Mas é o texto da dupla Chris Butler e Marc Haimes que realmente faz “Kubo e as Cordas Mágicas” sair da mesmice, indo até o fim diante de temas como família, sacrifício e misticismo nipônico a partir de vieses um tanto rígidos, mas recompensadores.

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OUTROS DESTAQUES:
Anomalisa • Sing: Quem Canta Seus Males Espanta • Snoopy e Charlie Brown: Peanuts, O Filme • Zootopia

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Em 2015: Shaun, O Carneiro – O Filme
Em 2014: 
Frozen: Uma Aventura Congelante
Em 2013: 
Universidade Monstros
Em 2012:
O Mundo dos Pequeninos
Em 2011: Rango
Em 2010: Como Treinar o Seu Dragão
Em 2009: Up – Altas Aventuras

Melhores de 2016: Documentário

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Ainda que o documentário seja exclusivamente sobre as experiências dramáticas de Laurie Anderson ao longo de sua própria vida, não se pode caracterizá-lo como uma cinebiografia. A diretora rejeita uma linha do tempo linear e dá um novo sentido aos fragmentos de sua memória, sempre testando o potencial de uma linguagem que não se relaciona desde o curta-metragem de 2005 “Hidden Inside Mountains”.

Desenhos em movimento, justaposições, registros captados pelos mais variados suportes e uma narração terna formam um panorama reflexivo universal a partir da ideologia budista de Anderson para aplacar a tristeza de uma existência que segue testemunhando vários finais ao seu redor. Uma tristeza que Anderson não autoriza que a consuma até a vinda de seu próprio fim.

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OUTROS DESTAQUES:
De Palma • Espaço Além: Marina Abramovic e o Brasil • São Paulo em Hi-Fi • Um Caso de Família

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Em 2015: Amy
Em 2014:
 Blackfish – Fúria Animal
Em 2013: 
Marina Abramovic: Artista Presente
Em 2012:
A Vida em Um Dia
Em 2009:
Loki – Arnaldo Baptista