Resenha Crítica | A Qualquer Custo (2016)

Hell or High Water, de David Mackenzie

Se “La La Land” renovou o interesse da audiência pelos musicais a partir de um fenômeno equiparável somente com os de “Moulin Rouge” e “Chicago” há 15 anos, “A Qualquer Custo” tem uma tarefa ainda mais árdua: a de revitalizar o faroeste, gênero essencialmente americano, mas que se viu em apuros com o fim da era de ouro de Hollywood e que dependeu nas décadas seguintes da intervenção de nomes europeus (como Sergio Leone) ou de esforços isolados (“Dança com Lobos”, “Os Imperdoáveis”) que, mesmo com o estrondoso sucesso, não o impuseram novamente como tradição.

Finalista em quatro categorias do Oscar, incluindo Melhor Filme, “A Qualquer Custo” talvez seja o maior êxito do gênero desde o remake promovido pelos irmãos Coen de “Bravura Indômita” ao mesmo tempo em que corresponde a uma roupagem contemporânea digna de Tarantino – o sarcasmo incluído no texto não deve diante dos diálogos ágeis do realizador de “Django Livre” e “Os Oito Odiados”. A ambientação aqui é no tempo presente, mas é imediata a associação do oeste do Texas e de todos os seus xerifes e bandidos que o habitam com os velhos agentes da lei e cowboys de moral ambígua.

Irmãos, Toby e Tanner Howard (Chris Pine e Ben Foster) são apresentados no prólogo de “A Qualquer Custo” em meio a uma maratona de assalto a bancos. Uma vez identificado o padrão quanto a como eles agem, Marcus Hamilton (Jeff Bridges), um Texas Ranger, e o seu parceiro Alberto Parker (Gil Birmingham) começam a agir para tentar antecipar os passos dos criminosos, cujas identidades ainda desconhecem. Enquanto seguem com o plano, Toby e Tanner começam a expor as suas diferenças, uma vez que o primeiro deseja saquear bancos somente para depois “reembolsá-los” em forma de pagamento para obter uma propriedade enquanto o segundo, um sujeito bem temperamental, parece mais interessado em jogos de azar e garotas de programa.

Com uma regência impecável, um mérito que também deve ser depositado na conta do montador Jake Roberts (que está na disputa ao Oscar na categoria), o versátil David Mackenzie tem aqui a maior obra de sua filmografia, especialmente por corresponder tão bem a algumas representações presentes no roteiro de Taylor Sheridan, o seu primeiro desde o arrasador “Sicario: Terra de Ninguém”. Aos poucos, alusões ao passado daquele cenário, uma propriedade indígena, ganham ressonância dramática.

Muito mais do que um alívio cômico perverso, os insultos de Marcus endereçados ao seu colega de descendência indígena carregam as heranças de uma nação dominada e depois erradicada. Ao mesmo tempo, os irmãos são vistos com alguma simpatia por desestruturar um mapa árido com bancos a cada esquina e comércios vazios. Tudo caminha para formar aquela anatomia estabelecida do faroeste, agora aqui com carros sepultados substituindo cavalos e o chumbo anunciando que não há mais recompensas para a caça.

Resenha Crítica | Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016)

Moonlight, de Barry Jenkins

Com o debate sobre a diversidade em Hollywood após o polêmico “Oscar so white” do último ano, várias produções com a defesa de bandeiras bem particulares se viram no curso de produção em um timing perfeito. Delas, “O Nascimento de Uma Nação” estava no centro das atenções, chegando a ser comprado pela Fox Searchlight por um valor recorde em Sundance, além de visto como a produção a se destacar na temporada de premiações.

O histórico particular pouco recomendável de seu realizador Nate Parker acabou vindo à tona, com a produção naufragando em suas chances de obter sucesso comercial e troféus. Portanto, “Moonlight: Sob a Luz do Luar” se apresenta agora com naturalidade ao assumir a posição de representatividade então reservada a “O Nascimento de Uma Nação”, ainda que o filme de Barry Jenkins, infinitamente superior ao de Parker, tenha intenções distintas em seu registro sobre um protagonista inserido em uma comunidade de figuras desfavorecidas pelas circunstâncias.

A partir de traços autobiográficos, Jenkins constrói um protagonista, Chiron, que será acompanhado em três fases distintas. Inicialmente, o vemos na pele de Alex R. Hibbert, uma criança deixada à própria sorte por sua mãe Paula (Naomie Harris), uma viciada em drogas. O seu porto seguro será Juan (Mahershala Ali, ótimo, ainda que em um favoritismo exagerado nas premiações), um traficante bem intencionado, e Teresa (Janelle Monáe), sua companheira.

No segundo ato, Chiron é um adolescente vivido por Ashton Sanders. Além do fardo de enfrentar a sua mãe ser ainda maior, o garoto precisa lidar com as inadequações da idade, explicitados pela sua confusão sexual e o bullying sofrido na escola. Por fim, Chiron amadurece como Trevante Rhodes e chega ao terceiro e último ato da história como uma espécie de reprise de Juan, acertando as contas com Paula e Kevin (André Holland), este um indivíduo que exerceu grande influência em seu passado.

A partir de uma figura masculina cheia de nuances e mutações, “Moonlight” promove uma radiografia barra-pesada e sem perspectivas de uma Miami com tonalidades fortes e deprimentes da fotografia de James Laxton, uma espécie de versão periférica e igualmente fascinante de Christopher Doyle, braço direito do realizador chinês Wong Kar-Wai. Entre lares desfeitos e um mundo externo perigoso, Chiron parece não ter qualquer escapatória a não ser a de se corromper pelo meio em que vive.

A redenção encontrada aqui vem a ser a afetividade discreta que se revela em meio a rispidez da vida. E Jenkins a encena com uma intimidade de deixar os nervos à flor da pele, seja por uma troca de carícias à beira-mar, pelas mãos que preparam uma refeição ou pelo uso da música como elemento narrativo, como o jukebox que reproduz “Hello Stranger”, de Barbara Lewis. Em uma existência de ranhuras como a de Chiron, um simples toque humano faz toda a diferença.

Resenha Crítica | Estrelas Além do Tempo (2016)

Hidden Figures, de Theodore Melfi

Após todas as discussões sobre representatividade que permearam o último ano hollywoodiano, “Estrelas Além do Tempo” se apresenta para o público com um timing perfeito. Há tempos não nos víamos inseridos em um cenário no qual as ideologias reacionárias estão tão evidentes, assim como os protestos em busca pela igualdade. Portanto, nada melhor do que a ficção para nos relembrar de outros períodos também nefastos que não calaram a atuação de heróis anônimos.

No caso de “Estrelas Além do Tempo”, temos uma história que enaltece três figuras reais da NASA até então mantidas anônimas. Tratam-se de Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), três mulheres negras essenciais para o sucesso da missão do astronauta John Glenn (Glen Powell) em alcançar a lua.

Entretanto, estamos aqui nos não tão distantes anos 1960, em uma Virginia segregada e com poucos afro-americanos exercendo profissões que exigem um perfil lógico. Por isso mesmo, as vidas de Katherine, Dorothy e Mary foram triplamente difíceis justamente pela raça e gênero que pertencem.

Sempre unidas antes e após o expediente de trabalho, essas mulheres enfrentam sozinhas em suas competências os preconceitos que impedem as suas evoluções. Solicitada pelo departamento comandado por Al Harrison (Kevin Costner) para fazer os cálculos que devem assegurar o sucesso da decolagem do foguete que lançará John Glenn às alturas, Katherine é diariamente hostilizada pelos colegas, todos homens e brancos. Já em seu setor, Dorothy tem todos os seus pedidos de promoção sabotados pelo intermédio de Vivian (Kirsten Dunst), enquanto Mary não consegue desempenhar a função de engenheira por ser impedida de ingressar uma universidade.

Mesmo com todas essas circunstâncias, elas não desistirão de provar as singularidades que possuem, visualizando os obstáculos não como limites, mas como incentivos para continuarem perseverando. Temos com isso aquele modelo de narrativa cinematográfica que encanta desde os tempos do tramp de Charlie Chaplin, no qual a vontade para ganhar um lugar ao sol é maior do que as adversidades.

Diretor de “Um Santo Vizinho”, Theodore Melfi se apropria do texto de Allison Schroeder compreendendo muito bem as características desse cinema inspirado e inspirador, contornando com traços ficcionais uma história real para ser efetivo principalmente em seus gritos de protesto. É especialmente arrebatadora a explosão de Katherine ao finalmente externar a sua humilhação ao precisar se prestar a um trajeto de mais de um quilômetro para ir ao banheiro exclusivo para negros. Não ficam muito atrás o fervor de Dorothy e Mary em se provarem extremamente capazes de enfrentar novos desafios.

Além do mais, Melfi conduz com uma fluidez invejável algo que, em teoria, não tem qualquer encanto. Mesmo o mais avesso aos raciocínios de exatas se verão imediatamente hipnotizados com números e fórmulas que se revelam não somente como uma ciência complexa, como também como instrumentos sociais que só engrenam quando os seus operadores se reconhecem como semelhantes.

Resenha Crítica | Jackie (2016)

Jackie, de Pablo Larraín

O tempo não fez muita justiça para Jacqueline Lee Bouvier Kennedy Onassis. Até hoje, é reconhecida como Jackie Kennedy, viúva de JFK. Para as mulheres, foi consolidada somente como um ícone da moda e modelo comportamental. Compreendeu a posição secundária de primeira-dama perfeitamente e os seus looks rosas ou vermelhos adornados com um colar de pérolas segue mais emblemático que os seus feitos pessoais.

Durante os 100 minutos de “Jackie”, no entanto, o interesse do cineasta Pablo Larraín, auxiliado pelo roteiro de Noah Oppenheim e a fotografia de Stéphane Fontaine, está em conferir o devido protagonismo a essa figura pública, desmistificando os conceitos que temos sobre ela. E o faz embaralhando a cronologia de um recorte específico, iniciado pelas formalidades dos eventos sociais até a solidão de uma mulher que perdeu o seu companheiro.

Algumas distorções visuais e sonoras tratam de corresponder a essa intenção. A primeira é justamente a razão do plano, usando a janela 1.66 : 1 outrora tão comum em produções europeias. Tão celebrada desde sua brilhante composição para “Sob a Pele”, a britânica Mica Levi prepara aqui outra vez um ambiente em que encara a protagonista como uma alienígena, alguém que nenhum controle tem inclusive na execução de protocolos.

Natalie Portman corresponde muito bem a esse desafio de encarnar Jackie dentro de uma proposta quase experimental, por vezes tendo mais deveres do que somente processar a sua vocalidade e postura. Uma fusão sobrenatural entre essas duas mulheres acontece especialmente em um dos melhores momentos do filme, em que trechos do documentário televisivo “A Tour of the White House with Mrs. John F. Kennedy” é recriado.

São esforços primorosos para oferecer uma cinebiografia respeitosa sobre Jackie, mas o resultado final é insuficiente. E isso acontece porque o apego por conjuntos sensoriais sufocam justamente o fator humano na narrativa. A Jackie Kennedy que encontramos aqui se distancia do molde esmerado de mulher, tão forte inclusive pela ilusão de competitividade com Marilyn Monroe, suposta amante de JFK.

Mesmo assim, Jackie segue enclausurada em um contexto em que as atenções, no fim das contas, são todas direcionadas ao marido e presidente assassinado. A figura atenta aos bastidores, com filhos para criar com a ausência paterna e que se renova como editora são meramente rascunhados diante de nossos olhos inebriados com tanta beleza estética.

Os Indicados ao Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro

Ao contrário de alguns colegas mostreiros, não consegui opinar imediatamente sobre a seleção de longas finalistas na categoria do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Com exceção de “Toni Erdmann”, todos foram exibidos na última edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Só pude encaixar “O Apartamento” em minha programação – a análise integral sobre ele já foi publicada aqui.

Felizmente, a internet existe e tive acesso aos demais títulos no último fim de semana. A conclusão que cheguei é que estamos diante da seleção mais fraca em comparação com edições prévias. Francamente, substituiria quase todos, permanecendo somente com o belo australiano “Tanna”. É uma lástima que o filtro politicamente correto da Academia tenha barrado o francês “Elle“, que sequer chegou entre os semifinalistas. Também provocador, “Morte em Sarajevo” merecia uma chance.

No vídeo a seguir, comentei brevemente sobre os finalistas das categorias principais do Oscar 2017. Abaixo dele, tenha acesso aos meus comentários sobre cada um dos títulos estrangeiros.

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Terra de Minas
Under sandet, Martin Zandvliet

O maior atrativo dessa realização dramática de Martin Zandvliet está em evidenciar que conflitos continuam existindo mesmo com guerras oficialmente acabadas. A premissa é curiosa: poucos dias após o fim da Segunda Guerra Mundial, jovens soldados alemães são mantidos na Dinamarca com a missão de cavarem e desativarem aproximadamente dois milhões de minas que os seus próprios colegas de batalha instalaram.

Em boa parte do tempo, Zandvliet consegue instaurar uma tensão insuportável, sempre à espreita de cada vacilo de manipulação que pode levar um personagem ser levado pelos ares com uma detonação involuntária. Já como roteirista, chega a promover uma inversão de papéis desonesta, tratando dinamarqueses com uma truculência enojante enquanto os “pobres” adolescentes são purificados, como se não guardassem nenhum resquício de uma ideologia nazista.

Ainda neste ano, o realizador debutará na América com “The Outsider”, também centrado em um período pós-Segunda Guerra Mundial. Nele, Jared Leto faz Nick Lowell, G.I. que ingressa a yakuza.

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Um Homem Chamado Ove
En man som heter Ove, de Hannes Holm

Desde a cinessérie “Millennium” que os americanos não compareciam de modo expressivo para assistirem a um filme sueco na tela grande. Com mais de 3,3 milhões em rendimentos, um feito impressionante para qualquer filme estrangeiro a passar em um país tão aficionado quanto o nosso pela dublagem, “Um Homem Chamado Ove” era uma barbada como finalista ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Vivido pelo ótimo Rolf Lassgård, o personagem-título é um desses idosos de mal com a vida. De tão ranzinza, é capaz de interromper o próprio suicídio só para dar bronca em um de seus vizinhos. Mas a doçura já habitou esse homem, como demonstra os flashbacks de sua juventude, onde é vivido por Filip Berg.

As similaridades dessa realização de Hannes Holm com “Diário de Um Maquinista”, este o representante da Sérvia que acabou não indo muito longe na corrida pela estatueta dourada, são por vezes gritantes. Mesmo com o déjà-vu, não há como negar uma graciosidade presente em um filme que humaniza o seu protagonista não pela sua capacidade de devoção a um amor que já partiu, como também a de se reconhecer como um agente de mudança no ambiente em que vive. Craques indicados ao Oscar por “O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu”, Eva Von Bahr e Love Larson são novamente lembrados na categoria de Melhor Maquiagem por outro esforço de envelhecimento impressionante.

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Toni Erdmann
Toni Erdmann, de Maren Ade

No primeiro ato muito bem resolvido de “Toni Erdmann”, a cineasta e roteirista alemã Maren Ade já deixa evidente que pretende tratar da dinâmica entre pai e filha com o maior número possível de excentricidades. Workaholic, Ines (a excelente Sandra Hüller) recebe a visita sem aviso prévio de seu pai (Peter Simonischek), sujeito que vive de disfarces e aplicar prendas que vai tumultuar a partir de pequenas ações ou omissões o cotidiano atarefado e regrado da filha.

Favorito ao Oscar, “Toni Erdmann” parece ter fisgado a quase todos justamente por pincelar com estranhezas um registro que certamente ressoaria piegas caso idealizado por mentes criativas mais esquemáticas. Mas o resultado não é tudo isso, sobretudo por um segundo ato disperso em ações e reações que pouco condizem com o perfil então exibido de Ines.

O controle só é retomado com uma performance inusitada de “Greatest Love Of All” e depois com uma celebração de aniversário de causar um desconforto como pouco se testemunha no cinema. São circunstâncias em que as intenções de “Toni Erdmann” soam mais coerentes e honestas.

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O Apartamento +
Forushande, de Asghar Farhadi

Com tantos filmes de outras nacionalidades tendo uma premissa similar, a exemplo de “Paulina”, “Elle” e especialmente “O Silêncio do Céu”, esperava-se que “O Apartamento” fosse mais incisivo em sua observação sobre os comportamentos que permeiam o íntimo das mulheres ao serem violadas. Em um ângulo geral, a produção não contribui muito para o debate e, fora dele, não representa um passo adiante para Farhadi, então superando a si mesmo a cada nova obra.

Por um lado, “O Apartamento” descarta as estruturas convencionais de um mistério já deixando todas as pistas expostas para ir ao encontro do agressor. Por outro, uma predileção pela perspectiva masculina do contexto é mais perceptível, reservando em poucas ocasiões a condição de Rana em um cenário em que a mulher é secundária mesmo em situações em que seus anseios deveriam ser priorizados. Uma escolha que converge em um estrondo final sem todas as rachaduras pretendidas.

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Tanna
Tanna, de Bentley Dean e Martin Butler

Com a norma que desqualifica produções faladas em inglês na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, a Austrália sempre teve apuros em encontrar um representante, conseguindo somente em 10 ocasiões submeter alguma de suas produções. Pois as chances de conseguir a estatueta finalmente chegaram com “Tanna”, que vem a ser a melhor obra desse grupo seleto.

Falado integralmente em nauvhal, língua da República de Vanuatu, a produção é quase uma pesquisa antropológica da dupla Bentley Dean e Martin Butler, por vezes fascinando por representar tão bem o tradicionalismo e a rivalidade entre tribos sem deixar de pensar em imagens de apelo cinematográfico, como as maravilhosas tomadas do casal feito por Mungau Dain e Marie Wawa (que de fato habitam a ilha de Tanna) diante de um vulcão. Os ecos shakespearianos conferem ainda mais densidade a um contexto em que a segurança de um coletivo precisa ser priorizado em detrimento das escolhas individuais.

Resenha Crítica | La La Land: Cantando Estações (2016)

La La Land, de Damien Chazelle

Após “Moulin Rouge” e “Chicago”, Hollywood conseguiu resgatar o musical obtendo da plateia um nível de interesse equiparável com o de sua Era de Ouro, voltando a produzir exemplares do gênero com uma frequência razoável. Ainda assim, há muito não se tinha uma produção que chacoalhasse as estruturas. Bom, isso até “La La Land: Cantando Estações”, não somente uma obra que vem colecionando devotos, como também a grande estrela desta temporada de premiações, obtendo no Oscar 2017 14 indicações, número antes alcançado somente por “A Malvada” e “Titanic”.

Apaixonado por música, o diretor de 32 anos Damien Chazelle encerra com “La La Land: Cantando Estações” uma espécie de trilogia sobre o jazz, iniciada em 2009 com o ainda desconhecido “Guy and Madeline on a Park Bench” e continuada no arrasador “Whiplash: Em Busca da Perfeição”, o melhor filme de 2015. Agora, o encontro por vezes conflituoso que acompanha é o de Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) em Los Angeles.

Atendente em uma cafeteria, Mia segue empenhada em se firmar como atriz, mesmo com as sucessivas negativas em testes. Já Sebastian é um pianista com um talento sufocado por um cenário ausente de oportunidades que o obriga a tocar jingles natalinos em um restaurante ou o pop brega dos anos 1980. São indivíduos que se atraem justamente por compartilharem esse sonho de obterem sucesso com as suas ambições.

O segredo de “La La Land: Cantando Estações” está em abraçar a fantasia que ganha forma com o romance que nasce entre os protagonistas sem necessariamente tirar os pés do chão. As belíssimas canções, compostas pelo trio Justin Hurwitz, Benj Pasek e Justin Paul, encantam justamente por serem entonadas por um certo despreparo de Stone e Gosling, conferindo aquela espontaneidade nem sempre natural em musicais.

Já as vibrações emocionais da história são asseguradas por compreender a mesma instabilidade que há no ciclo de estações que as envolve, pois a entrega a um amor quase inconsequente, desses em que se abre mão de tudo para corresponder, sempre trás como consequência o que Mia e Sebastian esperam um do outro e de si mesmos. Inconstâncias inclusive que ganham tradução visual a partir de esforços técnicos, como as cores que ganham vida especialmente pela escolha do sueco Linus Sandgren em manipular digitalmente os tons da fotografia para criar uma ilusão em technicolor.

No entanto, o segredo de “La La Land: Cantando Estações” ser encantador vem pelo respeito a um apego por uma realidade um tanto amarga que faz aterrissar corpos que flutuam justamente por um amadurecimento que nos desprende de nossas fantasias. Delírios que nos fazem aplacar um congestionamento com a celebração de um dia ensolarado ou um amor frustrado com um filminho imaginário. Realidade que nos faz fechar as portas de lembranças por vezes forjadas diante de destinos que não se dão como os idealizamos.

Resenha Crítica | Até o Último Homem (2016)

Hacksaw Ridge, de Mel Gibson

Não há nome em Hollywood que pagou mais caro pela sucessão de erros que Mel Gibson. A princípio uma promessa vinda do cinema australiano e depois um dos artistas mais queridos em Hollywood, Gibson alçou voos ainda mais altos na escolha em também seguir uma carreira como diretor, primeiro de modo tímido com “O Homem Sem Face” e depois provocando estrondos com “Coração Valente”, o grande vencedor do Oscar 1996.

O astro seguiu uma trajetória sem abalos até “Apocalypto”, derrapando após o seu lançamento em uma exposição de ações de sua vida particular bem comprometedoras, seja por seus comentários antissemitas, seja pela agressão a uma de suas esposas, a russa Oksana Grigorieva. Exceto pelas participações em filmes de ação vagabundos como “Plano de Fuga”, “Machete Mata”, “Os Mercenários 3” e “Herança de Sangue”, ninguém mais desejou ter o seu projeto vinculado a Mel Gibson, com ele inclusive chegado ao ponto de assinar a direção de arte do chinês “The Bombing” para não ficar sem ocupação.

O levantamento de todo esse histórico é essencial para justificar o quão importante “Até o Último Homem” é para a ressurreição de um talento que parece finalmente encontrar um meio de se desculpar a partir do fazer cinematográfico, enaltecendo Desmond T. Doss, uma figura real, como um recurso para estabelecer uma espécie de pacificação até mesmo no mais horrendo dos conflitos humanos. Pelo visto, a tentativa foi muito bem recepcionada, como sugere as seis indicações que a produção acaba de receber ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção.

Mesmo crescendo em um lar destrutivo, Doss (Andrew Garfield) ainda assim não se permitiu a herdar o temperamento selvagem de seu pai Tom (Hugo Weaving), um veterano de guerra que vivia de incentivar conflitos entre Doss e seu irmão e de violentar a sua esposa Bertha (Rachel Griffiths). A razão de sua bondade vem por corresponder aos preceitos da Igreja Adventista do Sétimo Dia, que, acima de tudo, sempre se negou ao incentivo do combate entre homens. Pois a provação de Doss vem justamente a de rejeitar o uso de armas ao se alistar para ser um socorrista na Segunda Guerra Mundial, função que somente poderá exercer armado.

Mel Gibson estabelece perfeitamente o vínculo entre os dois momentos opostos que existem em “Até o Último Homem”. A princípio, confere muita ternura especialmente no romance que cresce entre Doss e a enfermeira Dorothy (Teresa Palmer), nada devendo diante à história arrebatadora entre o seu William Wallace e Murron MacClannough (Catherine McCormack) encenado em “Coração Valente”.

Faz um registro encantador justamente por representar o tradicionalismo do típico amor em tempos de guerra e por ser tão distante do horror no qual Doss se vê inserido a partir da segunda metade de “Até o Último Homem”, primeiro pelo desrespeito de seus colegas de batalha, que não toleram a sua resistência em eliminar o inimigo, e depois pelos corpos estilhaçados que tingirão toda a tela de sangue. Horror este também testemunhado em “Coração Valente” e em outras das obras de Gibson, comprovando a sua perícia em captar uma ação visualmente assombroso exatamente como deve ser.

Ir adiante configuraria em revelar a diferença extraordinária que Doss operou nesse cenário. Trata-se de uma figura extremamente cativante justamente pela luta em sustentar aquilo que acredita sem jamais defender uma posição de superioridade diante dos demais soldados que matam e morrem por uma vitória. Uma composição luminosa de Andrew Garfield que nenhum integrante do extraordinário elenco de apoio australiano é capaz de ofuscar. Que me perdoe o favoritismo de Casey Afleck por “Manchester à Beira-Mar”, mas os prêmios de interpretação masculina do ano deveriam ser todos destinados a Garfield.

Resenha Crítica | Um Limite Entre Nós (2016)

Fences, de Denzel Washington

Dramaturgo norte-americano e branco falecido em 2005, August Wilson deixou como legado um punhado de obras que conferiam um olhar especial para a condição de afro-americanos em períodos que avançavam para conseguirem um lugar ao sol em uma sociedade ainda inebriada pelo racismo décadas após o fim da escravidão. Escrito em 1987, “Fences” é um dos seus textos mais celebrados, tendo obtido com ele o Pulitzer.

Originalmente protagonizada por James Earl Jones, “Fences” recebeu revival na Broadway em 2010 com Denzel Washington e Viola Davis, com ambos vencendo o Tony Awards por suas interpretações. Pois é a dupla que está à frente da versão para o cinema, com o próprio Washington se encarregando da direção.

Coletor de lixo na Pittsburgh dos anos 1950, Troy Maxson (Washington) é um cidadão com um cotidiano extremamente regrado, variando pouco o ritual de ir ao trabalho e voltar para casa jogando conversa fora com o amigo Jim (Stephen Henderson) e exercendo o seu papel de pai rígido para Cory (Jovan Adepo) e Lyons (Russell Hornsby), com o primeiro empenhado em se tornar um jogador de beisebol enquanto o segundo tenta a vida como músico. Quando o seu temperamento está prestes a explodir, há sempre por perto Rose (Viola Davis), esposa totalmente dedicada à família.

Mesmo que ambientado integralmente na modesta residência dos Maxson, “Um Limite Entre Nós” consegue a princípio criar uma sensação da opressão vivida pela comunidade negra à época justamente pelas posturas de Troy. Mesmo conquistando uma evolução profissional ao se tornar o primeiro negro a ser promovido como condutor de uma companhia de coleta, Troy parece barrar o crescimento de Cory e Lyons por talvez avaliar a ausência de oportunidades para uma raça sempre relegada aos trabalhos braçais.

Ainda que esse isolamento funcione, por vezes tratando rápidas tomadas externas como intermissions, não se pode dizer que Denzel Washington tenha feito uma adaptação do texto de August Wilson, uma vez que ele parece não compreender as distinções entre o palco e a linguagem cinematográfica. “Um Limite Entre Nós” é puro teatro filmado, mas com resultados danosos até mesmo para os diálogos poderosos.

Trata-se da direção mais preguiçosa testemunhada recentemente, dessas incapazes de reforçar com imagens aquilo que é verbalizado ou que pretende representar. Acaba servido de esforço redobrado para Washington e Viola Davis conferirem alguma verdade a algo pouco palpável principalmente quando a narrativa excursiona  em seu desenvolvimento por uma revelação que não se sustenta a contento justamente pelo desinteresse em perseguir a plenitude inerente ao fazer cinematográfico.

Resenha Crítica | Lion – Uma Jornada Para Casa (2016)

.Lion, de Garth Davis

Vivendo na região mais pobre da Índia, Saroo foi vítima de um acaso com desdobramentos verdadeiramente cinematográficos. Com somente cinco anos, desapareceu enquanto acompanhava o irmão mais velho durante uma noite à caça de pequenos serviços. Sozinho em uma estação de trem, acabou entrando em um vagão que o mandou a milhas de distância de sua casa, sendo posteriormente adotado por um casal de australianos.

No entanto, o roteiro dessa história de recomeço em um novo lar escrito por Luke Davies tem um interesse mais amplo por Saroo Brierley, que relatou em seu livro “A Long Way Home” o processo de amadurecer sem esquecer por uma dia sequer a sua família de sangue e a dor é que sobreviver com a sua ausência. Daí a escolha do diretor estreante Garth Davis em dividir “Lion – Uma Jornada Para Casa” em dois tempos tão distintos e importantes para se completarem.

Na primeira metade da narrativa, recai sobre os ombros da adorável revelação Sunny Pawar carregar o filme nas costas, encarnando um Saroo que ainda é capaz de manter o brilho nos olhos mesmo trabalhando com o seu irmão Guddu (Abhishek Bharate) durante o dia para ter o que comer à noite. É uma realidade árdua, mas que não reduz a cumplicidade de uma família também composta por sua mãe, Kamla (Priyanka Bose), e a sua irmã mais nova, Shekila (Khushi Solanki).

Tendo codirigido o notável seriado “Top of the Lake” com Jane Campion, Garth Davis demonstra em “Lion” equilíbrio entre o deslocamento de seu protagonista com a afetuosidade de um amor incondicional expresso principalmente por Kamla e a sua mãe adotiva Sue (Nicole Kidman, em uma participação pequena e arrasadora). É especialmente importante o modo que acompanha o pequeno Saroo, com uma câmera que respeita a sua perspectiva do mundo e sendo paciente no registro do desespero de uma criança se movendo da Índia para Calcutá e das armadilhas preparadas por adultos inescrupulosos.

A barra também não é aliviada para o Saroo adulto, vivido por um Dev Patel totalmente maduro após um rumo trôpego traçado a partir do fenômeno de “Quem Quer Ser Um Milionário?”. Mesmo ciente de suas vocações e de uma nova vida privilegiada, é um homem que enfatiza para os seus pais adotivos a escolha que fizeram por alguém incapaz de se dissociar de seu próprio passado.

Tinha tudo para ser mais uma produção com pretensões hollywoodianas, mas, felizmente, a intervenção dos irmãos Weinstein só é notada em uma conclusão com “Never Give Up”, canção que conta com uma performance bem inadequada de Sia. Afora o deslize, “Lion” está em plena sintonia com as suas raízes australianas, correspondendo ao melhor segmento dramático produzido no país ao comover com as intenções mais nobres.

Resenha Crítica | Manchester à Beira-Mar (2016)

Manchester by the Sea, de Kenneth Lonergan

Faz-tudo em três condomínios, Lee Chandler (Casey Affleck) pode ser muito justo na franqueza de suas palavras com os inquilinos por vezes insaciáveis. Porém, nas primeiras cenas de “Manchester à Beira-Mar” se nota que há um peso incalculável sobre os ombros desse homem de 30 e poucos anos de olhar cabisbaixo e que busca controlar a sua agressividade interior na embriaguez e em brigas aleatórias em bares.

À primeira vista, a razão para a sua melancolia parece se justificar somente com o aviso já aguardado da morte de seu irmão mais velho, Joe Chandler (Kyle Chandler), vítima de uma doença degenerativa. Porém, a perda familiar que o obriga a voltar à Manchester desencadeia uma série de circunstâncias de seu passado que o faz inclusive encarar com indignação o pedido deixado por Joe para que seja o tutor de seu filho único, o adolescente Patrick (Lucas Hedges, filho de Peter Hedges, diretor de “Do Jeito que Ela É”).

Diretor e roteirista, Kenneth Lonergan costura “Manchester à Beira-Mar” a partir do regresso temido por Lee com fragmentos, trazendo à toa a sucessão de acontecimentos que o transformaram em um indivíduo amargo e estagnado na vida. Retalhos que dão forma a uma consequência inesperada e dolorosa, buscando ressinificar comportamentos que se dão quando sentimentos não verbalizados adequadamente.

De algum modo, “Manchester à Beira-Mar” tem mais sintonia do que o esperado com “Margaret”, o tumultuado drama rodado anteriormente por Lonergan que conseguiu ganhar a luz do dia com poucos arranhos após ficar perdido durante anos na ilha de edição. Em comum com Lisa Cohen (Anna Paquin), a protagonista de “Margaret”, Lee tem justamente essa dificuldade em processar a perda, desacreditando que amadureceu para lidar com grandes responsabilidades.

Porém, ao contrário de “Margaret” e todos os seus momentos exemplarmente concebidos, há em “Manchester à Beira-Mar” um alcance de méritos que parecem partir mais da junção de fatores secundários. Não são muitos os instantes em que Lonergan expressa uma angústia com recursos visuais e textuais, ainda que o cenário central carregue todas as tonalidades frias para isso.

Por um lado, a música de Lesley Barber escolhe tons operísticos para conferir um senso de tragédia que as imagens de Lonergan não conseguem corresponder. Por outro, essas mesmas imagens só ganham impulso porque a montagem de Jennifer Lame consegue encontrar a combinação entre passado e presente para que resultem densas. De qualquer modo, não é só de ausência de méritos que consiste os esforços de Lonergan, que encontrou um elenco acima da média para representar do modo mais crível possível o buraco emocional que nunca se preenche em sua totalidade.