Dilema (What/If)

Resenha Crítica | Dilema (2019)

What/If, criada por Mike Kelley e dirigida por Phillip Noyce e outrxs

Revelada ao mundo em “Jerry Maguire: A Grande Virada”, Renée Zellweger traçou uma carreira brilhante em Hollywood, culminando em três indicações ao Oscar (venceu uma vez), seis ao Globo de Ouro (levou três estatuetas), um dos mais altos salários e o reconhecimento como uma das grandes atrizes mundiais no início deste jovem século. Justo: o envolvimento em projetos como “A Enfermeira Betty”, “O Diário de Bridget Jones”, “Deixe-me Viver”, “Chicago”, “Abaixo o Amor” e “Cold Mountain” era mesmo resultado de escolhas muito bem feitas em um curto espaço de tempo, no qual a texana (que muitos ainda hoje pensam ser britânica pelo sotaque impecável testemunhado como Bridget Jones) foi revelando um sem número de facetas, como uma doçura singular que desperta na gente uma empatia imediata até uma malícia que não parecia existir em uma mulher de rosto tão angelical.

De uma hora para a outra, Renée desapareceu. Seria aquele preconceito avassalador de Hollywood com mulheres que atingem os 40 anos? Ou o cansaço de ter os seus passos em muitas ocasiões ditados pelo produtor Harvey Weinstein, que hoje se revela a principal razão de existência do #MeToo? Talvez seja também o fato de ter ficado praticamente irreconhecível com as intervenções faciais, notadas a partir do terror “Caso 39” e agravadas em “Versões de Um Crime“, um retorno mal-sucedido como atriz após um hiato de seis anos.

Pode ser tudo isso junto. Mas a verdade é que a série “Dilema”, disponível na Netflix desde 24 de maio, sinaliza uma nova tentativa de comeback. Talvez seja preciso aguardar por uma volta por cima em “Judy”, em que interpreta o ícone Judy Garland – a estreia vai acontecer em setembro, mês em que é dada a largada para a temporada de premiações. Mesmo que viva deliciosamente a sua primeira personagem com veias vilanescas expostas já em sua primeira aparição na tela, Renée não é capaz de salvar um novelão de péssima categoria, ainda mais canhestro que outra cria de Mike Kelley, “Revenge”. A princípio sugerindo uma conexão com “Proposta Indecente”, a narrativa de “Dilema” vai enveredando por caminhos bem diferentes, em que um núcleo de personagens ligados à protagonista de Jane Levy, uma jovem cientista idealista, se verá lidando com consequências pesadas a partir de escolhas do passado, seja ele passado ou presente.

Em um vídeo feito com exclusividade para o canal do Cine Resenhas no YouTube, abordo mais a sinopse de “Dilema” e as razões desta ser mais uma produção Original Netflix a frustrar as nossas expectativas.

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Objetos Cortantes

Resenha Crítica | Objetos Cortantes (2018)

Sharp Objects, criada por Marti Noxon e dirigida por Jean-Marc Vallée

O cineasta canadense Jean-Marc Vallée mal tinha terminado de recolher os louros de “Big Little Lies” e já era flagrado nos bastidores dirigindo Amy Adams na adaptação de “Objetos Cortantes”, também da HBO. A agenda o impossibilitou de conduzir a segunda temporada da atração com Nicole Kidman e Reese Witherspoon, mas o sacrifício foi válido.

O romance de estreia de Gillian Flynn (a mesma de “Garota Exemplar” e “Lugares Escuros”) ganha excelente tratamento aqui. O texto enxuto (250 páginas) virou uma minissérie de oito capítulos extremamente consistentes e que desenvolvem sem pressa a conturbada relação de uma família composta por três gerações de mulheres envolta a um mistério envolvendo o homicídio de duas garotas que pode ser obra de um assassino em série em formação.

O resultado é excelente e tive a honra de contar com a minha amiga Graciela Paciência para compartilhar as suas impressões sobre o livro e a sua versão para a tevê. E vale agradecer a sua cumplicidade na parceria, pois tivemos muitas dificuldades de encontrar uma “locação” para a gravação, que foi feita no Parque Trianon em uma tarde de terça-feira.

Por sinal, acompanhe a Graci nos seguintes espaços:

Cinema de Buteco
Lado M
Audiograma
• Livro “Confissões de Uma Adolescente Grávida

Resenha Crítica | Top of the Lake (2013)

Top of the Lake, criada por Jane Campion e Gerard Lee e dirigida por Jane Campion e Garth Davies

Exibido no Festival de Cannes, “Top of the Lake: China Girl” foi exaltado pelos jornalistas que encararam a sua maratona de seis horas como o melhor projeto da última edição, inclusive em comparação com todos os títulos em competição pela Palma de Ouro. Mas lá em 2013, os criadores Jane Campion e Gerard Lee já tinham obtido elogios de mesma proporção pela primeira temporada da atração.

Enquanto os brasileiros não têm acesso formal a “China Girl”, dediquei um vídeo comentando sobre a primeira investigação encenada liderada pela detetive Robin Griffin, interpretada pela arrasadora Elisabeth Moss. É uma história que trata muito sobre a condição da mulher em contextos limitadores e selvagens, mas que também comprova a excelência da tevê, hoje vivendo a sua era de ouro.

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Resenha Crítica | Feud: Bette and Joan (2017)

Feud: Bette and Joan, criada por Jaffe Cohen, Michael Zam e Ryan Murphy e dirigida por Ryan Murphy, Gwyneth Horder-Payton, Liza Johnson, Tim Minear e Helen Hunt

Maiores estrelas de Hollywood nos anos 1930 e 40, Bette Davis e Joan Crawford eram também grandes rivais. Além de inicialmente pertencerem a estúdios concorrentes, com Bette protagonizando grandes êxitos artísticos e comerciais da Warner Bros. enquanto Joan expandia o mito de musa à frente de projetos da MGM, ambas disputaram homens e papéis.

O que não falta na indústria americana de cinema é a troca de farpas entre artistas e realizadores, mas nenhum “feud” (ou conflito) se equipara ao protagonizado por Bette e Joan, encontrando o seu ápice na reunião das duas atrizes em “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”, hoje um dos grandes clássicos do cinema e fundador do subgênero hagsploitation, este marcado por thrillers protagonizados por veteranas. Pois é nesse período de produção do grande filme de Robert Aldrich (Alfred Molina) que inicia “Feud: Bette and Joan”.

A concepção da narrativa de certo modo não se desvincula desta aura de impressões que se tem sobre o relacionamento tumultuado de Bette e Joan, encenando a produção de um documentário que traz outras estrelas consagradas do cinema, como Olivia de Havilland (Catherine Zeta-Jones), Victor Buono (Dominic Burgess) e Joan Blondell (Kathy Bates), compartilhando algumas vivências com elas. Algumas correspondem aos fatos, como vemos a partir das encarnações de Susan Sarandon como Bette e Jessica Lange como Joan.

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FEUD: FILMES PARA ASSISTIR COM BETTE DAVIS E JOAN CRAWFORD

Com esse feud tão notório, Ryan Murphy, em parceria com Jaffe Cohen e Michael Zam, desenha ao longo de oito episódios os meandros da intriga que sustentaram. Porém, muito além do humor um tanto perverso que tudo isso proporciona, há uma investigação de quem realmente eram essas mulheres e do ambiente cruel que habitavam, característica escondida em meio a tanto glamour.

É, portanto, uma justiça que se faz ao legado de atrizes tão controversas quanto talentosas, com reputações manchadas tanto pelos livros autobiográficos publicados por suas filhas quanto pelo segundo plano ao qual foram relegadas enquanto avançavam na idade. O declínio da Era de Ouro em Hollywood que adentramos aqui é cruel especialmente para as mulheres, que perdiam o seu protagonismo nas telas ou tinham o desejo de desempenhar uma função decisiva atrás das câmeras sabotado por um men’s business, como bem ilustra a assistente de Aldrich, Pauline Jameson, uma personagem fictícia vivida pela notável Alison Wright.

Muito além de uma perícia cirúrgica para recriações de grandes momentos, como todo o quinto episódio, “And the Winner Is… (The Oscars of 1963)”, que traz a maior cerimônia do Oscar que já se viu na ficção, há dois movimentos paralelos que em choque constatam que, mesmo totalmente opostas, Bette Davis e Joan Crawford eram quase a mesma pessoa. Duas personalidades que desconheciam o poder que teriam unidas, sucumbindo a um jogo que lhes custaram para reconhecer que já não estavam mais no topo, mas que “Feud: Bette and Joan” ainda assim se permite a encerrar com uma reconciliação – mesmo ela fruto de um delírio.

Resenha Crítica | Big Little Lies (2017)

Big Little Lies, criada por David E. Kelley e dirigida por Jean-Marc Vallée

Publicado em 2014, “Pequenas Grandes Mentiras” inicia com um recurso cada vez mais comum em histórias centradas em um mistério: a antecipação de um clímax envolvendo uma situação em que há um personagem que matou e um outro que morreu. Porém, muito mais do que flagrar todos os meandros que levaram a uma solução tão radical, a escritora Liane Moriarty ainda estabelece um jogo de aparências, na qual há algo de muito podre além das fachadas de suas ricas protagonistas.

“It’s a beautiful life” (“é uma bela vida”) é a frase que estampa as artes promocionais da minissérie dividida em sete capítulos “Big Little Lies”, com a letra f despencando da palavra life. Pois é a mentira que pauta algumas das decisões de Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman) e Jane (Shailene Woodley), as três protagonistas de uma história que perde o humor negro de sua origem para privilegiar a densidade em um relato sobre sobre as mulheres modernas e os dilemas que enfrentam diariamente em vidas descritas como perfeitas pelos olhares alheios.

Depois de um prólogo que esclarece que algo acabará muito mal, a trama retrocede a partir do momento em que Madeline conhece Jane, uma mãe jovem e solteira nova em uma cidade com um número pequeno de habitantes em que quase todos têm alto poder aquisitivo. Ela estaria tentando recomeçar do zero, mas um infortúnio já a atormenta no primeiro dia de aula de seu filho Ziggy (Iain Armitage): Amabella (Ivy George), a filha única de Renata (Laura Dern), afirma ter sido vítima de bullying, apontando o dedo para Ziggy quando questionada sobre quem tentou sufocá-la.

Melhor amiga de Madeline, Celeste também tem filhos matriculados na mesma escola, os gêmeos Josh e Max (Cameron e Nicholas Crovetti), e abdicou de advogar para se ocupar como dona de casa por exigência do seu marido Perry (Alexander Skarsgård), sujeito que logo revelará uma instabilidade perigosa cuja rotina é fazer viagens a trabalho. Outra mulher a orbitar neste contexto é Bonnie (Zoë Kravitz), a atual companheira de Nathan (James Tupper), ex-marido de Madeline, esta agora casada com Ed (Adam Scott), que consolidou uma empresa de criação de sites.

A princípio, os pobres filhos dessas mulheres parecem modelados para serem reprises de suas versões mais ideais, mas logo se impõe uma tensão entre todas, geradas a partir de um âmbito particular marcado por casamentos insatisfatórios, puladas de cerca, segredos do passado e até mesmo estupro e violência doméstica. Sai assim do campo de meras artificialidades da vida burguesa para adentrar em camadas imperfeitas (quando não obscuras) de cada família.

Foi graças ao empenho de Nicole Kidman e Reese Witherspoon que “Big Little Lies” ganhou formas, com ambas obtendo os direitos do livro de Moriarty e propondo para a HBO uma adaptação em modelo de minissérie limitada. É uma conjunção de forças que inspira inclusive o trabalho de Jean-Marc Vallée, escolhido para conduzir o projeto de cabo a rabo a partir do texto de David E. Kelley sem abrir mão de uma sensibilidade somente presente nos melhores realizadores com uma voz autoral.

Além de ter uma perícia singular para desenvolver o drama que cada uma dessas mulheres vive entre quatro paredes, como a constatação em terapia de que Celeste não se reconhece como vítima em uma círculo vicioso de brutalidade, os impulsos irracionais de Madeline e o deslocamento de Jane em um cenário em que nada tem em comum, Vallée é notável nas representações visuais e em sua participação na montagem, cheia de fragmentos que exercem uma função muito mais completa do que a da palavra expressa.

Com tudo isso contido em um projeto concebido para a tevê mas pensado como cinema, Vallée ainda insere camadas adicionais em suas personagens quando estas passam a adotar finalmente uma postura mais racional em meio a turbulência. E isso vem em uma conclusão com uma possibilidade de reconciliação entre essas mulheres, selando um pacto para combater um risco muito mais importante de ser exterminado do que as suas diferenças.

Californication, a série sanfona

Californication

Ao menos para mim, que não assistiu “The X-Files” por desinteresse sobre a sua temática, David Duchovny parece ter nascido para o papel de Hank Moody, protagonista da série “Californication” (2007-2014). Talvez por isso, tenho uma dificuldade imensa em desvincular ator e personagem.

E talvez seja isso que faça a série ser bem bacana. Para quem não tem ideia do seu enredo, trata-se de um escritor nova-iorquino que teve muito sucesso com um livro e mudou-se com a mulher e filha para Los Angeles com a finalidade de trabalhar no roteiro do filme baseado em sua obra. A partir daí sua vida muda totalmente, uma vez que a costa oeste norte-americana o corrompe moralmente, levando-o a cair de cabeça dos excessos e atrativos da indústria do cinema – isso envolve drogas e muito sexo.

Consequência disso é que ele perde sua família e, após aquilo que parece um coma de luxúria e hedonismo, ele tenta recuperar e constituir família novamente. Para isso se envolve em mil e uma confusões… Até porque uma das coisas legais da série é o fato dele ser um imã para problemas que muitos de nós às vezes até buscamos ter.

O enredo é bacana, principalmente quando o espectador acredita na glamourização de escritores num mundo cada vez mais limitado a 140 caracteres. Ao menos para a realidade nacional, o sonho californiano parece algo irreal e atraente, já que Hank, apesar de levar uma vida marginal, convive com estrelas do rock, do pop, celebridades e empresários do show business num mundo regado a bebida, drogas e sexo.

Porém, a série não ultrapassa o selo de “boa” pelo fato de com o tempo ter se tornado sanfona, no sentido que varia de uma temporada boa e uma muito ruim – que causa até vergonha alheia no telespectador.

Isso se explica no fato da série ter um viés humorístico, quando trata de confusões amorosas e temas tabus (novamente sexo e drogas) de forma cômica. Talvez numa tentativa de inserir pessoas comuns num mundo totalmente oposto ao seu, creio que Tom Kapinos, criador e escritor da série, falha ao gerar cenas típicas de uma comédia familiar italiana – com muitas confusões. Sério, soa como uma “Sessão da Tarde” com censura de “Corujão”.

Por outro lado, quando Kapinos busca sensibilidade, ele o faz muito bem. Até porque, no final, a série nada mais é que um pai reconquistando sua filha e sua ex-esposa. O problema é que ele não dosa as coisas muito bem, e usa nelas o pastelão em uma temporada e, na outra, uma temática mais séria. Por isso acaba ficando sanfona, já que a série perde sua essência – inclusive a última temporada poderia estar no rol de pastelões. Uma pena.

Fora isso, a série também conta com um elenco de apoio sólido, com atores como Natascha McElhone e o Evan Handler, respectivamente ex-mulher e melhor amigo de Hank. Além de participações especiais de atores como Rob Lowe, Marilyn Manson, Kathleen Turner, Michael Imperioli e Heather Graham.

No geral, é uma séria boa pra assistir despretensiosamente. Se fosse um livro diria para deixar no banheiro para aquela leitura sem compromisso.

Séries nacionais para sair da rotina

Mandrake

Apesar das atualizações semestrais no mundo das séries, sempre que a HBO anuncia o lançamento de alguma produção, independente do que, paro tudo para ver do que se trata. Afinal, desde sempre, esse canal digníssimo sempre teve um alto padrão de qualidade e ousadia, produzindo séries como “Oz”, “The Sopranos”, “Six Feet Under”, “Sex And The City” e sim, “Game of Thrones”, entre muitas outras.

Dentre essas, vou citar três que saíram um pouco do óbvio: as nacionais “Mandrake”, “Filhos do Carnaval” e “(fdp)”. E sim, esse post é sobre elas, goste ou não.

Mesmo estando abaixo do padrão das grandes produções da HBO, essas séries têm lá um grande valor. Tanto por estarem acima daquilo de muitas atrações audiovisuais nacionais como por tratarem de temas nunca ou pouco abordados.

Filhos do Carnaval

A estrela de ouro delas vai para “Filhos do Carnaval” (2006-2007), protagonizada pelo saudoso cafajeste Jece Valadão como o Anésio Gebara, patriarca de uma organização criminosa baseada no jogo do bicho no Rio de Janeiro e que financiava o carnaval, investia no futebol e possuía negócios escusos no que tange as linhas transporte público. Inspirada na “vida e obra” do maior e mais poderoso bicheiro do Brasil, Castor de Andrade, a série passeia por esse submundo, que todo mundo sabe que existe, mas prefere ignorar. A série conta também com um roteiro bacana e com o ótimo Felipe Camargo, em um dos primeiros papéis após seu hiato causado por problemas pessoais.

Na segunda posição, mas por pouca diferença, está “Mandrake” (2005-2007), baseada na obra de Rubem Fonseca. Conta as aventuras cotidianas de Mandrake (Marcos Palmeira), um advogado nada convencional que atua como um abafador de crises e resolve pepinos de gente que não quer se envolver num escândalo. Gosto de dizer que “Mandrake” é aquilo que “Scandal” gostaria de ser, mas não conseguiu.

(fdp)

Por fim, abaixo das duas, mas não pior, está “(fdp)” (2012), a série que dá uma luz à vida de um juiz de futebol – algo que nunca foi explorado antes. De forma cômica, com diversas referências e clichês futebolistas, conta com as participações de jogadores como Neymar e Rincón, além do jornalista Juca Kfouri. E é bacana que a série trabalha bem isso, apesar do eterno desafio do audiovisual em representar o futebol e de ser necessário ignorar algumas atuações sofríveis que encontramos.

São séries bacanas pra quem quiser assistir algo diferente e com temáticas mais familiares.

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Paolo Enryco amadureceu em frente à tevê e por esse motivo adquiriu um humor exótico e um senso crítico rabugento. Sua formação, que varia entre o sensato e o lírico, compõe suas críticas – ou seja lá o que ele escreve aqui. Mais devaneios em Eu Penso.

O humor politicamente incorreto na ensolarada Filadélfia

It's Always Sunny in Philadelphia

Sempre tive uma tendência em proteger os fracos e oprimidos. Quando não é contra o Corinthians, prefiro os times mais fracos. Luto pelas causas perdidas. Opto pelo underground em detrimento do mainstream. Prefiro mais apostar no azarão.

Partindo desse principio, gostaria de comentar um seriado que vejo a algum tempo, poucas pessoas sabem que vejo e quando conto sequer sabem que essa série existe: “It’s Always Sunny in Philadelphia”.

Pra quem não tem noção do que estou falando, essa é uma série de humor, de vinte e poucos minutos, sem claque, baseada na… Filadélfia. Estrelada por Rob McElhenney (criador), Charlie Day, Glenn Howerton, Kaitlin Olson e, a partir da segunda temporada, Danny DeVito, tem como enredo um grupo de amigos cuja missão é administrar um bar irlandês.

Seria fácil e enfadonho, senão pelo fato deles serem uma espécie de anti-heróis, asquerosos, sempre em busca de tirar vantagens por meios politicamente incorretos.

Tentativas de golpes, tráfico, sexo, abuso de drogas e álcool, piadas com estereótipos de minorias ou humor negro são temas corriqueiros dessa série que está em sua… décima temporada! E, ao menos no Brasil, é quase desconhecida – e creio que em qualquer outro lugar fora dos Estados Unidos.

E isso é bom, tendo em vista que um seriado que usa de um humor tão ácido como essa tem que agir meio na surdina. Ou talvez a surdina seja uma consequência do seu humor – que até para os fãs pode ser intragável às vezes.

Porém, sempre há uma espécie de moral da história intrínseca, haja visto ser raro eles se darem bem em suas empreitadas. O que, apesar do humor politicamente incorreto, mostra que eles não pregam isso. Pelo contrário, tocam no assunto e tiram sarro deles mesmos.

Bom para assistir com cerveja gelada.

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Paolo Enryco amadureceu em frente à tevê e por esse motivo adquiriu um humor exótico e um senso crítico rabugento. Sua formação, que varia entre o sensato e o lírico, compõe suas críticas – ou seja lá o que ele escreve aqui. Mais devaneios em Eu Penso.

A arte de nos fazer rir

The Big Bang Theory

Qual a diferença entre “The Big Bang Theory”, “Friends”, “That ’70s Show” e “Two and a Half Man” com “The Office”, “Brooklyn 9-9”, “It’s Always Sunny in Philadelphia” e “Modern Family”? Aparentemente, nada. Todas são séries de humor e de vinte e poucos minutos. Mas sim, tem uma diferença, ao meu ver, fundamental: a trilha de risadas ou claque.

Isto é, o primeiro grupo de séries citadas segue essa linha clássica de comédia que avisa o espectador quando deve rir. É o tipo de coisa que nem percebemos, afinal, crescemos com isso desde “Chaves”, “Chapolin” e “Um Maluco no Pedaço”. O problema é quando a série perde o ritmo e a tirada e a trilha de risadas parece ser um “toque” ou um aviso: a piada é agora.

Tenho percebido muito isso na ultima temporada de “The Big Bang Theory”, que tem sido de longe a pior. Porém, rabugento que sou, tenho prestado mais atenção nessas risadas de fundo que nas tiradas das personagens. E muitas vezes isso é enfadonho. Uma espécie de mensagem subliminar que raramente notada, nos obriga a rir.

Talvez seja pelo fato de eu gostar tanto de séries sem esse artifício como “The Office” e “Brooklyn 9-9”, desacostumei com essas sitcoms clássicas. Ao menos se dessem a opção de assisti-las sem esses risos (opção idioma inglês sem claque). Seria uma experiência interessante.

Não que eu não goste ou não me divirta com esses seriados. Adoro “That ’70s Show”! É uma série que me faz rir até hoje, independente das claques. Tal qual “Two and a Half Man” (antes de Charlie Sheen sair e Angus T. Jones crescer), “Friends”… O problema é quando a piada não tem graça e precisamos de alguém avisando o momento de rir. Ao meu ver, isso é subestimar a inteligência do espectador.

Certa vez (não lembro quando, nem onde) Chico Anysio disse que “a risada é a sonoplastia do humor”. Sem dúvida, a falta de risos ou a necessidade de colocá-los após a fala que deveria ser engraçada é sinal de que alguma coisa está errada.

Apesar disso, aceito, sob protestos, ser tratado como estúpido e assistir essas séries com claque.

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Paolo Enryco amadureceu em frente à tevê e por esse motivo adquiriu um humor exótico e um senso crítico rabugento. Sua formação, que varia entre o sensato e o lírico, compõe suas críticas – ou seja lá o que ele escreve aqui. Mais devaneios em Eu Penso.

Uma boa conclusão é fundamental para uma boa série

Lost

Em minha primeira colaboração para o Cine Resenhas – minha lista de séries prediletas de todos os tempos – deixei de fora outras que realmente me deixam entusiasmado em seu andamento atual. Porém, pelo fato de não terem sido concluídas ainda, seria irresponsável e prematuro inclui-las em meu top 5.

“Mad Men”, “Game of Thrones”, “The Walking Dead” e a recém-nascida “Better Call Saul” são séries que tenho muito apreço e que quero comentar aqui. Porém, ainda não devem ser consideradas obras prontas a ponto de botar a minha mão no fogo por elas. Esse é o barato de seriados. Eles precisam fechar o ciclo ou, caso contrário, correm o risco de causar uma decepção imensa no espectador.

Ora, existem centenas de obras cujos desenvolvimentos muitas vezes são mais importantes que a introdução ou a conclusão. Filmes, livros… Quem sabe até um concerto. Mas no caso de séries, o tempo demandado para você assistir todo o seu ciclo (em média quatro anos, se não for cancelada antes) é longo o suficiente para uma grande decepção. Posso citar pelo menos duas séries que me deixaram com uma amargura imensa em sua conclusão.

Não é raro pessoas desiludidas com a pop “Lost” (2004-2010). Desculpe, raro é quem colocaria Lost em seu top 5. Que final foi aquele? Apesar de que, no caso dessa série, a impressão que dava é que ela já estava perdida talvez desde a quinta temporada. Até achei um barato aquela onda de viagem no tempo. Mas não subestime o “seriéfilo”. Pode até ser que tenha ali uma resposta filosófica, religiosa ou o que for, mas o fato é que essa tal temática de bem e mal parece ter sido construída só no final da série. Foi um final broxante! Miraram a surpresa e acertaram a decepção.

Outra série, e dessa vez não é culpa dos roteiristas, cujo final foi mais triste que decepcionante é “Deadwood” (2004-2006). Por uma peleja entre criador da série e executivos da HBO a série simplesmente não teve fim! “Deadwood” tinha tudo para estar no meu top 5 com o inevitável incendido que encerraria a história da cidade, mas não aconteceu. A série simplesmente acabou em um anticlímax triste e repulsivo, que deveria ser considerado um antecedente penal para evitar outros possíveis crimes futuros – sim, aconteceu novamente em outras séries, mas, em alguns casos, foi justo pela péssima qualidade da obra.

Há diversas outras séries com finais dramáticos por serem ruins. No meu caso, tive mais sorte que azar e acompanhei aquelas que me apeteciam e cujo final foi bom. Isso também se deve pelo fato de eu não ter visto tantas séries até o final. Algumas por pouco, outras por muito. Deve ser algo relacionado ao intuito.

Mas quando eu encontrar essas séries com finais ruins com certeza alertá-lo-eis.

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Paolo Enryco amadureceu em frente à tevê e por esse motivo adquiriu um humor exótico e um senso crítico rabugento. Sua formação, que varia entre o sensato e o lírico, compõe suas críticas – ou seja lá o que ele escreve aqui. Mais devaneios em Eu Penso.