Barreiras

Resenha Crítica | Barreiras (2017)

Barrage, de Laura Schroeder

Se Isabelle Huppert é considerada a Meryl Streep da França, Lolita Chammah poderia ser comparada com Mamie Gummer. Mãe e filha já trabalharam juntas algumas vezes antes de surgir na tela algo mais efetivo no belo “Copacabana“, em que também dividem na ficção o mesmo parentesco da vida real.

Em “Barreiras”, Isabelle Huppert decidiu ser mais generosa com a sua cria, não se importando muito em servir de degrau para o protagonismo de Lolita Chammah. Portanto, não se deixe levar pela publicidade brasileira: somada toda a sua participação, Huppert não deve ter mais que 10 minutos em cena em um filme que quase encosta nas duas horas.

É importante citar a relação familiar porque “Barreiras” trata sobre três gerações femininas de um núcleo em frangalhos. Na “coluna intermediária”, há Catherine (Lolita Chammah). Cantora há 10 anos ininterruptos na estrada, ela deixou a sua filha Alba (Themis Pauwels, de “Suíte Francesa”) aos cuidados da mãe Elisabeth (Isabelle Huppert).

Pois ela decide regressar para Luxemburgo e o reencontro claramente não será fácil. Além daquele sensação de intrusão de uma moça que ficou tanto tempo sem prestar satisfações, Elisabeth não é uma pessoa das mais estáveis e impõe um momento privado com Alba sem avaliar que a menina está toda preenchida de ressentimentos.

Em seu segundo longa-metragem, Laura Schroeder tem como seu braço direito a britânica Petra Jean Phillipson, que assina uma trilha musical que exerce um papel dramático essencial para a narrativa. “Barreiras” é também bem fotografado por Hélène Louvart, apresentando uma textura de lodo verde em imagens emolduradas quase como retratos de Polaroid.

Falta um texto mais consistente, ao qual coassina com a veterana Marie Nimier. Raros picos emocionais, como o que Alba se machuca ou que é uma culpada direta pela morte do cachorro de Catherine, a única criatura pela qual estabeleceu algum vínculo realmente duradouro, são rapidamente resolvidos para resgatar o processo de redescoberta entre ambas. Indolor.

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Lançamento em streaming de “Barreiras”:
Disponível a partir do dia 26 de julho
iTunes: R$ 19,90 (venda) | R$ 11,90 (aluguel)
Google Play: R$ 29,90 (venda) | R$ 9,90 (aluguel)
Now: R$ 14,90 (aluguel)
Vivo Play: R$ 11,90 (aluguel)

O Amante Duplo

Resenha Crítica | O Amante Duplo (2017)

L’Amant double, de François Ozon

.:: Festival Varilux de Cinema Francês 2018 ::.

Enquanto “O Amante Duplo” segue em exibição nos cinemas brasileiros, François Ozon já finaliza o seu novo trabalho, “Alexandre”. É um hábito na carreira do realizar francês o ritmo acelerado de trabalho, promovendo um projeto quando já pensa no próximo.

Melhor: Ozon trafega por gêneros sem jamais abandonar a sua autoria, proporcionando uma experiência em que quase sempre se desafia ao invés de se conformar com uma zona de conforto. Porém, com “O Amante Duplo” parece chutar o pau da barraca, com a possibilidade de não atender a qualquer uma das expectativas que costumam cercá-lo.

Pode-se considerar até mesmo uma afronta divertida a sua inscrição para concorrer à Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2017, onde saiu sem honrarias e com a crítica extremamente divisiva. Aqui, ele se apropria livremente de um romance da americana Joyce Carol Oates, publicado em 1987 e com natureza pro si só misteriosa com sua autoria sob o pseudônimo de Rosamond Smith.

A história é centrada em Chloé (Marine Vacth, revelada pelo próprio Ozon em “Jovem & Bela“). Jovem de 25 anos, trabalha como vigia em um museu parisiense e busca por tratamento terapêutico para aliviar uma dor física provavelmente oriunda de uma desordem psicossomática. 

Ela parece encontrar a solução para o problema na forma do atencioso Paul (Jérémie Renier), psicólogo que interrompe as consultas assim que assumem um relacionamento. As dores voltam e, ao acaso, Chlóe descobre a existência do irmão gêmeo de seu amado, Louis (Jérémie Renier, claro), que revela um temperamento transgressivo que confunde as suas certezas.

O que inicia como um jogo de aparências, reforçada por uma cenografia repleta de espelhos e espirais, se transforma em sua segunda metade em um suspense que muitas vezes abandona as suas propriedades psicológicas para materializar em cena mutações associada por muitos com o cinema do canadense David Cronenberg.

As reações serão as mais opostas possíveis. Por um lado, há quem defenderá que a junção de bizarrices eleva “O Amante Duplo” a patamares provocativos e refrescantes. Outros talvez se sintam insultados com algo que parece ter em sua essência um tom de ridicularização. É um ame ou odeie com inegável poder de penetração.

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Lançamento em streaming de “O Amante Duplo”:
Disponível a partir do dia 22 de agosto
iTunes: R$ 19,90 (venda) | R$ 11,90 (aluguel)
Google Play: R$ 29,90 (venda) | R$ 9,90 (aluguel)
Now: R$ 14,90 (aluguel)
Vivo Play: R$ 11,90 (aluguel)

Safári

Resenha Crítica | Safári (2016)

Safari, de Ulrich Seidl

Antes de sua estreia no circuito comercial, o documentário “Safári” foi o título selecionado para a abertura da 7ª edição da Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental. Quem resistiu até o fim, testemunhou diversos espectadores se retirando da sala no curso da projeção. A razão: há imagens explícitas de animais sendo caçados, muitos morrendo diante das câmeras de Ulrich Seidl.

O cineasta austríaco de “Import Export” e da trilogia “Paradies” é mesmo adepto a uma controvérsia e agora está aqui em um registro de é tudo verdade. Daí tal recepção, pois são inúmeras as culturas que se posicionam contra a caça de animais apenas pelo lazer de ter as suas cabeças como troféus e Seidl está disposto a expor o lado mais perverso da prática.

O ambiente é um safári da África, em que turistas desembolsam quantias exorbitantes para a caça de búfalos, cervos, zebras, girafas, entre outros. Aqui, Seidl conseguiu a autorização para acompanhar caçadores vindos da Alemanha e Áustria, estabelecendo uma relação de neutralidade para assim conseguir a aproximação necessária para o filme.

Consegue assim acompanhar todo o ritual da caça, da seleção dos trajes corretos até a observação minuciosa do ambiente e o preparo da mira para acertar certeiramente os alvos. Com os animais dados como mortos, há a tradicional foto de comemoração e os flagras dos comentários que tentam justificar algo não categorizado pela lei como um crime.

É em muitos momentos de revirar o estômago, mas “Safári” se nega a ser cúmplice das atrocidades que testemunha para fazer um comentário sobre toda a questão hierárquica nesses safáris, expondo o caçador como um ser mais selvagem que a caça e que se visualiza no topo de uma cadeia social em que negros sobrevivem de suas diversões sujas. E pensar que o Brasil não está tão longe desse cenário com a possibilidade da autorização da caça de animais silvestres…

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Lançamento em streaming de “Safári”:
Disponível a partir do dia 15 de agosto
iTunes: R$ 19,90 (venda) | R$ 11,90 (aluguel)
Google Play: R$ 29,90 (venda) | R$ 9,90 (aluguel)
Now: R$ 14,90 (aluguel)
Vivo Play: R$ 11,90 (aluguel)

A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro

Resenha Crítica | A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro (2017)

A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro, de Leo Garcia e Zeca Brito

Produzido a partir de 1969, o semanário O Pasquim é uma das publicações alternativas mais discutidas durante a graduação em jornalismo. Não somente pela sua popularidade (em meados dos anos 1970, chegava a vender mais de 200 mil exemplares), mas por apresentar um conteúdo desafiador para a censura à época e permitir que os seus leitores discutissem temas polêmicos.

O descaso cometido por professores é a falta de crédito ao jornalista Tarso de Castro, que fundou O Pasquim com Jaguar, Sérgio Cabral e Ziraldo e outros veículos terminados em “im”, como o Folhetim e o Enfim. Pois a dupla de diretores Leo Garcia e Zeca Brito sentiu essa necessidade de resgate de uma figura fascinante, culminando na realização do ótimo documentário “A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro”.

Ao mesmo tempo em que era considerado um jornalista excepcional, Tarso de Castro conduzia a sua vida de modo boêmio. Colecionou amantes (incluindo até mesmo a atriz americana Candice Bergen), admiradores e desafetos. Também era teimoso quando a abandonar o alcoolismo, desviando de todas as investidas de amigos mais próximos em colocá-lo em reuniões dos Alcoólicos Anônimos.

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Entrevista com o diretor de “A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro” Zeca Brito:

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Muito além de apresentar uma trajetória quase completa dessa figura irreverente, o documentário é certeiro ao abandonar a formalidade da coleta de depoimentos, em que os entrevistados sentam diante de uma câmera para falas benevolentes. Aqui, o clima é o mesmo de uma boa conversa de bar, com amigos, colegas de trabalho e familiares relembrando com afetuosidade e sem meias palavras de um homem que partiu cedo demais e que seria decisivo para o jornalismo hoje praticado.

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Lançamento em streaming:
Disponível a partir do dia 19 de julho
iTunes: R$ 11,90 (Aluguel HD) | R$ 12,90 (Compra SD) |  R$ 19,90 (Compra HD)
Google Play: R$ 6,90 (Aluguel HD) | R$ 19,90 (Compra SD) | R$ 24,90 (Compra HD)
NET: R$ 14,90
Oi Play: R$ 12,90
Vivo Play: R$ 11,90

Resenha Crítica | Motorrad (2017)

Motorrad, de Vicente Amorim

O diretor nascido na Áustria e naturalizado no Brasil Vicente Amorim já contou de tudo um pouco no cinema. Debutou com “O Caminho das Nuvens” narrando a história de uma família que fez um trajeto de bicicleta da Paraíba ao Rio de Janeiro, fez estreia gringa com Viggo Mortensen à frente de “Um Homem Bom”, drama ambientado na segunda guerra mundial, encenou a condição de imigrantes japoneses no Brasil de 1945 em “Corações Sujos” e até a vida de Irmã Dulce levou para a tela grande.

Nada melhor do que seguir uma carreira artística sem se prender a gêneros ou estilos de narrativas, mas Vicente Amorim exige demais da nossa paciência em seu recente “Motorrad”, uma tentativa de terror estilizado de fazer um derivado de “Sexta-feira 13” ser a coisa mais consistente do mundo. Nada faz sentido em seu filme, despido totalmente de roteiro e lógica.

A realidade alternativa aqui apresentada é totalmente precária, ainda que oferte instalações para o funcionamento de wi-fi e recursos que permitam que as pessoas se desloquem de um ponto a outro com motocicletas. A gangue que conhecemos aqui é liderada por Ricardo (Emilio Dantas), mas o protagonista é Hugo (Guilherme Prates), o jovem irmão que tenta provar o quão destemido é para se juntar ao grupo.

A princípio, Hugo é flagrado roubando o ferro-velho de Paula (Carla Salle). Porém, ao invés de se vingar, a moça ajuda o rapaz e a sua trupe quando passam a ser atacados por um outro “coletivo” de motociclistas composto por mascarados sádicos e silenciosos. A razão para o ataque seria a fronteira que atravessam sem autorização para um banho em um riacho. A questão é que eles nada fazem além disso para serem penalizados de algum modo.

Com diálogos compostos mais por palavras chulas do que por alguma linha de raciocínio, “Motorrad” se arrasta por 92 minutos intermináveis amparados por uma estética que se pretende rebuscada, da concepção de personagens pensada pelo quadrinista Danilo Beyruth até a defesa de uma tonalidade particular de cores da fotografia de Gustavo Hadba que mais parece um filtro do Instagram. Um horror no pior sentido.

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+ Entrevista com o diretor e roteirista Vicente Amorim
+ Entrevista com a atriz Carla Salle
+ Entrevista com o quadrinista Danilo Beyruth

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Lançamento em streaming:
Disponível a partir do dia 26 de abril
iTunes: R$ 19,90 (Compra) | R$ 11,90 (VOD)
Google: R$ 29,90 (Compra) | R$ 9,90 (VOD)
Now: R$ 14,90 (VOD)

Resenha Crítica | Em Pedaços (2017)

Aus dem Nichts, de Fatih Akin

Célebre por “Contra a Parede” e “Do Outro Lado”, Fatih Akin e seu corroteirista Hark Bohm versam no thriller “Em Pedaços” com algo bem recorrente no dito racional século XXI: as tensões e efetivações de crimes que partem a partir de questões raciais e religiosas. A Alemanha aqui apresentada é aquela que ainda tem os resquícios de uma nação que fecundou uma das maiores atrocidades da história humana em menos de um século atrás.

Katja (Diane Kruger) teve uma juventude marcada pelo consumo de drogas pesadas, ironicamente recuperando o controle de si mesma ao se casar com o seu fornecedor, o curdo de origem turca Nuri (Numan Acar). A união se dá quando ele ainda cumpre pena na prisão. Quando liberado, Katja e Nuri concebem Rocco (Rafael Santana), estabelecendo assim uma família que superou as manchas do passado.

Em um dia qualquer, Katja deixa Rocco com Nuri no escritório em que ele trabalha para passar um período com a sua irmã grávida Birgit (Samia Muriel Chancrin) em um spa. Ao sair de lá, depara-se com uma fatalidade que arruína com toda a sua vida. Deduz que o seu marido e filho foram vítimas de um ataque promovido por um movimento neonazista, suspeita logo confirmada pelas autoridades.

A partir disso, fica evidente a escolha de Fatih Akin em carregar com tintas dramáticas a narrativa de “Em Pedaços” pelo modo como enfatiza a divisão em três atos de sua história com os capítulos “A Família”, “Justiça” e “O Mar”. Porém, soam injustas as críticas que recebeu desde a primeira exibição de seu filme, que trataram de equivocadamente afirmar essa organização do texto como um recurso de manipular o público à moda de um thriller americano típico.

Isso não procede porque Akin gerencia com franqueza os estágios do luto atravessado por Katja, em um misto de descrença e determinação, de desmotivação ao seguir com a vida quando nada parece se elucidar e de controle emocional quando a justiça se impõe, independente do modo como se efetiva. E só engrandece o seu filme o fato de confiá-lo inteiramente à Diane Kruger, vencedora incontestável do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes 2017.

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Lançamento em streaming:
Disponível a partir do dia 26 de abril
iTunes: R$ 19,90 (Compra) | R$ 11,90 (VOD)
Google: R$ 29,90 (Compra) | R$ 9,90 (VOD)
Now: R$ 14,90 (VOD)

Resenha Crítica | A Noiva do Deserto (2017)

La novia del desierto, de Cecilia Atán e Valeria Pivato

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Mesmo agregando créditos desde 1984, quando debutou na tevê, a chilena Paulina García demorou quase 30 anos para se tornar um atriz reconhecido mundialmente, graças à repercussão do formidável “Gloria“, filme pelo qual foi premiada no Festival de Berlim pela sua interpretação e que agora está prestes a receber uma refilmagem dirigida pelo próprio Sebastián Lelio e protagonizada por Julianne Moore. Hoje, o seu nome é item de interesse comercial, como demostra o cartaz e a possibilidade de lançamento comercial no Brasil de “A Noiva do Deserto”.

Aqui, Paulina García vive Teresa, uma mulher com 54 anos desorientada com a recente demissão. Por um longo tempo, trabalhou como doméstica em uma bela e grande residência em Buenos Aires. Por isso mesmo, aceita um serviço para auxiliar na preparação de um casamento que acontecerá em uma cidade do interior, forçando-a a apanhar um ônibus de viagem para se deslocar.

As coisas começam a sair fora do planejado quando o tal veículo interrompe o trajeto após apresentar um problema, obrigando Teresa a permanecer por horas a fio em um vilarejo popular pelo seu santuário. É nesse ambiente que conhece Gringo (Claudio Rissi), vendedor ambulante que vai passando de um mero desconhecido a um homem que atrai o interesse de Teresa quando esta esquece a sua bolsa no trailer dele.

Guardadas as devidas proporções, “A Noiva do Deserto” lembra demais o brasileiro “Pela Janela“, em que Magali Biff também se via sem chão ao perder o emprego com uma idade já avançada. E bem como a cineasta Caroline Leone, a dupla Cecilia Atán e Valeria Pivato tenta buscar na singeleza um peso dramático que inexiste. Resta assim apreciar por menos de 80 minutos a inestimável presença de Paulina García, que faz milagre com uma narrativa nada cinematográfica.

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Lançamento em streaming:
Disponível a partir do dia 21 de junho
iTunes: R$ 19,90 (Compra) | R$ 11,90 (VOD)
Google: R$ 29,90 (Compra) | R$ 9,90 (VOD)
Now: R$ 14,90 (VOD)
VivoPlay: R$ 11,90 (VOD)

Resenha Crítica | 120 Batimentos por Minuto (2017)

120 battements par minute, de Robin Campillo

Nos anos 1980, quando a AIDS estava em seu ápice, foram poucos os realizadores que se arriscaram a retratar a questão como um tema central ou importante no cinema. Na França de 1988, Paul Vecchiali foi o primeiro a abordá-la em seu “Uma Vez Mais”, sendo alvo de controvérsias assim que o exibiu em competição no Festival de Veneza, conforme relatou nesta entrevista concedida para o Cine Resenhas.

Três década se passaram e agora esse período histórico é resgatado com maior frequência, seja na ficção ou no documentário. Sintoma de uma sensibilidade coletiva, nem sempre apta em encarar temas atuais no momento em que se transcorrem.

Pois “120 Batimentos por Minuto”, que tentou sem sorte representar a França na última corrida do Oscar, trata exatamente como as autoridades, a indústria farmacêutica e a própria sociedade agiram com indiferença com o grupo contaminado pelo vírus HIV. Se o silêncio não predominou, era porque os ativistas do ACT UP fizeram verdadeiras manifestações entre o fim dos anos 1980 e o início dos anos 1990, com muitos de seus integrantes em estado crítico de saúde.

Responsável por “Eastern Boys”, o diretor e roteirista tem plena autoridade do registro de um contexto do qual testemunhou de perto. Há principalmente um bom domínio da dinâmica como se resolve as reuniões entre os personagens, da defesa de discursos à ovação desses a partir de estalos de dedos.

O senão está na encenação com pegada quase documental e na estranheza da transição forçada para a sua narrativa ganhar um teor mais humanizado, possível somente com a adoção de Sean (o notável Nahuel Pérez Biscayart, de “Grand Central“) como a figura central do filme. Uma escolha tardia e que alonga “120 Batimentos por Minuto” mais do que o necessário, mas que ainda assim não o impossibilita de sensibilizar a plateia a partir do foco em uma comunidade que só recentemente passou a ganhar visibilidade.

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Lançamento em streaming:
Disponível a partir do dia 5 de abril
 | NOW (R$14,90) | VIVO PLAY (R$ 11,90) | Google Play (R$9,90) | YouTube (R$9,90) | iTunes (R$11,90)

Resenha Crítica | Era o Hotel Cambridge (2016)

Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Fundado em 1950, com 15 andares e mais de 100 apartamentos, o Cambridge Hotel foi somente um dos vários endereços para hospedagens em São Paulo que foram perdendo o apelo com o avanço do tempo e da urbanização. Desprestigiado, encerrou as suas atividades em 2004, com apenas o bar localizado em seu andar térreo em funcionamento.

O destino do endereço é encenado por Eliane Caffé em “Era o Hotel Cambridge”, em que exibe, com câmeras quase documentais, um sem número de famílias tomando os espaços do edifício, inutilizado mesmo com o decreto em 2010 do então prefeito Gilberto Kassab que o categorizou como imóvel de interesse social. Ao longo de uma hora e meia, acompanhamos esses indivíduos de baixa renda ou refugiados de outros países na tensão diária de habitar uma área em que a qualquer momento podem ser chutados pelas autoridades.

Para dar veracidade ao registro, Caffé faz uma escalação de elenco que contempla desde veteranos como José Dumont e Suely Franco até atores não-profissionais, borrando ainda mais os limites entre a ficção e a realidade. Também estabelece contrapontos entre as encenações artísticas que tomam o cenário com a mobilização popular liderada pela FLM (Frente de Luta pela Moradia).

Mesmo com esse tom quase experimental, a sensação que “Era o Hotel Cambridge” provoca ao final é que os seus derradeiros minutos soam mais fortes do que todos os esforços de Caffé em igualar a realidade do contexto. Há bons flagras, como aqueles em que os refugiados conversam com os seus familiares distantes por Skype ou quando a personagem interpretada pela ativista Carmen Silva condiciona pessoas brandando “entra para a casa de vocês!” durante uma invasão noturna. Mas nada igualmente catártico quanto as imagens autênticas de manifestações e de prédios apropriados com faixas de inúmeros movimentos pela moradia.

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Lançamento em streaming:
Disponível a partir do dia 15 de março | 
Google Play (Venda: R$19,90 – Aluguel: R$11,90) | iTunes (Venda: R$19,90 – Aluguel: R$11,90)

Resenha Crítica | Corpo Elétrico (2017)

Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano

Mais um cineasta debutando na direção de longa-metragem, Marcelo Caetano é um novo nome a surgir no cinema brasileiro desprendido da narrativa convencional. Em “Corpo Elétrico”, o roteiro se apresenta mais solto, em que o seu desenvolvimento é determinado mais pelas experiências de seu jovem protagonista do que necessariamente pela imposição de um conflito e o clamor por resoluções favoráveis.

Vindo de João Pessoa, Elias (o estreante Kelner Macêdo) é acompanhado já com a vida estabilizada em São Paulo, com o seu cotidiano resumido em duas ocupações. A primeira é como assistente em uma fábrica de vestuários localizada em Bom Retiro. A segunda já nada está ligada ao emprego que lhe dá renda: aproveitar o tempo livre investindo em encontros casuais com outros homens.

Entre a interação com os colegas de trabalho e o sexo, Marcelo Caetano vai pincelando um retrato de uma juventude em busca de alguma liberdade dentro de uma realidade em que os nossos esforços são priorizados para a operação de uma atividade que assegura um teto e as contas pagas. Se Elias é um rapaz pleno, é porque está ciente dessa condição, mas não quer tratar o que realmente o energiza como uma exceção.

A ausência de impasse, que só é suprida brevemente no clímax, não impede que “Corpo Elétrico” esteja contando uma história, muitas vezes traduzida em momentos muito bonitos na tela, como aquele em que Elias e os seus colegas de trabalho caminham pela noite após o fim do expediente, com várias interações particulares se materializando diante do plano. Uma fluidez com méritos que também devem ser depositados na conta de Hilton Lacerda (diretor de “Tatuagem” aqui contribuindo no roteiro) e principalmente pelo carisma de  Kelner Macêdo, com potencial de seguir uma carreira tão promissora quanto a de Jesuíta Barbosa.

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+ Entrevista com o diretor e roteirista Marcelo Caetano
+ Entrevista com o ator Kelner Macêdo

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Lançamento em streaming:
Disponível a partir do dia 8 de março | 
Google Play (Venda: R$19,90 – Aluguel: R$6,90) | iTunes (Venda: R$19,90 – Aluguel: R$11,90)