Obsessão (Greta)

Resenha Crítica | Obsessão (2018)

Greta, de Neil Jordan

Com poucas interpretações no cinema em que fala em inglês dentro de um currículo com mais de 120 créditos, Isabelle Huppert voltou a despertar a atenção dos realizadores autorais fora da Europa com a sua indicação ao Oscar de Melhor Atriz por “Elle“. “Obsessão” foi um dos primeiros projetos que logo se apresentaram enquanto coletava os louros pelo filme provocador de Paul Verhoeven (por ele, ganhou o Globo de Ouro, o Independent Spirit Awards, o César, entre muitos outros). Irlandês responsável por filmes como “Traídos Pelo Desejo” e “Entrevista com o Vampiro”, Neil Jordan é dono de um universo sombrio que de algum modo encontra correspondência com a face obscura da maior atriz francesa da história.

Em “Obsessão”, Huppert incorpora uma vilã de modo frontal, não havendo muita dubiedade em relação ao seu comportamento homicida. Em uma das inúmeras cenas icônicas, a sua Greta dança na ponta dos pés após disparar contra um investigador desavisado. Na minha favorita, a sua Greta Hideg cospe uma goma de mascar nos cabelos de Frances McCullen (Chloë Grace Moretz) quando se sente contrariada.

No entanto, é preciso afirmar que o filme não seria tão divertido sem a veterana. Caso outra atriz fosse escalada, é certo que o texto se confundiria ainda mais com o filão oitentista/noventista de protagonistas obcecados por mocinhos bem-intencionados. Huppert eleva as coisas em “Obsessão”, mas Jordan às vezes parece retraído em levar as coisas até as últimas consequências da bizarrice com o propósito de não comprometer o potencial comercial de seu suspense, que não fez muito bonito nas bilheterias.

A seguir, assista ao comentário na íntegra sobre “Obsessão” feito com exclusividade para o canal do Cine Resenhas no YouTube:

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Jovens Bruxas

Resenha Crítica | Revisitando Jovens Bruxas (1996), de Andrew Fleming

The Craft, de Andrew Fleming

Há um pouco mais de 23 anos, chegava aos cinemas americanos “Jovens Bruxas”, um sucesso formado muito mais pelo boca a boca com o seu lançamento em VHS nas locadoras e menos pelo êxito comercial no circuito. Ainda que a renda de 25 milhões não fez feio diante de um orçamento de 15 milhões, a classificação R impediu que a realização de Andrew Fleming fosse um estouro instantâneo, uma vez que o seu público-alvo, os adolescentes, não poderia vê-lo na tela grande desacompanhado dos adultos. Algo parecido aconteceu com a comédia “Romy e Michele”, que compartilha com “Jovens Bruxas” o status de obra de culto oriunda dos anos 1990.

Teen horror pré-“Pânico” (e ainda com Neve Campbell e Skeet Ulrich escalados), “Jovens Bruxas” não esconde ser um produto de sua época, mas resistiu às gerações seguintes sem soar datado. Traz quatro garotas em seu centro com tormentos internos identificáveis e ainda apresenta um ponto de virada relevante ao pontuar a questão de mudança de personalidade quando o humilhado assume a cobiçada posição de poder sobre os demais. Fleming tem uma filmografia irregular (“Sono Mortal” e “Até que os Parentes nos Separem” são fracos de doer), mas pode se orgulhar de ter uma carreira com ao menos duas obras notáveis: “Três Formas de Amar”, produzido dois anos antes e um registro muito franco sobre as dúvidas que nos sucumbem no florescer sexual, e, claro, o aqui destacado “Jovens Bruxas”, que recebeu neste ano o sinal verde para ganhar um remake, a ser escrito e dirigido por Zoe Lister-Jones.

Pode dar certo, mas é melhor não trocar o certo pelo duvidoso e assim (re)ver “Jovens Bruxas”, adicionado em agosto no catálogo da Netflix. Abaixo, a minha breve análise revisitando a produção.

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Dilema (What/If)

Resenha Crítica | Dilema (2019)

What/If, criada por Mike Kelley e dirigida por Phillip Noyce e outrxs

Revelada ao mundo em “Jerry Maguire: A Grande Virada”, Renée Zellweger traçou uma carreira brilhante em Hollywood, culminando em três indicações ao Oscar (venceu uma vez), seis ao Globo de Ouro (levou três estatuetas), um dos mais altos salários e o reconhecimento como uma das grandes atrizes mundiais no início deste jovem século. Justo: o envolvimento em projetos como “A Enfermeira Betty”, “O Diário de Bridget Jones”, “Deixe-me Viver”, “Chicago”, “Abaixo o Amor” e “Cold Mountain” era mesmo resultado de escolhas muito bem feitas em um curto espaço de tempo, no qual a texana (que muitos ainda hoje pensam ser britânica pelo sotaque impecável testemunhado como Bridget Jones) foi revelando um sem número de facetas, como uma doçura singular que desperta na gente uma empatia imediata até uma malícia que não parecia existir em uma mulher de rosto tão angelical.

De uma hora para a outra, Renée desapareceu. Seria aquele preconceito avassalador de Hollywood com mulheres que atingem os 40 anos? Ou o cansaço de ter os seus passos em muitas ocasiões ditados pelo produtor Harvey Weinstein, que hoje se revela a principal razão de existência do #MeToo? Talvez seja também o fato de ter ficado praticamente irreconhecível com as intervenções faciais, notadas a partir do terror “Caso 39” e agravadas em “Versões de Um Crime“, um retorno mal-sucedido como atriz após um hiato de seis anos.

Pode ser tudo isso junto. Mas a verdade é que a série “Dilema”, disponível na Netflix desde 24 de maio, sinaliza uma nova tentativa de comeback. Talvez seja preciso aguardar por uma volta por cima em “Judy”, em que interpreta o ícone Judy Garland – a estreia vai acontecer em setembro, mês em que é dada a largada para a temporada de premiações. Mesmo que viva deliciosamente a sua primeira personagem com veias vilanescas expostas já em sua primeira aparição na tela, Renée não é capaz de salvar um novelão de péssima categoria, ainda mais canhestro que outra cria de Mike Kelley, “Revenge”. A princípio sugerindo uma conexão com “Proposta Indecente”, a narrativa de “Dilema” vai enveredando por caminhos bem diferentes, em que um núcleo de personagens ligados à protagonista de Jane Levy, uma jovem cientista idealista, se verá lidando com consequências pesadas a partir de escolhas do passado, seja ele passado ou presente.

Em um vídeo feito com exclusividade para o canal do Cine Resenhas no YouTube, abordo mais a sinopse de “Dilema” e as razões desta ser mais uma produção Original Netflix a frustrar as nossas expectativas.

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O Peso do Passado

Resenha Crítica | O Peso do Passado (2018)

Destroyer, de Karyn Kusama

Com 52 anos que serão completados em junho deste ano, Nicole Kidman segue como uma das mais respeitadas e belas atrizes em atividade no cinema. Essas e outras credenciais não a impedem de sempre sair de uma zona de conforto, submetendo a si mesma para encarar papéis desafiadores em que é transformada radicalmente.

Brincadeiras à parte com o uso variado de perucas, Nicole compreende a necessidade de um intérprete de deixar o glamour de lado para que o seu corpo seja um instrumento temporário para abrigar um papel. Como Erin Bell, a protagonista de “O Peso do Passado”, a atriz passa por uma mudança de aparência talvez ainda mais radical do que aquelas experimentadas em projetos como “As Horas” (pelo qual venceu o Oscar) e “Top of the Lake: China Girl”, no qual tem um papel secundário.

É a melhor coisa ofertada no novo filme de Karyn Kusama. Ainda que seja acima da média, o modo como as resoluções são pregadas em sua trama de mistério enfraquece as razões pelas quais a sua protagonista alcançou um estado degradante, que age quase como uma abutre que não sabe mais o que fazer da vida até que um crime a reconecta com o seu passado nebuloso.

“O Peso do Passado” ganha comentário na íntegra feito com exclusividade para o canal do Cine Resenhas no YouTube. Assista-o a seguir e não se esqueça de se inscrever para ter acesso às futuras atualizações.

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Halloween 2018

Resenha Crítica | Halloween (2018)

Após o prólogo de “Halloween: Ressurreição”, era esperado que jamais voltaríamos a ver Jamie Lee Curtis reprisando o papel de Laurie Strode, personagem pelo qual deve a sua carreira. Pois após o fiasco do oitavo episódio da franquia e a refilmagem de Rob Zombie acompanhada por uma sequência, David Gordon Green e Danny McBride (mais conhecido pelos seus papéis cômicos) tiveram a ideia de fazer um novo filme comemorando os 40 anos do original.

A pretensão foi a de desconsiderar toda a franquia “Halloween”, elaborando um “universo paralelo” em que todos os eventos estão diretamente ligados somente ao filme de 1978 realizado por John Carpenter, que aqui volta como compositor e produtor executivo. David Gordon Green acha que está fazendo algo que os fãs aguardam por quatro décadas, mas não é bem assim.

O “Halloween” 2018 é competente, muitas vezes aterrador e encena em seu terceiro ato um embate memorável. Mas é também um filme desprovido de ousadias, uma vez que não acrescenta quase nada de novo a esse reencontro entre Laurie e o vilão mascarado Michael Myers. Você pode saber mais a respeito assistindo ao vídeo comentário a seguir.

 

A Casa que Jack Construiu

Resenha Crítica | A Casa Que Jack Construiu (2018)

The House That Jack Built, de Lars von Trier

.:: 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Mesmo que o seu retorno ao Festival de Cannes tenha se dado fora de competição, Lars von Trier  ainda assim causou controvérsia. Há sete anos, o diretor dinamarquês promoveu “Melancolia” e recebeu o título de persona non grata por uma piada de mau gosto envolvendo as suas raízes alemãs. Neste ano, o que causou desconforto foram algumas cenas de “A Casa de Jack Construiu”, que levou dezenas (ou centenas, como visto nas manchetes) a abandonarem a sua première.

A recepção pode ser reprisada nas exibições dentro da 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, como também em seu lançamento comercial na capital em 1º de novembro. Foi o título que pareceu ideal inclusive para inaugurar no canal do Cine Resenhas no YouTube a categoria Filmes Controversos, como pode ser assistido abaixo.

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Um Pequeno Favor

Resenha Crítica | Um Pequeno Favor (2018)

A Simple Favor, de Paul Feig

Como livro, “Um Pequeno Favor”, da estreante Darcey Bell, parece um neo noir bem influenciado por todos os thrillers citados pelas personagens ao longo da narrativa, de um Hitchcock como “Pacto Sinistro” até a obra-prima francesa de Henri-Georges Clouzot “As Diabólicas” – ainda que o desenrolar esteja mais para um “Diabolique”, a refilmagem americana. Como cinema, “Um Pequeno Favor” mais parece uma comédia debochada, algo esperado da assinatura de Paul Feig.

É possível transformar em algo colorido um material que em sua origem é quase todo obscuro? Pois a resposta é sim, como aponto em minha análise feita com exclusividade para a seção Literatura & Cinema, no canal do Cine Resenhas no YouTube. Ela está disponível no vídeo a seguir.

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Um Pequeno Favor

Darcey Bell (Tradução: Ana Carolina Mesquita)

Bertrand Brasil

Páginas: 336

 

 

 

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Objetos Cortantes

Resenha Crítica | Objetos Cortantes (2018)

Sharp Objects, criada por Marti Noxon e dirigida por Jean-Marc Vallée

O cineasta canadense Jean-Marc Vallée mal tinha terminado de recolher os louros de “Big Little Lies” e já era flagrado nos bastidores dirigindo Amy Adams na adaptação de “Objetos Cortantes”, também da HBO. A agenda o impossibilitou de conduzir a segunda temporada da atração com Nicole Kidman e Reese Witherspoon, mas o sacrifício foi válido.

O romance de estreia de Gillian Flynn (a mesma de “Garota Exemplar” e “Lugares Escuros”) ganha excelente tratamento aqui. O texto enxuto (250 páginas) virou uma minissérie de oito capítulos extremamente consistentes e que desenvolvem sem pressa a conturbada relação de uma família composta por três gerações de mulheres envolta a um mistério envolvendo o homicídio de duas garotas que pode ser obra de um assassino em série em formação.

O resultado é excelente e tive a honra de contar com a minha amiga Graciela Paciência para compartilhar as suas impressões sobre o livro e a sua versão para a tevê. E vale agradecer a sua cumplicidade na parceria, pois tivemos muitas dificuldades de encontrar uma “locação” para a gravação, que foi feita no Parque Trianon em uma tarde de terça-feira.

Por sinal, acompanhe a Graci nos seguintes espaços:

Cinema de Buteco
Lado M
Audiograma
• Livro “Confissões de Uma Adolescente Grávida

Literatura & Cinema | Baseado em Fatos Reais | Delphine de Vigan & Roman Polanski

D’après une histoire vraie, de Roman Polanski

Presente na Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2017, o novo filme de Roman Polanski vem a ser uma adaptação conjunta com Olivier Assayas do romance “Baseado em Fatos Reais”, escrito por Delphine de Vigan. Fascinante, o texto da escritora francesa estabelece com o seu leitor um jogo em que fatos reais e imaginários se confundem, permitindo um mergulho muito curioso ao universo criativo de um escritor, capaz dos subterfúgios inesperados para vender a sua história.

Já em sua forma cinematográfica, esse jogo do que é verdade ou não parece se perder, devendo em dubiedade e até mesmo na tradução de mídias, pois Polanski, um cineasta notável, pouco faz em manter com recursos audiovisuais o que de Vigan pôde confundir tão bem em sua encarnação literária. É um dos aspectos dessa edição inaugural da seção Literatura & Cinema, feita com exclusividade para o canal do Cine Resenhas no YouTube e com a qual conto com a participação ilustre de Paula C. Ferraz, uma das nossas assessoras mais queridas. À frente da Sinny Assessoria, foi Paula inclusive quem me introduziu ao romance antes do lançamento de sua adaptação nos cinemas.

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Baseado em Fatos Reais

Delphine de Vigan (Tradução: Carolina Selvatici)

Editora Intrínseca

Páginas: 256

Resenha Crítica | A Maldição na Casa Winchester (2018)

Winchester, de Michael e Peter Spierig

Situada em San Jose, na Califórnia, a mansão Winchester apresenta uma anatomia que todos dizem ter nem pé e cabeça. Em seus 160 cômodos, há saídas falsas, quartos sem janelas, escadas que acabam no teto, corredores sem saída e por aí vai. Tudo exigência de sua herdeira, Sarah Winchester, que fez com que a propriedade estivesse em constante mutação nos últimos 38 anos de sua existência. A razão? Sarah acreditava que todas as almas das pessoas mortas pelas armas Winchester iam ao seu encontro para aterrorizá-la?

Loucura ou manifestação do sobrenatural? Os irmãos Michael e Peter Spierig acreditam piamente na segunda possibilidade, conforme demonstram em “A Maldição da Casa Winchester”. A entrega de um bom terror, no entanto, ficou só na promessa. As razões você pode conhecer na análise feita com exclusividade para o canal do Cine Resenhas no YouTube, em que é dada continuidade à seção Histórias Reais.

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