Resenha Crítica: Antena da Raça (2020), de Luís Abramo e Paloma Rocha

Transmitido de fevereiro de 1979 a maio de 1980, o programa “Abertura” teve repercussão mesmo ganhando o mundo em um período em que a TV Tupi caminhava para o seu fim. Em seu ápice, atingiu 15 pontos de audiência.

Razão disso foi o seu diálogo franco sobre política em um contexto em que o Brasil ainda vivia sob o regime militar. Além de uma série de personalidades, o programa também continha pautas em que a voz do público era expressa.

Um dos nomes mais inusitados presentes na equipe foi do cineasta Glauber Rocha. Filha do maior expoente do Cinema Novo, Paloma Rocha, em parceria com Luís Abramo, se aproveitou do restauro do material para a feitura do documentário “Antena da Raça”, selecionado para ser o filme de encerramento do 9º Olhar de Cinema.

A dupla de cineastas preferiu não fazer um registro convencional, no sentido de produzir intervenções que reafirmassem a importância do programa. Elas vão de paralelos do material de arquivo com trechos de filmes de Glauber Rocha com a coleta de novos depoimentos.

O resultado final ainda assim não entusiasma, especialmente por decisões equivocadas quanto ao aproveitamento ou escalação de nomes convidados. Caetano Veloso e Zé Celso são destacados enquanto Helena Ignez é emudecida. E é sério que os documentaristas não tinham cogitado alguém mais adequado que José Dirceu para discursar sobre o cenário político que se desenhou desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff? ★★

5 bons curtas-metragens brasileiros vistos no 9º Olhar de Cinema

Chão de Rua, de Tomás von der Osten
Montador de um dos títulos também presentes na programação do 9º Olhar de Cinema, “A Mulher que Sou”, Tomás von der Osten comprova com “Chão de Rua” ter uma visão muito singular para desenhar com a construção ou a organização de imagens alguns dados que nem sempre são explicitados pela dramaturgia econômica de um curta-metragem. Embora a sua obra se desenvolva a partir do reencontro entre os meios-irmãos Alberto e Valéria durante uma única noite, os gestos sutis (como as mãos que apalpam um chão em que estão sepultadas memórias da infância) e os corpos em movimento na penumbra sugerem as razões de distanciamento entre os protagonistas. ★★★★

Noite de Seresta, de Muniz Filho e Sávio Fernandes
Codiretor, Sávio Fernandes já tinha provado a sua ótima mão para o humor com a direção de outros dois curtas, “Who’s the Man?” (2017) e “Tommy Brilho” (2018). Além de uma energia contagiante em suas performances de karaokê, Kátia, o alvo central de “Noite de Seresta”, é também carregada de descontração ao falar de si em contextos mais mundanos de sua vida e ainda se permite a protagonizar algumas brincadeiras visuais, como se estivesse inserida em um videoclipe brega. Um filme tão vibrante quando a sua personagem. ★★★

Seremos Ouvidas, de Larissa Nepomuceno
Se acessibilidade no cinema é algo que está longe de ser resolvido, pior é a ausência de registros que dão protagonismo para personagens, reais ou ficcionais, que apresentam alguma deficiência. Larissa Nepomuceno traz à tona algo que muitas pessoas provavelmente nunca refletiram em seus pensamentos: os entraves que mulheres mudas atravessam ao reportar episódios de assédio dos quais foram vítimas. Registro urgente que merece ter o seu acesso ampliado após sua trajetória por festivais. ★★★

Os Últimos Românticos do Mundo, de Henrique Arruda
Diretor do bom “Ainda Não lhe Fiz Uma Canção de Amor” (2015), Henrique Arruda faz uma celebração ao amor livre com uma história com toques de ficção científica, a música como personagem importante, muitas citações pop (a exemplo de “Thelma & Louise”) e uma atmosfera estilizada obtida pela fotografia de Breno César. Chega até a lembrar bastante “San Junipero”, um dos episódios mais queridos de “Black Mirror”, mas com uma brasilidade que o torna único. ★★★

Enraizadas, de Gabriele Roza e Juliana Nascimento
Leusa Araujo publicou em 2012 o “Livro do Cabelo”, um registro ilustrado muito curioso sobre como o cabelo é uma abordagem importante para investigar os costumes preservados por séculos por um sem número de comunidades que constituem a sociedade que hoje vivemos. Singelo, o curta “Enraizadas”, da dupla Gabriele Roza e Juliana Nascimento, consegue expressar em poucos minutos como os trançados sustentados por mulheres e homens pretos são um símbolo indispensável de resistência. ★★★

Resenha Crítica: Na Cabine de Exibição (2019), de Ra’anan Alexandrowicz

Incrível diagnosticar como a polarização política atravessada pelo Brasil nos últimos 10 anos tem contaminado inclusive o fazer artístico. Hoje em dia, até um filme pode ser tachado como “de esquerda” ou “de direita” – lembram da briga entre “Aquarius” e “Pequeno Segredo” na disputa entre ambos para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar 2017?

Embora o documentarista Ra’anan Alexandrowicz seja israelense e faça uma obra coproduzida por americanos, “Na Cabine de Exibição” é perfeito para nós em debates sobre perspectivas de mundo, o poder do convencimento e como discursos podem ser impenetráveis em mentes inflexíveis quanto aquilo que acreditam, mesmo com imagens que tentam convencê-las do oposto.

Neste experimento, Alexandrowicz escalou algumas pessoas para descrever em voz alta as suas impressões sobre os intermináveis conflitos entre Israel e Palestina concentrados em registros amadores projetados em uma cabine privada. Maia Levi foi convocada meses depois para voltar, pois foi a única a defender opiniões que iam de encontro às certezas do diretor.

Entre risos nervosos e questionamentos sobre a veracidade de cenas dominadas pela violência, Maia se revela aqui uma representação perfeita de como a audiência hoje em dia se comporta diante de manifestos audiovisuais.

São tempos difíceis e os narradores visuais parecem desarmados ao fazer com que os seus discursos sejam comprados fora de suas bolhas. ★★★

Resenha Crítica: Pajeú (2020), de Pedro Diógenes

Pedro Diógenes foi um dos nomes principais do coletivo Alumbramento, em muito inspirado pelo tom anárquico do cinema de invenção para promover uma série de experimentos estéticos e narrativos. Feito para audiências bem específicas, decretou o seu fim com “O Último Trago”, produzido em 2016 e lançado comercialmente apenas em 2019.

Com o afável “Inferninho”, Diógenes parecia ter se reinventado como cineasta, sem que para isso tivesse traído em nenhum momento as raízes que o notabilizaram. Avançou algumas casas apenas para voltar para o início do tabuleiro com o enfadonho “Pajeú”.

Interpretada por Fatima Muniz, a protagonista Maristela é simplesmente jogada nesta história com uma série de preocupações ecológicas que se dão mais por sonhos e consequentes reações de seu corpo a eles e muito menos por uma bagagem de vida que nos faça comprar a causa que ela passa a defender.

Professora, ela se vê empenhada em conscientizar anônimos de seu entorno a se preocupar com o riacho Pajeú, antes berço de Fortaleza e de aldeias indígenas e hoje uma correnteza de lixo.

Há circunstâncias aqui em que parecemos assistir a uma peça de propaganda de uma organização não governamental, com Maristela até mesmo ensaiando o papel de agente acompanhada por uma câmera quase documental com questionamentos sobre a existência para jovens em uma praia. ★

Resenha Crítica: Trouble (2019), de Mariah Garnett

Com traços andrógenos, Mariah Garnett usa da linguagem audiovisual para fazer os seus experimentos artísticos, mas é a primeira vez em que abraça o formato documental em longa-metragem com uma proposta mais linear para assim ampliar o seu campo de possibilidades com a entrada pelo circuito de festivais.

Mas, como o próprio título sugere, o seu foco aqui poderia acarretar em uma longa exposição de conflitos de identidade. Afinal, “Trouble” apresenta como fio condutor a curiosidade de Garnett, encostando os 40 anos, em investigar a história de vida de seu pai David, ausente em quase toda a sua vida e do qual descobre indícios de seu passado a partir de uma aparição dele em um documentário televisivo produzido em 1971.

Vem aí mais uma serventia do título para a obra, que também alude ao conflito na Irlanda do Norte, período em que David era um jovem protestante em um relacionamento com uma garota católica: uniões inter-religiosas eram proibidas naquele contexto. Entre as consequências, houve o rompimento não apenas com o país, mas também com familiares e amigos.

O documentário parece perder as suas características pessoais para compreender, com olhos estrangeiros, que fim deu um território que superou o seu período de fundamentalismos extremos, o que faz o espectador ficar um tanto disperso em seus rumos e intenções. Além do mais, Mariah Garnett, que tem claro perfil introspectivo, não parece confortável em sua própria escolha de dublar para a câmera os depoimentos em áudio de David. ★★

Resenha Crítica: Nardjes A. (2020), de Karim Aïnouz

Ao mesmo tempo em que exibia “A Vida Invisível”, talvez a sua ficção de maior êxito comercial, Karim Aïnouz também teve os seus pensamentos ocupados com a produção de dois documentários com forte teor político que faziam paralelamente o circuito dos festivais de cinema.

Lançado nas plataformas digitais do Brasil no início da pandemia, “Aeroporto Central” acompanhava imigrantes refugiados na Alemanha incertos quanto ao destino. Tem também caráter de denúncia o seu mais recente “Nardjes A.”, que acompanha a personagem-título em um período de 24 horas pelas ruas tomadas por protestos na Argélia.

A data da gravação do documentário se deu em 8 de março de 2019. Poucas semanas depois, viria a queda do presidente Abdelaziz Bouteflik, figura central do golpe militar na Argélia nos anos 1960 e que ocupou por anos a liderança do pais sob escândalos de repressão, fraudes nas urnas e corrupção.

O suporte digital autoriza Karim Aïnouz a caminhar com liberdade pelas ruas povoadas, bem como a captar nuances tendo Nardjes como o seu fio condutor. Por outro lado, o projeto, que partiu do interesse pessoal do realizador em se conectar com as suas raízes paternas, tardou na escolha do momento ideal para captar as tensões argelinas.

Nardjes é flagrada em várias circunstâncias preocupada com os seus colegas de ativismo, mas nada realmente ameaçador é explicitado. Também é abordada as abdicações pessoais que faz em prol das manifestações, mas isso não soa tão significativo quando o seu dia é concluído em celebração em um bar. A luta continua, embora “Nardjes A.” não seja tão incisivo ao documentar isso. ★★

Eliane Coster, Meio Irmão

Entrevista com Eliane Coster, diretora de “Meio Irmão”

Além da carreira como fotógrafa, Eliane Coster é uma curtametragista veterana, tendo debutado na função em 1995 com “Instruções Para Dar Corda no Relógio”. A oportunidade para trabalhar com o formato de ficção em longa-metragem, no entanto, é mais recente. Tendo ganhado os festivais em 2018, “Meio Irmão” somou elogios e prêmios. Na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, por exemplo, recebeu o Prêmio Petrobras de Cinema e o Prêmio Abbracine, além de finalista ao Troféu Bandeira Paulista.

Agora em cartaz, “Meio Irmão” é uma ótima contribuição do cinema dramático aqui produzido para compreender a atual geração jovem, no qual a cineasta aponta ter uma “perspectiva curta de futuro” por certa invisibilidade de organismos que formam a sociedade. É um dos aspectos aprofundados na entrevista a seguir, concedida por e-mail pela diretora e roteirista.

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+ Entrevista com Natalia Molina, atriz de “Meio Irmão”

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“Meio Irmão” versa principalmente sobre uma geração que parece estagnada em um contexto em que não é assistida por adultos ou que encontra barreiras para mostrar quem verdadeiramente é. Como foi o seu processo de investigação dessa juventude que retrata?

Eu comecei observando o comportamento da minha própria filha, que tinha 13 anos quando eu estava fazendo o roteiro. Depois eu fui a campo para fazer entrevista com jovens da periferia que trabalhavam no centro de São Paulo em lojas em sua maioria. Conversei bastante e entendi que eles tinham um horizonte muito curto de futuro. Eles achavam que a sociedade, ou seja, políticos, governo, instituições como escolas, justiça, polícia, não os enxergavam. Entendiam a sociedade como um lugar contra eles, só que muito forte e grande, contra o qual eles não poderiam lutar. Por isso a desesperança, o alienamento (que é uma defesa nesse caso), essa perspectiva curta de futuro e muito individualismo. Para mim, isso teve um ápice em 2013, que refletiu no nosso cenário político atual e agora começa a mudar com o surgimento de um novo cenário de relações comunitárias, ainda tímido, mas que espero ver crescer em breve.

A Zona Leste de São Paulo é uma personagem importante em sua narrativa, nebulando com o seu cinza uma perspectiva de um futuro mais positivo para Sandra e Jorge. O quão importante e difícil foi para você explorar esse ambiente urbano?

Eu não sou da Zona Leste, mas gosto muito dos ambientes periféricos, pois acredito que, pela vulnerabilidade, ainda há espaço para relações humanas e de coletividade, que são importantíssimas. Quando há carência, se ela não for impeditiva (não for miséria realmente), as pessoas tendem a se aproximar para aumentar justamente a força individual. Essa aproximação é o melhor que há na sociedade. Não estou defendendo que tenha que haver desigualdade e população pobre para haver relações humanas, não é isso, estou somente dizendo que a inventividade surge desses espaços periféricos mais vulneráveis. Inventividade inclusive de modelos de sociedade e de relações humanas. No centro, as estratégias já estão cristalizadas e capturadas pelas instituições de controle dos comportamentos.

Como foi o processo para encontrar Natália Molina e Diego Avelino? Quais as dinâmicas estabeleceu para que encontrassem química como protagonistas que se encontram quando a narrativa de “Meio Irmão” já está em um estágio avançado de desenvolvimento?

Fizemos uma produção de elenco grande com jovens do teatro amador ou do profissional em centros culturais da periferia, como o Pombas Urbanas, na Cidade Tiradentes, e a Casa do Zezinho, no Capão Redondo. Pesquisamos também atores jovens que já estavam atuando em filmes e séries. Esse lugares tinham professores e alunos que divulgaram o teste e no boca a boca testamos cerca de 150 jovens. A interação entre Diego e Natália foi imediata. Um dos testes era fazer jogos com duplas de possíveis “meios-irmãos”. Diego e Natália se conectaram imediatamente. Pareciam irmãos. Tivemos outras boas duplas juntas e muitos atores fantásticos passaram pelo teste que não pudemos aproveitar, tais como o Lucas Andrade e o Diogo Cintra (que chegou a filmar, mas a cena dele caiu na montagem). Mas Natália e Diego nos surpreenderam desde o primeiro momento.

Meio-Irmão

Você tem uma longa carreira como fotógrafa e vejo o seu filme flertar sobre observação e vigilância a partir de imagens de câmeras que operam à distância dos acontecimentos. Quais os comentários que deseja tecer a partir dessa escolha?

Estamos literalmente rodeados desses dispositivos que são uma ambiguidade entre a proteção e a vigilância. Isso diz muito de nossa sociedade, pois por um lado somos todos observadores “voyeurs”. Precisamos observar para aprender. Essa é uma das formas que a gente tem de conhecer a realidade desde os tempos remotos. Homens da nossa pré-história já eram desenhistas exímios nas cavernas, de cenas que eles observavam no seu cotidiano. O problema é quando essa observação implica em uma relação de poder. É isso que acontece com as câmeras cada vez mais. Então, quem tem poder usa a imagem para controlar aqueles que sustentam o seu poder. E isso ocorre em uma escala global superssofisticada, mas não está fora do sujeito, está dentro dele. É isso o que eu tentei falar com a narrativa das câmeras: nós temos uma relação ambígua com a imagem, com a nossa representação nos dispositivos de imagem (cinema, televisão, redes), pois estamos dentro e fora dele. Ou melhor: eles estão dentro e fora de nós.

Antes de estrear comercialmente, “Meio Irmão” atravessou uma jornada de aproximadamente um ano por festivais, sendo premiado inclusive na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2018. O que reflete sobre toda essa jornada na direção de seu primeiro longa-metragem de ficção? 

Os festivais são essenciais para dar visibilidade para o público, mas também para produzir debate de qualidade, tanto sobre os filmes quanto sobre o mercado de cinema. A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é o maior panorama da produção mundial a qual temos acesso no Brasil. Para quem faz cinema e quem gosta de cinema e cultura, ela é essencial, pois justamente traz filmes que não veremos de outra forma. São filmes em línguas estrangeiras que a maioria de nós não fala (búlgaro, chinês, lingala, polonês etc). E que a Mostra traduz em português. “Meio Irmão” participar da Mostra foi uma honra, pois nos colocou junto com esse panorama diverso e excelente que ela produz. E ganhar dois prêmios na Mostra foi incrível, pois é o reconhecimento de um trabalho intenso e árduo que só foi possível com uma série enorme de parceiros, desde o primeiro momento da escritura do roteiro até o lançamento comercial com a O2Play, e a contribuição dos cinemas que abriram espaço para o filme ser exibido.

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*a foto da realizadora é um registro de Mario Miranda Filho/agenciafoto.com.br

Natália Molina, Meio Irmão

Entrevista com Natalia Molina, atriz de “Meio Irmão”

Como Sandra, a personagem central de “Meio Irmão”, Natalia Molina apresenta um desempenho típico de uma atriz que compreende muito bem o riscado do cinema. O acúmulo de talento, no entanto, veio todo do teatro, o qual faz desde os 13 anos.

Nascida de Piracicaba e com 21 anos que serão completados em abril, ela participou de um processo de seleção que envolveu dezenas de outras garotas. A estreia no cinema foi bem recepcionada pelos festivais, ganhando em dois deles, o Festival de Cinema de Caruaru e o Festival Internacional de Cinema da Fronteira, prêmios por sua interpretação.

Com “Meio Irmão” em exibição no circuito comercial, Natalia relembra alguns aspectos da experiência de trabalhar com Eliane Coster, do processo de imersão no papel até sobre os diálogos que estabeleceu com a diretora e roteirista sobre a realidade de Sandra e algumas resoluções que podem deixar interrogações no espectador. A entrevista foi concedida por e-mail.

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+ Entrevista com Eliane Coster, diretora e roteirista de “Meio Irmão”

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Natalia, “Meio Irmão” é a sua estreia como atriz no cinema. Como as vivências anteriores, especialmente no teatro, a prepararam para esse momento em uma mídia diferente?

Primeiramente, fiquei muito feliz com o convite pra essa entrevista, muito obrigada! Bom, eu faço teatro desde os meus 13 anos. E desde sempre prezei pela intensidade em tudo o que faço, e com o teatro/cinema não foi diferente. Já fiz algumas peças de gêneros variados (o que acabou sendo muito positivo pra mim quanto atriz). Meu primeiro professor/diretor, o Vanderlei Carneosso, trabalhava com dois métodos que me auxiliaram muito, corpo e laboratório. Esses dois estudos com certeza me ajudaram a criar a Sandra. As aulas eram no Centro Cultural de Valinhos, a maioria dos alunos ia uma ou duas vezes por semana, e como atuar era a melhor parte do meu dia, eu acabava indo cinco (risos). E quando soube que iria interpretar a Sandra, eu me deparei com a melhor preparadora de elenco que poderia ter, a Luciana Barboza, que fez o seu trabalho da melhor forma possível.

A realizadora Eliane Coster comentou comigo que você foi a escolhida para viver Sandra após um longo processo de escalação que testou mais de uma centena de jovens. Quais as suas principais lembranças dessa etapa inicial tanto da conquista do papel quanto de se ver imersa nele?

Na época dos testes eu morava em Valinhos, interior de São Paulo. Toda vez que eu recebia uma ligação de que tinha passado pra próxima etapa de testes eu ficava realmente muito feliz, até que no terceiro dia foi anunciado que eu protagonizaria o longa. Lembro de naquele momento tomar a decisão de fazer aquela personagem da forma mais profunda que eu poderia. A Sandra acaba sendo e tendo uma vida muito diferente da minha, mas, ao mesmo tempo, ela estava ali e eu percebi isso quando comecei a me emocionar toda vez que ensaiava. Ela realmente foi um presente. Criar a vida dela era um presente, o meio irmão dela era um presente. E então me deparo com uma preparadora (Lu Barboza) que também trabalhava com laboratórios e outras mil formas de imergir o ator no seu estudo de personagem, o que me deixava mais segura a cada ensaio.

Diego Avelino e você dão vida a adolescentes que atravessam uma série de dilemas comuns na geração atual, do amadurecimento precoce dado pela ausência de adultos até a descoberta e aceitação da própria sexualidade. Estabeleceram diálogos sobre essas e outras pautas que foram essenciais para a construção da narrativa?

Em todos os ensaios nós trazíamos os assuntos mais relevantes que o filme trata, conversávamos entre todos os atores e a preparadora e ficávamos com “lições de casa” de “quão próximo essa situação está de você?” até “quão distante essa situação está de você?”. O que nos permitiu entender muita coisa. Acredito que somente o exercício de se colocar no lugar de outro indivíduo nos faça QUASE entender o que o este passa. Como já disse anteriormente, a Luciana Barboza é uma das melhores profissionais que já trabalhei, então obviamente ela traria esses assuntos pra gente pensar.

Natália Molina, Meio Irmão

Fiquei extremamente impactado com a sua entrega ao papel e gostaria de saber principalmente como foi aliar a sua fúria emocional com certa fisicalidade exigida por Sandra, das suas quedas literais até o instinto de sobrevivência que a faz invadir propriedades.

Acho que tanto a “fúria emocional e fisicalidade exigida por Sandra” que você cita são a mesma coisa, ela necessitava de tudo isso, ela é tudo isso. Eu não consigo explicar perfeitamente, mas eu seguia muito minha intuição nas cenas, uma intuição emocional. Eu ouvia o que tinha que fazer em cena e não era tão difícil achar a “fúria perfeita”. Afinal, ela precisava resolver os seus problemas, mas também estava muito dolorida. Nos momentos em set, éramos uma. Uma sem ultrapassar os limites de ninguém. Era só ela e eu.

“Meio Irmão” opta por não dar conclusões para os impasses vividos pelos protagonistas. Passados os anos, das filmagens até o lançamento comercial que acontece agora, as possibilidades de destino para Sandra são construídas em sua mente ou prefere desapegar de respostas mais concretas? 

A grande dúvida de todos no filme é “o que acontece com Suely?”. E eu tive essa dúvida até o último dia de filmagem, me recordo de perguntar muitas vezes pra Lili (diretora) até que um dia ela me disse “no último dia de filmagem eu te conto”. Dito e feito. Corta câmera e eu fui voando perguntar o que havia acontecido e ela me respondeu no ouvido como prometido. Com essa reposta, eu tenho algumas imagens da Sandra vivendo. Toda vez que assisto o filme (toda mesmo), eu penso em como Sandra estaria hoje. Quais decisões ela teria tomado. É muito louco por que algo no meu coração faz a Sandra viver em mim. Até hoje eu choro em algumas cenas do filme me lembrando exatamente do que ela sentiu do momento. Eu amo essa personagem.

O filme atravessou diversos festivais, rendendo inclusive prêmios para a sua interpretação. Qual foi o momento mais especial para você em toda essa trajetória? E há algum projeto em fecundação no qual poderemos vê-la. 

É muito legal ir pra festivais e acompanhar todo o evento de perto, você acaba conhecendo muita gente bacana e que sempre admirou. Não posso negar que quando eu ganhei como Melhor Atriz e menção honrosa de Atriz Revelação foram momentos incríveis, mas tem um momento em especial que me marcou muito, foi quando o Diego Avelino (Jorge) ganhou como Melhor Ator no Festival de Cinema de Caruaru e eu que tive que descer pra pegar o prêmio porque ele estava em Lion na França estudando, eu queria correr e ligar pra ele no mesmo momento, eu pulsava de alegria querendo dar a notícia. Ser atriz/ator é muito complicado, no Brasil é duas vezes pior e principalmente em começos de carreira e às vezes acaba nos deixando inseguros, mas enfim, tudo deu certo e tivemos boas devolutivas. Estou com alguns projetos sim, principalmente querendo viver mais do audiovisual/cinema. Esse ano estreia a série de horror “Noturnos” pro Canal Brasil, com direção geral de Caetano Gotardo e Marco Dutra, e tive o prazer de ser convidada pra estar em um episódio com grandes atores ao meu lado. Um trabalho totalmente diferente de “Meio Irmão” e que amei fazer tanto quanto.

As Melhores Atrizes no Cinema em 2019

O conteúdo de retrospectiva do ano preparado pelo Cine Resenhas em um formato bem diferente daquele visto desde a concepção deste site está chegando ao fim. Com um vídeo sobre melhores filmes brasileiros de 2019 já publicado no canal do YouTube e outro sobre melhores filmes de qualquer nacionalidade em processo de edição, pegamos o intervalo para agora trazer aquelas que foram as grandes atrizes do último ano.

A partir de um top 10, comentamos brevemente sobre cada uma das escolhas, que trazem talentos femininos que apresentam as faces mais obscuras, divertidas e comoventes de mulheres vistas em circunstâncias bem distintas, estabelecendo um choque entre emoções da ficção com aquelas da realidade. Boa leitura!

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10. Samal Yeslyamova, Ayka

O mundo cinéfilo foi pego de surpresa quando Samal Yeslyamova recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes de 2018. Uma análise mais detalhada entregará que não havia opção à altura da cazaque, que antes só havia trabalhado em “Tulpan”, obra de 2008 do mesmo Sergei Dvortsevoy que a dirige em “Ayka”. No registro cru em forma e conteúdo, Samal interpreta uma imigrante que parece mais preocupada em conseguir um trabalho para sobreviver e quitar uma dívida do que com o bebê que carrega em seu ventre, abandonado-o assim que se vê em condições de fugir do hospital. Uma jornada extremamente difícil, que graças à Samal conta com a nossa completa cumplicidade.

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9. Isabelle Huppert, Obsessão

Ao ser indicada ao Oscar por “Elle“. Isabelle Huppert voltou a cair no radar de realizadores fora da França. Em tempos mais recentes, protagonizou em inglês projetos como “Frankie” (que chega aos cinemas brasileiros nos próximos dias) e a minissérie “The Romanoffs”. Quando iniciava o percurso na temporada de prêmios pelo filme de Paul Verhoeven e também por “O Que Está Por Vir“, Neil Jordan já tinha assegurado a maior atriz do cinema europeu no papel de Greta Hideg, talvez a primeira vez em que ela vive uma vilã de modo mais frontal. Algumas dimensões estão ausentes para integrar a personagem de Greta. Isabelle Huppert tem ciência disso, virando uma chave que a faz se divertir à beça em uma bobagem que lembra aqueles thrillers de stalkers do início dos anos 1990. Se não bastasse, o público ainda recebe o bônus de testemunhar Huppert cuspindo uma goma de mascar nos cabelos de Chloë Grace Moretz. É o suficiente.

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8. Rebecca Ferguson, Doutor Sono

Nascida na Suécia, Rebecca Ferguson teve a chamada grande chance ao viver na tevê uma encarnação diferente da Rainha Elizabeth na minissérie “The White Queen”, que rendeu para ela uma indicação ao Globo de Ouro. Não foi tão vista e comentada pelo público em 2013, mas foi o suficiente para os olheiros de Hollywood a convocarem em papéis importantes em filmes como “A Garota no Trem“, “O Rei do Show” e três episódios da franquia “Missão: Impossível”. O seu melhor será visto como a vilã de “Doutor Sono”, Rose Cartola. É uma das melhores coisas na encarnação em texto da continuação de “O Iluminado” e o realizador Mike Flanagan amplia o seu território para evidenciar a sua tridimensionalidade.

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7. Jennifer Lopez, As Golpistas

Admito adorar quando um artista consegue dar a volta por cima após não conseguir se desvincular de uma repercussão negativa que se deu por algumas escolhas equivocadas na construção de sua carreira. Mas, excetuando a exposição que se autorizou a lançar durante o seu relacionamento com Ben Affleck, as motivações de Jennifer Lopez hoje parecem nobres mesmo com resultados aquém das boas intenções, como a de desejar protagonizar comédias românticas porque não via latinas representadas nesse gênero. Também franca foi a felicidade que expressou com os vários louros recolhidos com “As Golpistas”, uma perspectiva feminina sobre a crise econômica que abateu a América há um pouco mais de 10 anos na qual inclusive assume o papel de produtora executiva. A sua Ramona é um estouro em cena, dona de um dos melhores diálogos concebidos pelo roteiro e ainda com camadas de vulnerabilidade que reforçam que a celebridade J-Lo é, acima de tudo, uma boa intérprete dramática.

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6. Ana de Armas, Entre Facas e Segredos

Nós começamos a notar a existência da columbiana Ana de Armas há cinco anos, quando fez o seu primeiro trabalho em inglês, “Bata Antes de Entrar”, aquela atualização bem esquecível do Eli Roth para o também esquecível “Death Game”, thriller dos mais baratos produzido em 1977. Uma das jovens atrizes mais belas atualmente, passou a receber oportunidades mais interessantes desde sua intensa presença em “Blade Runner 2049“. Ainda assim, a escolha do diretor, roteirista e produtor Rian Johnson em escalar Ana para o papel central de “Entre Facas e Segredos” soava bem arriscada. Ainda bem que apostou todas as suas fichas nela. Ana não somente é uma personagem muito mais bacana que a do investigador agathacristiano Benoit Blanc (interpretado por Daniel Craig), como ainda coloca todo o elenco de apoio no bolso, de Jamie Lee Curtis a Chris Evans. A sua Marta Cabrera é comovente, engraçada e até mesmo dúbia. Vai ser difícil bolar uma sequência de “Entre Facas e Segredos” com uma protagonista (e atriz) à altura.

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5. Julia Stockler, A Vida Invisível

O que mais se falou sobre “A Vida Invisível” foi como a conclusão da história emociona, sobretudo pela presença especial de Fernanda Montenegro. Pelo visto, eu sou um dos poucos que passou incólume por essa etapa final da narrativa de Karim Aïnouz, que se dá a partir de uma elipse no mínimo desconfortável. Até lá, ainda estava sob uma hipnose provocada por Julia Stockler, o verdadeiro coração do drama, dando vida a uma irmã que tem de matar um leão por dia pelo abandono de um amor estrangeiro e pelo desprezo do pai. Com um currículo amparado por participações em curtas-metragens e projetos televisivos, hoje Julia recebe várias propostas, como para estar na adaptação cinematográfica para a peça teatral “Os Últimos Dias de Gilda”. Mal posso esperar pelo que está por vir.

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4. Mary Kay Place, A Vida de Diane

Somando mais de 100 créditos no cinema e na tevê desde 1973, a americana Mary Kay Place se conformou com papéis secundários de mães ou de um componente em um círculo de amizade de uma protagonista. Estreante na direção de longa-metragem de ficção, Kent Jones provavelmente viu os trabalhos mais substanciais de Mary, escalando-a para o grande papel-título de seu drama, registrando uma mulher que parece ter deixado de lado a construção de uma vida mais plena. Diane só passa a ser vista pelo público em seu próprio lar quando a narrativa já está em estágio avançado. É também flagrada pedindo desculpas a todos ao seu redor, bem como perdendo amigos e familiares na mesma faixa de idade que a sua. Mary não precisa de um grande grito para expressar a dor que a corrói. Está tudo expresso em sua face.

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3. Melissa McCarthy, Poderia Me Perdoar?

Não tenho dúvidas de que Melissa McCarthy tenha um casamento maravilho. Tanto que dele tem vindo as parcerias que impedem que a carreira da atriz alce voos mais altos. Se Paul Feig mostrou a comediante brilhante que é Melissa com os seus papéis em “Missão Madrinha de Casamento” e “A Espiã que Sabia de Menos“, Falcone exibe a sua esposa como uma mulher histriônica. A redenção veio recentemente com “Poderia Me Perdoar?”, no qual foi indicada ao Oscar 2019 na categoria de interpretação. É a grande chance para o público conhecer as suas habilidades dramáticas, que tinham sido manifestadas em pequenas doses em “Um Santo Vizinho”. E o melhor: nos faz ter uma empatia imediata com uma figura real antes que qualquer julgamento possa ser estabelecido sobre os seus atos. Pena que com o marido já tenha outros dois filmes no forno pra estrear ao longo deste ano…

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2. Glenn Close, A Esposa

Amamos Olivia Colman, mas Glenn Close sem um Oscar por sua interpretação em “A Esposa” é algo que ainda causa comoção. Especialmente pelo dado de que a grande veterana detém um recorde nada nobre: no histórico da premiação, é a atriz que mais acumula indicações sem uma conversão em vitória – sete ao todo. Neste drama acima da média do sueco Björn Runge, há da parte de Close uma interpretação extremamente sutil antes das esperadas explosões emocionais, expressando em faces de arrependimento o modo como negligenciou a si mesma em detrimento do sucesso do marido. O sonho de vê-la com uma estatueta talvez aconteça em 2022: a versão musical de “Sunset Boulevard” contou com a atriz em duas encarnações na Broadway e a versão cinematográfica está em pré-produção.

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1. Nicole Kidman, O Peso do Passado

Atualmente com 52 anos, Nicole Kidman viveu na pele a maldição dos 40 anos, em que a oferta de bons papéis começa a rarear em Hollywood. Houve mesmo algumas falhas em alcançar êxitos artísticos, mas Nicole deu a volta por cima. Voltou a encarar com mais regularidade o papel de produtora e mantém firme a promessa de trabalhar com mais cineastas mulheres. Karyn Kusama foi uma delas, que submeteu a australiana a uma transformação devastadora, comprovando o seu empenho em abraçar cada personagem com uma entrega que poucas atrizes em atividade estão dispostas. Nicole encara a sordidez do filme como um ambiente familiar, sobretudo como incorpora as cicatrizes físicas e emocionais da detetive Erin Bell, que passa a ser confrontada por um passado traumático que explica a decadência que a sucumbiu. Mesmo pouco visto, “O Peso do Passado” se destaca com “Obsessão” e “Segredos de Sangue” como as melhores interpretações da década de Nicole.