Melhores Atores 2019

Os Melhores Atores no Cinema em 2019

Saudações cinéfilas!

O ano de 2019 foi tão tumultuado em minha vida que muitas prioridades precisaram ser revistas. Uma delas foi a alimentação do Cine Resenhas como site, pois admito que ultimamente tenho flertado muito mais com a sua encarnação como canal no YouTube, onde publico entrevistas e vídeo comentários com maior regularidade.

Como intenção de voltar a gerar mais conteúdo textual, faço a primeira publicação de 2020 inaugurando uma maratona que farei celebrando os melhores de 2019, hoje apresentando a vocês quais foram para mim as grandes interpretações masculinas, devidamente comentadas.

Contem-me o que acharam e até a próxima!

.

10. Ethan Hawke, Fé Corrompida

Ethan Hawke é um tipo de ator que qualquer diretor independente pode contratar sem que a qualidade de sua interpretação seja comprometida pelo cachê limitado. Foi o que fez Paul Schrader, que com “Fé Corrompida” não entrega somente aquele que é o seu melhor filme em mais de 10 anos, como vai além do automático na direção de seu elenco, no qual Hawke assume o protagonismo vivendo um padre  não muito confiante de suas certezas que vai paulatinamente sucumbindo à angústia.

.

9. Asier Etxeandia, Dor e Glória

Já chegaremos a Antonio Banderas, mas a primeira metade de “Dor e Glória” certamente não seria tão excepcional se o astro, agora indicado ao Oscar, não tivesse como seu principal parceiro de cena Asier Etxeandia, que interpreta Alberto Crespo, ator que caiu em desgraça após um desentendimento que durou três décadas com o diretor que o descobriu e que ajuda a compreender, com drama e humor, alguns dos tormentos do próprio Pedro Almodóvar. Até então, o espanhol era mais conhecido por seus papéis na tevê. Hoje finalista ao Goya de Melhor Ator Coadjuvante pelo filme de Almodóvar, talvez passe a ser uma presença mais reconhecida na tela grande.

.

8. Zain Al Rafeea, Cafarnaum

É sempre um perigo trabalhar com crianças, especialmente se for uma que não é um ator profissional e que tem uma vida parecida com a do personagem miserável que interpreta. “Cafarnaum” tem lá seus problemas morais, mas quando emociona, é por conta do gigantismo de seu pequeno protagonista Zain Al Rafeea, que habita uma realidade em que o obriga a sobreviver como se fosse um adulto. A diretora Nadine Labaki assegurou que a vida de Zain mudou após o seu filme, hoje vivendo com sua família na Noruega, onde frequenta uma escola pela primeira vez após uma infância nas favelas de Beirute.

.

7. Jim Cummings, Thunder Road

“Thunder Road” teve umas três ou quatro sessões na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2018 e poucos o viram quando foi lançado nos streamings brasileiros. Pois vale a pena descobrir essa pérola feita por meros 191 mil dólares, especialmente por Jim Cummings, protagonista, diretor, roteirista e editor de uma comédia com toques dramáticos muito críveis sobre um policial que precisa encarar os fracassos de sua vida com o luto pela morte de sua mãe e um divórcio. É um personagem cheio de erros e pelo qual criamos uma simpatia imediata graças ao empenho que Cummings emprega ao papel. “The Werewolf”, seu próximo longa-metragem, começa a pipocar nas telas americanas em março deste ano.

.

6. Robert De Niro, O Irlandês

Dá uma tristeza ver um veterano que amamos como Robert De Niro hoje sustentando uma carreira na base de filmes patéticos, quando não vergonhosos. Mas dá para entender, pois talvez as coisas alcancem um estágio em que o desgaste emocional para dar vida a personagens complexos aparece para clamar por projetos mais descompromissados. No entanto, se não fosse um ou outro projeto isolado (como os conduzidos por David O. Russell), talvez a gente não testemunhasse mais em vida o De Niro dos bons tempos. Ainda bem que a Netflix bancou o gordo orçamento de “O Irlandês”, permitindo uma reencontro tardio com Martin Scorsese (com quem não trabalha desde “Cassino”) e ainda a divisão de espaço com Al Pacino (esse é um que não via tão bom ator desde “O Mercador de Veneza”, de 2004), Joe Pesci e Harvey Keitel. A melancolia que expressa no ato final desse épico faz ser considerado um crime o fato de não estar concorrendo ao Oscar de Melhor Ator.

.

5. Antonio Banderas, Dor e Glória

Chegamos a ele. Levou 22 anos para que Antonio Banderas e Pedro Almodóvar se reencontrassem no cinema. Depois de “Ata-me!”, houve uma ruptura resolvida somente em “A Pele que Habito“. Especulou-se que houve uma desarmonia entre ambos, talvez servindo de inspiração para a construção de “Dor e Glória”, ainda que o maior realizador espanhol hoje em atividade também tenha se desentendido com outros de seus intérpretes ao longo da carreira. Há males que vem para o bem. Almodóvar entrega o seu melhor filme desde “Volver” (de um distante 2006) e Banderas traz aqui o peso de um ator que amadureceu muito com o tempo, melhor como nunca se viu.

.

4. Richard E. Grant, Poderia Me Perdoar?

Às vezes, um bom filme depende da sintonia que há entre dois atores contracenando. Se os melhores momentos de “Dor e Glória” são aqueles entre Antonio Banderas e Asier Etxeandia, “Poderia Me Perdoar?” talvez não fosse tão bom se Melissa McCarthy não contasse com um ator do calibre de Richard E. Grant como o seu principal parceiro de crime. O ator nascido em Suazilândia tem mais de 130 créditos no currículo e é desses que a gente sabe que viu a cara em um filme, mas nem sempre lembra em qual. Até diretor já foi, em “A Conquista da Liberdade”, de 2005. O humor afiado como uma navalha que impõe ao seu personagem torna ainda mais mordaz os direcionamentos dramáticos da história real. Indicado ao Oscar, perdeu para Mahershala Ali.

.

3. Eddie Murphy, Meu Nome é Dolemite

Após o fracasso comercial retumbante de seus últimos filmes (“O Grande Dave“, “Imagine Só!”, “As Mil Palavras” e o drama indie “Mr. Church”), Eddie Murphy fez o que parecia certo: desapareceu por alguns anos para curtir a família, a sua fortuna e o aparecimento de algum projeto que valesse a pena um comeback. “Meu Nome é Dolemite” faz lembar aquele comediante dos velhos tempos, pelo qual nos apaixonamos por causa de “Um Príncipe em Nova York”, “Um Tira da Pesada” e tantas outras comédias memoráveis dos anos 1980/1990. A homenagem que presta para Rudy Ray Moore é emocionante, em um filme que narra os percalços do sucesso daquele jeito contagiante que Craig Brewer já havia demonstrado no igualmente ótimo “Ritmo de um Sonho”.

.

2. Félix Maritaud, Selvagem

Mais novo ícone gay do cinema europeu? Félix Maritaud teve um personagem secundário de destaque em “120 Batimentos por Minuto” e, desde então, tem sido convocado para marcar presença em narrativas que encontram maior sintonia com o público LGBTQI+. “Selvagem” tem mesmo esse apelo, mas a maneira como Maritaud se entrega ao papel de um garoto de programa autodestrutivo é tão intensa que penso que qualquer um que tenha experimentado um amor não correspondido ou a ausência de afeto sairá igualmente devastado da sessão.

.

1. Jonas Dassler, O Bar Luva Dourada

Jonas Dassler é um jovem de 23 anos com toda uma pinta de galã. O extremo oposto do temível e feioso Fritz Honka, assassino em série acusado pela morte de quatro prostitutas em Hamburgo quando tinha entre 35 e 40 anos. Vá entender como o realizador Fatih Akin o avaliou para o papel, mas a escolha se mostra certeira na tela. A partir de um departamento de maquiagem liderado por Daniel Schröder, Lisa Edelmann e Maike Heinlein (constantes colaboradores de Akin), Dassier definitivamente se transforma em uma criatura abominável, abraçando-a para representar o que há de mais podre não somente em um indivíduo com a maldade encarnada em seu ser, mas também nos abismos sociais bem delimitados no ambiente que habita.

Gabriela Souza

Entrevista com Gabriela Souza, sobre o projeto Selo BLACK

Especializada na produção e na distribuição audiovisual brasileiras, a Elo Company vem se destacando no mercado sobretudo por representar uma fatia considerável do que hoje podemos acompanhar da face mais autoral de nossa cinematografia, por vezes desenvolvendo iniciativas que facilitam a viabilização e o acesso a esses projetos. Como o Selo ELAS, que busca priorizar o desenvolvimento de filmes em que a direção é feminina.

Em algumas praças, incluindo São Paulo, o público pode ter acesso a alguns títulos com ingressos a preços mais populares no Projeta às 7, ideia também criada pela Elo Company em parceria com a Rede Cinemark: é exibido um filme brasileiro em que a entrada pode ser adquirida por até R$ 12, em sessões que acontecem de segunda a sexta , sempre às 19h.

A novidade divulgada neste fim de ano é a criação do Selo BLACK, em que a prioridade será dar maior visibilidade para profissionais negros que desejam debutar ou dar continuidade na carreira de direção. Gerente de projetos e financiamento da Elo Company, Gabriela Souza é quem coordena o Selo Black. Com ela, realizamos uma entrevista em que nos revela a realidade do cenário audiovisual atual, em que a representatividade de minorias aos poucos vem ganhando mais força. Ao fim da conversa, saiba quais são os primeiros projetos já confirmados com o Selo BLACK. A comédia “Na Rédea Curta”, com direção de Glenda Nicácio e Ary Rosa (a dupla responsável por “Café com Canela” e “Ilha” – temos entrevistas com Ary sobre ambos os filmes aqui e aqui), deverá ser o primeiro a chegar aos cinemas, com previsão de exibição para 2020.

.

A Elo Company é responsável pela criação do Selo ELAS, que visa dar mais oportunidades para vozes femininas atrás das câmeras. O êxito dessa iniciativa auxiliou no desenvolvimento do Selo Black ou fatores externos foram mais influentes?

Os dois projetos partem do mesmo ponto, que é a pesquisa divulgada pela ANCINE em 2016 na qual diz que há poucas mulheres dirigindo e roteirizando e que não havia nenhuma mulher negra entre as diretoras que foram contabilizadas no ano de 2014. Partem dessa reflexão do porquê dessas pessoas não estarem produzindo. Também percebemos uma demanda com parceiros e clientes com os quais trabalhamos. Existe o público, mas não existe o produto.

Com vasta experiência no mercado, tem testemunhado uma mudança no cenário quanto a representatividade negra?

Sim, ele é bem diferente. Não que esses projetos não tenham sido feitos, a exemplo do “Café com Canela”, uma codireção com uma realizadora negra, o que não tínhamos visto até o momento. Neste ano, tivemos ” A História de um Sonho: Todas as Casas do Timão”, codirigido por Marcela Coelho. Diferente dos anos anteriores, tais projetos têm sido feitos e chegado ao circuito comercial. Eles sempre existiram. Um exemplo é o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, que acontece no Rio de Janeiro anualmente numa reunião entre África, Brasil e Caribe, exibindo muitos materiais e filmes feitos por pessoas negras, mas eles não chegam em nosso circuito comercial.

Conte-me um pouco mais sobre a gênese do Selo BLACK e os nomes com os quais você une forças para fazê-lo acontecer.

Ele realmente parte do Selo ELAS, pois entrei na Elo Company me atentando a essa questão de diversidade, na sequência surgindo a oportunidade de desenvolver um outro projeto voltado para a população e os realizadores negros. Tenho buscado alguns parceiros e profissionais para somar comigo. Como coordenadora, abarco o projeto e há consultores como a Carolina Gomes, do FAMA/Avon (Fundo Avon de Mulheres no Audiovisual) e o Alberto Pereira Jr., da Academia de Filmes.

Como vocês pretendem trabalhar os estágios iniciais dos projetos que irão compor o Selo Black?

A ideia da consultoria e de qual forma abraçaremos esses projetos virão com a visão da distribuidora para avaliar as consequências comerciais e escolhas artísticas, isso conectado com esses realizadores com visões e vivências diferentes, pois só eles podem colocar na tela as suas experiências. É trabalhando esses materiais que eles vão analisar comercialmente com nossos parceiros, havendo roteiristas, produtores executivos e diretores que dirão se funcionam para o mercado e avaliarão questões ideológicas e raciais. Da minha parte, também verei as questões financeiras desses projetos, como onde seria mais interessante captar um valor que estiver faltando no orçamento, em quais festivais ele pode entrar para ter maior visibilidade. Acompanhar toda essa trajetória do filme, desde o argumento até a exibição, dando esses toques de profissionais do mercado.

E quanto ao momento de finalmente exibir os filmes para o público? Pretendem avaliar festivais para a construção da carreira dessas obras? 

Respeitamos muito qual é o desejo do produtor e diretor com o seu filme. Tem produtores que não estão muito interessados em festivais, há outros que sim. Trabalhamos aqui na Elo Company com toda a cadeia e vida de um filme, iniciando pelos festivais, depois salas comerciais, VOD, e o que mais a gente entender, junto a outros parceiros comerciais, onde podem caber essas obras. Há um departamento dentro de Vendas que lida especificamente com festivais, fazendo uma triagem e identificando quais as nossas opções no Brasil e no mundo que têm a ver com aquelas obras.

Como citou, há festivais específicos para celebrar o cinema produzido por profissionais negros ou mesmo com temáticas caras a esse público-alvo. Esses eventos também serão considerados? Tais títulos podem também se integrar a outras iniciativas da empresa, como o Projeta às 7?  

Temos uma curadoria específica para o Projeta às 7. Alguns podem se encaixar nele. Isso só ocorre quando a obra está pronta. Vai depender muito do que vai acontecer com o filme, pois ele muda muito, podendo se transformar diante do que foi planejado previamente. Fazemos diversos lançamentos em diferentes salas. Vai depender muito do perfil de cada título.

Tenho uma grande preocupação, na posição de espectador, quanto ao destino de filmes brasileiros independentes, ainda mais em uma realidade na qual a sala de cinema não é acessível a todos. Pretendem ir além da disponibilização desses filmes em plataformas streaming?

Sim, pois como tratam de temáticas bem específicas, com diretores com experiências próprias, terão uma demanda diferenciada. No entanto, já temos salas que trabalham para atender a esse público específico, promovendo o debate ao fim da exibição, algo mais corriqueiros em obras autorais. Temos o circuito SPCine. Estamos nos aproximando dele. Mas dependerá realmente do momento em que todos os filmes estiverem prontos, pois tudo é muito volátil. Tanto a negociação para streaming e tevê paga quanto para onde o exibiremos após a estreia dependerá muito do desempenho do filme em sua trajetória prévia. Por mais que tenhamos uma ideia do que pode acontecer, tudo dependerá de quando esses filmes estarão prontos, em qual cenário estaremos vivendo e assim determinar o caminho de cada um.

Dentro de uma perspectiva mais pessoal, o que a impulsiona a coordenar o Selo Black e quais resultados pretende atingir?

Parto da ideia de que sou uma mulher negra, que trabalha no audiovisual e que está inserida no mercado. É muito diferente para quem está nessas companhias atuando comercialmente daqueles que fazem trabalhos mais autorais, fora do circuito. A intenção é trazer esses realizadores e abrir as portas para esse nicho mais comercial. O que me impulsiona é também poder me ver tanto na tela quanto atrás das câmeras. E não ser só eu. Não é somente eu representar alguém, mas trazer pessoas que também queiram se representar.

.

Filmes confirmados do Selo BLACK

Na Rédea Curta

NA RÉDEA CURTA
Comédia em desenvolvimento
Produção: Rosza Filmes Produções LTDA ME
Direção: Glenda Nicácio e Ary Rosa
Sinopse: Da periferia de Salvador, criado apenas pela mãe, Junio, aos 20 anos, descobre que vai ser pai e decide, a partir disso, ir atrás de seu pai. Mainha, mãe super protetora, se vê obrigada a revelar a identidade do pai de Júnio, que mora no interior do Recôncavo da Bahia, na cidade de Cachoeira. Inicia-se então uma divertida viagem de Mainha e Júnio em busca do pai, numa aventura repleta de confusões que no fim só servem para aproximar mais mãe e filho. Afinal, para Júnio, Mainha é insubstituível, e não há nada nem ninguém no mundo capaz de ocupar o seu lugar.

BUSCA E APREENSÃO
Documentário em desenvolvimento – captação de recursos
Produção: Encantamento Filmes
Direção: Everlane Moraes
Sinopse: No ano de 1991, pai e mãe brigam judicialmente pela custódia da filha, quando fica decidido que o pai será oficialmente o responsável pelos cuidados com a menor, sendo-lhe concedido a guarda definitiva.
Dividida entre as famílias, a cineasta, solicita a reabertura do processo judicial de custódia da qual foi vítima na infância, com a intenção de reconstruir seu passado e resolver as tensões familiares do presente.
O resultado dessa ação são reflexões sobre a justiça, a absolvição simbólica de todos os acusados e o encontro inédito entre duas mães, a adotiva e a biológica.

MENINA MULHER DA PELE PRETA
Drama em captação de recursos
Produção: Dandara Produções Culturais e Audiovisuais
Direção: Renato Cândido de Lima
Sinopse: Ao trabalhar a questão de afetividade, ancestralidade e protagonismo da mulher negra, Menina Mulher da Pele Preta traz cinco histórias ficcionais de cinco mulheres negras de diferentes gerações e perfis sociais.

É TEMPO DE AMORAS
Drama em captação de recursos
Produção: Aranhas Films
Direção: Anahí Borges
Sinopse: “É tempo de amoras” conta a história de uma tentativa de adoção inusitada. Petrolina, apelidada Pety, 10 anos de idade, ressente-se do fato de não ter uma avó. Pasqualina, 81 anos, vive no asilo pois não possui parentes vivos. A trajetória das personagens se cruzam e Pety tentará adotar Pasqualina.

NARCISO RAP
Comédia dramática em captação de recursos
Produção: Buda Filmes
Direção: Jeferson De
Sinopse: Narciso é um garoto que vive em orfanato, o seu maior desejo é encontrar uma família que o adote, e a cada ano que passa este sonho fica mais distante. Na véspera de Natal um de seus melhores amigos lhe dá uma velha lâmpada, o garoto a esfrega e um gênio surge. Narciso pede para o gênio uma família.

Entrevista com Daniel Gonçalves, diretor do documentário “Meu Nome é Daniel”

Após um ano de passagens por festivais, como o Olhar de Cinema, a Mostra e o Festival do Rio, o documentário “Meu Nome é Daniel” chega enfim ao circuito comercial. O lançamento é um capítulo histórico na cinematografia nacional: é a primeira vez que se tem registro no país de um longa-metragem a ganhar a tela grande em que a sua direção foi assumida por uma pessoa com deficiência. Isso alguns meses após Julia Katharine conseguir encaixar o seu curta-metragem “Tea for Two” nas exibições de “Lembro Mais dos Corvos”, tornando-se assim a primeira cineasta trans no Brasil a exibir um filme comercialmente.

Em entrevista transcrita de áudio, Daniel Gonçalves reflete sobre os prós e contras de tal pioneirismo, mas também sobre a sua relação com o cinema, o desejo em ser o contador de sua própria história e acessibilidade nas salas de cinema. Acompanhe a seguir.

.

No documentário, os registros domésticos e a sua narração entregam que grande parte de sua vocação como diretor foi oriunda de seu pai. Conte-me um pouco mais de sua relação com a arte audiovisual e a escolha dela para compartilhar a sua história.

Apesar de meu pai sempre ter me filmado muito quando era criança e adolescente, não me lembro de ter vontade de filmar ou fazer cinema. A minha relação com o cinema veio mais tarde, durante a faculdade, onde passei a me interessar mais. Primeiro através da edição. Depois, migrando para a realização de documentários como diretor. Na infância, gostava muito de contar histórias, mas não necessariamente através de vídeos. Como dito, não tinha vontade de filmar ou de pedir uma câmera. Se aconteceu, foi muito pontual, não tenho memórias sobre isso. Tudo começou durante ou após um estágio como editor na TVPUC, onde estudei jornalismo. Fiz a faculdade para trabalhar com jornalismo esportivo e a oportunidade mudou o meu caminho em direção ao cinema. A partir daí, fiz um curso de montagem na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, além de um curso de extensão em produção executiva para cinema e televisão e pós-graduação em cinema documental. Foi assim que essa coisa de contar história através do audiovisual se consolidou.

Ainda sobre as imagens de arquivo, elas contemplam mais de 10 anos de sua vida, da infância à juventude. Como foi o processo de redescobri-las e reorganizá-las com outros registros mais recentes por você dirigidos?

Foi natural. Sabia que essas imagens existiam, mas tinha visto muito pouco depois de gravadas. Quando resolvo fazer o filme, claro que essas imagens adquirem uma importância muito grande, pois através delas pude revisitar e compreender melhor essa minha trajetória, talvez com um olhar mais crítico. Entender qual é o meu lugar no mundo, como me enxergo hoje. Diria que foi um processo de terapia ver essas imagens e construir um filme a partir delas. O processo começa depois das imagens de arquivo e a partir delas estabeleci um pré-roteiro que foi um guia para grande parte das gravações que fiz. Uma coisa influenciou completamente a outra.

“Meu Nome é Daniel” chega aos cinemas divulgando o dado de que este é o primeiro longa-metragem brasileiro dirigido por uma pessoa com deficiência. Como repercute em você o peso desse pioneirismo?

Esse pioneirismo tem dois lados, um bom e outro ruim. O bom é de ser este diretor com deficiência a fazer um filme, contar a sua própria história, o que é muito representativo. O ruim é que demorou para aparecer uma pessoa com deficiência poder ter voz e oportunidade de contar a sua própria história, pois somos muitos, cerca de 24% da população têm algum tipo de deficiência, e não vemos essas pessoas pelas ruas. Muito por isso, essas pessoas não contam as suas próprias histórias. Acredito que o mais importante desse pioneirismo é poder ser o primeiro a contar uma história para, aos poucos, poder mudar a maneira como nós somos vistos. Precisamos conseguir fugir dos clichês em que somos colocados naqueles dois lugares: ou o do coitadinho ou do super-herói. A partir do momento em que começo a contar a minha história em um filme que fujo desses dois lugares, temos um bom caminho a seguir.

O seu documentário é um dos poucos títulos recentes disponíveis no aplicativo Movie Reading Brasil, que visa atender os espectadores com deficiências visual e auditiva – juntos, representam aproximadamente 5% da população no Brasil. Acredita que o sistema de exibição está muito distante de contemplar todas as audiências?

Essa questão da acessibilidade no audiovisual ainda está muito incipiente. Existe uma instrução normativa da Ancine que diz que todos os filmes precisam ter acessibilidade, mas, ao mesmo tempo, pouquíssimas salas de cinema estão preparadas para atender a esse público. Penso que o aplicativo Movie Reading chega para tentar ser uma maneira mais fácil para as pessoas que têm algum tipo de deficiência visual ou auditiva ir aos cinemas sem depender que estes tenham as ferramentas de acessibilidade.

Ao fim de “Meu Nome é Daniel”, o diagnóstico sobre a sua condição seguiu inconclusivo. Do período de finalização do documentário até esse momento da estreia comercial, alguma descoberta surgiu?

Nada mudou desde então, até porque não continuei com a busca por um diagnóstico. Não é algo que mudará a minha vida e, no momento, não tenho interesse em saber o que tenho, porque dificilmente apareceria algum remédio em que eu tomaria hoje para amanhã correr 100 metros rasos em 10 segundos, sabe? Desde então, não surgiu nenhuma novidade, muito porque essa coisa da busca é muito mais um dispositivo fílmico do que uma real necessidade minha de saber o que tenho. Sei qual é a minha condição, o quadro clínico, e o que devo fazer para poder melhorar e também para fazer as coisas com mais facilidade. Descobrir exatamente o que é, além de ser muito caro, não é urgente para mim.

.

Assista ao trailer com acessibilidade:

Horror Expo 2019

HORROR EXPO | Voltado ao mundo de horror, evento tem sua primeira edição em São Paulo [de 18 a 20/10]

País aficionado pelo gênero horror, o Brasil mantém extremamente o mercado do gênero principalmente nos segmentos audiovisual e literário. Fãs que vivem ou estiverem em São Paulo nos próximos dias poderão aproveitar um grande evento com as estruturas de uma convenção, o que não é habitual de ser praticado por aqui. Trata-se da Horror Expo, que terá a sua primeira edição abrigada entre os dias 18 e 20 de outubro no Pavilhão de Exposições do Anhembi.

A programação trará um sem número de atrações, de debates com convidados nacionais e estrangeiros até apresentações musicais. Entre os nomes internacionais, o principal destaque é a vinda de Mick Garris. Diretor, roteirista, produtor e com créditos em outros ofícios, o americano se notabilizou especialmente pelas várias contribuições com o escritor Stephen King. São deles a minissérie “O Iluminado”, “A Dança da Morte” e “Saco de Ossos”, além dos filmes “Sonâmbulos”, “Montado na Bala” e “Desespero”. Querida pela personagem Pepper em “American Horror Story”, a atriz Naomi Grossman é outra presença confirmada, bem como Lochlyn Munro, de “Riverdale”.

Ainda em cinema, a Horror Expo contará com pré-estreia exclusiva de “Zumbilândia: Atire Duas Vezes”, uma prévia de “Doutor Sono”, uma das bonecas originais de Annabelle e uma palestra com as participações de Armando Fonseca, Kapel Furman e Raphael Borghi, especialistas em efeitos especiais. Haverá também orquestra executando famosas trilhas sonoras, trem fantasma em realidade virtual, debate com o escritor André Vianco, concurso de cosplay, maquiagem artística a serviço da Colormake, empresa do segmento há 30 anos no mercado, e muito mais.

O Cine Resenhas estará presente na Horror Expo para fazer cobertura no fim de semana. Para saber mais sobre o evento, consulte o serviço a seguir.

Serviço:
Horror Expo 2019
Datas: 18, 19 e 20 de outubro de 2019
Horário: das 12h às 22h
Local: Pavilhão de Exposições do Anhembi
Endereço: Avenida Olavo Fontoura, 1209 – Santana, São Paulo/SP, CEP: 02012-021

Ingressos: Ingresso individual por dia: 1º Lote – R$ 150,00 (meia-entrada) e R$ 300,00 (inteira)
Passaporte individual para os três dias do evento: 1º Lote – R$ 427,50 (meia-entrada) e R$ 855,00 (inteira)
Ingressos VIP: VIP Platinum: R$ 1.000,00 (por dia) ou R$ 2.700,00 (três dias) | VIP Gold: R$ 700,00 (por dia) ou R$ 1.890,00 (três dias) | VIP Silver: R$ 500,00 (por dia) ou R$ 1.350,00 (três dias)

Redes sociais:
Facebook: http://www.facebook.com/horrorexpobrasil
Instagram: http://www.instagram.com/horrorexpobrasil
Twitter: twitter.com/horrorexpobr

João Paulo Procópio

Entrevista com João Paulo Procópio, diretor e roteirista do filme “Marés”

Sócio da produtora brasiliense Pavirada Filmes, João Paulo Procópio já se desdobrou em várias funções na construção de curtas e longas-metragens de ficção, da montagem do premiado “O Último Cine Drive-in” (2015) a assistência de direção de “Simples Mortais” (2011, com Leonardo Medeiros no elenco). São experiências que trouxeram a segurança para se aventurar em “Marés”, em que assume pela primeira vez o comando de um filme nos postos de direção e roteiro.

Terceiro título da nova temporada do Projeta às 7, uma iniciativa da Cinemark com a distribuidora Elo Company que oferta cinema brasileiro por um preço acessível sempre às 19h de segunda a sexta-feira – e que segue em cartaz em mais de 20 cinemas da rede -, o drama acompanha Valdo (Lourinelson Vladmir, revelado em “Para Minha Amada Morta“), um fotógrafo em um processo autodestrutivo oriundo de seu alcoolismo. Em entrevista concedida por e-mail, João Paulo Procópio conta sobre o que o motivou a contar essa história, a influência da tensão política diária e sobre projetos futuros.

.

Você é responsável há alguns anos pela produtora Pavirada Filmes e se desdobrou em funções como editor e diretor assistente. Debutar recentemente como diretor e roteirista de longa-metragem com “Marés” era uma intenção que sempre esteve em seus objetivos profissionais ou foi uma consequência natural a partir do envolvimento com outras unidades de atuação em projetos cinematográficos?

Olá Alex! Primeiro, muito obrigado pelo interesse em dialogar sobre o “Marés”. De fato, o filme é a minha primeira experiência em direção de longas, mas nesses 18 anos de experimentos audiovisuais dirigi outros trabalhos, entre documentários, curtas, publicidade e institucionais. Então partir para a direção de longas era também um objetivo dentro dessas buscas. Acontece que ao longo dos anos fui sendo demandado para outras funções dentro dessa cadeia produtiva. Adoro assumir a montagem das obras, e também fui ganhando a confiança própria e de outros diretores para assumir as produções. Nisso, produzi e montei alguns filmes que muito me orgulham, pelos processos e resultados. Mas a direção obviamente muda a relação com a obra. São experiências que se somam, que me fortalecem na intenção de dirigir próximos projetos autorais, mas também me prepara melhor para exercer as funções que venho experimentando com maior frequência nesses últimos anos.

Em “Marés”, acompanharemos Valdo, o protagonista de sua história, lutando contra o vício do alcoolismo. Todos nós temos em nossos círculos sociais alguém que passa pelo mesmo revés e me pergunto se o tema te ocorreu a partir de uma vivência pessoal ou mais pela curiosidade em explorá-lo por seu potencial dramatúrgico.

É difícil alguém que não tenha alguma relação com o alcoolismo. É uma questão que afeta toda a sociedade, todas as famílias. Originalmente o tema apareceu por ouvir histórias via de regra engraçadas em minha roda familiar, onde invariavelmente os envolvidos estavam bêbados. Sai em minha pesquisa a partir dessas construções de cenas e personagens, e fui entrevistar amigos de copos e familiares de alguns boêmios. Nas entrevistas, ficou clara uma linha: os amigos de copo narravam histórias engraçadas, absurdas; ao passo que esposas e filhos narraram histórias com camadas claramente melancólicas. Então esse potencial dramatúrgico foi o que primeiro me interessou. Passei para uma pesquisa meticulosa por este universo do alcoolismo, e passei a frequentar reuniões de Alcoólicos Anônimos, sempre me identificando como roteirista e ouvinte. E daí me deparei com algo muito potente, de pessoas que reconhecem um problema e o enfrentam. Vários estigmas foram desfeitos nesse mergulho.

Desde que estourou com a sua fabulosa atuação em “Para Minha Amada Morta”, Lourinelson Vladmir vem trabalhando sem parar. Como foi o processo para auxiliá-lo a adentrar esse personagem, que a todo o momento parece tão vulnerável física e emocionalmente?

Eu convidei o Lourinelson para viver o Valdo dois dias depois da exibição de estreia do “Para Minha Amada Morta” no 48º Festival de Brasília. Era o lançamento dele como ator, pois atuava até então como advogado. Quer dizer, de lá pra cá ele se lançou, foi descoberto por vários outros diretores, mas fui o primeiro a convidá-lo após vê-lo em um trabalho tão arrebatador como no filme do Aly Muritiba. E tive muita sorte nessa intuição: Lourinelson é muito inteligente e comprometido, o tipo de ator que eu precisava para esta minha primeira aventura na direção de um longa. Conversávamos muito sobre essa construção, e várias de suas observações foram assimiladas também. O Valdo precisava ser um cara que tivesse um problema posto, o alcoolismo – mas que não fosse facilmente descartável. Era preciso querer dar chance a ele, mesmo frustração após frustração. Existe algo tênue e arriscado no Valdo. Já saí de sessões seguidas de debate onde tinha pessoas no público com muita raiva dele, outras que nem o consideraram um cara tão problemático assim. Daí depende muito do repertório de cada um, de que tipo de situações já viveram em relação ao alcoolismo. Acho esse o ponto mais valioso do filme.

As filmagens aconteceram em 2017, mas você escolhe ambientar “Marés” exatamente em um momento político muito delicado em nossa história recente: o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Quais as motivações e comentários que busca estabelecer ao aproximar o seu protagonista de um contexto em que o debate político chega a assumir o protagonismo de algumas cenas?

Estamos em um contexto da história do Brasil que naturalmente impregna o nosso dia a dia, ainda mais numa criação artística. Para mim tinha naquele momento algo no ar que pairava e que, independente da posição política e polarizada, estavam todos entorpecidos, gritando para surdos. Muita coisa ruindo, muitos com muitas certezas mas sem saber direito o que fazer com aquilo pois não se sabia para onde íamos. Sinto que nesse paralelo, hoje estamos todos experimentando uma ressaca muito forte. Gosto de ver o filme agora em seu lançamento, em pleno 2019, onde o absurdo parece ter alcançado um ápice (e já tivemos essa sensação antes nos últimos anos).

Já passando o frio da barriga advindo de uma estreia, tem planos de se aventurar na direção e roteiro de um novo longa-metragem?

Trabalho o roteiro de uma minissérie chamada “Rastros”, sobre as memórias de um ex-agente secreto da ditadura militar brasileira; e um roteiro de longa ainda sem nome definido sobre um colunista social que começa a ficar mais envaidecido com as repercussões de suas matérias quando publica, porventura, reportagens mais verdadeiras e reveladoras. Mas agora o que mais me instiga e muito me honra é assumir a produção executiva de “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”, filme que marcará a estréia em direção de longas da maravilhosa Marcélia Cartaxo. É de fato um projeto que me enche de entusiasmo, e muito feliz de nesse momento da minha carreira carregar essa responsabilidade.

Silvio Tendler

Entrevista com Silvio Tendler, diretor do documentário “Alma Imoral”

Publicado em 1998, “A Alma Imoral”, do rabino Nilton Bonder, tem mais de 300 mil exemplares vendidos. Anos depois, teve a sua fama ampliada com uma adaptação teatral, que completou 13 anos de palcos e foi assistida por mais de meio milhão de espectadores.

Era natural uma encarnação para o cinema, em que o documentarista Silvio Tendler, mais afeito a estudos sobre episódios políticos do país, busca com Bonder dialogar com nomes transgressores no campo das artes e dos pensamentos críticos e filosóficos. Entre os entrevistados, há intelectuais como Noam Chomsky e Rebecca Goldstein, o pintor polonês naturalizado brasileiro Frans Krajcberg (que faleceu em 2017) e o jornalista Uri Avnery.

A seguir, leia a breve entrevista que Silvio Tendler concedeu por e-mail para o Cine Resenhas. “Alma Imoral” segue em exibição nos cinemas paulistanos.

.

“Alma Imoral” vem a ser a encarnação cinematográfica do best-seller de Nilton Bonder, que já havia recebido uma versão teatral. Poderia compartilhar o seu relacionamento inicial com este material?

Conheci o texto quando fui assistir a peça. Li o livro e achei que tinha uma pegada cinematográfica. Propus o filme.

Em sua vasta filmografia, predomina um interesse especial de avaliar cenários políticos, passados ou presentes, do país. A transgressão não se dissocia desse tema que tanto pautou a sua carreira, mas aqui o espectador terá acesso a algo mais existencial, filosófico. Qual a principal motivação para transformar “Alma Imoral” em cinema?

Me considero um transgressor e fui buscar na minha tribo os transgressores que ajudaram a melhorar o mundo rompendo com os tabus. É uma viagem nova minha e sempre acreditei que devemos nos renovar permanentemente. Assim nasceu “Alma Imoral”, o filme.

Como veio a ideia de estabelecer os respiros narrativos, aqui impostos com as coreografias da Cia. de Danças Debora Colker e as narrações de Bel Kutner, Júlia Lemmertz, Letícia Sabatella, Mateus Solano e Osmar Prado?

As múltiplas leituras são minhas e é um recurso que já adotei em outros filme, sendo não trabalhar apenas com um narrador. Entretanto, o balé foi ideia e aporte do rabino. Trabalharia com uma bailarina e um artista plástico francês que decompõe o movimento conjugando dança e holografia com textos escritos na tela. Ficaria menos cansativo no meu entendimento, mas o Rabino Nilton Bonder, meu parceiro, preferiu assim e também ficou bom.

O documentário é construído a partir de declarações de personagens que, cada um a seu modo, buscam quebrar os paradigmas da contemporaneidade. Como foi a pesquisa para chegar aos nomes certos e essenciais e o processo de condensar em duas horas depoimentos que parecem oriundos de longas conversas estabelecidas?

Fizemos muito mais entrevistas, tivemos mais personagens. O filme é apenas o resultado final de uma busca e não seu conjunto.

.

* a foto do realizador com o rabino Nilton Bonder é um registro de Ana Branco

Obsessão (Greta)

Resenha Crítica | Obsessão (2018)

Greta, de Neil Jordan

Com poucas interpretações no cinema em que fala em inglês dentro de um currículo com mais de 120 créditos, Isabelle Huppert voltou a despertar a atenção dos realizadores autorais fora da Europa com a sua indicação ao Oscar de Melhor Atriz por “Elle“. “Obsessão” foi um dos primeiros projetos que logo se apresentaram enquanto coletava os louros pelo filme provocador de Paul Verhoeven (por ele, ganhou o Globo de Ouro, o Independent Spirit Awards, o César, entre muitos outros). Irlandês responsável por filmes como “Traídos Pelo Desejo” e “Entrevista com o Vampiro”, Neil Jordan é dono de um universo sombrio que de algum modo encontra correspondência com a face obscura da maior atriz francesa da história.

Em “Obsessão”, Huppert incorpora uma vilã de modo frontal, não havendo muita dubiedade em relação ao seu comportamento homicida. Em uma das inúmeras cenas icônicas, a sua Greta dança na ponta dos pés após disparar contra um investigador desavisado. Na minha favorita, a sua Greta Hideg cospe uma goma de mascar nos cabelos de Frances McCullen (Chloë Grace Moretz) quando se sente contrariada.

No entanto, é preciso afirmar que o filme não seria tão divertido sem a veterana. Caso outra atriz fosse escalada, é certo que o texto se confundiria ainda mais com o filão oitentista/noventista de protagonistas obcecados por mocinhos bem-intencionados. Huppert eleva as coisas em “Obsessão”, mas Jordan às vezes parece retraído em levar as coisas até as últimas consequências da bizarrice com o propósito de não comprometer o potencial comercial de seu suspense, que não fez muito bonito nas bilheterias.

A seguir, assista ao comentário na íntegra sobre “Obsessão” feito com exclusividade para o canal do Cine Resenhas no YouTube:

.

Jovens Bruxas

Resenha Crítica | Revisitando Jovens Bruxas (1996), de Andrew Fleming

The Craft, de Andrew Fleming

Há um pouco mais de 23 anos, chegava aos cinemas americanos “Jovens Bruxas”, um sucesso formado muito mais pelo boca a boca com o seu lançamento em VHS nas locadoras e menos pelo êxito comercial no circuito. Ainda que a renda de 25 milhões não fez feio diante de um orçamento de 15 milhões, a classificação R impediu que a realização de Andrew Fleming fosse um estouro instantâneo, uma vez que o seu público-alvo, os adolescentes, não poderia vê-lo na tela grande desacompanhado dos adultos. Algo parecido aconteceu com a comédia “Romy e Michele”, que compartilha com “Jovens Bruxas” o status de obra de culto oriunda dos anos 1990.

Teen horror pré-“Pânico” (e ainda com Neve Campbell e Skeet Ulrich escalados), “Jovens Bruxas” não esconde ser um produto de sua época, mas resistiu às gerações seguintes sem soar datado. Traz quatro garotas em seu centro com tormentos internos identificáveis e ainda apresenta um ponto de virada relevante ao pontuar a questão de mudança de personalidade quando o humilhado assume a cobiçada posição de poder sobre os demais. Fleming tem uma filmografia irregular (“Sono Mortal” e “Até que os Parentes nos Separem” são fracos de doer), mas pode se orgulhar de ter uma carreira com ao menos duas obras notáveis: “Três Formas de Amar”, produzido dois anos antes e um registro muito franco sobre as dúvidas que nos sucumbem no florescer sexual, e, claro, o aqui destacado “Jovens Bruxas”, que recebeu neste ano o sinal verde para ganhar um remake, a ser escrito e dirigido por Zoe Lister-Jones.

Pode dar certo, mas é melhor não trocar o certo pelo duvidoso e assim (re)ver “Jovens Bruxas”, adicionado em agosto no catálogo da Netflix. Abaixo, a minha breve análise revisitando a produção.

.

Dilema (What/If)

Resenha Crítica | Dilema (2019)

What/If, criada por Mike Kelley e dirigida por Phillip Noyce e outrxs

Revelada ao mundo em “Jerry Maguire: A Grande Virada”, Renée Zellweger traçou uma carreira brilhante em Hollywood, culminando em três indicações ao Oscar (venceu uma vez), seis ao Globo de Ouro (levou três estatuetas), um dos mais altos salários e o reconhecimento como uma das grandes atrizes mundiais no início deste jovem século. Justo: o envolvimento em projetos como “A Enfermeira Betty”, “O Diário de Bridget Jones”, “Deixe-me Viver”, “Chicago”, “Abaixo o Amor” e “Cold Mountain” era mesmo resultado de escolhas muito bem feitas em um curto espaço de tempo, no qual a texana (que muitos ainda hoje pensam ser britânica pelo sotaque impecável testemunhado como Bridget Jones) foi revelando um sem número de facetas, como uma doçura singular que desperta na gente uma empatia imediata até uma malícia que não parecia existir em uma mulher de rosto tão angelical.

De uma hora para a outra, Renée desapareceu. Seria aquele preconceito avassalador de Hollywood com mulheres que atingem os 40 anos? Ou o cansaço de ter os seus passos em muitas ocasiões ditados pelo produtor Harvey Weinstein, que hoje se revela a principal razão de existência do #MeToo? Talvez seja também o fato de ter ficado praticamente irreconhecível com as intervenções faciais, notadas a partir do terror “Caso 39” e agravadas em “Versões de Um Crime“, um retorno mal-sucedido como atriz após um hiato de seis anos.

Pode ser tudo isso junto. Mas a verdade é que a série “Dilema”, disponível na Netflix desde 24 de maio, sinaliza uma nova tentativa de comeback. Talvez seja preciso aguardar por uma volta por cima em “Judy”, em que interpreta o ícone Judy Garland – a estreia vai acontecer em setembro, mês em que é dada a largada para a temporada de premiações. Mesmo que viva deliciosamente a sua primeira personagem com veias vilanescas expostas já em sua primeira aparição na tela, Renée não é capaz de salvar um novelão de péssima categoria, ainda mais canhestro que outra cria de Mike Kelley, “Revenge”. A princípio sugerindo uma conexão com “Proposta Indecente”, a narrativa de “Dilema” vai enveredando por caminhos bem diferentes, em que um núcleo de personagens ligados à protagonista de Jane Levy, uma jovem cientista idealista, se verá lidando com consequências pesadas a partir de escolhas do passado, seja ele passado ou presente.

Em um vídeo feito com exclusividade para o canal do Cine Resenhas no YouTube, abordo mais a sinopse de “Dilema” e as razões desta ser mais uma produção Original Netflix a frustrar as nossas expectativas.

.

Ricardo Ghiorzi

Entrevista com Ricardo Ghiorzi, diretor e idealizador do terror “Histórias Estranhas”

Há quase um ano, o Projeta às 7, que com a distribuidora Elo Company oferta cinema brasileiro independente em uma programação regular a preço popular, havia lançado “O Nó do Diabo”, um filme antologia com os pés fincados no terror. Agora, é a vez de “Histórias Estranhas” ganhar espaço e encontrar o seu público.

Constituído de oito segmentos, a produção, ainda em cartaz nos cinemas, traz alguns dos nomes no país que testam os seus talentos no campo do macabro e do fantástico. A proposta é parecida com a de “13 Histórias Estranhas”, realizado em 2015. Diretor e idealizador em ambos os projetos, Ricardo Ghiorzi concedeu para o Cine Resenhas uma entrevista em que fala sobre a concepção “Histórias Estranhas” e a reunião de amigos, a organização dos curtas dentro de um longa-metragem e como vê o estado e  a recepção dos filmes de terror brasileiros atualmente.

.

Em 2015, você foi um dos nomes principais de “13 Histórias Estranhas”, no qual também foi formado um grupo de cineastas para moldar um filme constituído de curtas-metragens. Como foi o processo de reunir parceiros daquele projeto em “Histórias Estranhas”, como Paulo Biscaia Filho e Filipe Ferreira, ao mesmo tempo em que escalou nomes inéditos, como o de Taísa Ennes?

Antes de responder a pergunta propriamente dita, vou contar um pouco do que antecedeu o filme “13 Histórias Estranhas”. O longa começou a ser gerado em meados de 2007. Inicialmente, a proposta era fazer filme antologia com curtas de lobisomens. A ideia ficou na gaveta devido a grande dificuldade de produção. Mas o conceito de um longa antologia não saía da minha cabeça. Então, em 2014, tomei coragem, convidei alguns amigos diretores e realizamos, de modo independente, o longa, cuja temática que os unia era a utilização dos numerais e temas sobrenaturais. Na verdade, o processo de seleção dos diretores foi de maneira simples e objetiva: amigos diretores do Sul que tivessem afinidade com o gênero. Convidei diretores que já estavam na ativa, diretores que já não filmavam há anos e diretores estreantes. Queria que o filme tivesse este caráter diversificado mesmo. E neste novo “Histórias Estranhas”, convidei diretores de vários estados do Brasil.

A construção de um longa-metragem coletivo por vezes assume um resultado irregular, justamente pela autoria que cada realizador preserva a partir de uma mesma proposta, podendo assim cada um destoar radicalmente do outro. Como idealizador, quais as discussões promoveu para o encontro de uma unidade?

Inicialmente, partimos da premissa do tempo de cada curta, que deveria girar entre oito a dez minutos. E como o nome do filme já diz, as histórias deveriam realmente ser estranhas. Tentamos combinar para que todos os curtas tivessem a mesma janela de captação, mas não obtive êxito neste quesito (risos). E o principal item é que os curtas deveriam ter ótima qualidade técnica. Obviamente, há alguma disparidade de produção, pois o filme foi realizado de maneira totalmente independente. Mas nada que comprometesse o conjunto da obra. O filme ficou harmônico e interessante.

As virtudes técnicas de “Histórias Estranhas” são evidentes sobretudo em seus efeitos visuais e maquiagem. Por ser um projeto que conta com cineastas vindos dos mais diversos estados brasileiros, tenho curiosidade se integrantes da equipe foram compartilhados ou se cada segmento continha o seu núcleo exclusivo.

Pelas distâncias entre os núcleos de filmagens, não houve compartilhamento de equipes. Em projetos que virão na sequência, isso poderá ocorrer.

Enquanto segmentos como “Mulher Ltda.” e “Invisível” são amparados por interações verbalizadas ou narração, outros como “Ninguém” e “No Trovão, Na Chuva ou Na Tempestade” são quase silenciosos. Como se deu a ordem de apresentação dessas histórias na montagem?

Quando ficou definido os oito curtas para o longa, ao analisar o dinamismo de cada um deles, decidimos que o curta “Ninguém”, do Rodrigo Brandão, seria o primeiro, pois começa de maneira lenta, contemplativa e introspectiva (mesmo tendo uma explosão de violência no final). Deixamos o curta “Mulher Ltda”, de Taisa Ennes, no meio, pois tem uma pegada mais cômica, o que daria o caráter de alívio e impulso para os demais. Para o fim, decidimos pelo curta “Apóstolos”, de Marcos DeBrito, pelo impacto visual das cenas finais. E por ele ter características fortemente religiosas, acomodamos o meu curta “Sete Minutos Para a Meia-noite”, antecedendo e fazendo uma dobradinha, pois este também tem uma alta carga religiosa.

Mesmo que o horror americano seja um dos gêneros mais lucrativos no Brasil, parece existir uma incomunicabilidade da nossa audiência com a produção nacional do segmento, ainda que ela tenha se tornada mais ampla nos últimos 10 anos. Por qual razão isso acontece? Encaixar “Histórias Estranhas” em uma programação regular a preço popular é uma das possíveis soluções para esse impasse?

Por enquanto, isto é um grande enigma. Encaixar o longa “Histórias Estranhas”, um filme independente e de guerrilha, na programação de cinema de um shopping, demonstra que a “coisa” está mudando. Bem devagar, mas está mudando. Sempre salientando que esta iniciativa se deve a competência e garra da distribuidora Elo Company. Tenho um pouco de medo em afirmar isso, mas acho que o público gosta e assimila bem os efeitos especiais digitais dos filmes de terror americanos. E se acostuma com isso. O que no nosso caso, é usado excepcionalmente nas produções nacionais. É muito estranho, mas o preconceito ainda é muito forte com produções brasileiras de gênero. Já foi pior. Acho que estamos trilhando o caminho certo para desfazer essa incomunicabilidade do público com nossas produções, com bons roteiros, bons efeitos, fotografia esmerada, direções competentes, enfim, tudo aquilo que um filme de qualidade deve ter.