Entrevista com Maria Carolina da Silva, codiretora do documentário “Diários de Classe”

Um dos primeiros filmes do calendário 2019 do Projeta às 7, iniciativa da Rede Cinemark e da distribuidora Elo Company que visa ofertar ao público um recorte do cinema brasileiro independente e alternativo a preços populares, o documentário ˜Diários de Classe” estreia comercialmente em um período oportuno e conturbado, trazendo questões que aquecem o debate sobre os sistemas de ensino e carcerário do país, bem como todas as mazelas sociais que atingem principalmente as mulheres negras da periferia, devidamente representadas por três figuras reais acompanhadas pelas câmeras dos realizadores Maria Carolina da Silva e Igor Souza.

A seguir, Maria concede para o Cine Resenhas uma entrevista em que aborda o processo de filmagem de “Diários de Classe”, que registrou passagens por festivais como o 50º Festival de Brasília, XIII Panorama Internacional Coisa de Cinema e o 7º Olhar de Cinema e que segue em exibição nos cinemas.

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Ao que deve a parceria por trás das câmeras de “Diários de Classe”? Quais os rumos que atravessaram até o encontro para a realização do projeto como dupla?

Eu, Maria Carolina, trabalho há cerca de 20 anos no audiovisual como produtora e assistente de direção para cineastas como João Jardim e Edgard Navarro. Nesse período, dei os primeiros passos para assumir a direção, roteiro e montagem dos meus filmes, curtas-metragens que fiz na época em que cursava o Bacharelado Interdisciplinar em cinema da UFBA e coordenava um projeto de formação de cineclubes em escolas públicas, o Projeto Lanterninha. Igor Souza vem de uma formação em arquitetura, mas ainda na faculdade começou a trabalhar como cenógrafo em peças de teatro e acabou indo também para o audiovisual como diretor de arte de filmes de ficção e animação. Em 2012, a gente se encontra e começa a pensar em um trabalho juntos, é quando surge o curta de animação “Entroncamento”, a princípio pensado para ser filmado com atores, mas como queríamos trabalhar os aspectos mais simbólicos do nosso personagem e de sua trajetória, acabamos optando por realizá-lo em animação. Depois desse primeiro curta, que passou por diversos festivais, entre eles o Animamundi, desenvolvemos um piloto para uma série de animação infantil “Aventuras de Amí” e conseguimos captar para a realização do “Diários de Classe”. Já víamos então trabalhando juntos nesses projetos e fomos entendendo como funcionava a nossa parceria, como nossos percursos poderiam se somar para fazer esses trabalhos. No “Diários de Classe”, desenhamos uma parceria que nos pareceu mais orgânica, em que eu estava mais próxima das personagens na condução das cenas e Igor, mais atento à construção da imagem.

No documentário, somos apresentados a três mulheres de Salvador em circunstâncias muito distintas. Como foi o processo de busca até a escolha dessas personagens reais?

Pelo experiência de 5 anos com formação de cineclubes em escolas públicas, eu e Daiane Silva, pesquisadora do filme e que também fora coordenadora pedagógica do Projeto Lanterninha, já sabíamos que os professores seriam os nossos aliados na busca pelas salas de aula que pudesse expressar o conteúdo que estávamos buscando. Então, primeiro encontramos essas salas: uma sala de aula em um presídio, já que estamos falando de educação como prática de liberdade, uma sala de aula em que estudassem empregadas domésticas (classe de trabalhadoras mais afastada da escola) e uma sala de aula em que uma jovem transgênera estivesse em processo de alfabetização. Escolhidas as salas, utilizamos a estratégia de exibir filmes como geradores de conteúdos e, dessa forma, pudemos chegar mais perto dos alunos e deixá-los mais à vontade para se expressar, deixando sempre claro o que estávamos fazendo. É aí que surgem Maria José (empregada doméstica), Vânia Costa (que estudava na escola do presídio) e Tifany Moura (adolescente trans moradora de um abrigo para menores). Um encontro entre quem quer falar e quem quer escutar. Mulheres que precisavam falar o que pensam, expor suas experiências de vida e que se juntaram a nós para contar essas histórias no filme.

No núcleo em que as atenções são centradas em Vânia Costa, há um acesso revelador sobre o contexto penal que atravessa. Qual a complexidade de registrar a sua história dentro do enclausuramento?

Nós tivemos uma acolhida muito boa dentro da penitenciária feminina, a diretora de lá é também professora de EJA. A confiança que estabelecemos com ela e com a professora foi muito importante para que circulássemos na área da escola sem maiores problemas. Porém, é um espaço bastante complexo e colocar uma câmera e um microfone requer muita consciência do que isso significa, o que significa uso das imagens daquelas mulheres. Primeiro frequentamos a sala de aula sem o aparato cinematográfico, exibimos filmes e propomos debates, ganhando mais confiança no nosso trabalho e, quando começamos a filmar, respeitamos quem queria e quem não queria ser filmado, deixando de fora do quadro as mulheres que não quiseram ter suas imagens registradas. Por isso também optamos em por a câmera no fundo da sala, como se fosse uma aluna, para expor menos as mulheres que queriam participar. Apesar da boa circulação no espaço das salas de aula, a entrada para as celas e para o pátio do presídio foi mais difícil. Entramos apenas duas vezes com hora marcada. Tínhamos que ter sempre uma agente para nos acompanhar e existiam mais mulheres que não queriam ser filmadas. Mas acredito que a equipe estava bastante atenta e pronta para o registro e a relação estabelecida com Vânia possibilitou que realizássemos as cenas que queríamos. É muito difícil estarmos nesse espaço, principalmente para as mulheres da equipe. Porque muitas mulheres estavam na mesma situação que Vânia, desorientadas, abandonadas à sua própria sorte e isso nos fazia pensar muito nessa sociedade em que vivemos, porque elas estavam ali e não nós. Mas ao mesmo tempo em que nos abatíamos com essa realidade, também tínhamos mais vontade de contar essa história.

Além de Vânia, Tifany Moura e Maria José Santana permitem que novas questões sejam expostas sobre a condição de indivíduos marginalizados pela nossa sociedade, principalmente a mulher negra da periferia. Como tem sido na trajetória por festivais e agora no lançamento comercial de “Diários de Classe” os debates sobre essas pautas?

Nossa primeira exibição foi no festival de Brasília, dentro da mostra Corpos Indóceis, a convite do então diretor artístico Eduardo Valente. Levamos parte da equipe e também Maria José e Vânia e ficamos muito felizes com o envolvimento do público e com o debate que se seguiu. Durante o fim de 2017 e em 2018, circulamos por festivais nacionais e alguns internacionais, sempre muito bem acolhidos pelo público nos debates, principalmente quando conseguimos levar nossas personagens, mulheres inspiradoras. Porque estamos nesse momento em que precisamos debater, se encontrar, trocar e acreditamos que o “Diários” nos mobiliza pra isso, porque a gente parte da educação para falar sobre a falta de acesso a ela, que vai perpassar por todo um sistema excludente e perverso de manutenção das desigualdades.

Produzido em 2017, “Diários de Classe” recebe uma relevância extra agora com as resoluções das novas diretrizes educacionais em nosso país. Continuam acompanhando Vânia, Tifany e Maria? Como têm sido afetadas nos cenários sociais e políticos que se desenham em 2019?

Vânia, Tifany e Maria se tornaram parceiras de vida, dividimos juntos o desejo de continuar falando sobre esses problemas. Percorremos com Vânia o desenrolar de todo o processo criminal que a levou a ser inocentada no final de 2018. Hoje Vânia está em busca de emprego, o que é muito difícil para uma mulher que esteve encarcerada, você perde toda a credibilidade, mesmo sendo inocentada das acusações. Me tornei madrinha social de Tifany, acompanhando ela em todos os abrigos por quais passou depois do que foi filmada, hoje ela tem 18 anos e estamos tentando que ela permaneça no Pérolas de Cristo até os 21, porque ela ainda não está alfabetizada e ainda precisa do apoio do Estado. Precisa lidar diariamente com o preconceito e tenta, apesar de tudo, se manter saudável para tentar pensar em um futuro fora das ruas. Maria José é amiga e conselheira, trabalha agora como merendeira em uma escola pública de Salvador. Tem se mostrado bastante apreensiva, ainda mais depois da tragédia da escola em Suzano. Ela e Tifany ainda frequentam a escola, essa escola que pretendem desmobilizar, esvaziar ainda mais as salas de aula com essa proposta de ensino à distância, que na modalidade da EJA chega a 80%.

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