Resenha Crítica | Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava (2017)

Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava, de Fernanda Pessoa

Mesmo sob a mira do regime militar, o cinema brasileiro viveu nos anos 1970 e 1980 o ápice de seu erotismo politicamente incorreto. Esse momento seria logo batizado como pornochanchada, termo que muitos cineastas classificam como pejorativo. É um amplo recorte cultural de uma época que não volta mais, só que há muitos interessa.

Em seu primeiro projeto para cinema, Fernanda Pessoa fez extensa pesquisa do período, resultando primeiro na exposição Prazeres Proibidos (abrigada pelo MIS em 2016) e agora no documentário “Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava”, onde 28 títulos da pornochanchada são picotados para compor uma colcha de retalhos por vezes ressignificada. É um experimento desafiador, como se tivesse aproximadamente 40 horas de material bruto – supondo, claro, que cada filme contenha uma duração aproximada de 90 minutos.

É, portanto, um esforço em que grande parte dos seus méritos (e poréns) devem ser creditados ao montador Luiz Cruz, que faz uma composição parecida com a de “Cinema Novo”. No entanto, enquanto aquele experimento de Eryk Rocha havia uma preocupação maior com as combinações visuais, as fusões de “Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava” são mais narrativas.

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Entrevista com a diretora Fernanda Pessoa sobre o documentário “Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava”:

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Assim sendo, Fernanda Pessoa enfatiza em sua decupagem a representatividade feminina e a exploração de sua nudez, os anseios de personagens que refletiam um contexto demarcado pela censura e principalmente os textos subliminares que contestavam o cenário político à época. Tudo moldado a partir das obras como “19 Mulheres e Um Homem” (de David Cardoso), “Amante Muito Louca” (de Denoy de Oliveira), “Bonitas e Gostosas” (de Carlo Mossy), “Noite em Chamas” (de Jean Garret), “O Bom Marido” (de Antônio Calmon), entre outras relacionadas abaixo.

O resultado vai além da mera colagem e volta a atrair atenção para uma parte de nosso cinema hoje restrita aos festivais especiais e canais fechados – isso quando totalmente inacessíveis principalmente por nossa preservação questionável. Ainda assim, falta a sensação de unidade, de que estamos vendo a algo realmente (re)construído do zero. Nem tudo se conecta harmoniosamente, por vezes trazendo o efeito de tevê sendo zapeada.

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+ Todos os filmes citados em “Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava”:

• “1001 Posições do Amor” (1978), de Carlo Mossy
• “19 Mulheres e Um Homem” (1977), de David Cardoso
• “A Super Fêmea” (1973), de Anibal Massaini Neto
• “Amadas e Violentadas” (1976), de Jean Garret
• “Amante Muito Louca” (1973), de Denoy de Oliveira
• “Árvore dos Sexos” (1977), de Sílvio de Abreu
• “Aventuras Amorosas de Um Padeiro” (1975), de Waldir Onofre
• “Bonitas e Gostosas” (1978), de Carlo Mossy
• “Cada Um Dá o Que Tem” (1975), de Adriano Stuart, John Herbert e Sílvio de Abreu
• “Café na Cama” (1973), de Alberto Pieralisi
• “Colegiais e Lições de Sexo” (1980), de Juan Bajon
• “Corpo Devasso” (1980), de Alfredo Sternheim
• “E Agora José – A Tortura do Sexo” (1979), de Ody Fraga
• “Elas São do Baralho” (1977), de Sílvio de Abreu
• “Eu Transo, Ela Transa” (1972), de Pedro Camargo
• “Gente Fina é Outra Coisa” (1977), de Antônio Calmon
• “Histórias Que Nossas Babás Não Contavam” (1979), de Osvaldo de Oliveira
• “Inseto do Amor” (1980), de Fauzi Mansur
• “Manicures a Domicílio” (1978), de Carlo Mossy
• “Noite em Chamas” (1977), de Jean Garret
• “Nos Embalos de Ipanema” (1978), de Antônio Calmon
• “O Bom Marido” (1978), de Antônio Calmon
• “O Enterro da Cafetina” (1971), de Alberto Pieralisi
• “Os Mansos” (1973), de Braz Chediak
• “Palácio de Vênus” (1980), de Ody Fraga
• “Porão das Condenadas” (1979), de Francisco Cavalcanti
• “Terror e Êxtase” (1979), de Antônio Calmon
• “Vítimas do Prazer – Snuff” (1977), de Cláudio Cunha

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